Livro Decimo Quinto Flávio Josefo
Capítulo 6 Flávio Josefo
,
"HERODES PRETENDE SOCORRER ANTÔNIO CONTRA AUGUSTO. ANTÔNIO,
PORÉM, OBRIGA-O A CONTINUAR OS PLANOS DE GUERRA AOS ÁRABES.
HERODES ENTRA NO PAÍS DOS ÁRABES, VENCE-OS, MAS PERDE OUTRA LUTA,
QUANDO JULGAVA TER VENCIDO A GUERRA.",
"643. Herodes, cuja coragem não podia tolerar tal injustiça e desprezo dos
árabes, preparava-se para entrar com armas no país deles, quando uma grande
guerra civil rebentou entre os romanos, para se decidir a quem pertenceria o
império do mundo, se a Antônio ou a Augusto. A batalha de Áccio, que se
travou na centésima octogésima sétima Olimpíada, decidiu a sorte em favor de
Augusto. Como o rei dos judeus devia a Antônio muitas obrigações e o longo e
pacífico domínio de um país tão abundante em pastagens e gado, além de
outras grandes rendas, que o haviam tornado extremamente rico, ele preparou
grandes forças para ir em seu auxílio. Mas Antônio mandou dizer-lhe que não
precisava delas e que, tendo sabido por ele e pela rainha Cleópatra da perfídia
dos árabes, preferia que Herodes marchasse contra eles. Cleópatra, que estava
muito satisfeita por ver os judeus e os árabes em luta, enfraquecendo-se uns
aos outros, foi causa dessa resposta de Antônio, que obrigou Herodes a mudar
de idéia.
Em seguida, Herodes entrou na Arábia com um poderoso exército e
avançou para Dióspolis, e os árabes vieram contra ele. Travou-se o combate,
que foi muito sangrento, mas os judeus foram vitoriosos. Os árabes reuniram
um novo exército perto de Canate, na Baixa Síria. Herodes marchou contra eles
com a maior parte de suas tropas e, quando estava perto, decidiu acampar e
fortificar o seu acampamento, a fim de esperar o tempo mais conveniente para
atacá-los. Os soldados, porém, instaram com ele em altos brados para que não
adiasse mais a luta e os levasse logo à batalha, pois a vitória que haviam
conquistado e a confiança nas próprias forças tornara-os corajosos.
Herodes julgou que não devia deixar esfriar aquele entusiasmo e
aproveitou a ocasião para dizer que não lhes seria inferior em coragem. Então
pôs-se à frente deles e marchou contra os inimigos. A ousadia com a qual
partiu contra os árabes encheu estes de admiração, de modo que a maior parte
fugiu — e teriam sido completamente derrotados, se Ateniom, general das
tropas de Cleopatra naquele país, não o tivesse impedido. Como ele odiava
Herodes, esperou com as suas tropas, em boa ordem, o advento da batalha,
com a intenção de não se declarar por nenhum partido, caso os árabes
levassem vantagem. Mas quando viu que estavam sendo derrotados, atacou os
judeus, já cansados do combate. Apanhou-os justamente quando já se
julgavam vitoriosos e, pensando que nada mais tinham a temer, começavam a
se desorganizar. Não foi difícil par ele matar um grande número deles, tendo
ainda a vantagem de conhecer a região, que era muito pedregosa e difícil.
Então os árabes retomaram coragem e voltaram para atacar os judeus,
que não estavam mais em condições de resistir. A mortandade foi tão grande
que apenas uma pequena parte das tropas pôde, com dificuldade, retirar-se do
campo. Herodes correu a toda brida para trazer outras tropas em socorro, mas
não pôde impedir que o acampamento fosse saqueado. Assim, os árabes, por
uma facilidade inesperada, obtiveram a vitória quando já se julgavam vencidos
e destruíram um poderoso exército. Herodes evitou desde aquele dia travar
novo combate. Contentou-se em acampar nos montes e fazer pequenas
incursões naquele país e com isso obteve grande lucro, pois esse trabalho, ao
qual acostumou os seus, permitiu-lhes reparar a perda que haviam sofrido.",