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Livro Decimo Setimo Flávio Josefo

Capítulo 14 Flávio Josefo

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,
"SOBRE UM IMPOSTOR QUE SE DIZIA SER ALEXANDRE, FILHO DE HERODES. AUGUSTO
DESCOBRE A FRAUDE E O MANDA PARA A PRISÃO.",
"755. Nesse mesmo tempo, quando Augusto terminava a distribuição dos
bens deixados por Herodes em seu testamento, um judeu, educado em Sidom,
em casa de um liberto de um cidadão romano, tentou apoderar-se do trono,
pela semelhança que tinha, com Alexandre, que o rei Herodes, seu pai, tinha
feito morrer; essa semelhança era tanta, que aqueles que haviam'conhecido o
jovem príncipe estavam persuadidos de que era ele mesmo. Para poder enganar,
ele serviu-se de um homem de sua tribo, que tinha um conhecimento particular
de tudo o que se havia passado na família real e que não sendo menos astuto
do que mau, era muito capaz de suscitar aquela perturbação. Assim, ajudado
por ele, apresentou-se como Alexandre, que um daqueles aos quais Herodes
havia encarregado de matar, bem como a Aristóbulo, seu irmão, os tinha salvo
e havia posto outros em seu lugar. Esse homem, ensoberbecido pelas
esperanças com que se iludia, tentou enganar aos outros, como enganava a si
mesmo. Foi a Creta, persuadiu ali todos os judeus com os quais falou, tirou-
lhes dinheiro e depois passou à ilha de Meios, onde acreditando que ele era
sangue real, deram-lhe ainda muita atenção. Ele imaginou então mais do que
nunca que poderia conseguir o seu desejo; prometeu recompensar aos que o
ajudassem, e, acompanhado por eles, determinou ir a Roma. Quando pôs o pé
em terra, em Puteolos, todos os judeus que lá viviam e particularmente os que
Herodes havia beneficiado, apressaram-se e ir visitá-lo e já o consideravam
como seu rei, de que não há motivo de se admirar, pois os homens facilmente
acreditam nas coisas que lhes são agradáveis, e era difícil não se ser enganado
por tão perfeita semelhança. Mesmo os que tinham vivido familiarmente com
Alexandre, duvidavam muito pouco de que não fosse ele mesmo e não temiam
afirmá-lo com juramento. Quando esta notícia se divulgou por Roma, todos os
judeus que lá moravam, em grande número, foram dar graças a Deus, pela
felicidade inesperada, ante esse impostor, e suas aclamações, misturadas com
os votos que faziam pela sua prosperidade, demonstravam qual o seu respeito
pela grandeza de sua origem, da parte da rainha Mariana, de quem julgavam
que ele era filho. Encontraram-no numa liteira, com um soberbo séquito,
porque os judeus dos lugares por onde ele passava, nada poupavam para suas
despesas. Embora tivessem falado a Augusto desse pretenso rei do judeus, ele
não quis acreditar, porque conhecia muito bem a habilidade de Herodes, para
crer que ele se tivesse deixado enganar num assunto tão importante. No
entanto, como não queria dizer de todo que não era verdade, ordenou a um de
seus libertos de nome Celado que conhecia Alexandre muito bem e Aristóbulo,
seu irmão, que lhe trouxesse aquele homem. Ele foi procurá-lo e deixou-se
enganar, como os demais. Mas Augusto não se iludiu, porque a todos
sobrepujava em inteligência e, aquela semelhança, embora perfeita, não
impediu que ele notasse alguma diferença, observando atentamente o impostor,
quer, porque o trabalho lhe produzira calos nas mãos, pois sempre antes ele
vivera em condição humilde, quer porque nele não se via aquela graça, que a
nobreza do sangue e a educação dão aos que são criados com esmero e muito
cuidado. Assim, não duvidando de que o mestre e o discípulo agiam de acordo
para enganar a todos, ele perguntou àquele falso Alexandre, que havia
acontecido ao seu irmão Aristóbulo e porque ele não viera, como ele, pedir para
ser tratado segundo o que tinham motivo de pretender. Ele respondeu-lhe que
tinha ficado na ilha de Chipre, para não se expor ao perigo do mar, a fim de
que, se ele morresse, ficasse pelo menos um dos filhos de Mariana. Tendo
falado assim, tão ousadamente, o companheiro, que era o autor do embuste,
confirmou o que ele acabava de dizer. Mas Augusto, chamou à parte este moço
e disse-lhe: Contanto que não continueis a procurar enganar-me, como aos
demais, eu vos prometo como recompensa salvar-vos a vida. Dizei-me, portanto,
quem sois e quem vos pôs na idéia uma proeza tão arriscada, pois, um objetivo
tão grande e tão ousado, está acima de vossa idade. Estas palavras do
imperador espantaram de tal modo aquele miserável, que ele confessou toda a
comédia e disse-lhe quem a tinha imaginado e de que modo tinha sido
executada. Augusto, para manter o que tinha prometido, contentou-se de
mandá-lo à prisão, nas galeras, para o que ele servia muito bem, pois era forte e
robusto, e mandou prender o outro que o havia induzido à falcatrua. Quanto
aos judeus da Ilha de Meios, ficaram quietos pelo dinheiro que lhes haviam
dado e empregado tão mal para honrar a esse falso Alexandre e um fim tão
vergonhoso foi digno de tão temerária empresa.",