Livro Decimo Quinto Flávio Josefo
Capítulo 9 Flávio Josefo
,
"ANTÔNIO É DERROTADO POR AUGUSTO NA BATALHA DE ÁCCIO. HERODES
MATA HIRCANO E QUAL O PRETEXTO PARA ISSO. DECIDE PROCURAR AUGUSTO.
ORDENS QUE DÁ ANTES DE PARTIR.",
"647. Depois de tão vantajoso resultado, Herodes voltou a Jerusalém cheio
de honras e de glória. Mas, quando parecia viver na mais franca prosperidade, a
vitória de Augusto sobre Antônio, em Áccio, o colocou em tão grande perigo que
ele se julgou perdido. Todos os seus amigos e inimigos eram do mesmo parecer,
pois ninguém se podia persuadir de que aquela grande amizade entre ele e
Antônio não lhe viesse causar a própria ruína. Assim, os que deveras o amavam
não podiam dissimular a dor que sentiam. Os que o odiavam fingiam lamentá-
lo, embora no coração sentissem grande alegria, pois assim podiam esperar
alguma mudança nos acontecimentos.
Como Hircano era o único de família real, Herodes julgou necessário
mandar matá-lo, a fim de que, se conseguisse escapar de tão grande perigo,
ninguém pudesse pretender a coroa, com prejuízo seu. Ou, se Augusto
mandasse matá-lo, ele teria pelo menos a consolação de saber que Hircano não
teria o prazer de sucedê-lo. Alimentava ele esses pensamentos, quando a
família onde ele se havia hospedado ofereceu-lhe uma oportunidade para
executar o seu desígnio.
Hircano era por natureza excessivamente manso e jamais se ocupara
completamente dos negócios. Tudo ele entregava à sorte e recebia de sua mão o
que ela mandava, sem demonstrar descontentamento. Sua filha Alexandra, que,
ao invés, era ambiciosa, não se podia contentar com a esperança de uma
modificação. Ela solicitava-lhe sem cessar que não permitisse por mais tempo a
Herodes perseguir assim a sua família e pensasse em sua segurança,
conservando-se para uma sorte melhor. Aconselhou-o a escrever a Malque, que
então governava a Arábia, e pedir-lhe proteção e refúgio junto dele, não
havendo dúvida de que, se a sorte de Herodes fosse tão má como o ódio de
Augusto contra ele dava motivos para crer, a nobreza de sua família e o afeto
que todo o povo lhe consagrava poderiam fazê-lo voltar ao trono.
Hircano de início rejeitou a proposta, mas Alexandra não deixava de
apresentar as probabilidades que ele tinha: de um lado, esperar chegar à coroa;
de outro, temer a traição e ^crueldade de Herodes. Ele deixou-se convencer, por
fim, à insistente importunação. Escreveu a Malque por meio de um amigo, de
nome Dositeu, rogando que lhe mandasse alguns cavaleiros que pudessem
levá-lo até o lago Asfaltite, distante trezentos estádios de Jerusalém. Hircano e
Alexandra escolheram Dositeu por julgarem-no um homem inteiramente
dedicado a eles e inimigo de Herodes, pois era parente de José, a quem o rei
mandara matar e também porque Antônio matara em Tiro dois de seus irmãos.
Ele, porém, foi-lhes infiel. Na esperança de obter vantagens, entregou a carta
nas mãos de Herodes.
O soberano demonstrou muita satisfação e reconhecimento e pediu a ele
outro favor: levar a carta ao destinatário, Malque, e trazer-lhe a resposta, pois
importava conhecer os sentimentos deste. Dositeu cumpriu fielmente todas
essas incumbências, e o árabe, por meio dele, mandou a Hircano a resposta,
dizendo que o receberia, bem como a todos os judeus de seu partido, que
mandaria uma escolta para conduzi-lo em segurança e que o ajudaria em tudo.
Herodes, de posse dessa carta, mandou chamar Hircano ao seu conselho e
perguntou-lhe que tratado ele fizera com Malque. Respondeu este que nenhum
tratado havia feito. O rei então apresentou-lhe a carta e ordenou imediatamente
que o matassem.
Foi assim que o próprio Herodes narrou esse fato nos seus comentários.
Outros dizem que não foi por esse motivo que ele mandou matar Hircano, mas
porque este havia atentado contra a sua vida, e contam o caso deste modo:
Herodes perguntou a Hircano, num banquete, sem manifestar a sua
desconfiança, se ele havia recebido alguma carta de Malque. Ele respondeu que
sim, mas somente de saudação. Herodes acrescentou: Não recebestes
presentes, também? Hircano respondeu: Sim, mas somente quatro cavalos
para o meu carro. Herodes então, acusou-o de traição e de se ter deixado
subornar e ordenou que o matassem.
Esses mesmos escritores, para mostrar que Hircano era inocente, dizem
que, tendo desde a sua mocidade — e mesmo depois de ser feito rei —
demonstrado excessiva mansidão, grande prudência e moderação e tendo agido
quase sempre a conselho de Antípatro, pai de Herodes, não havia nenhuma
razão, visto que o rei Herodes estava bem firme no trono, para ele ter saído, na
idade de oitenta anos, de além do Eufrates, onde era muito honrado, para viver
sob a sua dominação e se entregar a um empreendimento tão alheio à sua
natureza. Porém, há muito mais motivo para se crer que esse pretenso crime
lhe tenha sido atribuído pelo próprio Herodes.
Assim morreu Hircano, cuja vida foi agitada por muitas e graves
perturbações. Ele foi constituído sumo sacerdote sob o reinado de Alexandra,
sua mãe, e exerceu esse cargo durante nove anos. Sucedeu no reino a essa
princesa e foi deposto três meses depois por Aristóbulo, seu irmão. Pompeu
restaurou-o, e ele governou durante quarenta anos. Foi depois exilado por
Antígono, castigado e levado como escravo pelos partos. O rei colocou-o em
liberdade, e ele voltou à Judéia. E não somente não viu a realização das
promessas que Herodes havia feito, como, após passar uma vida cheia de
incertezas e amarguras, terminou os seus dias em adiantada velhice com uma
morte deplorável, que não havia absolutamente merecido. Como era muito
manso, moderado e amante da tranqüilidade e sabia não ter as condições
necessárias para governar, servia-se em quase tudo do ministério de outrem.
Essa excessiva bondade deu a Antípatro e a Herodes ocasião para se elevarem
ao auge da autoridade e levarem a coroa à família deles. A morte foi a recom-
pensa que esse infeliz príncipe recebeu da ingratidão de Herodes.
648. Depois que Herodes se desfez de Hircano, foi procurar Augusto, de
quem nada esperava de favorável, por causa da inimizade que havia entre este e
Antônio. Temia ao mesmo tempo que Alexandra aproveitasse a sua ausência
para amotinar o povo contra ele e perturbar a nação. Ele deixou o governo a
Feroras, seu irmão. Colocou Cipro, sua mãe, sua irmã e todos os seus parentes
na fortaleza de Massada e ordenou a Feroras que, se na sua viagem algo de mal
lhe viesse a suceder, tomasse o governo do reino.
Quanto a Mariana, que não se acertava com Cipro nem com Salomé, ele a
colocou com Alexandra, sua mãe, no castelo de Alexandriom, cuja guarda
confiou a José, seu tesoureiro, e a Soeme Itureu, em quem desde o começo de
seu reinado depositara sempre a sua inteira confiança. Tomou como pretexto
querer prestar às princesas essa honra, mas deu a esses dois homens ordens
secretas, caso a viagem lhe corresse mal: deveriam matá-las logo que tivessem
notícias de sua morte e depois ajudar Feroras com todas as suas forças a
conservar o reino aos seus filhos.",