Livro Decimo Setimo Flávio Josefo
Capítulo 11 Flávio Josefo
,
"ALGUNS JUDEUS QUE PEDIAM VINGANÇA PELA MORTE DE JUDAS E DE
MATIAS, E DE OUTROS QUE HERODES TINHA FEITO QUEIMAR POR CAUSA
DAQUELA ÁGUIA ARRANCADA DO PORTAL DO TEMPLO, SUSCITAM UMA
REBELIÃO QUE OBRIGA ARQUELAU A MANDAR MATAR UNS TRÊS MIL.VAI
DEPOIS A ROMA PARA FAZER-SE CONFIRMAR REI POR AUGUSTO E ANTIPAS,
SEU IRMÃO, QUE TAMBÉM TINHA PRETENSÕES À COROA, VAI COM ELE.
ESTA QUESTÃO É PLEITEADA PERANTE AUGUSTO.",
"745. No entanto, alguns judeus que só queriam perturbação e agitação,
começaram a se reunir e a deplorar a cruel condenação de Matias e dos outros
que tinham sido torturados, por causa daquela águia arrancada do portal do
Templo. O temor que eles tinham de Herodes, os mantivera em silêncio, en-
quanto ele vivera; mas agora, depois da sua morte, eles se declaravam contra
ele, como se os ultrajes que faziam à sua memória pudessem dar um alívio, no
outro mundo, àqueles cuja morte lhes era muito sentida. Insistiram com
Arqueiau que vingasse tão grande injustiça, a morte de alguns amigos de
Herodes, que, diziam eles, haviam tido parte naquela execução e privasse do
sumo sacerdócio àquele ao qual ele a havia dado, para honrar esse cargo com
um homem virtuoso e digno dele. Embora Arqueiau, que se preparava para ir a
Roma fazer-se confirmar rei por Augusto, ficasse muito irado com esse pedido,
julgou dever procurar acalmar com a afabilidade, a tão grande tumulto.
Mandou o principal oficial de suas tropas dizer aos sediciosos que eles não se
deviam deixar levar a tal desejo de vingança, mas considerar que aquele castigo
de que se queixavam tinha sido aplicado segundo as leis; que seu pedido feria
sua autoridade, que o tempo não era próprio para semelhantes queixas, que
eles deviam pensar em conservar a união e a paz, até que Augusto o tivesse
confirmado na posse do reino e ele tivesse voltado de Roma; que então a tudo se
haveria de dar providência, depois de madura ponderação e com o
consentimento geral; mas que no momento, deviam ficar em paz e tranqüilos,
sem se tornarem culpados do crime de uma revolta. Os sediciosos, porém, em
vez de se acalmar, com essas ponderações, muito justas, mostraram com seus
gritos que só se poderiam reduzir à obediência, com perigo de vida, porque a
paixão que os fizera perder o respeito por seus superiores, os persuadia de que
era coisa insuportável, não poder, mesmo depois da morte de Herodes, obter a
vingança que pedia o sangue de seus amigos, que tão cruelmente haviam feito
derramar. Eles não conheciam outra justiça, que não a que lhes pudesse dar
aquela consolação, e o desejo de obtê-la não lhes permitia avaliar o perigo em
que se metiam. Assim, em vez de se deixarem convencer pelas razões da parte
do rei e de se conterem pelo respeito que lhe deviam, irritaram-se ainda mais e
é fácil de se imaginar como a festa da Páscoa que estava próxima lhes
aumentava o número, a sedição podia aumentar também. Porque não somente
toda a Judéia soleniza essa ocorrência, com grande alegria e com inúmeras
vítimas, mais que de costume, em memória da nossa libertação do Egito, mas
uma multidão inumerável de judeus, que moram fora do reino, vêm por devoção
a Jerusalém para assisti-la. Nesse tempo, esses rebeldes, que choravam a
morte de Judas e de Matias, não se afastavam do Templo e não tinham
vergonha de mendigar, para não serem obrigados a se afastar dali. O temor de
Arquelau de que sua insolência fosse além fez com que mandasse um oficial
com soldados para contê-los, antes que eles tivessem contaminado, com esse
espírito de revolta, o resto do povo, ordenando-lhe que lhe trouxessem aqueles
que ousassem resistir. Os rebeldes, vendo-os chegar, incitaram de tal modo o
povo com seus gritos e com suas exortações a atacá-los, que eles se lançaram
contra os mesmos e os mataram quase todos. Com dificuldade o oficial se pôde
salvar, ferido, com o resto dos soldados; os sediciosos continuaram como antes,
a celebração de seus sacrifícios. O rei, então, julgando que não podia deixar
semelhante revolta impune, mandou contra eles todo o exército com ordem à
cavalaria de matar os que saíssem do Templo para fugir, de impedir que os
estrangeiros os socorressem. Assim, mataram três mil homens e o resto fugiu
para os montes vizinhos. Mandou depois o soberano intimar que todos se
retirassem; então o temor do perigo fez deixarem os sacrifícios àqueles que
antes se mostravam tão atrevidos.
746. Depois que Arquelau reprimiu essa revolta como dissemos, deixou
sua casa e o reino aos cuidados de Filipe, seu irmão e partiu para Roma; levou
sua mãe, Nicolau, Ptolomeu e vários outros amigos. Salomé, sua tia,
acompanhou-o também com toda a família e vários outros dos seus parentes
fizeram o mesmo, com o pretexto de querer servi-lo para fazê-lo obter a
confirmação do reino, mas na verdade, para obstaculá-lo e acusá-lo, dentre
outras coisas, de ter feito matar tanta gente no Templo. Em Cesaréia ele
encontrou Sabino, intendente de Augusto, na Síria, que partia para ir com
urgência, à Judéia, a fim de conservar os tesouros deixados por Herodes. Mas
Varo, ao qual Arquelau tinha mandado Ptolomeu, para esse fim, impediu-lhe a
passagem. Sua consideração fez que em vez de se apoderar das fortalezas e de
pôr o selo naqueles tesouros, ele deixasse tudo em poder de Arquelau até que o
imperador tivesse determinado e ficou em Cesaréia. Mas depois quer Arquelau
embarcou para Roma e que Varo partira, para voltar a Antioquia, ele foi a
Jerusalém, alojou-se no palácio real e ordenou aos tesoureiros gerais que lhe
prestassem contas e ordenou aos comandante das fortalezas da cidade que as
entregassem a ele. Estes, que tinham ordens contrárias de Arquelau e que
queriam conservar aquelas praças de guerra, até a sua volta, responderam que
as conservariam para o imperador.
747. Nesse mesmo tempo, Antipas, um dos filhos de Herodes, foi também
a Roma a conselho de Salomé, com o fim de obter o reino, em vez de Arqueiau,
pois tinha sido nomeado por Herodes, para seu sucessor no testamento prece-
dente, que, ele pretendia, tivesse mais valor que o primeiro. Levou consigo sua
mãe e Ptolomeu, irmão de Nicolau, que tinha sido o maior amigo de Herodes e
que era do seu partido; Irineu, homem mui eloqüente e que tinha durante
vários anos se ocupado, por determinação do rei, seu pai, dos negócios do
reino, mais que todos lhe infundira na idéia aquela pretensão, tanto que ele não
quisera escutar os que o aconselhavam a ceder a Arqueiau, como sendo o mais
velho e indicado pelo rei, como uma das suas últimas disposições. Quando
Antipas chegou a Roma, todos os seus parentes uniram-se a ele, não tanto pelo
afeto, como pelo ódio que tinham a Arqueiau e pelo desejo de gozar de uma
espécie de liberdade, estando sujeitos somente aos romanos: ou pelo menos,
com a esperança, de que, se aquele projeto desse resultado, encontrassem
menos rigor e severidade sob o governo de Antipas do que sob o do seu irmão;
Sabino escreveu a Augusto contra Arqueiau.
748. Arqueiau, então, para defender seu direito, fez apresentar ao
imperador um memorial, que continha suas razões. Depois que Augusto leu
estes memoriais, que viu as cartas que Varo e Sabino lhe haviam escrito e que
teve conhecimento de a quanto montavam as rendas da Judéia, reuniu um
grande conselho de seus maiores amigos, do qual deu a presidência a Caio
César, filho de Agripa e de Júlia, sua filha, que ele tinha adotado. Em seguida
deu audiência aos dois pretendentes. Antípatro, filho de Salomé, que era muito
eloqüente e inimigo mortal de Arqueiau, começou por primeiro e disse: que era
apenas por formalidade que Arqueiau disputava o reino, pois, sem esperar qual
seria a esse respeito a vontade do imperador, ele se tinha apoderado dele,
fazendo matar num dia de festa, um número tão grande de judeus. Que era
verdade que eles bem o haviam merecido, mas somente poderia castigá-los,
aquele que tinha o legítimo poder. Se ele o havia atribuído a si mesmo, como
rei, sem esperar a confirmação do imperador, ele o havia ofendido muito e era
ainda mais culpado; e assim não podia esperar ser por ele honrado com uma
coroa, depois de ter mostrado que não considerava que ele tinha o direito de lha
dar. Acusou em seguida a Arqueiau de ter com sua autoridade particular
mudado vários oficiais do exército; de se ter sentado no trono e de aí ter, na
qualidade de rei, ouvido várias causas, dando a sentença a várias delas, de ter
concedido ao povo favores que ele lhe havia pedido, de ter libertado aqueles que
seu pai tinha encerrado no hipódromo e por fim, de ter feito tudo o que teria
podido fazer, depois de ter sido confirmado rei pelo imperador. Citou ainda
várias outras coisas, umas, verdadeiras, outras, que a ambição de um homem
ainda jovem e recém-elevado ao sumo sacerdócio tornava verossímeis.
Acrescentou que Arqueiau tinha sentido tão pouco a morte de Herodes, que
tinha na noite seguinte dado um banquete, que teria podido causar uma
rebelião, tanto horror o povo sentira por vê-lo insensível às últimas obrigações,
que ele devia ao próprio pai; e como um ator de teatro que desempenha
diversos papéis, ele, durante o dia, parecia chorar, mas passara a noite no meio
dos prazeres a que os reis se podem dar. Como se pode considerar um crime,
cantar e regozijar-se depois da morte de um pai, como se fosse a morte de um
inimigo, o imperador podia julgar da satisfação que poderia ter um homem de
tão mau gênio, se consentisse em seu pedido e que era estranho que ele
ousasse comparecer diante dele, para ser confirmado no reino, depois de ter
agido em tantas coisas, como se já fosse rei. Antípatro insistiu em seguida,
sobre aquele horrível assassínio, tão ímpio, cometido no Templo, onde num dia
de festa se haviam visto estrangular como vítimas, não somente cidadãos, mas
também estrangeiros e aquele lugar santo, repleto de cadáveres, por ordem, não
de um príncipe inimigo e de outra nação, mas daquele que se servia do nome
tão venerável de rei legítimo, para satisfazer à sua tirânica paixão e exercer toda
espécie de crueldade. Herodes também, que conhecia as suas más inclinações,
tinha pensado tão pouco, enquanto ainda tinha saúde, em deixar-lhe o reino
que ele havia, no seu testemunho precedente, o qual tinha muito mais valor
que o segundo, escolhido Antipas para seu sucessor, cujos costumes eram tão
opostos aos de Arqueiau a tomado aquela deliberação, num tempo em que não
se podia dizer, como depois, que seu espírito tinha morrido antes de seu corpo,
mas quando as forças de um e de outro, ainda estavam todas completas e
inteiras. Que quando mesmo fosse verdade que Herodes tinha desde então os
mesmos sentimentos que demonstrou no seu último testamento, Arqueiau não
havia mostrado que rei seria, desprezando a coroa das mãos do imperador e
fazendo massacrar no Templo tantos cidadãos, quando ele mesmo ainda era
um simples cidadão. Antípatro assim terminou seu discurso e tomou como
testemunhas da verdade do que ele tinha dito vários dos parentes desses dois
príncipes.
Nicolau disse, ao contrário, para defender a causa de Arqueiau, que não
se devia atribuir aquele sangue derramado perto do Templo, senão à insolência
e teimosia dos rebeldes, que haviam obrigado Arqueiau a usar da força para
contê-los; que ainda que parecesse que se revoltaram somente contra ele, era
claro que o faziam também contra o imperador, pois, sem temer violar o direito
das gentes, nem ter por Deus, respeito algum, na solenidade de tão grandiosa
festa, tinham matado os que Arqueiau havia mandado, para apaziguar o
tumulto e que Antípatro devia ter vergonha de se ter deixado levar de tal modo
por sua paixão contra Arqueiau, atrevendo-se a desculpar àqueles rebeldes, em
vez de reconhecer que os únicos culpados haviam sido os que foram mortos,
pois, por primeiro haviam atacado os outros e os haviam obrigado a se servir
das armas contra eles, quando as tinham consigo apenas para a própria defesa.
Nicolau atirou do mesmo modo sobre os acusadores todas as outras coisas
alegadas contra Arqueiau, dizendo que tudo ele havia feito, por sua opinião e
que elas não eram como eles as tinham apresentado, pelo seu desejo ardente e
injusto de prejudicar o príncipe, seu parente, cujo pai, não somente lhes havia
feito tantos benefícios, mas que ele mesmo lhes havia sempre prestado muito
bons serviços. Com relação ao testamento de Herodes, disse que ele tinha a
mente muito sã e muito livre, quando o fizera; que as últimas são as que devem
merecer toda a atenção e que o seu devia ser tanto mais válido, pois dele tinha
feito o imperador senhor absoluto, deixando a ele que resolvesse como melhor
lhe aprouvesse. Que ele tinha certeza de que esse grande príncipe não agiria
como aqueles, que tendo recebido tantos benefícios de Herodes, esforçavam-se
por subverter suas últimas disposições mas que ele teria prazer em confirmar o
testamento de um rei seu amigo e aliado, pois havia uma extrema diferença
entre a malícia dos inimigos de Arqueiau e a virtude e a boa-fé do imperador,
que sem dúvida jamais se persuadiria de que um homem, que tinha com tanta
prudência submetido todas as coisas à sua vontade, tivesse a mente turbada,
quando escolhera para sucessor um de seus filhos, cheio de probidade, e que
esperava somente a bondade do imperador, para ser mantido no reino que
havia deixado.
Quando Nicolau terminou este discurso, Arqueiau lançou-se de joelhos
diante de Augusto. Ele o ergueu, com grande afabilidade e disse-lhe, que o
julgava digno de reinar e que estava disposto a nada fazer que lhe fosse
prejudicial e conforme ao testamento de seu pai. Assim, tendo dado a Arqueiau
ou se o dividiria entre os filhos de Herodes, que tinham recorrido a ele, como
tudo podendo esperar, do seu afeto por eles.",