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Livro Decimo Quarto Flávio Josefo

Capítulo 25 Flávio Josefo

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"BARZAFARNÉS CONSERVA PRESOS FAZAEL E HIRCANO. MANDA SOLDADOS A
JERUSALÉM PARA PRENDER HERODES. DURANTE A NOITE, HERODES SE RETIRA
COM TODOS OS SEUS SOLDADOS E PARENTES. E ATACADO NO CAMINHO, MAS
LEVA VANTAGEM. FAZAEL SUICIDA-SE. INGRATIDÃO DO REI DOS ÁRABES PARA
COM HERODES, QUE VAI A ROMA.",
"608. Logo que Barzafarnés partiu, prenderam Hircano e Fazael, que nada
mais pôde fazer senão execrar tal perfídia. Aquele bárbaro mandou ao mesmo
tempo um eunuco a Jerusalém, a Herodes, com ordem de atraí-lo para fora do
palácio e prendê-lo. Mas este sabia que os partos haviam aprisionado os que
Fazael lhe mandara para avisá-lo da traição. Fez graves queixas a Pacoro e a
todos os outros chefes, e eles, embora de tudo soubessem, fingiram completa
ignorância do que se passava e disseram-lhe que ele não devia criar
dificuldades para sair do palácio a fim de receber as cartas que lhe queriam
entregar, pois traziam somente boas notícias de seu irmão. Herodes não
prestou fé a essas palavras porque já sabia da prisão de Fazael, confirmada por
Alexandra, filha de Hircano, cuja filha ele devia desposar. Embora os outros
zombassem de seus avisos, ela não deixava de os considerar atentamente,
porque era uma mulher muito hábil.
Os partos, embaraçados quanto ao que deviam fazer, porque não
ousavam atacar abertamente um homem tão destemido, deixaram para o dia
seguinte a sua determinação. Então Herodes, não podendo mais duvidar de sua
perfídia e da prisão de seu irmão, embora outros afirmassem o contrário,
resolveu aproveitar para fugir naquela mesma tarde, evitando permanecer em
tal risco no meio de seus inimigos. Para realizar essa resolução, tomou tudo o
que tinha de soldados, fez subir em carros puxados por cavalos sua mãe, sua
irmã, sua noiva Mariana, Alexandra, mãe dela, seu irmão, todos os criados e o
resto dos servidores. Assim, tomou o caminho para a Iduméia sem que os
inimigos o soubessem.
Teria sido impossível permanecer insensível diante de tão triste
espetáculo. Mulheres banhadas em lágrimas e aflitas pela dor arrastavam os
filhos, abandonavam o seu país e deixavam parentes na prisão, não podendo
esperar também para si mesmas uma sorte melhor. Nada, porém, pôde abater a
coragem de Herodes. Nessa contingência, ele mostrou que o seu valor era maior
que a sua infelicidade e durante toda a viagem não deixava de exortá-los a
suportar corajosamente a situação a que se encontravam reduzidos, sem se
deixar dominar pela tristeza ou por queixumes inúteis, que só iriam retardar a
fuga, sua única esperança de salvação. Mas aconteceu um acidente, e este o
tocou de tal modo que pouco faltou para que não se suicidasse: o carro no qual
estava a sua mãe tombou, e ela ficou tão ferida que se pensava que viesse a
morrer.
A grande dor que ele sentiu, unida ao temor de que seus inimigos
chegassem de repente, aproveitando o atraso de sua retirada, deixou-o tão fora
de si que ele puxou a espada, e atravessá-la-ia no próprio corpo se alguns dos
que estavam perto não tivessem impedido aquele gesto. Eles rogaram-lhe que
não os abandonasse ao furor dos inimigos, mostrando que aquela não era uma
ação digna de sua generosidade, isto é, pensar somente em se esquivar
daqueles males, mais temíveis que a própria morte, sem se incomodar que
pessoas que lhe eram tão caras ficassem a eles expostas. Assim, em parte pela
força e em parte pela vergonha de sucumbir ante a infelicidade, ele desistiu
daquele fúnebre desígnio, mandou medicar a mãe como se poderia fazer
naquela contingência, e retomaram o caminho para a fortaleza de Massada.
Os partos atacaram-no várias vezes durante o caminho, e ele os venceu
em todas as ocasiões. Até mesmo alguns judeus o atacaram, quando ele ainda
não estava afastado de Jerusalém mais que uns sessenta estádios, mas ele os
venceu também num grande combate, porque não se defendia como um homem
que foge e é surpreendido, e sim como um grande general preparado para
sustentar um ataque violento. E, quando ele foi elevado ao trono, mandou
construir naquele mesmo lugar um soberbo palácio e uma cidade, a que
chamou Herodiom.
Quando chegou a Tressa, aldeia da Iduméia, José, seu irmão, veio
encontrá-lo, e juntos consideraram sobre o que fazer com o grande número de
soldados que Herodes trouxera, além dos que estavam sob pagamento, porque
a fortaleza de Massada, onde ele queria abrigar-se, não era bastante grande
para recebê-los todos. Resolveu então mandar embora a maior parte deles, mais
ou menos umas nove mil pessoas. Deu-lhes víveres e disse-lhes que poderiam
se estabelecer do melhor modo possível nas diversas regiões da Iduméia. Ficou
com os parentes e mais alguns valentes e peritos. Deixou as mulheres na
fortaleza, bem como as pessoas para servi-las, em número de oitocentos mais
ou menos. Como a fortaleza tinha bastante trigo e água e todas as outras coisas
necessárias para a sua subsistência, ele tranqüilizou-se. Depois de tomar todas
as providências, partiu para Petra, capital da Arábia.
Despontando o dia, os partos saquearam e roubaram tudo o que Herodes
havia deixado em Jerusalém, até mesmo no palácio. Não tocaram, porém, em
trezentos talentos que pertenciam a Hircano, e uma parte do que pertencia a
Herodes também foi salva, com tudo o que a sua previdência o fizera mandar
para a Iduméia. Os bárbaros não se contentaram em saquear a cidade,
devastaram também os campos e destruíram inteiramente Maressa, cidade
muito rica. Assim, Antígono apoderou-se da Judéia, tomando-lhe o governo por
intermédio do rei dos partos. Entregaram-lhe também Hircano e Fazael como
prisioneiros, mas ele ficou muito envergonhado, porque as mulheres que ele
prometera dar ao príncipe junto com os quinhentos talentos haviam escapado.
E, com medo de que o povo restaurasse Hircano no trono, mandou cortar-lhe as
orelhas, para torná-lo inapto ao sumo sacerdócio, porque a Lei proíbe que se
conceda essa honra aos que têm qualquer defeito físico.
609. Não poderemos deixar de admirar a grandeza da coragem de Fazael.
Ele não temia tanto a morte, à qual sabia estar destinado, quanto a vergonha
de recebê-la das mãos do inimigo. Não podendo matar-se, porque estava
acorrentado, quebrou a cabeça contra uma pedra. Diz-se que Antígono lhe
mandou alguns médicos, os quais, em vez de medicá-lo, envenenaram-lhe as
feridas. Antes de morrer, ele teve a consolação de saber por uma mulher pobre
que Herodes estava a salvo e suportou a morte alegremente, acreditando que
deixava um irmão que a vingaria e que seus inimigos receberiam dele o castigo
pela sua perfídia.
610. Herodes, cuja coragem não se abatia ante a fortuna adversa, tudo
fazia para se pôr em condições de superá-la. Foi procurar Malco, rei dos árabes,
que lhe devia grandes favores, para pedir-lhe que demonstrasse
reconhecimento em tão pungente necessidade e, principalmente, que o
ajudasse com dinheiro, quer como donativo, quer como empréstimo. Como
ainda não sabia da morte do irmão, estava resolvido a empregar até trezentos
talentos para resgatá-lo. Havia até mesmo levado consigo, para esse fim, o filho
de Fazael, de apenas sete anos de idade, para dá-lo como refém aos árabes.
Porém, alguns homens enviados por esse príncipe vieram ordenar-lhe, da parte
dele, que saísse de suas terras, porque os partos o haviam proibido de recebê-
lo, dizendo-lhe que os grandes de seu reino tinham dado aquele covarde
conselho para dele se isentarem, com o pretexto de entregar a Herodes o
dinheiro que Antípatro havia confiado em depósito. Herodes respondeu que não
o queria atacar, mas desejava apenas falar-lhe de assuntos importantes.
611. Depois de pensar, ele julgou que era melhor retirar-se e dirigiu-se
para o Egito, tão insatisfeito como se pode imaginar alguém diante de uma ação
tão indigna de um rei. Deteve-se num Templo onde havia deixado vários dos
que o acompanhavam, chegando no dia seguinte a Rinosura, e lá soube da
morte de Fazael. No entanto, o rei dos árabes reconheceu o seu erro e, sentido,
veio ao seu encalço, mas não pôde alcançá-lo, porque ele caminhava
rapidamente, a fim de chegar logo a Pelusa. Alguns marinheiros que iam para
Alexandria, porém, recusaram-se a recebê-lo em seu navio, e Herodes dirigiu-se
então aos magistrados, que lhe prestaram grandes honras. A rainha Cleópatra
quis retê-lo, mas não conseguiu persuadi-lo a ficar, tanto ele estava ansioso
para ir a Roma, embora fosse pleno inverno e corresse a notícia de que as
coisas na Itália estavam muito difíceis, com grandes perturbações e motins.
Assim, ele embarcou para a Panfília, mas foram acossados por uma
violenta tempestade, que os obrigou a lançar ao mar muitas das coisas que
estavam no navio. Chegou por fim a Rodes. Lá encontrou dois amigos, Sapinas
e Ptolomeu. Ficou tão comovido ao ver a cidade destruída pela guerra contra
Cássio que nem a necessidade em que se encontrava o impediu de fazer-lhe
grandes benefícios, muito acima de suas posses. Ali equipou uma galera,
embarcou com os seus amigos, chegou a Brindisi e de lá foi para Roma, onde
primeiramente se dirigiu a Antônio. Contou-lhe tudo o que havia acontecido na
Judéia: que seu irmão Fazael fora aprisionado e morto pelos partos; que eles
ainda retinham Hircano prisioneiro; que haviam constituído Antígono rei
porque ele lhes prometera mil talentos e quinhentas mulheres, as quais
escolheu dentre as pessoas de maior destaque, particularmente da família dele,
de Herodes; que para salvá-las de suas mãos ele as levara à noite, com muita
dificuldade, deixando-as em grandíssimo perigo; e que por fim enfrentara os
risco do mar em pleno inverno para vir procurá-lo, como sendo o seu refúgio e o
único de quem esperava algum auxílio.",