🏠 Home ← Anterior Próximo →

Livro Decimo Quinto Flávio Josefo

Capítulo 12 Flávio Josefo

124567891011121314
,
"AJUDÉIA É AMARGURADA POR ENORMES MALES, PARTICULARMENTE POR UMA VIOLENTA
PESTE E UMA GRANDE CARESTIA. CUIDADOS E LIBERALIDADES
INCRÍVEIS DE HERODES PARA REMEDIAR OS GRAVES INCONVENIENTES.
RECONQUISTA DESSE MODO Â AFETO DO POVO E RESTAURA A ABUNDÂNCIA.
SOBERBO PALÁCIO QUE ELE CONSTRÓI EM JERUSALÉM. DESPOSA AFILHA DE
SIMÃO, QUE ELE CONSTITUI SUMO SACERDOTE. OUTRO SOBERBO CASTELO QUE
ELE CONSTRÓI NO LUGAR ONDE OUTRORA VENCERA OS JUDEUS.",
"663. Naquele mesmo ano, que era o décimo terceiro do reinado de
Herodes, a Judéia foi torturada por grandíssimos males, por uma vingança de
Deus ou por algum dos funestos acidentes que de tempos em tempos sucedem
no mundo. Começou por uma prolongada seca, e a terra não dava mais os
frutos que produz naturalmente, sem que se cultive. A necessidade obrigou o
povo a sustentar a vida com um alimento que antes lhes era desconhecido, e
contraíram assim graves doenças. E ainda, por uma concatenação de males que
se sucediam uns aos outros, sobreveio uma violenta peste.
Esse terrível flagelo aumentava, porque os que eram por ela atacados não
tinham assistência nem alimento. Muitos morriam logo, e o desespero por não
terem recursos e não poderem auxiliar os enfermos tirava aos que não haviam
sido contaminados a coragem de prestar aos seus semelhantes cuidados que
lhes seriam inúteis. Todos os frutos dos anos precedentes haviam sido
consumidos. Naquele ano, nada se colhera, e inutilmente se teria semeado a
terra, porque estava tão árida e seca que deixava morrer em seu seio as
sementes lançadas. Como aquilo continuasse por mais de um ano, o mal
crescia sempre, em vez de diminuir.
Em tal desolação, a riqueza de Herodes, por maior que fosse, não seria
bastante, pois a esterilidade da terra lhe impedia de receber os tributos, e ele
havia empregado enormes somas na construção de cidades e fortalezas. Sem
esperança de socorro, ele via unir-se a tantos males o ódio de seus súditos
contra ele, porque é costume dos povos lançar sobre os governantes a culpa dos
males que sofrem. Ele procurava sem cessar o remédio para aliviá-los, mas
inutilmente, pois os vizinhos também estavam angustiados pela fome e não lhe
podiam vender trigo. Ele tampouco tinha dinheiro suficiente para repartir com
uma multidão tão grande e tão necessitada de auxílio. Por fim, convencido de
que tinha de fazer algo em tal conjuntura, mandou fundir tudo o que havia de
ouro e prata, sem mesmo poupar as obras dos mais célebres artistas. Com isso,
reuniu uma grande soma e enviou-a ao Egito, onde Petrônio governava, no
lugar de Augusto.
O governador era solicitado com insistência por muitos outros, atingidos
também por semelhante desgraça, que a ele recorriam. Mas, como era muito
amigo de Herodes, concedeu-lhe, em consideração aos seus súditos, uma
partida de trigo, dando-lhe preferência a todos os outros. Ele próprio ajudou-os
a realizar a compra e o transporte e assim contribuiu mais do que ninguém
para a salvação de nossa gente. A gratidão por se ver aliviado e socorrido em
sua miséria pelos extremos cuidados do rei não somente fez o povo esquecer o
ódio que lhe tinha, mas o levou a tecer os elogios que a sua bondade merecia.
Ele distribuiu o trigo primeiro aos que podiam fazer o pão e enviou padeiros
àqueles que, pela velhice ou pela doença, não o podiam fazer. Ajudou-os
também contra o rigor do inverno, dando-lhes vestes, de que tinham também
grande necessidade, pois o gado morrera quase todo, e eles não tinham lã nem
outras coisas de que se servir.
Depois de atender às necessidades de seus súditos, Herodes levou os seus
cuidados às cidades da Síria, vizinhas da Judéia. Deu-lhes trigo para semear e
não obteve para si menor vantagem que eles, pois a terra produziu em tal
abundância o trigo semeado que a fartura voltou. E, quando veio o tempo da
messe, ele enviou cinqüenta mil homens, aos quais salvara a vida, para fazer a
ceifa. Assim, ele foi não só benfeitor de seu reino, pela sua vigilância e proceder,
mas também de seus vizinhos, que não recorreram a ele inutilmente, mas
receberam o que precisavam. Ele calculou haver fornecido aos estrangeiros dez
mil coros de trigo, contendo cada coro dez medidas áticas. O que ele distribuiu
no seu reino montava a oitenta mil coros.
Tantos cuidados e favores realizados em favor do povo numa tão premente
necessidade fizeram-no admirado por todo o mundo. Ele ganhou de tal modo o
coração de todos que a gratidão pelos favores recentes os fez esquecer o ódio
causado pelas modificações qtie ele havia introduzido no reino e na observância
dos antigos costumes. Julgaram que aquele mal fora compensado pelos grandes
bens que haviam recebido de sua maravilhosa liberalidade, no tempo em que
ela lhes foi tão necessária. Não foi menor a glória que ele conquistou também
perante os estrangeiros. Assim, tantos males só serviram para tornar o seu
nome ainda mais ilustre. Os sofrimentos do povo aumentaram, em seu reino, a
sua fama. A gratidão pelos benefícios e a extraordinária bondade que ele
demonstrou em tão dura provação, mesmo para com os que não eram seus
súditos, fizeram-no ser considerado no exterior não como antes, mas tal como o
haviam conhecido naquela extrema necessidade.
664. O generoso soberano, ainda para demonstrar o seu afeto por
Augusto, mandou ao mesmo tempo quinhentos dos mais valentes de seus
guardas a Hélio Galo, ao qual prestaram grandes serviços na guerra que ele
fazia na Arábia, perto do mar Vermelho. E, depois de haver restaurado a
prosperidade em seu território, mandou construir no lugar mais elevado da
cidade de Jerusalém um grande e soberbo palácio, resplandecente de ouro e de
mármore, onde, entre os magníficos aposentos que lá se viam, havia um com o
nome de Augusto e outro com o de Agripa.
665. Ele pensou então em casar-se novamente e, como não procurava
prazer nesse ato, quis escolher uma pessoa em quem pudesse depositar todo o
seu afeto. Assim, recebeu uma jovem apenas por amor, do modo que vou
narrar. Simão, filho de Boeto, Alexandrino de família nobre e que era sacerdote,
tinha uma filha de tão extraordinária beleza que só se falava disso em
Jerusalém. A notícia chegou até Herodes, e ele quis vê-la. Jamais houve amor
maior à primeira vista que o que ele sentiu por ela. Mas julgou que não devia
usar de seu poder, tomando-a, como teria podido fazer, para não passar por
tirano. Pensou que devia desposá-la. E, como Simão não era de posição
bastante nobre para tal aliança e nem tampouco de condição desprezível,
elevou-o então, para torná-lo mais ilustre: tirou o sumo sacerdócio de Jesus,
filho de Fabete, e entregou-a a ele, desposando-lhe depois a filha.
666. Logo após as núpcias, ele construiu, a sessenta estádios de
Jerusalém, um magnífico castelo, no lugar onde outrora tinha vencido os
judeus, quando Antígono lhe fazia guerra. A localização era muito vantajosa,
pois trata-se de um pequeno monte arredondado, muito forte e agradável. Ele
embelezou-o e o fortificou ainda mais. O castelo era rodeado de torres às quais
se subia por duzentos degraus de pedra. Havia no interior soberbos aposentos,
porque Herodes não media despesas para unir a beleza à força. A seus pés,
havia diversos e vistosos edifícios, particularmente ricos pela quantidade de
lagos e de tanques, cujas águas eram trazidas de longe por aquedutos. Os
campos das redondezas estavam tão cheios de casas que poderiam formar uma
boa cidade, da qual aquele magnífico castelo construído sobre o monte seria a
fortaleza, dominando tudo o mais.
667. Quando deu por terminadas todas essas obras, Herodes não teve
mais receios de revoltas em seu território. O temor do castigo, do qual não
excetuava ninguém, mantinha os súditos no cumprimento do dever. A
liberalidade com que cuidava das necessidades públicas granjeava-lhe o afeto e
a solicitude, os quais empregava para se fortificar cada vez mais. E, como a sua
conservação particular fosse a mesma do reino, ela o punha em absoluta
segurança. Ele tornou-se popular em todas as cidades, mostrando-lhes muita
bondade. E, como era de alma elevada, sabia também ganhar-lhes a estima nas
adversidades com a magnificência e o coração dos grandes. Assim, ele tornou-
se querido a todos, e a sua prosperidade crescia cada vez mais.
668. A paixão de tornar célebre o seu nome e de cultivar a amizade de
Augusto e dos romanos mais poderosos, porém, levou-o a se descuidar da
observância dos nossos costumes e a violar em muitos pontos as nossas santas
leis. Ele construiu em sua própria honra cidades e Templos, mas não na judéia,
porque a nossa nação jamais o teria permitido, sendo coisa abominável entre
nós reverenciar imagens e estátuas, como fazem os gregos. Ele alegava, como
desculpa para essas obras sacrílegas, que não o fazia voluntariamente, mas
para homenagear àqueles aos quais não podia desobedecer. Herodes ganhava
por esse meio o afeto de Augusto e dos romanos, os quais viam que, para
agradá-los, ele não temia contrariar os costumes de seu país. O benefício
particular e o ardente desejo de eternizar a sua memória eram, contudo, o
principal motivo de ele gastar tão prodigiosas somas na construção e
embelezamento dessas cidades.",