Livro Decimo Setimo Flávio Josefo
Capítulo 1 Flávio Josefo
,
"ANTÍPATRO QUER ANTECIPAR A MORTE DO REI HERODES, SEU PAI, PARA REINAR EM
SEU LUGAR. FILHOS QUE HERODES TEVE DE SUAS NOVE MULHERES.",
"722. Embora Antípatro tivesse, pela morte de seus irmãos, feito um
grande progresso em seu abominável desígnio, de atentar contra a vida de seu
pai, sua impaciência por reinar era tão grande, que ele não podia suportar os
outros obstáculos que retardavam a realização de suas esperanças. Livre do
temor de que seus irmãos viessem a dividir com eles o governo, ele se
encontrava, no entanto, numa ansiedade maior ainda, pelo ódio que todo o
povo lhe votava e pela versão que tinham por ele os mesmos soldados, que são
os únicos que podem sustentar o trono dos reis, quando sobrevêm os
acontecimentos e as revoluções; ele não podia atribuir senão a si mesmo toda a
culpa dessa aversão geral por ele, pois ele mesmo a havia atraído sobre si,
procurando a ruína de seus irmãos. Não deixava, porém, de governar todo o
reino com seu pai, como se já estivesse de posse do trono, porque Herodes
tinha nele a máxima confiança e em vez de sentir horror pela sua traição para
com seus irmãos, ele se lhe mostrava agradecido, na persuasão de que não era
o ódio que ele lhes tinha, que o havia levado a agir assim, mas seu afeto por ele
e o interesse que tinha pela sua conservação, embora a verdade fosse que se
insurgia contra ele com tal furor, que não odiava somente suas pessoas, mas
também por causa de seu pai, porque ele temia todos os que podiam descobrir-
lhe a traição e opor-se ao desígnio que ele tinha formado de tirá-lo do mundo,
para tomar o seu lugar. Mas como esse mesmo temor de ser descoberto e de
não ter então maior inimigo do que seu pai, não podia acabar, enquanto ele
vivesse, ele se apressava de levar a cabo a sua detestável empresa. Assim, tudo
ele fazia com esse objetivo, para conquistar por ótimos presentes os principais
amigos de seu pai e principalmente os que ele tinha em Roma, e mais que
qualquer outro, a Saturnino, governador da Síria e seu irmão. Esperava
também conquistar para o seu partido Salomé, sua tia, que então tinha
desposado um dos maiores amigos de Herodes; pois não havia homem mais
fingido e mais astucioso do que Antípatro, nem capaz de enganar com pretexto
de amizade. Mas como Salomé conhecia perfeitamente o seu espírito, foi-lhe
impossível surpreendê-la, embora ele tivesse encontrado o meio de fazer que
sua filha, viúva de Aristóbulo, tivesse desposado seu tio materno. Quanto à
outra filha, tinha desposado Calleas e ela mesma, continuando sua paixão por
Silleu, queria ainda desposá-lo; mas Herodes a obrigou a se casar com Alexas e
empregou para decidi-la a isso o auxílio da imperatriz, que a fez saber, que o
rei, seu irmão, tendo jurado não amá-la nunca, se recusasse esse partido, ela
não poderia tomar uma melhor resolução, do que dobrar-se ao seu desejo.
723. Nesse mesmo tempo, Herodes mandou a princesa Glafira, viúva de
Alexandre, de volta a Arquelau, seu pai, pagando de seus bens, o que ela tinha
trazido ao casamento, para eliminar todo pretexto de queixa. Ficavam dois
filhos daquele casamento e Aristóbulo tinha deixado três de Berenice e duas
filhas. Herodes tudo fez para bem educá-las, recomendava-as freqüentemente
aos amigos, deplorava a infelicidade de seus filhos, rogava a Deus que seus
netos fossem mais felizes e crescendo em virtude bem como em idade, eles lhe
agradecessem o cuidado que tomava de sua educação. Deu como esposa ao
filho mais velho de Alexandre a filha de Feroras, seu irmão; ao filho mais velho
de Aristóbulo, a filha de Antípatro, ao filho do mesmo Antípatro, uma das filhas
de Aristóbulo e a Herodes, seu filho, que ele tivera da filha do sumo sacerdote,
com a permissão que nossas leis nos dão, de ter várias mulheres, a outra filha
de Aristóbulo. Seu principal intento nessas alianças era levar Antípatro a ter
compaixão e ternura para com esses órfãos; mas ele não os odiava menos do
que havia odiado seus pais; e o afeto do rei por eles, em vez de lho causar,
punha-o, ao invés, em grave tristeza. Ele temia que, quando fossem adiantados
em anos, se opusessem ao seu poder, com o auxílio de Arquelau, seu avô, e do
tetrarca Feroras, do qual, se o projeto se realizasse, o filho teria desposado uma
das filhas de Aristóbulo. Seu temor aumentava ainda, pela compaixão que o
povo demonstrava por esses jovens príncipes, pelo ódio que ele sabia que lhe
tinham, por ter sido a causa da sua infelicidade e pela disposição em que ele o
via de manifestar ao rei sua maldade, quando se apresentasse a ocasião e de
lhe relatarem as astúcias e artifícios de que ele se servia para arruinar seus
irmãos. Assim, para impedir que seus sobrinhos pudessem dividir um dia com
ele a autoridade, nada havia que ele não fizesse, para mudar a resolução
tomada por Herodes, com relação aos casamentos e por fim ele obteve com seus
rogos que lhe permitisse desposar a filha de Aristobulo e que seu filho
desposasse a filha de Feroras.
724. Herodes tinha então nove mulheres, a primeira das quais era a mãe
de Antipatro. A segunda era filha do sumo sacerdote Simão e dela tivera um
filho de nome Herodes, como ele. A terceira era filha de seu irmão. A quarta era
sua prima-irmã e não tivera filhos nem de uma nem de outra. A quinta era
samaritana e dela tivera dois filhos, Arqueiau e Antipas, e uma filha de nome
Olímpia, que José seu cunhado desposou depois; Arqueiau e Antipas tinham
sido educados em Roma, por um de seus amigos. A sexta, chamada Cleópatra,
era de Jerusalém e dela tivera dois filhos, Herodes e Filipe, o último dos quais
também tinha sido educado em Roma. A sétima chamava-se Padas; dela tivera
um filho de nome Fazael. A oitava chamava-se Fedra e dela tivera uma filha de
nome Roxana. A nova chamava-se Elpídia, da qual tivera uma filha chamada
Salomé. Quanto às suas duas filhas, irmãs de Alexandre e de Aristobulo, que
tivera de Mariana e que Feroras tinha recusado desposar, uma, ele havia
casado Antipatro, filho de Salomé, sua irmã, e a outra, com o filho de seu irmão
Fazael, como dissemos há pouco.",