Livro Decimo Quinto Flávio Josefo
Capítulo 4 Flávio Josefo
,
"HERODES É OBRIGADO A JUSTIFICAR-SE DIANTE DE ANTÔNIO PELA MORTE DE
ARISTÓBULO E O CONQUISTA POR MEIO DE PRESENTES. ANTES DE PARTIR,
ORDENA A JOSÉ, SEU CUNHADO, QUE MANDE MATAR MARIANA, CASO
ANTÔNIO O CONDENE À MORTE. JOSÉ CONTA-O IMPRUDENTEMENTE À
PRINCESA, E HERODES MANDA MATÁ-LO, POR CIÚME. AVAREZA INSACIÁVEL
E AMBIÇÃO DESMESURADA DE CLEÓPATRA.",
"637. A perda de um filho tão amável fez uma ferida tão profunda no
coração de Alexandra que nada podia consolá-la. Seu penar renovava-se todos
os dias, com sentimentos tão vivos que todos a animavam continuamente a se
vingar. Ela escreveu então a Cleópatra, narrando como Herodes lhe havia
arrebatado o filho, com tão detestável traição. A rainha, que sempre fora
inclinada a ajudá-la, teve tanta pena de sua desdita que tudo fez para
persuadir Antônio a vingar uma morte tão deplorável. Falou-lhe como de coisa
horrível, na qual ia também algo da honra dele, pois Herodes, depois de ter sido
por seu intermédio elevado ao trono, ao qual não tinha direito, praticara aquela
rara crueldade, derramando o sangue daquele que era o legítimo possessor.
Antônio ficou impressionado com essas palavras e, como não podia aprovar tão
negra ação, caso fosse verdadeira, dirigiu-se a Laodicé, dando ordem para que
Herodes fosse procurá-lo a fim de se justificar do crime de que o acusavam.
Herodes, que se sentia culpado e receava a ira de Cleópatra, que ele sabia
incitar continuamente Antônio contra ele, temia muito essa viagem. A
necessidade de obedecer, no entanto, o obrigou a empreendê-la, e ele deixou o
governo do reino a José, seu cunhado,* ordenando-lhe em segredo que, se
Antônio o condenasse, ele deveria imediatamente matar a rainha Mariana, sua
mulher, pois ele a amava com tanta paixão que não podia tolerar que, depois de
sua morte, ela passasse para outro homem. Além disso, considerava que ela era
a causa de sua infelicidade, pois a fama de sua extraordinária beleza suscitara
havia muito o amor de Antônio por ela. Depois de dar essas ordens, ele se pôs a
caminho, com pouca esperança de um feliz êxito.
* A continuação da história nos faz ver que José era cunhado de Herodes,
e não seu tio, como nos refere o texto grego.
638. Na ausência de Herodes, José ia freqüentemente visitar Mariana,
quer para prestar-lhe a honra que lhe era devida, quer para tratar dos negócios
do reino, e lhe falava constantemente do extremo amor que o rei seu marido
tinha por ela. Quando ele notou que, em vez de mostrar que acreditava, ela se
punha a zombar, e Alexandra, sua mãe, mais que ela ainda, um imprudente
desejo de fazê-las mudar de sentimento levou-o a revelar a ordem que recebera,
o que comprovava que Herodes não podia tolerar que a morte o separasse dela.
Essas palavras, todavia, em vez de persuadir as princesas do afeto de Herodes,
causaram-lhes horror, pela tirânica desumanidade que, mesmo após a morte, o
tornava tão cruel para com a pessoa a quem ele mais amava na terra.
639. Os inimigos desse príncipe então fizeram correr a notícia de que
Antônio mandara matar Herodes, depois de submetê-lo a diversos tormentos.
Toda a cidade de Jerusalém ficou agitada, principalmente no palácio real e no
das princesas. Alexandra exortou José a sair com ela e com Mariana, a fim de
se colocarem sob a proteção das águias romanas — da legião comandada por
Júlio, que estava acampada fora da cidade — e assim ficarem em segurança,
caso houvesse algum tumulto, e também porque ela não duvidava de que
quando Antônio visse Mariana obteria dele tudo o que quisesse, até mesmo a
restauração ao trono e todas as outras honras e privilégios que o seu
nascimento lhe permitia esperar.
Pensavam assim, quando receberam cartas de Herodes, contrariando
essas notícias. Diziam que, tendo chegado onde Antônio estava, havia acalmado
o seu espírito com grandes presentes, tornando-o tão favorável nas
conversações que tivera com ele que não havia mais motivo para temer os maus
ofícios de Gleópatra, porque Antônio afirmava que um refnão era obrigado a
prestar contas a ninguém de suas ações com relação ao governo de seu
território, pois se assim fosse deixaria de ser rei, não podendo agir com a
autoridade que tal posição lhe concede, e que não importava, nem mesmo a
Cleópatra, a maneira como os reis governam.
As cartas acrescentavam que não havia honras que ele não tivesse
recebido de Antônio, o qual se servia de seus conselhos e o convidava todos os
dias para banquetes, embora Cleópatra fizesse todos os esforços para destruí-
lo, pelo desejo que tinha de ser rainha da Judéia. Mas a justiça de Antônio
estava à porta dos artifícios e calúnias da princesa, e assim ele voltaria logo,
mais consolidado do que nunca em seu reino e no afeto de Antônio, sem que
restasse a Cleópatra esperança alguma de prejudicá-lo, porque Antônio
entregara a ela a Baixa Síria, com a condição de que desistisse das pretensões
que tinha sobre a Judéia.
640. Essas cartas fizeram Alexandra — e também Mariana — abandonar
a idéia de ficar sob a proteção das águias romanas, mas Herodes veio a sabê-lo.
Salomé, sua irmã, e sua mãe disso lhe falaram logo que ele chegou a Jerusalém
e depois que Antônio partiu em marcha contra os partos. Salomé fez ainda
mais. Para se vingar de Mariana, que tinha o coração extremamente grande,
mas havia censurado numa contestação entre ambas a baixeza da origem da
outra, ela acusou José, seu próprio marido, de ter se portado muito
familiarmente com a princesa. Herodes, que amava ardentemente Mariana,
sentiu então até onde iam os seus ciúmes. Conteve-se, todavia, embora com
dificuldade, para que não percebessem que a sua paixão o fazia perder o juízo.
E, em particular, perguntou a Mariana que relações ela tivera com José. Ela
protestou com juramento, do qual uma pessoa inocente pode se servir para a
sua justificação, que nada houvera entre eles que ele viesse a ter motivo para se
queixar.
Herodes, vencido pelo amor que lhe devotava, não somente acalmou o
espírito como também pediu perdão por ter, ainda que levemente, prestado fé
às palavras que lhe haviam dito. Demostrou ainda toda a satisfação que sentia
por saber que ela era tão fiel e tudo fez para mostrar-lhe com que paixão a
amava. Tantas provas de ternura fizeram, como acontece em casos
semelhantes, com que ambos se pusessem a chorar e se abraçassem. Porém,
ainda que Herodes se esforçasse por lhe incutir cada vez mais o seu amor, ela
não pôde deixar de lhe dizer: Achais então que é grande prova de amor ter
ordenado que me mandassem matar, caso Antônio também vos tirasse a vida,
embora eu jamais tivesse dado motivo para que ficásseis insatisfeito comigo?
Essas palavras foram como uma punhalada no coração de Herodes. Ele
afastou Mariana, a quem ainda estava abraçado, arrancou os cabelos e disse
que já não podia duvidar de seu crime, pois era impossível que José lhe tivesse
manifestado um segredo daquela importância sem que ela se tivesse entregado
a ele, para recompensá-lo pela traição. Ficou de tal modo transtornado pela
cólera que a teria matado naquele mesmo instante, se a violência do amor não
tivesse combatido a força do ciúme. Quanto a José, mandou imediatamente
matá-lo, sem nem mesmo querer vê-lo ou ouvi-lo, e mandou meter Alexandra
numa prisão, como sendo a causadora de todo aquele mal.
641. Nesse ínterim, a Síria estava convulsionada pela insaciável avareza
de Cleópatra, a qual, abusando do poder que exercia sobre o espírito de
Antônio, incitava-o continuamente contra os grandes do país, a fim de que ele
os privasse de suas terras e possessões e as entregasse a ela. O amor que ela
nutria pelas riquezas era tão grande que nada havia que não julgasse lícito para
obtê-las. A sua ambição era tão desme.surada que ela mandou envenenar o
irmão de quinze anos, ao qual pertencia o reino, e fez com que Antônio
mandasse matar Asinoé, sua irmã, enquanto esta orava em Éfeso, no Templo
de Diana. Ela não temia violar a santidade dos Templos, dos sepuicros ou dos
asilos, se deles pudesse obter dinheiro. Não tinha escrúpulos em cometer
sacrilégios, se lhe fossem úteis, nem diferençava os caminhos santos dos
profanos, quando se tratava de seus interesses. Não tinha nenhuma dificuldade
em calcar aos pés a justiça, contanto que daí lhe viesse alguma vantagem. Os
tesouros todos da terra dificilmente seriam suficientes para satisfazer essa
ambiciosa e voluptuosa princesa. Não devemos, portanto, nos admirar de que
ela instigasse continuamente Antônio a despojar os outros para enriquecê-la.
Assim, não havia ainda entrado com ele na Síria, quando sonhou
apoderar-se de toda a região. Mandou então matar Lisânias, filho de Ptolomeu,
dizendo que ele favorecia os partos. Depois insistiu com Antônio que tirasse a
Arábia e a Judéia de seus reis as entregasse a ela. No entanto, embora a paixão
de Antônio por ela fosse tão violenta que parecia havê-lo enlouquecido, ele não
quis cometer uma injustiça tão patente, que com certeza teria mostrado ao
mundo que ele era escravo de uma mulher. E, para não aborrecê-la com uma
negativa a todos os seus pedidos e também para não passar por injusto perante
todos se neles consentisse, deu-lhe tudo o que se havia suprimido dessas duas
províncias e todas as cidades situadas desde o rio de Eleutério até o Egito,
exceto Tiro e Sidom, que ele sabia terem sido sempre cidades livres, não
obstante os esforços que ela fazia para obtê-las.",