Livro Decimo Quinto Flávio Josefo
Capítulo 5 Flávio Josefo
,
"CLEÓPATRA VAI ÀJUDÉIA E INUTILMENTE PROCURA SUSCITAR AMOR EM
HERODES. ANTÔNIO, APÓS CONQUISTAR A ARMÊNIA, CONTEMPLA ESSA
PRINCESA COM MAGNÍFICOS PRESENTES.",
"642. Cleópatra, depois de acompanhar Antônio até o Eufrates, veio a
Apaméia e a Damasco, enquanto ele marchava com o seu exército pela
Armênia, e desejou também ver a Judéia. Herodes recebeu-a com grandes
honras e tratou com ela a respeito das rendas da parte da Arábia a ela
concedida por Antônio e do território de Jerico, o único lugar onde cresce o
bálsamo, que passa pelo mais excelente de todos os perfumes, e onde se vêem
em abundância as mais belas palmeiras no mundo.
Durante as diversas entrevistas que Herodes teve com a princesa, ela tudo
fez para envolvê-lo amorosamente. E, como era muito impudica, certamente
sentia atração por ele. No entanto, o mais verossímil é que o seu intento fosse o
de por esse meio encontrar ocasião para destruí-lo. De qualquer modo, ela
demonstrou sentir grande paixão por Herodes. Ele, que, ao contrário, nutria por
ela grande aversão havia muito tempo, pois essa princesa sentia prazer em
fazer mal a todos, não somente permaneceu insensível às suas carícias como se
sentiu horrorizado pela sua falta de pudor, chegando a consultar os amigos se
não era o caso fazê-la morrer e assim livrar muita gente dos males que ela
causava, bem como dos que poderia vir a causar. Alegou ainda que estaria
fazendo um favor a Antônio, pois se a sorte deixasse de lhe ser favorável, ele só
poderia esperar dela infidelidade, em vez de auxílio. A sua intenção era libertar
o mundo daquela inimiga declarada da virtude e da justiça.
Os amigos, porém, foram de opinião contrária. Disseram que não era
vantagem um príncipe tão hábil como ele lançar-se em tão grave perigo; que
não devia agir com tal precipitação; que era impossível Antônio não descobrir o
seu ato; que, por maior benefício que Antônio viesse a obter com aquilo, a
cólera por se ver daquele modo privado da princesa aumentaria ainda mais o
seu amor por ela; que ele não escutaria nenhuma alegação em justificativa ao
atentado à mais poderosa rainha de seu tempo, pois ainda que a sua morte lhe
fosse útil, não se poderia negar que ele com isso seria grandemente ofendido; e
que, sendo evidente que Herodes nada podia empreender contra Cleópatra sem
atrair sobre si e sobre a sua família grandíssimos males, julgavam que a melhor
deliberação a tomar, depois que ele recusara corresponder ao amor da princesa,
era fazer em tudo o mais o que fosse possível para contentá-la. Herodes deixou-
se persuadir por essas razões. Então, serenou Cleópatra com grandes presentes
e levou-a até o Egito.
Depois que Antônio conquistou a Armênia, mandou Artabaso, filho de
Tigrano, e os príncipes seus filhos como prisioneiros ao Egito e deles fez
presente a Cleópatra, junto com o que havia conquistado de mais precioso
naquele reino. Artáxio, filho mais velho de Artabaso, que havia fugido ante a
notícia dessa guerra, reinou depois no lugar de seu pai. Mas Arquelau e o
imperador Nero o expulsaram do reino, colocando Tigrano, o mais novo de seus
irmãos, no trono.
Quanto aos tributos dos países que Antônio entregara a Cleópatra,
Herodes pagava-os rigorosamente à princesa, porque ele bem sabia o quanto
lhe era conveniente não dar a ela motivo para que o odiasse. Depois que a
cobrança desses tributos passou a pertencer a Herodes, os árabes pagaram-lhe
durante algum tempo duzentos talentos por ano. Depois passaram a lhe
tributar apenas parte desse valor.",