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Livro Decimo Quinto Flávio Josefo

Capítulo 10 Flávio Josefo

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"HERODES FALA COM TODA GENEROSIDADE A AUGUSTO E CONQUISTA A SUA AMIZADE.
ACOMPANHA-O AO EGITO E O RECEBE EM PTOLEMAIDA COM TÃO EXTRAORDINÁRIA
MAGNIFICÊNCIA QUE GRANJEIA A ESTIMA DE TODOS OS ROMANOS.",
"649. Depois que Herodes providenciou tudo, embarcou para Rodes, onde
foi procurar Augusto. Compareceu à sua presença com todos os ornamentos da
dignidade real, exceto a coroa, e jamais demonstrou maior coragem na maneira
de falar. Pois, em vez de usar de rogos e amáveis desculpas, para induzir o rei a
perdoá-lo, como se faz ordinariamente em tão grande golpe da fortuna, prestou-
lhe contas de seu proceder sem demonstrar o mínimo temor. Confessou que
nada podia acrescentar ao afeto que nutrira por Antônio; que contribuíra com
todas as suas posses para conservar o império do mundo em seu poder; que se
não estivesse ocupado com os árabes, teria unido as suas armas às dele; que
esse motivo o impedira, mas ainda assim lhe enviara trigo e dinheiro; que
desejaria ter feito muito mais, empregando não somente os seus bens, mas a
sua vida por um amigo e benfeitor, como sempre fora Antônio para ele; que,
pelo menos, não poderiam acusá-lo de ter abandonado Antônio na batalha de
Accio, nem de que a mudança de sorte o tivesse feito mudar de idéia, para
abraçar outros interesses e abrir caminho a novas esperanças.
Ele acrescentou: Quando me vi sem condições de ajudá-lo com as
minhas tropas e com a minha pessoa, dei-lhe um conselho que teria impedido a
sua ruína se ele o tivesse seguido: matar Cleópatra, apoderar-se do seu reino e
poder assim fazer convosco uma paz muito vantajosa. Ele desprezou esse
conselho e contribuiu assim para o aumento de vossa fortuna, em vez de
conservar a dele. O vosso ódio por ele vos faz condenar o meu afeto. Eu, porém,
não deixarei de confessá-lo e nada me impedirá de proclamar em alta voz quão
grande era a minha paixão por seus interesses e por sua pessoa. Mas se
quiserdes, sem considerar o que se passou entre mim e ele, experimentar que
amigo eu sou e o meu reconhecimento para com os meus benfeitores, podeis
fazer a prova: bastará mudarmos os nomes, e haverá sempre a mesma amizade,
digna dos mesmos louvores.
Herodes, ao pronunciar essas palavras, manifestara tanta coragem que
Augusto, extremamente generoso, ficou muito impressionado, pois aquele rei
dos judeus não somente evitou o perigo que o ameaçava como também
conquistou o seu afeto com aquela maneira tão nobre de se justificar e
defender. Permitiu-lhe então que retomasse a coroa e exortou-o a ser tão amigo
seu quanto o fora de Antônio. Tratou-o honrosamente, manifestando também a
sua gratidão por ter ele ajudado Lépido parente vários príncipes. Para dar-lhe
uma prova de sua amizade, confirmou-o na posse do reino por um decreto do
senado. Herodes, cumulado de tantos favores, que sobrepujavam em muito as
suas esperanças, acompanhou Augusto ao Egito e deu a ele e aos seus
adjuntos magníficos presentes, que iam mesmo além de suas posses. Pediu a
Augusto com muita insistência graça para Alexandre, que havia sido amigo de
Antônio, mas não pôde obtê-la, pois Augusto jurara não concedê-la.
650. A volta de Herodes à Judéia com um novo acréscimo de honra e de
autoridade causou grande admiração a todos os que esperavam o contrário. E
eles só podiam considerar tal fato uma prova da proteção de Deus sobre ele,
que escapava com rara felicidade de todos os perigos que o ameaçavam e ainda
tornava a sua vida mais brilhante e mais ilustre.
651. Quando Augusto passou da Síria ao Egito, Herodes não se contentou
em recebê-lo com incrível magnificência em Ptolemaida, mas forneceu a todo o
exército víveres em abundância. Essa generosa maneira de agir conquistou-lhe
tanta familiaridade perante o imperador que este, quando marchava a cavalo
pelo campo, o fazia ficar ao seu lado. Herodes escolheu cento e cinqüenta
dentre aqueles em quem mais confiava para servir Augusto e os seus amigos
com toda a suntuosidade e gentileza. Se o exército era obrigado a passar por
lugares estéreis, onde não havia água, a sua previdência nada lhes deixava
faltar, mas fazia com que tivessem até mesmo vinho. Deu ainda a Augusto
oitocentos talentos, e os romanos ficaram muito satisfeitos com ele, a ponto de
afirmar que a grandeza de sua alma o elevava muito acima de sua coroa.
O fato de ele haver assim tratado, nessa ocasião, os homens mais ilustres
do império, quando estes voltavam do Egito, incutiram tão grande estima no
espírito de Augusto e dos romanos que eles não se cansavam de louvá-lo e de
dizer que nenhum outro príncipe o superava em magnificência e em
liberalidade.",