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Livro Decimo Quinto Flávio Josefo

Capítulo 8 Flávio Josefo

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,
"DISCURSO DO REI HERODES AOS SOLDADOS, QUE LHES RESTITUI A CORAGEM,
E ELES OBTÊM VITÓRIA CONTRA OS ÁRABES E OS OBRIGAM A TOMAR HERODES COMO SEU PROTETOR.",
"645. Disse-lhes o soberano: Não ignorais, certamente, as desgraças que
retardaram o nosso progresso de algum tempo para cá. Elas foram tão grandes
que não se pode achar estranho que tenham amedrontado até mesmo os mais
ousados. Mas, como os podemos vencer com a nossa virtude — toda a razão
está do nosso lado —, por que não esperar mais do futuro e não retomar
aqueles primitivos sentimentos de generosidade que nos tornaram temíveis aos
inimigos? A única razão dessa guerra deve ser suficiente para vos animar, pois
não a tendo empreendido senão para repelir injúrias intoleráveis, nada pode ser
mais justo. Os males que nos afligem não nos devem fazer desesperar da
vitória. Torno-vos a todos como testemunhas dos ultrajes que recebemos desses
bárbaros, os mais pérfidos e ímpios de todos os homens. Por maiores que sejam
os motivos que todos os seus vizinhos tenham para se queixar deles, ninguém
experimentou como nós os efeitos de sua avareza e inveja. Que direi de sua
ingratidão, sem falíir das outras obrigações que eles nos devem? Pois, podem
eles negar que fui eu, pelo afeto que Antônio sempre me demonstrou, quem
impediu que eles caíssem sob o domínio de Cleópatra? Quando essa princesa
obteve de Antônio parte do país deles e do nosso, acaso deixei de ajudá-los ou
não procurei a tranqüilidade dos dois povos com os presentes que lhes fiz de
meus próprios bens? Por esse motivo, pago duzentos talentos cada ano e sou
fiador de outros tantos, e, embora as terras das quais se exige esse tributo nos
pertençam, são esses bárbaros que as possuem. Sendo judeus como nós, que
motivo têm para nos obrigar a pagar esse tributo e nos tirar parte de nossos
bens para dá-los a outro país que nos é devedor de sua salvação? É ainda mais
injusto, porém, que aqueles que não podem negar ter obtido a liberdade pelo
nosso auxílio, os quais nos apresentaram os seus agradecimentos por isso,
tenham recusado, em plena paz e no tempo em que se diziam nossos amigos,
pagar o que nos deviam. Como se pode, sem infâmia, faltar à palavra aos
amigos, quando se é obrigado a mantê-la aos próprios inimigos? Um povo tão
brutal só acha honesto aquilo que lhe é útil e julga que as injúrias devem ficar
impunes quando são vantajosas aos que as fazem. Quem pode então duvidar de
que não somos obrigados a nos vingar pelas armas das ofensas que recebemos
desses bárbaros? Deus mesmo no-lo ordena, quando nos manda odiar a
insolência e a injustiça, e esta guerra não é somente justa, mas necessária.
Pois, matando os nossos embaixadores, como fizeram, não cometeram eles,
segundo o juízo dos gregos e mesmo o das nações selvagens, o maior de todos
crimes? Quem não sabe que entre os gregos o nome de arauto é sagrado e
inviolável? Com muito maior razão deve sê-lo entre nós, que recebemos de Deus
as nossas santas leis, pelo ministério dos anjos, que são os seus arautos e
mensageiros. E essa uma prerrogativa que não podemos deixar de honrar, pois
serve para levar os homens ao conhecimento de Deus e reconciliar os mais
mortais inimigos. O que então é mais horrível que manchar as próprias mãos
no sangue daqueles que vêm fazer propostas muito razoáveis e que feliz êxito
podem esperar os que cometeram tão detestável ação? Dir-se-á, talvez, que é
verdade que a razão está conosco, mas que eles são mais fortes. Respondo que
isso não tem valor, pois Deus está sempre do lado da justiça e em toda parte
onde Ele está o seu poder infinito aí também se faz presente. E, considerando
apenas as nossas próprias forças, não os vencemos no primeiro combate e não
os desbaratamos no segundo, sem que eles ao menos tivessem ousado resistir
aos primeiros ataques? E não teríamos sido plenamente vitoriosos se Ateniom,
por uma pérfida manobra, à qual não se pode dar o nome de valor, não nos
tivesse atacado, sem antes nos declarar guerra? Por que então agora, que temos
mais motivo de bem esperar, demostraríamos menor coragem que no passado?
Por que temeríamos àqueles aos quais sempre vencemos quando não usam de
fraude e a quem somente a traição faz obter a vitória? Se eles fossem mesmo
tão temíveis como querem fazer crer, não deveria isso fortalecer a nossa
coragem, em vez de enfraquecê-la? Pois o verdadeiro valor não consiste em
sobrepujar os fracos e os tímidos, e sim em vencer os mais bravos e os mais
valentes. Se eles julgam que os nossos problemas domésticos e esse último tre-
mor de terra nos deixaram atônitos, devem considerar que foi isso mesmo o que
enganou os árabes, pois eles julgaram o mal maior do que ele era na realidade,
e nada nos seria mais vergonhoso que sentir medo daquilo que lhes dá
coragem. Pois na verdade o valor que eles demonstram não procede da
confiança nas próprias forças, mas por nos considerarem abatidos e esmagados
por tantos males. Assim, quando nos virem marchar corajosamente contra eles,
o seu ardor esvair-se-á, o seu medo aumentará a nossa coragem e teremos
apenas de combater homens semivencidos. Os nossos males não foram tão
grandes como eles e outros apregoam, pois o terremoto não foi causado pela
cólera de Deus contra nós, mas por um daqueles acidentes com causas
naturais. E, mesmo que tivesse acontecido pela vontade de Deus, não
poderíamos duvidar de que a sua cólera já está satisfeita com esse castigo, pois
de outro modo Ele não o teria feito cessar nem manifestaria, como fez, com
sinais evidentes, que aprova a justa guerra que empreendemos. Esse terremoto
foi geral para todo o resto do reino, e somente vós, que estáveis em armas, dele
fostes preservados. Assim, se todo o povo estivesse como vós, na guerra,
ninguém teria sofrido mal algum. Depois de termos ativamente considerado
todas essas coisas, principalmente sabendo que Deus em tempo algum deixou
de ser o nosso protetor, marchai com firme confiança na justiça de vossa causa
contra essa pérfida nação, que violou os tratados mais sagrados, que sempre
fugiu diante de nós e que só demonstrou coragem para assassinar os nossos
embaixadores.
646. As palavras de Herodes animaram de tal modo as tropas que nada
mais queriam senão partir para a luta. Ele ordenou sacrifícios segundo o
costume e, sem perda de tempo, fez com que todos os soldados atravessassem o
Jordão para marchar contra os árabes e acampou perto deles. Havia entre os
exércitos um castelo do qual ele poderia tirar vantagem, tanto se fosse travada
a batalha quanto se fosse necessário passar além para escolher um
acampamento mais seguro. Ele resolveu tomá-lo. Os árabes tinham o mesmo
objetivo, e a batalha teve início, depois de algumas pequenas escaramuças.
Vários foram mortos, e os árabes fugiram. Os judeus perseguiram-nos, com
intenção de atacá-los até mesmo no acampamento, e eles então foram
obrigados a parar para se defender, embora estivessem em completa desordem
e sem esperança de vitória.
Depois desse grande combate, onde muitos perderam a vida, os árabes
fugiram definitivamente, e cinco mil foram mortos pelos judeus e por eles
mesmos, tanto se esforçavam e se comprimiam para salvar-se. O resto retirou-
se para o acampamento, embora já tivessem falta de víveres e de água e se
vissem cercados pelos judeus. Tal contingência obrigou-os a propor a Herodes
fazer tudo o que ele desejava, contanto que os deixasse partir e lhes permitisse
matar a sede. Mas ele não quis escutar os embaixadores nem receber o dinheiro
que ofereciam como resgate e nem aceitar qualquer outra condição, tal o seu
desejo de vingar-se daqueles que tinham violado o direito das gentes. Então,
não podendo mais suportar tão ardente sede, quatro mil árabes se
apresentaram no quinto dia do cerco para ser acorrentados como escravos.
No dia seguinte, o resto resolveu sair para morrer de armas na mão,
preferindo isso a expor-se a tão grande infâmia. Fizeram o que intentavam, mas
estavam tão fracos e com o espírito tão abatido que nenhum esforço puderam
fazer. Desejavam apenas morrer, temendo unicamente ficar vivos. Cerca de sete
mil morreram desde o primeiro choque. Tão grande perda abateu
completamente o orgulho daquela nação, que se admirou, em sua desgraça, do
valor e do proceder de Herodes e tomou-o como protetor.",