Livro Decimo Quarto Flávio Josefo
Capítulo 24 Flávio Josefo
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"ANTÍGONO, AJUDADO PELOS PARTOS, CERCA INUTILMENTE FAZAEL E
HERODES NO PALÁCIO DE JERUSALÉM. HIRCANO E FAZAEL DEIXAM-SE
PERSUADIR PARA PROCURAR BARZAFARNÉS.",
"607. Antígono prometeu aos partos mil talentos e quinhentas mulheres
se eles tirassem o reino de Hircano e o entregassem a ele e mandassem matar
Herodes com todos os seus partidários. Eles marcharam então para a )udéia,
embora ainda não tivessem recebido aquela soma. Pacoro avançou ao longo do
mar, e Barzafarnés, pelo meio das terras. Os tírios recusaram-se a receber
Pacoro, mas os sidônios e os tolemaidos abriram-lhe as portas. Ele mandou
adiante, para a Judéia, um corpo de cavalaria comandado pelo seu mordomo-
mor, que se chamava Pacoro, como ele, para fazer um reconhecimento por todo
o país e ordenou-lhe agir em conjunto com Antígono.
Os judeus que moravam no monte Carmelo dirigiram-se a Antígono, e ele
julgou poder, por esse meio, apoderar-se daquela parte do país, que se chama
Druma. Os judeus uniram-se a eles e então avançaram até Jerusalém, onde,
aumentando ainda mais o seu poder com um maior número de homens, sitia-
ram Fazael e Herodes no palácio real. Os dois irmãos atacaram-nos no grande
mercado, repeliram-nos, obrigaram-nos a se retirar ao Templo e puseram sol-
dados nas casas que estavam próximas. O povo sitiou-os lá, incendiou as casas
e queimou os que as defendiam. Herodes não demorou muito para se vingar,
atacando e matando um grande número deles. Não se passava um dia em que
não houvesse alguma escaramuça.
Antígono e os de seu partido esperavam com impaciência a festa de Pente-
costes, que estava próxima, porque uma grande multidão de povo viria de todas
as partes para celebrá-la. Aquela oportunidade veio, e o povo começou a chegar.
Uns vinham armados, e outros, sem armas. Encheram o Templo e toda a
cidade, exceto o palácio, do qual Herodes guardava o interior com poucos
soldados, enquanto Fazael guardava o exterior. Herodes atacou os inimigos que
estavam nos arrabaldes e, depois de um renhido combate, pôs em fuga a maior
parte, muitos dos quais se retiraram para a cidade, outros para o Templo e
outros ainda para trás das defesas que estavam próximas. Fazael agiu então
muito bem e com acerto.
Pacoro, o mordomo, entrou na cidade com poucos homens, a rogo de
Antígono, com o pretexto de apaziguar a perturbação, mas tinha na realidade o
propósito de fazê-lo rei. Fazael veio à sua presença e o recebeu muito bem no
seu palácio. Pacoro, para fazê-lo cair na armadilha, aconselhou-o a ir procurar
Barzafarnés. Fazael, que de nada desconfiava, deixou-se persuadir, contra a
opinião de Herodes, que, conhecendo bem a perfídia daqueles bárbaros, o
aconselhava a fazer o contrário, isto é, a se desfazer de Pacoro e de todos os que
tinham vindo com ele. Assim, Hircano e Fazael se puseram a caminho, e Pacoro
cedeu-lhes duzentos cavaleiros e dez daqueles que se chamavam livres, para
acompanhá-los.
Chegando à Galiléia, os governadores das praças vieram com armas
encontrá-los, e Barzafarnés, de início, recebeu-os muito bem e deu-lhes
presentes, mas depois ficou pensando em como se desfazer deles. Levou-os a
uma casa perto do mar, onde Fazael soube que Antígono tinha prometido a
Barzafarnés mil talentos e quinhentas mulheres. Começou então a desconfiar, e
também o avisaram de que naquela mesma noite lhe dariam guardas para se
apoderar de sua pessoa, o que de fato teria sido feito sem se esperar que os
partos que estavam em Jerusalém tivessem se apoderado de Herodes, para que
este não escapasse quando soubesse que Hircano e Fazael haviam sido presos.
Pareceu logo que aquele aviso era verdadeiro, pois viram chegar os guar-
das. Aconselharam então Fazael, particularmente um certo Ofélio, que desco-
brira o segredo por meio de Saramala, o mais rico de todos os sírios, a montar
imediatamente num cavalo para se salvar. Ofereceu-lhe navios para esse fim,
porque não estavam longe do mar. Mas Fazael julgou que não devia abandonar
Hircano e deixar Herodes, seu irmão, em perigo. Assim tomou a deliberação de
ir procurar Barzafarnés e disse-lhe que não podia, sem uma extrema injustiça e
sem desonrá-lo, atentar contra a vida de pessoas que o tinham vindo procurar
de boa fé e das quais não tinha motivo para se queixar. Se precisava de
dinheiro, ele poderia dar-lhe muito mais que Antígono. Barzafarnés protestou
com juramento que nada havia de mais falso que aquilo que lhe haviam dito e
foi procurar Pacoro.",