🏠 Home ← Anterior Próximo →

Livro Decimo Setimo Flávio Josefo

Capítulo 6 Flávio Josefo

123456789101112131415
,
"HERODES DESCOBRE A CONSPIRAÇÃO FEITA POR ANTÍPATRO, SEU FILHO, PARA
ENVENENÁ-LO.",
"731. Dois traconítidas, libertos de Feroras, aos quais muito ele estimava,
foram depois de sua morte procurar Herodes, para rogar-lhe que não a deixasse
impune, mas fizesse uma cuidadosa indagação, para descobrir quem lhe era o
causador e o culpado. Herodes escutou-os atentamente e mostrou acreditar em
suas palavras; eles disseram-lhe que seu amo tinha ceado em casa de sua
mulher, no dia em que a doença se manifestou, pois tinha-lhe dado veneno,
misturando com certa bebida, que, apenas ele sorveu, sentiu-se mal; esse
veneno tinha sido levado por uma mulher árabe, que dissera não ter ele outro
efeito, que despertar o amor, embora fosse, ao contrário, um poderoso veneno;
entre aquelas mulheres árabes, que são grandes envenenadoras,
principalmente a que era acusada, tinha grande familiaridade com a mulher
que Silleu mantinha. A mãe e a irmã da mulher de Feroras, tinham ido
procurar essa mulher, para comprar-lhe aquele veneno e haviam-no trazido no
dia anterior, ao em que fizeram Feroras beber aquele líquido mortal. Esta
comunicação despertou tão grande cólera em Herodes, que ele mandou torturar
as mulheres, tanto escravas como livres, da mãe e da irmã da mulher de
Feroras. Nada elas confessaram; uma delas, porém, por fim, vencida pela
violência das dores, disse que rogava a Deus que a mãe de Antípatro sofresse os
mesmos tormentos, pois ela era causa dos que todas sofriam. Esta confissão fez
Herodes empregar indagações ainda mais cuidadosas, para descobrir a verdade.
Tanto fez atormentar aquelas mulheres, que soube delas tudo o que se havia
passado: as refeições, as reuniões secretas, e as coisas mesmo que ele havia
dito somente a Antipatro e que Antipatro tinha confiado àquelas mulheres. Elas
acrescentaram que ele lhes havia dado cem talentos, para não falarem a
Feroras, das obras que ele tinha recebido do rei, seu pai; que tinha por ele um
grande ódio, que ele se queixava freqüentemente à sua mãe, por ele viver tanto
tempo, pois ele mesmo estava ficando velho, e herdaria tão tarde a coroa, que
muito mal poderia dela gozar; que seu pai tinha outros filhos e netos, que ele
não podia mesmo esperar ter o reino com plena segurança; e se ele viesse a
faltar, não seria seu filho, mas um de seus irmãos, que Herodes teria destinado
para sucedê-lo. Essas mulheres disseram também que ele falava
freqüentemente da crueldade de Herodes, dizendo que ele não tinha poupado
nem mesmo seus próprios filhos, e que aquilo o fizera ir a Roma, e Feroras
retirar-se à sua tetrarquia. Como todas essas coisas se referiam aos avisos que
Herodes tinha recebido de Salomé, ele não pôs dificuldade em prestar-lhes
inteira fé. Prendeu Doris, mãe de Antipatro, como culpada de ter tido parte
nessa conjuração, tirou-lhe todas as jóias e pedras preciosas de grandíssimo
valor, que lhe havia dado e a expulsou do palácio. Quanto às outras mulheres
que eram da família de Herodes, acalmou-se e não as castigou porque
confessaram tudo. Nada, porém, o irritou tanto contra Antipatro, como o que
ele soube de um samaritano, seu intendente, que também se chamava
Antipatro. Esse homem confessou, entre outras coisas, à tortura, que seu amo
havia entregado a Feroras um veneno mortal, para dá-lo de presente ao rei, em
sua ausência, a fim de que não o pudessem acusar. Que aquele veneno tinha
sido trazido do Egito por AntiFílon, amigo de Antipatro, e que Teudiom, seu tio,
irmão de Doris, sua mãe, tinha trazido a Feroras, que o havia confiado à sua
mulher, para guardá-lo. Herodes mandou imediatamente interrogar a viúva de
Feroras, sobre estas informações. Ela confessou que tinha o veneno e correu,
como para ir buscá-lo. Mas em vez trazê-lo ela atirou-se de uma janela alta, de
uma galeria do palácio; no entanto, não morreu, porque caiu de pé. Depois de
ter voltado a si, o rei prometeu perdoá-la, e a toda família, contanto que lhe
declarasse a verdade; e ameaçou-a, ao contrário, fazê-la sofrer toda sorte de
tormentos se se obstinasse em ocultar-lhe o que sabia. Ela protestou com
juramento que nada lhe esconderia, e a persuasão comum foi que ela procedeu
sinceramente: AntiFílon, disse ela, Majestade, trouxe este veneno do Egito,
onde ele foi preparado por seu irmão, que é médico; Antipatro, filho de vossa
majestade, comprou para dele se servir contra vossa majestade e Teudiom
levou-oa Feroras, que me deu para guardá-lo. Meu marido, depois, caiudoente,
ficou tão comovido com a afeição que vossa majestade lhe demonstrava, vindo
vê-lo, que me mandou chamar e me disse: Minha esposa, eu me deixei enganar
por Antípatro, quando ele me confiou seu desígnio, de envenenar seu pai. Mas
agora que eu vejo que o rei nada diminui no afeto fraterno, que sempre me
demonstrou e como se aproxima o fim de minha vida, não quero levar para o
outro mundo a alma manchada pelo crime de ter tomado parte numa
conspiração, de fazer morrer o rei, meu irmão. Por isso rogo-te que queimes
esse veneno, na minha presença. Assim ele me falou e eu fui logo buscar o
veneno e o queimei na sua presença, com exceção de uma pequena parte, que
eu guardei pra me servir dele se depois de sua morte vossa majestade me
quisesse tratar com o mesmo rigor. Dizendo isso mostrou a Herodes o resto do
veneno e a caixa na qual estava guardado. O irmão de AntiFílon e sua mãe
confessaram, ante os tormen-tos, a mesma coisa e reconheceram a caixa.
Acusaram também uma das mulheres do rei, filha do sumo sacerdote, de ter
tomado parte nesta conspiração, mas ela nada confessou. Herodes repudiou-a,
riscou do seu testamento a Herodes, o filho que dela tivera e que tinha citado
como seu sucessor ao trono, no caso de Antípatro morrer antes dele, tirou o
sumo sacerdócio de Simão, seu pai e seu sogro e confiou Matias, filho de
TeóFílon.
No entanto, Batilo, liberto de Antípatro, veio de Roma e o submeteram ao
interrogatório com torturas; ele confessou que tinha levado veneno para
entregá-lo à mãe de Antípatro e a Feroras, a fim de que, se o primeiro que se
desse ao rei não surtisse efeito, ministrassem-lhe o segundo. Entregaram ao
mesmo tempo a Herodes umas cartas que seus amigos, que estavam em Roma,
lhe haviam escrito a pedido de Antípatro, que os havia ganho por grandes
presentes. Essas cartas diziam quer Arquelau e Filipe, seus filhos, acusavam-
no freqüentemente da morte de Alexandre e de Aristóbulo, seus irmãos; de que
eles mostravam estar sensivelmente tristes e que eles julgavam que não os
mandariam voltar de Roma para a Judéia, para tratá-los como os outros
haviam sido tratados. Antípatro, por seu lado, escreveu ao rei sobre seu
assunto, como para desculpá-los, dizendo que se devia perdoar à sua mocidade
e durante sua permanência junto de Augusto, ele continuou sempre a trabalhar
para ganhar o afeto dos mais ilustres da sua corte, aos quais deu presentes,
para mais de duzentos talentos. A esse respeito parece que há motivo de se
admirar, de que durante sete meses em que ele ficou em Roma, nada soubesse
do que se passava na judéia. Mas além de se guardarem cuidadosamente todas
as passagens para impedir que ele pudesse saber notícias, o ódio que lhe
votavam era tão grande, que não havia ninguém que quisesse se arriscar por
amor dele.",