Livro Decimo Quarto Flávio Josefo
Capítulo 14 Flávio Josefo
,
"ANTÍPATRO, POR ORDEM DE HIRCANO, AJUDA CÉSAR NA GUERRA DO EGITO E MOSTRA
MUITO VALOR.",
"588. Quando César, depois da vitória e da morte de Pompeu, fez guerra ao
Egito, Antípatro, governador da Judéia, ajudou-o muito, por ordem de Hircano.
Isso porque Mitridates, pergameniano, que levava socorro a César, fora
obrigado a se deter perto de Asquelom, pois não se sentia forte o bastante para
passar por Pelusa. Antípatro uniu-se a ele com três mil judeus bem armados e
não somente fez com que os árabes viessem também em seu socorro como foi a
principal causa da obtenção de um grande auxílio da Síria, particularmente do
príncipe Jamblique, de Ptolomeu, seu filho, de Ptolomeia, filha de Soeme, que
habitava o monte Líbano, e de quase todas as cidades. Assim, Mitridates,
reforçado com tantas tropas, veio a Pelusa, cujos habitantes recusaram-se a
abrir as portas, e ele então os sitiou.
Antípatro distinguiu-se muito nessa ocasião, pois foi o primeiro a dar o
assalto, após abrir uma brecha, e assim permitiu a tomada da praça. Depois foi
com Mitridates unir-se a César. Os judeus que moravam naquela província do
Egito, denominada Onias, queriam opor-se à sua passagem, mas Antípatro
persuadiu-os a abraçar o partido de César, servindo-se para isso das cartas do
sumo sacerdote Hircano, com as quais não somente os animava, mas também
dizia que ajudassem o seu exército com víveres e outras coisas necessárias. Os
habitantes de Mênfis souberam-no e chamaram Mitridates. Ele se dirigiu para
lá, e todos passaram para o seu lado.",
"CAPITULO 15",
"ANTIPATRO CONTINUA A GRANJEAR GRANDE REPUTAÇÃO NA GUERRA DO
EGITO. CÉSAR VEM À SÍRIA, CONFIRMA HIRCANO NO CARGO DE SUMO
SACERDOTE E PRESTA GRANDES HONRAS A ANTIPATRO, NÃO OBSTANTE AS
QUEIXAS DE ANTÍGONO, FILHO DE ARISTÓBULO.",
"589. Quando Mitridates e Antipatro chegaram a Delta, deram combate
aos inimigos em um lugar chamado Campo do judeus. Mitridates comandava a
ala direita, e Antipatro, a esquerda. A de Mitridates foi desbaratada e seria
completamente destruída se Antipatro, que já tinha por sua vez vencido os
inimigos, não tivesse vindo prontamente em seu auxílio, ao longo do rio, e não
os tivesse salvo de tão grande perigo. Ele derrotou os egípcios, que se julgavam
vencedores, perseguiu-os, devastou o seu acampamento e convidou Mitridates e
os seus, que estavam na retaguarda, a tomar parte nos despojos.
Mitridates perdeu oitocentos homens nesse combate, e Antipatro, somente
cinqüenta. Mitridates não deixou de escrever a César, dizendo que a honra da-
quela vitória não somente era devida a Antipatro, mas que ele também o havia
salvo, bem como aos seus. Esse glorioso testemunho fez César conceber
altíssima estima por Antipatro, pois, além dos elogios que lhe fez, serviu-se dele
nas ocasiões mais perigosas da guerra. Antipatro deu ainda provas de
inteligência e de coragem não menores que o seu valor e chegou a ser ferido
várias vezes.
César, depois de terminada a guerra, veio por mar à Síria. Prestou
grandes honras a Hircano e a Antipatro, confirmou aquele no cargo de sumo
sacerdote e deu a este a prerrogativa de cidadão romano com todos os
privilégios a ele inerentes. Muitos dizem que Hircano esteve naquela guerra e
passara ao Egito, o que Estrabão da Capadócia confirma, com a autoridade de
Asínio. Eis as suas palavras: Depois que Mitridates entrou no Egito, Hircano,
sumo sacerdote dos judeus, também entrou com ele. O mesmo Estrabão diz,
em outro lugar, citando para isso Ifícrates, que Mitridates primeiro veio
sozinho, mas quando estava em Asquelom chamou Antipatro, governador da
Judéia, em seu auxílio, que lhe levou três mil judeus e foi causa de que todos
os outros grandes, entre os quais Hircano, sumo sacerdote, unissem as suas
armas às dele.
590. Por esse mesmo tempo, Antígono, filho de Aristóbulo, foi procurar
César e queixou-se de que seu pai fora envenenado por ter seguido o seu
partido e que Cipião mandara cortar a cabeça de seu irmão. Rogou-lhe que
tivesse compaixão dele, pois se via despojado do principado que pertencia ao
irmão. Acusou também Hircano e Antípatro de o haverem usurpado pela força.
Antípatro respondeu que Antígono era faccioso, sempre ocupado em
suscitar rebeliões. Lembrou as dificuldades que haviam sofrido e os serviços
prestados na última guerra, de que não queria outras provas senão ele mesmo.
Disse também que Aristóbulo, ao contrário, tendo sido sempre inimigo do povo
romano, fora com muita razão levado prisioneiro a Roma e que Cipião fizera
muito bem em cortar a cabeça de seu irmão, devido aos desmandos e crimes
deste. César, persuadido por essas razões, confirmou Hircano no cargo de sumo
sacerdote e entregou a Antípatro a administração dos negócios e interesses da
Judéia, oferecendo-lhe o governo que ele quisesse.",