Livro Decimo Quarto Flávio Josefo
Capítulo 17 Flávio Josefo
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"ANTÍPATRO CONQUISTA GRANDE PRESTÍGIO POR SUA VIRTUDE. FAZAEL, SEU FILHO MAIS
VELHO, EFEITO GOVERNADOR DE FERUSALÉM, E HERODES MANDA MATAR VÁRIOS
LADRÕES CONDENADOS À MORTE. INVEJA DE ALGUNS GRANDES
CONTRA ANTÍPATRO E SEUS FILHOS. ELES OBRIGAM HIRCANO A PROCESSAR
HERODES POR CAUSA DAQUELES HOMENS QUE MANDARA MATAR. HERODES
COMPARECE PERANTE O TRIBUNAL E DEPOIS RETIRA-SE. VEM SITIAR JERUSALÉM
E A TERIA TOMADO SE ANTÍPATRO E FAZAEL NÃO O TIVESSEM FEITO DESISTIR.
HIRCANO RENOVA A ALIANÇA COM OS ROMANOS. DEMONSTRAÇÕES DE
ESTIMA E DE AFETO DOS ROMANOS POR HIRCANO E PELOS JUDEUS. CÉSAR É
MORTO NO CAPITÓLIO POR CÁSSIO E BRUTO.",
"594. A incapacidade e a indolência de Hircano deram a Antípatro motivo
para lançar as bases da grandeza em que a sua família mais tarde se viu eleva-
da. Ele constituiu Fazael, seu filho mais velho, governador de Jerusalém e de
toda a província. Herodes, o segundo filho, foi feito governador da Galiléia. Este,
embora não tivesse ainda quinze anos, era tão inteligente e corajoso que bem
depressa mostrou uma virtude superior à idade. De uma feita, prendeu
Ezequias, chefe de uns ladrões que assaltavam todo o país e mandou matá-lo,
havendo-o condenado à morte com todos os seus companheiros. Esse ato tão
útil à província suscitou-lhe tanto afeto entre os sírios que estes proclamavam
em todas as cidades e nos campos que lhes eram devedores da tranqüilidade e
da posse pacífica de seus bens.
Obteve ainda outra vantagem: travou conhecimento com Sexto César,
governador da Síria e parente do grande César. Essa estima produziu grande
emulação em Fazael, que, não querendo ser inferior ao irmão em mérito e em
virtude, não media esforços para conquistar o afeto do povo de Jerusalém. Ele
desempenhava em pessoa os cargos públicos e com tanta justiça e de maneira
tão agradável que ninguém tinha motivo de queixa nem podia acusá-lo de
abuso de poder. Como a glória dos filhos vem recair sobre o pai, a nossa nação
concebeu tanto amor por Antípatro que lhe prestava as mesmas honras, como
se ele fosse rei. Tão sábio ministro, em vez de se deixar dominar pelo brilho de
tão grande prosperidade, como a maior parte dos homens, conservou sempre o
mesmo afeto e a mesma fidelidade para com Hircano.
Mas os grandes dos judeus, vendo-o elevado — com os seus filhos — a tão
grande autoridade, tão amado pelo povo e tão rico com o que recebia das
rendas da Judéia e das gratificações de Hircano, deixaram-se dominar por uma
extrema inveja, que aumentou quando souberam que ele havia conquistado
também o afeto dos imperadores. Diziam que ele persuadira Hircano a enviar-
lhes uma grande soma de dinheiro e, em lugar de apresentá-la em nome do rei,
oferecera-a em seu próprio nome. Disseram o mesmo de Hircano, mas ele riu-se
disso. O que os aborrecia acima de tudo era que Herodes lhes parecia tão
violento e ousado que não duvidavam de que ele aspirava a um governo
tirânico.
Resolveram então procurar Hircano para acusar abertamente Antípatro e
lhe falaram deste modo: Até quandoVossa Majestade permitirá o que acontece
debaixo dos vossos olhos? Não vedes que Antípatro e seus filhos desfrutam
todas as honras da soberania e deixam-vos somente o nome de rei? Não vos
importa então saber disso? Não vos importa dar a tudo um remédio? Julgais
estar em segurança descuidando-vos da salvação do Estado e de vossa própria
vida? Esses indivíduos não agem mais por vossa ordem nem como vossos
dependentes. Seria bajular a si mesmo acreditar neles, mas eles agem
abertamente como soberanos. QuerVossa Majestade prova melhor do que ver
que, embora as nossas leis proíbam mandar matar um homem, por mais
perverso que seja, antes de ele ser condenado juridicamente, Herodes não teve
receio de violar essas leis, mandando matar Ezequias e seus companheiros sem
mesmo vos pedir licença para isso?
595. Essas palavras persuadiram Hircano. As mães daqueles que Herodes
condenara à morte aumentaram ainda a sua cólera, pois não se passava um dia
sem que elas fossem ao Templo rogar a ele e a todo o povo que obrigasse
Herodes a se justificar perante os judeus por uma ação tão criminosa. Assim,
ele intimou-o a comparecer perante o tribunal. Logo que Herodes recebeu a
notificação, pôs em ordem as coisas da Galiléia e partiu para Jerusalém. Mas,
em vez de levar uma comitiva particular, se fez acompanhar, a conselho de seu
pai, por tantas pessoas quantas julgou necessárias, para não despertar
suspeitas a Hircano e estar ao mesmo tempo em condições de se defender, caso
o atacassem.
Sexto César, governador da Síria, não se contentou em escrever a Hircano
em favor de Herodes, mas ordenou que ele fosse absolvido, empregando até
mesmo ameaças, para o caso de não ser atendido. Tão forte recomendação,
porém, não era necessária, pois Hircano amava Herodes como se fosse seu
filho. Quando ele compareceu diante dos juizes com os que o acompanhavam,
os seus acusadores ficaram tão atônitos que nem um sequer ousou abrir a boca
e sustentar o que haviam dito contra ele na sua ausência.
Saméias, então, que era homem de grande virtude e não tinha receio de se
expressar com toda a liberdade, levantou-se e falou, dirigindo-se a Hircano e
aos juizes: Majestade e vós, senhores, que aqui estais reunidos para julgar este
acusado: quem já viu um homem obrigado a se justificar apresentar-se desta
maneira? Creio que se teria dificuldade em citar exemplo semelhante. Todos os
que até aqui compareceram a esta assembléia vieram com humildade e temor,
vestidos de preto e com os cabelos em desalinho, em atitude de mover à
compaixão. Este, ao contrário, acusado de haver cometido vários assassínios,
quer evitar o castigo e comparece diante de nós vestido de púrpura, com os
cabelos bem penteados e acompanhado por uma tropa de homens armados, a
fim de que, se o condenarmos, segundo as leis, ele zombe delas e estrangule a
todos nós também. Não o censuro, porém, de agir assim, pois se trata de salvar
a própria vida, que lhe é mais cara que a observância de nossas leis, mas
censuro a todos vós por tolerá-lo, e particularmente ao rei. E, voltando-se para
os juizes, acrescentou: Mas vós sabeis, senhores, que Deus não é menos justo
que poderoso, e assim, Ele permitirá que este mesmo Herodes, que quereis
absolver para agradar a Hircano, nosso rei, vos castigue por isso um dia e
castigará também a ele.
596. Essas palavras foram uma profecia, que mais tarde se verificou:
Herodes, tendo sido constituído rei, mandou matar todos aqueles juizes, exceto
Saméias, a quem sempre tratou com grande honra, tanto por sua virtude
quanto porque, quando junto com Sósio sitiou Jerusalém, ele exortou o povo a
recebê-lo, dizendo que faltas passadas não deveriam impedir que se
submetessem a Herodes, como diremos mais particularmente a seu tempo.
Mas, voltando ao nosso assunto, Hircano, vendo que o sentimento dos juizes
tendia a condenar Herodes, adiou o julgamento para o dia seguinte e mandou
dizer-lhe secretamente que escapasse. Assim, com o pretexto de temer Hircano,
ele retirou-se para Damasco e, quando se viu em segurança junto de Sexto
César, declarou em voz alta que, se o citassem uma segunda vez, estava
resolvido a não comparecer.
Os juizes, irritados com essa declaração, esforçaram-se por demonstrar a
Hircano que o propósito de Herodes era destruí-lo, o rei não podia mais ignorá-
lo. Mas ele era tão covarde e estúpido que não sabia que deliberação tomar.
Enquanto isso, Herodes obteve de Sexto César, por meio de uma soma de
dinheiro, a nomeação para governador da Baixa Síria, e então Hircano começou
a temer que Herodes tomasse as armas contra ele. Seu temor não foi em vão.
Herodes, para vingar-se por o haverem citado em juízo, pôs-se em campo com
um exército, a fim de tomar Jerusalém. E nada o impediria, não fossem os
rogos de Antípatro, seu pai, e de Fazael, seu irmão.
Eles foram procurá-lo e lhe fizeram ver que já era suficiente fazer tremer
os inimigos; que ele não devia tratar como inimigos os que não o haviam
ofendido; que não poderia, sem ingratidão, tomar as armas contra Hircano, a
quem devia a sua elevação e a sua grandeza; que não se devia lembrar de ter
sido chamado a juízo, e sim de não ter sido condenado; que a prudência o
obrigava a considerar que os eventos da guerra são duvidosos, pois somente
Deus tinha a vitória nas mãos, para dá-la como lhe aprouvesse; e que ele não
tinha motivos para esperar obtê-la combatendo contra o seu rei e benfeitor, que
jamais lhe fizera mal algum, pois só fora levado àquele ato pelos maus
conselhos que recebera. Herodes, persuadido por essas razões, contentou-se em
haver mostrado a toda a nação até onde chegava o seu poder e adiou a
execução de seus grandes desígnios e o gozo do efeito de suas esperanças.
597. As coisas na Judéia chegaram a esse estado. César, que tinha
voltado a Roma, preparou-se para passar à África, a fim de combater Cipião e
Catão. Hircano enviou-lhe embaixadores para rogar que renovasse a aliança.
Creio dever relatar, a esse respeito, as honras que a nossa nação recebeu dos
imperadores romanos e os tratados de aliança feitos entre eles, a fim de que
todos saibam da estima e do afeto que os soberanos da Ásia e da Europa
tiveram por nós em razão de nosso valor e de nossa fidelidade.
Os historiadores persas e macedônios escreveram muitas coisas que nos
são muito honrosas — não somos os únicos a ter a própria história: outros
povos também as possuem. Porém, como a maior parte daqueles que nos
odeiam recusam-se a prestar-lhes fé, com o pretexto de que ninguém a
conhece, pelo menos não poderão contradizer os documentos emanados dos
romanos, publicados em todas as cidades e gravados em tábuas de cobre
postas no Capitólio. Júlio César quis também, pela inscrição que mandou
colocar sobre uma coluna de bronze, em Alexandria, dar testemunho do direito
de burguesia que têm os judeus nessa poderosa cidade. E acrescentarei a essas
provas determinações dos imperadores e decretos do senado concernentes a
Hircano e a toda a nossa nação.
Caio Júlio César, imperador, sumo sacerdote e ditador, pela segunda vez,
aos governadores, ao senado e ao povo de Sidom, saudação. Mandamo-vos a
cópia da carta que escrevemos a Hircano, filho de Alexandre, príncipe e sumo
sacerdote dos judeus, a fim de que a façais traduzir para o grego e para o latim
nos vossos arquivos. Eis o que dizia essa carta:
Júlio César, imperador, ditador pela segunda vez e sumo sacerdote.
Depois de reunidos em conselho, determinamos o que se segue. Como Hircano,
filho de Alexandre, judeu de nascimento, sempre nos deu provas de seu afeto,
tanto na paz como na guerra, como vários generais do exército no-lo
demonstraram, e por ter na última guerra de Alexandria levado por nossa
ordem a Mitridates mil e quinhentos soldados, não sendo em valor inferior aos
outros, queremos que ele e os seus descendentes sejam perpetuamente
príncipes e sumos sacerdotes dos judeus para exercer esses cargos segundo as
leis e os costumes de seu país, como também que sejam nossos aliados e
amigos, e que desfrutem todos os direitos e privilégios que pertencem ao sumo
sacerdócio. E, se alguma divergência surgir com relação à disciplina que se
deve observar entre os de sua nação, seja ele o juiz e não seja obrigado a dar
quartéis de inverno aos soldados nem a pagar qualquer tributo.
[Seguem-se outras cartas.]
Caio César, cônsul, ordena que o principado dos judeus fique para os
filhos de Hircano, com o usufruto das terras que eles possuem e que ele seja
sempre príncipe e sumo sacerdote de sua nação e administre a justiça.
Queremos também que lhes sejam enviados embaixadores para firmar amizade
e aliança e que sejam colocadas no Capitólio e nos Templos de Tiro, de Sidom e
de Asquelom tábuas de cobre, onde todas essas coisas deverão ser gravadas em
caracteres romanos e gregos, e que esse ato seja comunicado a todos os
magistrados de todas as cidades, a fim de que todos saibam que consideramos
os judeus nossos amigos e desejamos que os seus embaixadores sejam bem
recebidos. A presente ata será mandada a toda parte.
Caio César, imperador, ditador e cônsul. Determinamos, quer por motivo
de honra, de virtude e de amizade, quer para o bem e benefício do senado e do
povo romano, que Hircano, filho de Alexandre e seus filhos sejam sumos sacer-
dotes de Jerusalém e da nação do judeus, usufruindo esse cargo com os
mesmos direitos e privilégios de que desfrutaram os seus predecessores.
Caio César, cônsul pela quinta vez. Ordenamos que seja fortificada a
cidade de Jerusalém; que Hircano, filho de Alexandre, sumo sacerdote e
príncipe dos judeus, governe segundo o que julgar mais conveniente; que coisa
alguma se diminuirá aos judeus no segundo ano da renda de seus tributos; e
que eles não serão inquietados e ficarão isentos dos impostos.
Caio César, imperador pela segunda vez. Ordenamos que os habitantes
de Jerusalém paguem todos os anos um tributo, do qual a cidade de Jope
estará isenta, mas que no sétimo ano, a que eles chamam ano do sábado, nada
pagarão, porque nesses anos eles não semeiam nem cultivam a terra, nem
recolhem os frutos das árvores; que pagarão de dois em dois anos, em Sidom, o
tributo que consiste em um quarto das sementes e os dízimos a Hircano e seus
filhos, como pagaram os seus predecessores. Determinamos também que
nenhum governador, comandante de tropas ou embaixador poderá recrutar
soldados ou fazer imposição alguma nas terras dos judeus, quer quanto aos
quartéis de inverno, quer por qualquer outro pretexto, mas que eles sejam
isentos de todas as coisas e desfrutem pacificamente tudo o que conquistaram
ou compraram. Queremos ainda que a cidade de Jope, que eles possuíam ao
fazer aliança com o povo romano lhes pertença, e que Hircano e seus filhos
usufruam os rendimentos que dela provierem, tanto do que lhes pagam os
lavradores quanto do direito de ancoragem ou da alfândega das mercadorias
que se transportam a Sidom, que perfazem a cada ano vinte mil e seiscentos e
setenta e cinco medidas, exceto no sétimo ano, a que os judeus chamam ano de
descanso, no qual eles não cultivam nem colhem os frutos das árvores. Quanto
às cidades que Hircano e seus predecessores possuíam no Grande Campo,
apraz ao senado que Hircano e os judeus delas desfrutem da mesma maneira
que antes. Ele quer também que as convenções feitas em todos os tempos entre
os judeus e os sacerdotes sejam observadas e que eles usufruam todos os
favores que lhes foram concedidos pelo senado e pelo povo romano, o que terá
lugar mesmo com relação a Lida. Quanto às terras e outras coisas que os
romanos haviam cedido aos reis da Síria e da Fenícia por causa da aliança que
havia entre eles, o senador ordena que Hircano, príncipe dos judeus delas
também desfrute e que, como ele, os seus filhos e os embaixadores tenham o
direito de sentar-se com os senadores para assistir aos combates de gladiadores
e outros espetáculos públicos. E ainda, quando tiverem alguma coisa que pedir
ao senado, o ditador ou o coronel da cavalaria os introduzirá e lhes fará saber
dentro de dez dias a resposta que se lhes tiver de dar.
Caio César, imperador, ditador pela quarta vez, cônsul pela quinta vez e
declarado ditador perpétuo, falou deste modo quanto aos direitos que
pertencem a Hircano, filho de Alexandre, sumo sacerdote e príncipe dos judeus:
Os que antes governaram as nossas províncias, tendo prestado valiosos
testemunhos a Hircano, sumo sacerdote dos judeus e aos de sua nação, de que
o senado e o povo romano testemunharam o seu contentamento, é bem razoável
que disso conservemos a memória e procuremos que o senado e o povo romano
continuem a manifestar a Hircano, aos seus filhos e a toda a nação dos judeus
todo o seu afeto.
Caio Júlio, ditador e cônsul, aos magistrados, ao conselho e ao povo dos
parianianos, saudação. Os judeus vieram de diversos lugares procurar-nos em
Delos e nos fizeram queixas, na presença de vossos embaixadores, da proibição
que lhes haveis feito de viver segundo as suas leis e de fazer sacrifícios. Isso é
exercer contra amigos e aliados nossos um rigor que não podemos permitir, não
sendo justo obrigá-los no que se refere à sua disciplina e impedir-lhes de
entregar o seu dinheiro, segundo o costume de sua nação, em festins públicos e
em sacrifícios, pois isso lhes é permitido na própria cidade de Roma. E, pelo
mesmo edito com que Caio César, cônsul, proibiu as assembléias públicas nas
cidades, ele excetuou os judeus. Assim, embora proibamos essas assembléias,
como ele o fez, permitimos aos judeus continuar as suas, como eles fazem e
fizeram em todos os tempos. Assim, se ordenastes alguma coisa que fere os
nossos amigos e aliados, é bem razoável que a revogueis em consideração à sua
virtude e afeição por nós.
Depois da morte de César, Antônio e Dolabela, que então eram cônsules,
reuniram o senado, fizeram lá entrar os embaixadores dos judeus e
apresentaram o que eles pediam. Foi-lhes concedido tudo, e renovou-se por um
decreto o tratado de confederação e de aliança. O próprio Dolabela, tendo
recebido cartas de Hircano, escreveu também para toda a Ásia, particularmente
à cidade de Éfeso, que era a principal.
Eis o que dizia a carta: O imperador* Dolabela, aos magistrados, ao
conselho e ao povo de Éfeso, saudação. Alexandre, filho de Teodoro, embaixador
de Hircano, sumo sacerdote, príncipe dos judeus, nos disse que os de sua
nação não podem presentemente ir à guerra porque nos dias de sábado as leis
de seu país lhes proíbem usar armas, empreender viagem e até mesmo cuidar
do alimento. Eis por que, tencionando agir do mesmo modo como agiram os
nossos predecessores, em cuja dignidade estamos, nós os isentamos de ir à
guerra e permitimo-lhes viver segundo as suas leis e reunir-se como estão
habituados a fazer, segundo a sua religião o determina, a fim de se entregarem
às coisas santas e oferecerem sacrifícios. Entendemos que o comuniqueis a
todas as cidades de vossa província.
* A palavra imperador era então um título de honra que se dava aos
generais que houvessem obtido alguma importante vitória sobre os inimigos.
O cônsul Lúcio Lêntulo disse, opinando no senado, que os judeus eram
cidadãos romanos e viviam em Éfeso segundo as leis que a religião deles
prescrevia e que lá anunciara, do alto de seu tribunal, a dezoito de setembro,
que eles estavam isentos de ir à guerra.
Há vários decretos do senado e atos dos imperadores romanos em favor de
Hircano e de nossa nação e cartas escritas às cidades e aos governadores das
províncias relacionadas aos nossos privilégios. Os que os lerem sem prevenção
não terão dificuldade em lhes prestar fé. Assim, tendo mostrado com provas tão
claras e tão constantes a nossa amizade com o povo romano, e sendo que as
colunas e as tábuas de cobre que ainda hoje se vêem no Capitólio são e serão
sempre sinais indubitáveis disso, creio que nenhuma pessoa sensata delas
ainda queira duvidar. Ao contrário, estou certo de que se julgará, pelo que
acabo de dizer, da verdade das outras provas que eu ainda poderia trazer, mas
que suprimo como supérfluas, para não aborrecer o leitor.
598. Sobreveio nesse mesmo tempo, pelo motivo que vou dizer, uma
grande agitação na Síria. Basso, que era do partido de Pompeu, mandou matar
Sexto César à traição e apoderou-se da província com tropas que comandava.
Os do partido de César imediatamente marcharam contra Basso, com todas as
suas forças. Os arredores de Apaméia foram teatro dessa guerra. Antipatro,
para mostrar a sua gratidão pelos favores que devia a César e vingar a morte
deste, prestou-lhes socorro, sob o comando de seu filho. Como essa guerra se
prolongava, Marcos foi enviado para substituir Sexto. César foi morto no
senado por Cássio, por Bruto e por outros conjurados após reinar três anos e
meio, como se poderá ver mais particularmente em outras histórias.",