Livro Decimo Setimo Flávio Josefo
Capítulo 3 Flávio Josefo
,
"CABALA DE ANTÍPATRO, DE FERORAS E DE SUA MULHER CONTRA HERODES.
SALOMÉ AVISA-O. ELE MANDA MATAR FARISEUS QUE ERAM DESSA
CONJURAÇÃO E QUER OBRIGAR FERORAS A REPUDIAR SUA MULHER,
MAS ELE NÃO PODE DECIDIR-SE A ISSO.",
"726. Estando as coisas neste estado e Herodes, que se julgava muito que-
rido de Antípatro, tinha tanta confiança nele, que lhe dava plena autoridade e a
ambição desmesurada desse filho desnaturado faziam-no abusar do poder. Mas
ele ocultava sua malícia com tanta habilidade que seu pai não o percebia e ele
tornava-se assim, cada vez mais temível a todos, pela sua maldade e pelo seu
poder. Prestava grandes serviços a Feroras, e este, por sua vez, sendo enganado
pelas mulheres que favoreciam Antípatro, lhe fazia a Vorte, porque ele não
ousava desgostar sua mulher, nem sua sogra e sua irmã, embora as odiasse,
por causa dos maus tratos que infligiam às filhas, que ainda não eram casadas,
mas ele era obrigado a suportá-las, para não aborrecê-las, porque elas sabiam
muito dos seus planos, sendo assaz inteligentes e Antípatro tinha uma estreita
união com elas, por si mesmo e por sua mãe; essas quatro mulheres estavam
de acordo em tudo. Feroras e Antípatro tiveram, porém, uma séria divergência
por alguns motivos, aliás leves, à qual foram impelidos pela habilidade de
Salomé que, observando cuidadosamente todas as coisas, tinha descoberto que
eles conspiravam juntos contra o rei e estava prestes a avisá-lo. Mas isso
chegou ao seu conhecimento e eles resolveram não mais entreter-se
publicamente; fingiram estar antipatizados um com o outro, falavam mal um do
outro, principalmente na presença do rei, ou daqueles que lho podiam relatar, e
em segredo, mantinham relações e conversas, mais que nunca. Todavia, eles
nada puderam fazer para que Salomé, que tinha os olhos abertos sobre todas
as suas ações, não os descobrisse. Ela foi imediatamente contar ao rei que eles
ceavam juntos, sem que ninguém soubesse, que armavam planos de rebelião
para matá-lo, se ele não desse imediatamente um remédio ao caso, que fingiam,
na sua presença e na dos demais, estar em inimizade, usando palavras
ofensivas, mas em particular, tinham mais amizade do que nunca, não se podia
duvidar de que eles conspiravam contra aqueles aos quais tinham tanto
cuidado em ocultar as suas relações. Herodes já sabia algo, pois tinham
desconfiado; mas ia com precaução, porque conhecia o caráter de sua irmã, que
não tinha escrúpulos em inventar calúnias, e sabia que ela e todas as outras
mulheres de que falamos eram muito afeiçoadas a uma seita de homens que
querem que os julguemos mais instruídos que os outros na religião, que eles
são tão queridos de Deus, que Ele se lhes comunica e dá-lhes o conhecimento
das coisas futuras. São chamados fariseus. Eles são muito astuciosos e
atrevidos, não temendo, nem mesmo às vezes, erguer-se contra os reis e atacá-
los abertamente. Assim, toda a nação dos judeus obrigou-se por juramento a
ser fiel ao rei e ao imperador; mais de seis mil deles, porém, recusaram-se a
fazer esse juramento. Herodes condenou-os a uma multa e a mulher de Feroras
pagou-a por eles. Para agradecer esse favor, eles disseram-lhe que a vontade de
Deus era que se tirasse o reino a Herodes e aos seus descendentes para dá-lo a
Feroras, seu marido, e aos filhos que tivesse dele. Salomé descobriu ainda essa
conjuração e disse que alguns da corte a ela haviam sido conquistados, por
meio de presentes. Ela avisou ao rei e ele mandou matar os fariseus que foram
descobertos como principais autores da trama, como também o eunuco Bagoas
Caro que ele amava pela sua extrema beleza e, em geral, todos os seus
domésticos que eles acusaram de ter aderido àquela conspiração. Os fariseus
tinham feito Bagoas crer que não somente o novo rei, cuja grandeza prediziam,
considerá-lo-ia como seu benfeitor e como seu pai, mas ele mesmo casar-se-ia e
poderia ainda gerar filhos.
727. Depois que Herodes fez morrer os fariseus, reuniu seus amigos e
disse-lhes que a mulher de Feroras, que estava presente, tinha sido a causa da
injúria que ele lhe tinha feito de recusar desposar as princesas suas filhas; que
ela nada tinha esquecido naquela ocasião e em todas as outras, para ajuntá-
los; que ela tinha pago a multa à qual ele tinha condenado os fariseus rebeldes,
e que ela era culpada daquela última conspiração. E assim, Feroras não devia
esperar que ele lhe rogasse, para repudiar uma pessoa que só procurava lançar
a divisão entre eles, pois não podia conservá-la sem romper com ele.
Feroras, embora muito impressionado com estas palavras, disse, depois
de ter protestado, que ele conservaria sempre muito religiosamente o afeto e a
fidelidade que era obrigado a conservar pelo rei, seu irmão, que não podia
resolver-se a repudiar sua mulher, pois a amava tanto que a morte lhe seria
mais suave, do que a separação. Herodes ficou muito ofendido com essa
resposta, não lhe manifestou, porém, sua cólera; contentou-se em proibir a
Antipatro e à sua mãe, que se comunicassem com ele, nem tivessem relação
alguma com as rainhas, suas esposas. Eles prometeram-lhe, mas não
deixavam, todavia, quando podiam encontrar a ocasião, de cear secretamente,
juntos, principalmente Feroras e Antipatro, que se julgava estarem de
combinação com sua mulher e que a mãe de Antipatro era sua confidente.",