Livro Decimo Setimo Flávio Josefo
Capítulo 7 Flávio Josefo
,
"ANTÍPATRO VOLTA DE ROMA PARA AJUDÉIA E É ACUSADO NA PRESENÇA
DE VARO, GOVERNADOR DA SÍRIA, DE TER QUERIDO ENVENENAR O REI, SEU
PAI. HERODES FÁ-LO PÔR NUMA PRISÃO E ESCREVE
A AUGUSTO A ESSE RESPEITO.",
"732. Herodes dissimulava sua cólera contra Antípatro e escreveu-lhe que
logo que tivesse terminado os negócios que o retinham em Roma, viesse
procurá-lo o mais depressa possível, a fim de que sua ausência não lhe fosse
prejudicial. Fazia-lhe somente algumas leves queixas de sua mãe, com
promessa de logo que tivesse regressado ele esquecer-se-ia do
descontentamento que lhe havia dado e dava-lhe todas as demonstrações de
afeto que ele pudesse desejar, porque temia que ele suspeitasse de que não
voltaria e urdisse alguma trama contra ele. Antípatro recebeu essas cartas na
Cilícia, quando já estava de regresso. Já tinha recebido outras, antes, em
Tarento, que lhe comunicavam a morte de Feroras, com o que ficaria muito
sentido, não pelo afeto que lhe dedicava, mas porque ele não tinha envenenado
seu pai, como lhe tinha prometido. Quando chegou a Celenderis, cidade da
Cilícia, começou a hesitar, se continuaria a viagem. Ele não podia suportar o
castigo imposto à sua mãe, que fora expulsa do palácio e as opiniões de seus
amigos estavam divididas. Uns eram de parecer que se esperasse em algum
lugar, para ver o que aconteceria; outros, aconselhavam-no a se apressar, a fim
de dissipar, com sua presença, a idéia de que sua ausência suscitava aos seus
inimigos a ousadia de agir contra ele. Ele tomou este último partido, continuou
a viagem e chegou ao porto de Sebaste, que Herodes tinha feito construir com
tantas despesas, dando-lhe esse nome em honra de Augusto. Não mais se
duvidou então, da ruína de Antípatro. Em vez de, como, quando do seu
embarque para Roma, ser ele rodeado e assediado pela multidão dos que o
acompanharam, formulando-lhe votos de prosperidade, ao contrário, à sua
volta, não somente não o saudaram nem dele se aproximaram, mas fizeram até
imprecações, contra ele, implorando a vingança de Deus, para castigá-lo e
exigir-lhe o sangue de seus irmãos.
Aconteceu, que nesse mesmo tempo, quando ele se dirigia para
Jerusalém, Quintílio Varo que tinha sucedido a Saturnino no governo da Síria,
tinha vindo visitar Herodes e eles haviam se reunido em conselho. Como
Antipatro ainda nada sabia do que se passava apresentou-se à porta do palácio,
vestido de púrpura, como de costume; abriram-lhe a porta, mas fecharam-na
ao seu séquito. Ele não teve então dificuldade em avaliar o grave perigo em que
se encontrava, e viu-o ainda melhor, quando Herodes, em vez de abraçá-lo,
repeliu-o, censurou-o pela morte de seus irmãos e disse que ele lhe queria
ainda acrescentar um parricídio; que teria, no dia seguinte, a Varo por juiz. Tão
imprevista desgraça tombou sobre ele como um raio. Atônito, retirou-se, e sua
mãe e sua irmã, filha de Antígono, que havia reinado antes de Herodes, foram
também informados de todas estas coisas; ele preparou-se para o julgamento.
733. No dia seguinte, convocou Herodes uma grande assembléia que Varo
presidiu; seus amigos lá estavam com os parentes de Herodes; Salomé, sua
irmã, também. Mandaram chamar os que haviam descoberto a conspiração, os
que tinham sido submetidos à tortura e algumas criadas da mãe de Antipatro,
que tendo sido presas um pouco antes de seu regresso, tinham em seu poder
cartas que falavam de que sua conspiração tinha sido descoberta e que ele não
voltasse, para não cair nas mãos do rei, seu pai, e que a única esperança de
salvação que lhe restava era recorrer à proteção de Augusto. Antipatro lançou-
se aos pés de Herodes, para rogar-lhe que não o condenasse antes de escutá-lo,
mas lhe permitisse antes justificar-se. Herodes ordenou-lhe que se erguesse, e
disse em seguida que bem infeliz ele se julgava por ter tido semelhantes filhos,
por ter caído nos seus últimos dias nas mãos de Antipatro; que não havia
cuidados que ele não tivesse tido de sua educação, que o tinha cumulado de
benefícios, mas que tantasprovas de afeto e de bondade não tinham podido
impedir que ele tentasse contra sua vida, para obter antes do tempo, com um
crime horrível, um reino que ele poderia possuir legitimamente, quer pelo
direito da natureza, quer pela vontade de seu pai, que ele não podia
compreender que vantagem ele tinha imaginado encontrar na execução de um
intento tão detestável; pois ele já o havia declarado seu sucessor, no testamento
e que mesmo durante sua vida ele já compartilhava de toda sua autoridade,
que ele lhe dava todos os anos cinqüenta talentos para suas despesas e lhe
havia dado trezentos, para sua viagem a Roma. Cervsurou-lhe em seguida a
morte de seus irmãos, dos quais tinha sido o acusador e o imitador; se eles
fossem inocentes, pois não tinha encontrado outras provas contra eles senão as
que ele havia alegado e os havia condenado por sua insinuação. Mas que agora
ele os justificava, sendo ele mesmo culpado do assassínio de que os acusava.
Herodes assim falava e as lágrimas corriam-lhe dos olhos em tão grande
abundância, que ele não pôde continuar. Rogou a Nicolau de Damasco, por
quem tinha não menor amizade do que confiança, que estava bem a par do
assunto, que referisse o que continham as deposições das testemunhas que
serviam de provas da culpabilidade de seu filho. Mas Antípatro antecipou-se e
defendeu ele mesmo a causa. Empregou para sua defesa as mesmas razões de
que Herodes se servira contra ele, dizendo que aquela extrema aflição de seu
pai era uma recompensa de sua piedade e um sinal de que ele não havia faltado
a nenhum dos deveres que lhe devia prestar; que não havia possibilidade de
que, depois de o ter defendido nas tentativas feitas contra sua vida, ele tivesse
querido cometer semelhante crime e enxovalhar com tal mancha a sua
reputação; que não havia nenhum motivo para isso, porque seu pai o tinha
declarado seu sucessor e tornado participante de todo poder e de todos as
honras anexas à coroa, ele não tinha somente a probabilidade de ser rei, mas
podia-se dizer que de fato ele já o era, sem que ninguém se opusesse a isso; que
assim não havia o mínimo motivo de crer que a esperança incerta de conquistar
a inteira posse de um reino, de que já gozava pacificamente, de uma parte de
sua virtude, ele se tivesse metido em semelhante perigo e em tal crime; que o
castigo sofrido por dois de seus irmãos, por terem tentado semelhante ação
tornava a coisa ainda mais verossímil; que não era necessária melhor prova de
seu ardente amor por seu pai, do que ele mesmo ter sido delator deles e que
não estava arrependido disso, porque não podia melhor demonstrar sua
piedade para com ele do que se tornando o vingador de sua impiedade, que ele
tinha por testemunha de todas as suas ações em Roma, o mesmo Augusto, ao
qual não se podia enganar bem como a Deus, que ele podia apresentar suas
cartas às quais se devia prestar incomparavelmente mais crédito do que às
calúnias de seus inimigos, que não tinham maior desejo do que pôr a divisão na
família real e aos quais sua ausência tinha dado os meios para isso e a
comodidade também; quanto às deposições das testemunhas, não era justo que
lhas prestassem fé, pois haviam sido extorquidas pela violência das dores e que
por fim ele mesmo se oferecia a ser torturado e interrogado sem que o
poupassem. Assim falando, Antípatro tinha o rosto cheio de lágrimas, batia com
força no rosto, de tal modo que causava compaixão aos seus mesmos inimigos,
e também comoveu de algum modo os presentes; Herodes mesmo estava
comovido, embora fizesse todo o possível para não demonstrá-lo. Nicolau,
então, tomou a palavra para continuar a acusação que o rei tinha começado.
Ele estendia-se em cada artigo: trouxe como prova dos crimes, o testemunho
dos que tinham sido torturados. Estendeu-se muito sobre a bondade extrema
que o rei havia demonstrado por seus filhos, pelo cuidado que tivera de sua
educação, de que tinha sido tão mal recompensado; disse que por maior que
tivesse sido a culpa de Alexandre e Aristóbulo não havia tanto motivo de se
admirar de que, sendo jovens e mal aconselhados, eles se tivessem deixado
levar mais pela ambição de reinar do que pelo desejo de enriquecer. Mas que
nada era tão horrível como o crime de Antípatro, o qual, mais cruel do que os
animais mais cruéis, que se amansam e se mostram reconhecidos para com
aqueles, dos quais receberam algum benefício, não tinha ele se comovido, com
tantos favores que recebera do rei, seu pai, e, em vez de considerar a
infelicidade em que seus irmãos tinham caído, por seu mau proceder, não
tivera medo de os imitar. Pois não fostes vós mesmo, acrescentou ele,
dirigindo sua palavra a Antípatro, o primeiro a acusá-los? Não fostes vós que
vos empenhastes em provar-lhe a culpabilidade? Não fostes vós que os fizestes
castigar? Não é, porém, disso que eu vos censuro; vosso ódio por eles era justo.
Mas, pode-se assaz admirar de que não tenhais temido atrair sobre vós coisa
semelhante? Pois, não é fácil julgar que o que fizestes contra eles não foi por
amor a vosso pai, mas para poderdes mais facilmente executar o abominável
desígnio, que tínheis já formulado contra ele, parecendo ser tão zeloso pela sua
conservação e ter tanto horror por seu crime, como as conseqüências no-lo
fizeram ver? Pois, querendo a morte de vossos irmãos, poupastes seus
cúmplices; demonstrastes assim suficientemente, que estáveis de combinação
còm eles e que vossa intenção era servir-vos deles para tentardes contra a vida
de vosso pai. Sentíeis assim uma dupla alegria: parecer aos olhos dos homens
ter feito uma ação digna de louvor, como teria sido mesmo, se vossos irmãos,
sendo culpados, não tivésseis vos declarado contra eles, como inimigos, para
salvar vosso pai e a outra, secreta, oculta, no vosso coração, achando por esse
meio mais facilidade em fazer perecer, à traição, por um crime ainda maior que
o deles, aquele mesmo por quem parecíeis sentir um amor tão cheio de piedade.
Mas se verdadeiramente tivésseis tido horror ao detestável desígnio de que
vossos irmãos eram acusados e que lhes custou a vida, teríeis tido coragem
para imitá-los? Não é evidente que não tínheis outro objetivo que perder por
vossa astúcia os que vos poderiam disputar o reino, como sendo muito mais
dignos do que vós, de possuí-lo e atirar todo ódio sobre vosso pai, de vos pordes
em condições de não poder ser castigado, acrescentando a esse fatricídio, um
parricídio, tão horrível, que nenhum século ainda viu outro semelhante? Pois
não é de um pai qualquer que resolvestes eliminar a vida, mas de um pai que
vos amava com paixão, que vos cumulou de benefícios, que compartilhou
convosco a sua autoridade, que vos declarou seu sucessor, que vos fez gozar
crescentemente do prazer de reinar, que vos tinha garantido a coroa por meio
de seu testamento. Mas essa excessiva bondade não causou impressão, em tão
mau espírito como o vosso. Em vez de considerá-lo como benfeitor, vos
considerastes apenas a vós mesmos; vossa paixão desmesurada de dominar
não pôde tolerar ter como companheiro vosso próprio pai, a quem sois devedor
de tantos benefícios e ao mesmo tempo que vossas palavras demonstravam um
ardor tão violento pela sua conservação, todas as vossas ações tendiam à sua
ruína. Vós não vos contentaste de ser mau, procurastes tornar vossa mãe tão
má quanto vós, fazendo-a cúmplice do vosso crime; irritastes o espírito de
vossos irmãos e tivestes a insolência de ultrajar a vosso pai, chamando-o de
animal, vós, cujo coração está mais cheio de veneno do que os mais venenosos
animais, as serpentes, e de que vos servistes contra os mais próximos e as
quais devíeis maiores favores: e vós, enfim, que em vez de ajudar vosso pai na
sua velhice, não vos contentastes unicamente com a vossa malícia para fazê-lo
sentir os efeitos da vossa ira, mas vos fizestes acompanhar por guardas e
conquistastes o maior número possível de pessoas, a fim de juntar os seus
artifícios aos vossos para o aniquilar. Agora, depois de tantos depoimentos,
tanto de pessoas livres como de escravas, às quais fostes causa de serem
torturadas, depois de provas tão claras do vosso crime, ousais negar a verdade;
não vos é suficiente terdes renunciado aos sentimentos mais ternos da
natureza, esforçando-vos por tirar a vida a vosso próprio pai, quereis também
subverter as leis estabelecidas contra vós e vossos semelhantes, para sur-
preender a eqüidade de Varo e para abolir tudo o que há de justiça no mundo.
Dizeis que não se devem dar valor a depoimentos extorquidos por meio de
torturas, que salvaram a vida ao vosso pai e pretendeis, ao mesmo tempo, que
se deva crer no que direis, sofrendo também a tortura. Mas, Senhor,
acrescentou Nicolau, dirigindo então a palavra a Varo, nós livrareis nosso rei
dos detestáveis empreendimentos movidos contra ele, pelos seus parentes mais
próximos? Não mandareis ao suplício esse cruel animal, que depois de se ter
servido de uma falsa aparência de afeto para com seu pai, para perder seus
próprios irmãos tudo fez para perdê-lo a ele também, a fim de reinar sozinho?
Sabeis que o parricídio não deve ser considerado como um crime particular,
mas como público, porque é um ultraje feito à natureza e ataca o princípio da
vida. Vós sabeis que nesse caso o simples pensamento merece ser castigado
como o mesmo fato e que não se deve deixar de castigá-lo, sem se pecar contra
essa mesma natureza, que é a mãe comum de todos os homens.
Nicolau referiu em seguida diversas coisas, que a mãe de Antípatro,
impelida pelo prazer que as mulheres têm de falar, não tinha podido deixar de
dizer, isto é, que ela tinha consultado adivinhos e oferecido sacrifícios para
saber o que aconteceria a Herodes. Não esqueceu também as desordens, tanto
por causa do vinho como das mulheres, causadas por Antípatro, na família de
Feroras e citou o grande número de depoimentos feitos contra ele, uns
voluntários, outros obtidos pela tortura e que se podiam ter como os mais
certos, porque aqueles, que antes o temor de Antípatro levava a calar o que
sabiam contra ele, vendo que a mudança da sorte dava a todos a liberdade de
falar e de acusá-lo, diziam então com franqueza o que seu ódio por ele já lhes
não permitia ocultar.
734. Nada, porém, aniquilava tanto a Antípatro, como as recriminações
de sua consciência, que lhe atirava continuamente diante dos olhos, seus
horríveis crimes, contra seu pai, o sangue de seus irmãos derramado por seus
criminosos manejos e a perturbação que ele havia suscitado em toda a família
real. Havia-se mesmo notado há muito tempo que jamais ele tinha ódios justos,
nem amizades fiéis: mas o interesse era sua única regra de conduta. Assim,
mais se amava a virtude e a justiça, mais ela era tida em horror e apenas houve
segurança, começou-se a clamar contra ele e a se dizer à porfia todo o mal que
ele havia feito e de que se tinha conhecimento. Vários acusaram-no de diversos
crimes; e havia motivo para se crer em tudo como verdade, porque parecia que
não era para agradar ao rei, nem o temor do perigo que os obrigava a ocultar
alguma coisa. Parecia, ao contrário, que eles eram levados a falar daquele modo
porque detestavam sua maldade e desejavam sua morte não só para garantir a
vida de Herodes, como para evitar de cair sob o domínio de tão perverso
príncipe, como Antípatro. Não eram, porém, somente os interrogados que assim
falavam; havia muitos que depunham voluntariamente contra ele, e embora ele
fosse um dos mais astuciosos dos mais desavergonhados dos homens, não
ousava abrir a boca para responder.
735. Varo, então, tomou a palavra e disse que lhe dava toda a liberdade
de falar, se tivesse alguma coisa a alegar em sua defesa e que o rei, seu pai e
ele, só desejavam que ele fosse inocente. Antípatro, em vez de responder,
lançou-se de rosto em terra, rogando a Deus que fizesse saber por meio de
algum sinal a sua inocência e quanto ele estava longe de jamais ter tido o
pensamento de empreender algo contra seu pai. É assim que os maus
costumam agir. Quando enveredam pelo caminho do crime, abandonam-se às
suas paixões, sem se lembrar de que há um Deus; quando se encontram,
porém, no perigo de serem castigados, eles o invocam, tomam-no como
testemunha da sua inocência e dizem que se abandonam inteiramente à sua
vontade. Foi o que sucedeu a Antípatro. Antes, em todas as coisas, ele procedia
como se Deus não existisse, mas quando se viu prestes a receber o castigo que
merecia, ele se atreveu a dizer que Deus o tinha conservado para velar por seu
pai. Varo, vendo que ele não respondia às perguntas que lhe eram feitas e que
ele continuava somente a invocar a Deus, ordenou que trouxessem o veneno, de
que se havia falado no processo para que dele se experimentasse a força.
Trouxeram-no e ele o fez beber a um homem condenado à morte, o qual apenas
o sorveu, caiu morto. Dissolveu então a assembléia e no dia seguinte voltou a
Antioquia onde costumava permanecer, porque era a cidade onde os reis da
Síria tinham habitualmente sua corte.
736. Herodes mandou no mesmo instante meter Antípatro numa prisão,
sem que se soubesse que a resolução ia tomar ou já tomara, com Varo, sobre
aquele assunto, mas a maior parte julgava que ele nada faria, sem seu parecer.
Escreveu em seguida a Augusto e ordenou aos que lhe deviam apresentar as
cartas, que hoje o informassem à viva voz dos crimes cometidos por seu filho.
Nesse mesmo tempo, interceptou-se uma carta que AntiFílon escrevia do Egito
a Antípatro. Herodes mandou abri-la e encontrou estas palavras: Eu vos man-
dei uma carta de Acmé, em que vai a minha vida, pois não duvideis de que se
fosse conhecida eu atrairia sobre mim um ódio mortal de duas mui poderosas
famílias. Toca a vós dar ordem para que o negócio tenha bom êxito. Herodes
leu esta carta, mandou procurar a outra de que falava, mas não a pôde encon-
trar e o servidor de AntiFílon afirmava não ter trazido outra que não aquela que
eles tinham em mãos. Enquanto estavam assim, nessa ansiedade, um dos ami-
gos do rei descobriu uma costura na túnica do servo e pensou que ali poderia
estar escondida a carta. Sua suposição não o enganou; acharam-na e assim
estava redigida: Acmé a Antípatro: Escrevi ao rei, vosso pai, do modo como
desejáveis e incluí uma cópia da carta suposta de ter sido escrita à imperatriz,
minha senhora, por Salomé. Estou certo de que apenas ele ler castigá-la-á
como culpada, por ter tentado contra sua vida. O conteúdo da carta,
falsamente atribuída a Salomé, tinha sido imaginado por Antipatro, mas ele
tinha deixado a Acmé para que exprimisse o seu pensamento com sua maneira
ordinária de escrever. Quanto à carta de Acmé a Herodes, assim estava escrita:
Tendo, Majestade, encontrado uma carta, escrita por Salomé à imperatriz,
minha senhora, pela qual ela a suplicava de fazer de modo que ela possa
desposar Silleu, o cuidado, que eu sou obrigado a ter no que respeita o vosso
serviço, fez-me copiá-la e vo-la enviar. Far-me-eis o favor de queimá-la, porque
corre perigo minha vida. Assim, a carta. Mas o que Acmé escrevia a Antipatro
desvendava toda a trama, porque pareceria que ele nada tinha feito que por sua
ordem e para perder Salomé. Acmé, que era judeu de nascimento, estava a
serviço da imperatriz e tinha vendido muito caro a Antipatro a sua mediação.
Herodes soube assim de toda a maldade de seu filho, que chegava a tal excesso,
pois não se contentando, de atentar contra a vida de seu pai, de ter querido
também perder à sua tia Salomé, de ter enchido toda a família de confusão e
perturbação, tinha mesmo levado a corrupção até a corte de Augusto. Tantos
crimes juntos causaram-lhe tal horror, que pouco faltou que ele não morresse
naquele mesmo instante. Salomé excitava-o e clamava, batendo no peito, que
estava pronta a sofrer a morte, se ele julgava que ela lhe tinha faltado à fidelida-
de. Herodes mandou chamar Antipatro e ordenou-lhe que dissesse sem temor,
se tinha alguma coisa a alegar em sua defesa. Ele nada respondeu e então ele
pediu-lhe, que, pelo menos declarasse que eram seus cúmplices. Ele falou de
AntiFílon somente. Veio então a Herodes o pensamento de mandá-lo a Roma
para ser julgado por Augusto, mas teve receio de que os amigos de Antipatro o
salvassem pelo caminho. Assim, tornou a enviá-lo à prisão, atado como estava e
escreveu a Augusto para informá-lo do seu crime, encarregando seus embai-
xadores de lhe contar como ele havia conquistado Acmé e de lhe mostrar as
cópias das cartas que ele tinha escrito.",