Livro Decimo Quinto Flávio Josefo
Capítulo 2 Flávio Josefo
,
"FRAATE, REI DOS PARTOS, PERMITE A HIRCANO, SEU PRISIONEIRO, VOLTAR À
JUDÉIA. HERODES OUTORGA O SUMO SACERDÓCIO A UM HOMEM SEM
MÉRITO. ALEXANDRA, SOGRA DE HERODES E MÃE DE ARISTÓBULO, DIRIGE-SE
A CLEÓPATRA PARA OBTER ESSE CARGO PARA O FILHO POR MEIO DE
ANTÔNIO. HERODES DESCOBRE E CONCEDE O CARGO A ARISTÓBULO.
FINGE RECONCILIAR-SE COM ALEXANDRA.",
"631. Hircano foi levado a Fraate, rei dos partos, e esse príncipe tratou-o
muito bem por causa da nobreza de sua família. Tirou-lhe as cadeias e permitiu
que morasse na Babilônia, onde havia um grande número de judeus. Ele era
honrado como sumo sacerdote e rei não somente pelos que se haviam
estabelecido naquela poderosa cidade, mas também por todos os outros judeus
que moravam além do Eufrates, e ele sentia-se feliz em sua desdita. E, quando
soube que Herodes subira ao trono, concebeu as maiores esperanças, tanto
porque o rei naturalmente amava os seus parentes e aliados quanto por julgar
que, tendo lhe salvado a vida quando ele corria o risco de ser condenado, nada
mais esperava dele senão reconhecimento. Assim, desejou ardentemente ir
procurá-lo e falou de seus planos àqueles em quem mais confiava.
Aconselharam-no, porém, a ficar, dizendo-lhe, para convencê-lo disso, que
todos os seus compatriotas naquele país já estavam prestando a ele todas as
honras que podiam prestar a seu sumo sacerdote e rei; que ele não podia
esperar a mesma coisa da Judéia, por causa da maneira ultrajosa como
Antígono o havia tratado; que a mudança de sorte muda também os
sentimentos dos homens, e jamais os reis se lembram dos favores recebidos
enquanto simples cidadãos; e que ele não devia esperar tanto afeto da parte de
Herodes. Essas opiniões, embora tão sensatas, não fizeram impressão no
espírito de Hircano, tanto ele estava ansioso para voltar. E Herodes escreveu-
lhe também, rogando que pedisse ao rei e aos judeus para não lhe invejarem o
contentamento de compartilhar o poder da realeza, pois chegara o tempo de
agradecer os favores que lhe devia, tanto por Hircano havê-lo elevado como por
lhe salvar a vida.
Esse fingido soberano não se contentou em escrever-lhe nesses termos,
mas também enviou Saramala como embaixador a Fraate, com muitos
presentes, para obter deste a liberdade de seu benfeitor e a oportunidade para
recompensá-lo pelos favores que recebera. Todas essas demonstrações de
amizade, no entanto, eram pura mentira e hipocrisia. A única coisa verdadeira
nisso tudo era que ele havia usurpado a coroa e temia uma reviravolta. Por isso
desejava com ardor ter Hircano ao seu alcance, para poder matá-lo, caso
julgasse tal coisa conveniente para a sua própria segurança, como nos faz ver a
continuação da história.
632. Hircano foi posto em liberdade pelo rei dos partos, e os judeus que
estavam na Babilônia forneceram-lhe o dinheiro necessário para a viagem.
Herodes tratou-o com muita deferência. Dava-lhe sempre o primeiro lugar nas
assembléias e nos banquetes, chamava-o de pai e tudo fazia para que ele não
suspeitasse de sua traição, porque desejava a todo custo conservar a posse da
coroa e reforçar a sua recente autoridade. Isso causou dissensões domésticas
que excitaram grande perturbação, por motivo que vou relatar.
O temor de que uma pessoa de origem ilustre fosse constituída no sumo
sacerdócio levou Herodes a mandar vir da Babilônia um sacerdote chamado
Ananel, oriundo de uma das mais obscuras famílias, e investiu-o nesse cargo.
Alexandra, mãe de Hircano e viúva de Alexandre, filho do rei Aristobulo, de
quem ela tivera um filho de nome Aristobulo, como o avô, e uma filha de nome
Mariana, mulher de Herodes, ficou muito sentida com a injustiça que este fez
ao filho, preterindo-o para honrar com tão excelsa dignidade um homem de
nenhum mérito.
Ela então escreveu a Cleópatra, por meio de um músico, rogando-lhe que
pedisse a Antônio o cargo para o filho. A rainha prestou-lhe de boa mente
aquele favor, mas nada pôde obter. Ao mesmo tempo, Célio, que era muito
amigo de Antônio, veio à Judéia para alguns negócios e admirou-se da beleza
extraordinária de Aristobulo e de Mariana, e da felicidade de Alexandra, por ter
posto no mundo tais filhos. Aconselhou-a a mandar retratos deles a Antônio,
não duvidando que ele, depois de os ter visto, faria tudo o que ela desejava. Ela
acreditou, e Gélio, ao regressar para junto dele, exagerou a beleza deles, afir-
mando que mais pareciam divindades que criaturas humanas, e tudo fez para
suscitar nele o amor por Mariana. Antônio, porém, julgou que não seria justo
obrigar um rei seu amigo a enviar-lhe a própria mulher. Além disso, temia a
inveja e o ciúme de Cleópatra. Assim, contentou-se em escrever a Herodes,
pedindo que lhe enviasse Aristobulo por algum pretexto honesto, se isso não lhe
viesse a causar nenhuma aflição.
Herodes julgou arriscado enviar uma pessoa da origem, beleza e idade de
Aristobulo, que então contava apenas dezesseis anos, a um homem de posição
tão elevada como Antônio, que era também o mais voluptuoso dos romanos,
pois podia ocultar a sua volúpia pela confiança que tinha em seu poder. Assim,
respondeu-lhe que Aristobulo não poderia sair da Judéia sem perigo de uma
guerra, pela esperança que tinham os judeus de ser beneficiados por uma troca
de rei.
633. Herodes, depois de se desculpar perante Antônio, julgou conveniente
dar atenção também a Aristobulo e a Alexandra e não descontentar Mariana,
que insistentemente pedia o sumo sacerdócio para o irmão. Ele julgou também
vantajoso tirar a Aristobulo qualquer ocasião de sair do país sob pretexto de
viagem. Reuniu em seguida os seus amigos mais íntimos e queixou-se muito de
Alexandra, dizendo que ela trabalhava secretamente para tirar-lhe a coroa e
para fazer com que Antônio, por meio de Cleópatra, a entregasse ao filho, e que
nisso ela era ainda mais culpada, pois não poderia obtê-lo sem fazer a filha
descer do trono e sem tirar ao genro uma honra que ele conquistara com
muitos sofrimentos e perigos, mas que ele desejava, no entanto, esquecer essa
injustiça e demonstrar em atos o seu afeto por ela e pelos seus, outorgando ao
filho dela o sumo sacerdócio que Ananel exercera até então por causa da pouca
idade de Aristóbulo.
Essas palavras, que Herodes premeditara para enganar as princesas e os
amigos, comoveram Alexandra, tanto pela alegria de obter o que tão
ardentemente desejava quanto pelo temor de ver que Herodes havia descoberto
os seus desígnios, e de tal modo que, banhada em lágrimas, ela lhe confessou
que tudo o que tentara referente ao sumo sacerdócio fora na persuasão de que
seria vergonhoso para o filho ver outro homem no cargo. Quanto ao que se
referia ao reino, porém, não tivera a menor idéia de pretendê-lo para o filho, e,
ainda que o oferecessem, ela não aceitaria, pois era uma grande honra ver a
filha reinar com ele e sua família, e nada tinha a temer. Por isso, vencida pelos
benefícios, ela recebia com gratidão a honra que ele fazia ao filho, e Herodes
podia ter a certeza de que ele lhe seria submisso. Rogou-lhe ainda que
perdoasse tudo o que os sentimentos de sua origem e a injustiça que julgava se
fazia a Aristóbulo a tinham levado a empreender. Em seguida, depois dessas
palavras, apertaram-se as mãos, para mostrar que a reconciliação era
verdadeira. E todos julgaram que, de fato, não havia mais entre eles nenhum
motivo de desconfiança.",
"CAPITULO 3",
"HERODES TIRA O CARGO DE SUMO SACERDOTE DE ANANEL E O ENTREGA A
ARISTÓBULO. MANDA PRENDER ALEXANDRA E ARISTÓBULO QUANDO ELES
TENTAM PROCURAR CLEÓPATRA PARA SE SALVAR. FINGE RECONCILIAR-SE COM
ELES. MANDA AFOGAR ARISTÓBULO E ORDENA-LHE MAGNÍFICOS FUNERAIS.",
"634. Logo depois, o rei Herodes tirou o sumo sacerdócio de Ananel, o
qual, embora fosse da família dos sacerdotes, passava por estrangeiro porque
era da raça dos judeus que moravam em grande número além do Eufrates.
Herodes honrara-o com aquela dignidade logo que subira ao trono, mas apenas
porque era um grande amigo. E tirou-a somente porque julgou necessário, para
acalmar as divergências em família, pois aquele cargo era concedido não por
algum tempo, mas para sempre, e não se podia tirá-lo de alguém sem cometer
uma injustiça. Antíoco Epifânio foi o primeiro a violar essa lei, quando depôs
Jesus para colocar Onias em seu lugar. Aristóbulo foi o segundo, quando tirou
o cargo de Hircano, seu irmão, a fim de tomá-lo para si mesmo. E Herodes foi o
terceiro, quando, para ter paz em casa, o entregou a Aristóbulo, vivendo ainda
Ananel.
635. Essa reconciliação, todavia, não impediu que Herodes continuasse
com as suas desconfianças. Julgou que Alexandra, depois do que ela havia
feito, não deixaria de provocar uma rebelião, se ocasião para tal se
apresentasse. Assim, proibiu-a de sair do palácio e de intrometer-se em
qualquer coisa. Mandou vigiá-la com tanto cuidado que nada fazia ela que não
lhe fosse logo relatado. Como era muito orgulhosa, coisa natural nas mulheres,
ela suportava com grande revolta aquele indigno tratamento, pois preferia
sofrer qualquer coisa a perder a liberdade. Sob pretexto de honra, faziam-na
passar a vida numa verdadeira escravidão e em contínuo temor. Assim, ela
resolveu escrever à rainha Cleópatra, rogando-lhe que tivesse compaixão dela e
de sua infelicidade e a ajudasse. A princesa mandou dizer-lhe que tentasse
fugir com o filho para o Egito.
Alexandra aprovou o conselho e ordenou a dois de seus servidores de
mais confiança que fizessem duas caixas em forma de ataúde, numa das quais
ela se encerraria, e na outra estaria o seu filho, para de noite serem levados a
bordo de um navio que já estava preparado para partir para o Egito. Esopo, um
desses servidores, falou disso a Sabiom, julgando que ele sabia do caso, pois
passava por muito amigo de sua senhora e grande inimigo de Herodes — até
mesmo se suspeitava que ele fosse um dos cúmplices no envenenamento de
Antipatro. Esse homem, porém, feliz por haver encontrado tão favorável ocasião
para conquistar o afeto de Herodes, foi manifestar-lhe a intenção de Alexandra
de fugir para o Egito. Herodes, que não era menos vingativo que inteligente,
deixou-a executar livremente o seu intento com o filho, sem detê-los, senão
quando já eram levados naquelas caixas em forma de ataúde.
Como ele não ousava causar mal a Alexandra, para que Cleópatra não
ficasse ressentida, fingiu perdoá-la e mostrou-se clemente para com mãe e filho,
num excesso de bondade. Mas no seu coração resolveu eliminar Aristóbulo de
qualquer maneira. Esperaria mais um pouco, no entanto, para melhor ocultar
os seus intentos. A festa dos Tabernáculos, uma das que nós celebramos com
maior solenidade, havia chegado, e ele a quis passar em banquetes com o povo.
Mas um fato que aconteceu nessa ocasião aumentou de tal modo a sua inveja
por Aristóbulo que ele não pôde esperar mais para executar o seu projeto. Eis
como as coisas se passaram:
636. Esse príncipe, que então contava dezessete anos, revestido com os
ornamentos de sumo sacerdote, subiu ao altar para oferecer a Deus os
sacrifícios ordenados na Lei. A sua extraordinária beleza e a figura esbelta, que
sobrepujava em muito os de sua idade, fizeram brilhar de tal modo em sua
pessoa a majestade de sua descendência que ele atraiu sobre si os olhos e o
afeto de toda aquela grande multidão. Esse fato renovou no espírito do povo a
lembrança dos grandes feitos de Aristobulo, seu avô. O povo não pôde esconder
a sua alegria, e as aclamações e votos ao jovem príncipe foram manifestados
com excessiva liberdade, não recomendável sob o reinado de um soberano tão
invejoso e cioso de sua autoridade como Herodes.
Essa demonstração de sentimentos pela família de Aristobulo e de
gratidão pelos favores dele recebidos irritaram-no tanto que ele não quis adiar
mais a execução do que tinha em mente. Assim, passada a festa, foi a um
banquete que Alexandra oferecia em Jerico. Ali, como para homenagear
Aristobulo, ele demonstrou prazer em assistir aos divertimentos dos moços.
Com essa intenção, foi a um lugar ideal para o seu propósito. Sendo um dia de
muito calor, os moços ficaram logo cansados de jogar e foram descansar e
abrigar-se dos ardores do sol do meio-dia num jardim, onde se puseram a
contemplar alguns dos companheiros e servidores que se banhavam. Herodes
fez com que Aristobulo fosse banhar-se com eles, e então aqueles que ele havia
levado para esse fim atiraram-se também à água e, como brincadeira, fizeram
Aristobulo mergulhar, mas não o deixaram emergir, até que ele morreu afogado.
Esse foi o triste fim de Aristobulo, que contava apenas dezoito anos e somente
por um ano exercera o sumo sacerdócio. Herodes logo o restituiu a Ananel.
Quem poderia exprimir a dor da mãe e da irmã desse infeliz príncipe?
Elas derramavam lágrimas junto ao seu corpo e estavam inconsoláveis. A
notícia espalhou-se logo por toda a Jerusalém e encheu a cidade de luto. Não
havia uma casa ou família que não considerasse aquela perda como própria.
Nenhuma outra dor, porém, se igualava à de Alexandra, e o conhecimento da
traição que tão cruelmente lhe arrebatara o filho aumentava-a ainda mais. Era,
no entanto, obrigada a dissimular, pelo temor de um mal maior. Veio-lhe
muitas vezes à mente a idéia de matar-se, mas se conteve, na esperança de
que, sobrevivendo ao filho sem mostrar o que sabia a respeito de sua morte,
encontraria talvez ocasião para vingá-la. Herodes, por sua vez, usava de todos
os meios para persuadir a todos de que não tivera naquilo a mínima
participação, e não somente com palavras procurava demonstrar a sua tristeza
e pesar, mas a elas ajuntava lágrimas, as quais pareciam tão espontâneas que
poderiam passar por verdadeiras.
A verdade, porém, é que ele julgava que a sua segurança dependia
daquela morte. No entanto não podia deixar de se comover pela morte de um
príncipe de tão rara beleza, tirado do mundo na flor da idade. Fosse como fosse,
ele fazia todo o possível para dar a entender que não era culpado daquele crime,
e não poupou despesas para lhe organizar um magnífico funeral. Se a dor das
princesas pudesse ter sido mitigada por demonstrações exteriores de afeto, tê-
lo-ia sido, sem dúvida, pela quantidade de preciosos perfumes que ele fez
queimar sobre o túmulo e pelos ornamentos de que o enriqueceu, com
magnificência mais que real.",