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Livro Decimo Setimo Flávio Josefo

Capítulo 8 Flávio Josefo

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,
"ARRANCA-SE UMA ÁGUIA DE OURO QUE HERODES TINHA CONSAGRADO NO
PORTAL DO TEMPLO. SEVERO CASTIGO QUE ELE IMPÕE. HORRÍVEL
ENFERMIDADE DESSE PRÍNCIPE E ORDENS CRUÉIS QUE ELE DÁ A SALOMÉ,
SUA IRMÃ, E A SEU MARIDO.",
"737. Enquanto os embaixadores de Herodes estavam a caminho de
Roma, com as ordens que lhes havia dado, ele caiu doente, fez seu testamento e
nomeou seu sucessor no reino a Antipas, o mais novo de seus filhos, porque
Antípatro o havia irritado com suas calúnias contra Arquelau e contra Filipe.
Legou mil talentos a Augusto, quinhentos talentos à imperatriz, sua esposa, aos
seus filhos, aos amigos e aos libertos. Dividiu o resto do seu dinheiro, suas
terras e seus rendimentos, entre os filhos e netos, enriqueceu Salomé, sua
irmã, como agradecimento pela amizade que ela lhe tinha constantemente
demonstrado. Como não tinha esperança de salvar-se daquela doença, pois já
tinha perto de setenta anos, ficou tão triste e tão irritado, que não podia tolerar
nem a si mesmo. A opinião que ele tinha de que seus súditos o desprezavam e
se regozijavam com sua desgraça era a causa principal disso e uma sedição
suscitada por pessoas muito consideradas pelo povo, confirmou-lhe ainda mais
essa suposição. O que aconteceu deste modo:
738. Judas, filho de Sarifeu e Matias, filha de Margalote, eram assaz
queridos do povo, porque, além de serem os mais eloqüentes dos judeus e os
mais sábios na interpretação das leis, eles educavam a juventude e tudo faziam
para encaminhá-la à virtude. Quando esses dois homens souberam que a
doença do rei era incurável, exortaram a estes moços que os reverenciavam
como a.seus mestres, que destruíssem as obras que ele tinha feito, como
desprezo dos costumes de seus antepassados; disseram-lhes que nada lhes
poderia ser mais glorioso, do que se declararem defensores da religião e que
tantas desgraças, que afligiam a família de Herodes eram sem dúvida causadas
por ter ele ousado burlar as leis, que deviam ser invioláveis e calcar aos pés as
antigas determinações, para estabelecer novas obras. Esses doutores, assim
falando, nada diziam que não tivessem deveras no coração. Entre essas obras
profanas de Herodes ele tinha feito colocar e consagrar sobre o portal do
Templo, uma águia de ouro, de tamanho extraordinário e de muito valor,
embora as nossas leis proíbam expressamente fazer figuras de animais. Assim,
esses dois homens, zelosos da observância da disciplina de nossos
antepassados, excitaram seus discípulos a arrancar aquela águia; disseram-lhe
que embora a empresa fosse perigosa, nela não deviam empregar menos
entusiasmo, pois uma morte honrosa deve ser preferível à vida, embora suave e
tranqüila, quando se trata de manter as leis do país e de conseguir uma
reputação imortal. Os covardes morrem, bem como os generosos, e assim a
morte, sendo inevitável para todos os homens, os que terminam sua vida com
grandes feitos, tem a consolação de deixar à posteridade uma glória
imperecível.
Estas palavras animaram de tal modo os moços que a notícia se espalhou
logo; ao mesmo tempo dizia-se que o rei tinha morrido e eles então, em pleno
dia, subiram ao lugar onde estava a águia, arrancaram-na, atiraram-na por
terra e a fizeram em pedaços a golpes de machado, diante de grande multidão
de povo, que estava reunido no Templo. O que comandava as tropas do rei,
apenas soube do que se passava, temendo aquilo fosse o princípio de uma
conspiração, correu para lá, com um grande número de soldados e encontrando
apenas uma multidão confusa que se tinha reunido, dissipou-a sem
dificuldade. Mais ou menos uns quarenta daqueles moços foram os únicos que
ousaram resistir. Ele os prendeu e os enviou ao rei, com judas e Matias, que
julgaram ser-lhes-ia vergonhoso fugir. Herodes perguntou-lhes quem os havia
feito tão ousados, arrancando do lugar um objeto que ele havia feito consagrar.
Responderam-lhe: Há muito havíamos tomado essa resolução e não teríamos
podido, sem faltar à coragem, não tê-la executado. Vingamos o ultraje feito a
Deus e mantivemos a honra da lei de que somos discípulos. Achais estranho
que tendo-a recebido das mãos de Moisés a quem Deus mesmo a deus, nós a
tenhamos preferido às vossas ordens? Julgais que tememos, nos façais sofrer a
mesma morte, que em vez de ser um castigo de um crime, será a recompensa
da nossa virtude e de nossa piedade? Eles pronunciaram estas palavras com
tanta firmeza, que não se podia duvidar de que sua coragem correspondia às
suas palavras e de que eles não teriam menor valor em sofrer, do que havia tido
coragem em agir. Herodes mandou-os acorrentados a Jerico, fez reunir os mais
ilustres dos judeus e foi levado para lá em liteira por causa de sua debilidade.
Falou-lhes das dificuldades suportadas pelo bem público, disse que ele tinha
para a glória de Deus, reconstruído o Templo, com despesas, o que todos os reis
asmoneus juntamente, não tinham podido fazer durante cento e vinte e cinco
anos, em que haviam reinado e tinha adornado com ricos presentes, que ali
havia consagrado; que ele tinha esperado que lhe agradecessem, mesmo depois
de sua morte e que prestassem honrar à sua memória. Mas, por um horrível
atentado, em ver da gratidão que ele devia esperar, não se havia receado,
estando ainda vivo, fazer-lhe tão grande ultraje, como em pleno dia, à vista de
todo o povo, arrancar uma coisa que ele tinha consagrado a Deus, o qual com
aquele ato tinha sido ainda mais ofendido do que ele.
Os maiorais da assembléia, ouvindo o rei falar desse modo e temendo que
no furor de que estava ele possuído, não viesse a descarregar sobre eles a sua
cólera, disseram que em nada haviam contribuído para o fato que sucedera, e
que julgavam que aquela ação devia ser castigada. Estas palavras acalmaram-
no e ele não investiu mais contra os outros; contentou-se de tirar o sumo
sacerdócio de Matias, que ele pensava tinha tomado parte naquela depredação
e a deu a Joazar, seu cunhado. Durante o tempo em que Matias exercia o sumo
sacerdócio, sonhava certa noite, na qual se devia celebrar um jejum, que
estivera na companhia de sua esposa e que assim não estava em condições de
atender ao serviço divino; José, filho de Eli, que era seu parente foi encarregado
de oficiar naquele dia, em seu lugar. Herodes, assim, depois de tê-lo privado do
cargo de sumo sacerdote, mandou queimar vivo este outro Matias, autor da
sedição, e todos os que tinham sido aprisionados com ele e naquela mesma
noite sobreveio um eclipse da lua. 739. Deus queria que Herodes sofresse o
castigo de sua impiedade; sua doença agravava-se cada vez mais. Uma febre
lenta, que não transparecia exteriormente, queimava-o e o devorava por dentro;
ele tinha uma fome tão violenta, que nada era capaz de saciá-lo; seus intestinos
estavam cheios de úlceras; violentas eólicas faziam-no sofrer dores horríveis,
seus pés estavam inchados e lívidos, suas virilhas também, as partes do corpo
que se escondem com o maior cuidado, estavam tão corrompidas que já eram
devoradas por vermes; seus nervos estavam frouxos; ele respirava com
dificuldade e seu hálito era tão mau, que ninguém queria estar perto dele.
Todos os que consideravam com espírito de piedade o estado em que se achava
esse infeliz príncipe, estavam de acordo em admitir que tudo aquilo era um
castigo visível de Deus, para puni-lo por sua crueldade. Mas embora ninguém
acreditasse que ele poderia, ainda, escapar daquela doença, ele não deixava de
esperá-lo. Mandou vir médicos de todos os países e, a conselho deles, foi para
além do Jordão, às águas cálidas de Caliroé, que se despejam num lago cheio
de betume e não somente a medicinais, mas também agradáveis para se beber.
Meteram-no numa tina cheia de óleo e ele sentiu-se tão mal, que se pensou que
ele ia morrer. Os gritos e as lágrimas de seus domésticos, fizeram-no voltar a si
e então viram que seu mal era incurável. Ele mandou que se distribuísse a
todos os seus soldados, cinqüenta draemas por cabeça, deu grandes presentes
aos seus chefes e aos seus amigos e se fez reconduzir a Jerico onde sua
crueldade aumentou ainda, de tal modo, que o fez tomar as mais horríveis
deliberações, como jamais o espírito humano pôde conceber. Ordenou por um
edito a todos os judeus mais ilustres, que fossem a Jerico, sob pena de morte
para os que faltassem e, quando todos chegaram, ele os fez encerrar no
hipódromo, sem indagar se eles eram culpados ou inocentes. Mandou depois vir
Salomé, sua irmã, e Alexas, marido dela, e disse-lhes que ele sofria tantas dores
que via bem que o fim de sua vida estava próximo e que ele não se podia
queixar, pois era um tributo que uma lei comum a todos os homens, o obrigava
a pagar à natureza. Mas que ele não podia tolerar ser privado da honra que é
devida a todos os reis, por um luto público. Que ele sabia, entretanto, que o
ódio que os judeus lhe tinham era grande, que eles com sua morte teriam se
rejubilado, pois mesmo durante sua vida eles não tinham temido revoltar-se
contra ele e ofendê-lo. Que ele esperava de duas pessoas muito próximas do seu
afeto e de seu dever, que o consolassem em tão sensível desprazer e poderiam
fazê-lo, cumprindo o que lhes ia dizer, tornando assim seus funerais mais
magníficos e mais agradáveis às suas cinzas que o de qualquer outro rei,
porque não haveria uma só pessoa em todo o reino, que não derramasse lágri-
mas de verdade; que para executar essa incumbência, logo que ele tivesse
exalado o último suspiro, fizessem rodear o hipódromo de soldados, sem lhes
falar de sua morte e ordenassem aos mesmos de sua parte, que matassem a
flechadas todos os que lá estavam encerrados. Se eles executassem essa ordem,
ele lhes deveria um duplo favor: um, por ter satisfeito ao seu pedido e o outro,
por ter tornado o luto de suas exéquias mais célebre do que qualquer outro.
Este cruel soberano acompanhava as palavras com lágrimas; rogou-lhes pelo
afeto que lhe tinham e por tudo o que tinham de mais santo, que não
permitissem que se deixasse de prestar aquelas últimas honras à sua memória
e eles prometeram-lhe executar pontualmente suas ordens.
Se alguém quisesse desculpar a Herodes as crueldades praticadas em
pessoas, que lhe eram parentes, pela razão de que se tratava de garantir a sua
vida, esta última ação, o obrigaria a confessar, que jamais se viu tão espantosa
desumani-dade em querer que, estando ele para deixar a vida, todas as famílias
e mesmo amigos ilustres, sofressem também um luto, por sua ordem, a fim de
que todo o reino padecesse ao mesmo tempo absoluta tristeza, pela morte de
alguém, sem perdoar nem mesmo aos que nunca o haviam ofendido e de que
jamais tivera motivo de queixa, quando, por pouca bondade que se tenha,
costuma-se perdoar aos mesmos inimigos, reduzidos a esse estado.",