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Livro Decimo Quinto Flávio Josefo

Capítulo 13 Flávio Josefo

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"HERODES MANDA CONSTRUIR UMA SOBERBA CIDADE EM HONRA DE
AUGUSTO, À QUAL DÁ O NOME DE CESARÉIA. ENVIA A AUGUSTO OS SEUS
DOIS FILHOS, ALEXANDRE E ARISTÓBULO, QUE TIVERA DE MARIANA. AUGUSTO
CONCEDE-LHE AINDA NOVOS FAVORES. CAUSA DO BOM TRATAMENTO QUE
HERODES DISPENSAVA AOS ESSÊNIOS.",
"669. Herodes, tendo notado ao longo do mar a torre de Estratão, cuja
situação era muito vantajosa, edificou ali uma cidade de forma e beleza
admiráveis. Não somente os palácios eram magníficos, construídos de mármore
branco, como também apresentavam belíssima arquitetura as casas dos
particulares. E o porto, com dimensões semelhantes às do Pireu, onde os navios
podiam ancorar em segurança, sobrepujava a tudo o mais. A estrutura era
maravilhosa. Havia dentro grandes magazines para receber toda sorte de
mercadoria e de objetos. Foi necessário, para levar a cabo tão grande obra, um
trabalho extraordinário e uma despesa fabulosa, porque era preciso trazer de
muito longe todo o material.
Essa cidade está na Fenícia, situada no lugar onde se embarca para
passar ao Egito, entre Jope e Adora, que são duas pequenas cidades marítimas.
Os portos destas, porém, não são seguros, porque são batidos pelo vento áfrico,
cuja impe-tuosidade levanta tão grande quantidade de areia contra a praia que
os navios carregados de mercadorias aí não podem estar seguros, e os pilotos
são obrigados a lançar as âncoras ao mar. Para remediar esse inconveniente,
Herodes mandou construir o porto de Cesaréia em forma de crescente, capaz de
conter um grande número de navios. E, como o mar mede ali vinte braças de
profundidade, mandou lançar pedras de tamanho enorme, a maior das quais
tinha cinqüenta pés de comprimento, dezoito de largura e nove de altura. E
havia ainda maiores.
A extensão do cais era de duzentos pés, cuja metade servia para quebrar
a violência nas ondas, e construiu-se na outra metade um muro fortificado com
torres, sendo que a maior e mais bela recebeu de Herodes o nome de Druso,
filho da imperatriz Júlia,* mulher de Augusto, que morreu jovem. Havia ainda
diversos arcos em forma de pórticos, para alojar os marinheiros. Uma descida
muito suave e que poderia servir de belíssimo passeio rodeava todo o porto,
cuja entrada estava exposta ao aquilão, que é o mais forte de todos os ventos.
Havia do lado esquerdo, por onde se entrava no porto, uma torre construída
sobre uma plataforma muito larga, feita para resistir à violência das vagas.
Do lado direito, estavam duas colunas de pedra, tão grandes que
superavam a altura da torre. Via-se ao redor do porto uma fileira de casas cujas
pedras eram muito bem talhadas, e construiu-se sobre uma colina que está
meio o Templo consagrado a Augusto. Os que navegam podem vê-lo de bem
longe, e há duas estátuas, uma de Roma e outra desse príncipe, em honra do
qual Herodes deu o nome de Cesaréia a essa cidade, não menos admirável pela
riqueza de suas construções que pela magnificência de seus ornamentos.
Fizeram-se em terra longos arcos, distantes igualmente uns dos outros,
que se dirigiam todos para o mar, e havia um que os atravessava para levar até
ele a água da chuva e as imundícies da cidade e receber ao mesmo tempo as
águas do mar, quando este se achasse muito agitado, a fim de lavar assim a
maior parte das ruas. Herodes mandou também construir um circo de pedra e,
ao lado do porto que está voltado para o sul, um enorme anfiteatro, de onde se
pode ver bem ao longe por sobre o mar. E, como ele não economizava nem
trabalho nem dinheiro em tão grandes obras, empregou doze anos para fazê-la
chegar à sua maior perfeição.
* Josefo chama-a Júlia, mas na verdade é a princesa Lívia.
670. Depois que construiu essas duas grandes cidades, Sebaste e
Cesaréia, o magnífico monarca enviou a Roma Alexandre e Aristóbulo, filhos
que tivera de Mariana, para que se fixassem na corte de Augusto. Poliom, que
era seu íntimo amigo, preparou-lhes um belo alojamento, mas sem
necessidade, porque Augusto quis hospedá-los no palácio real. Esse grande
imperador recebeu-os com singular gentileza e demonstrações de afeto,
deixando ao pai deles a liberdade de tomar por sucessor aquele que quisesse
escolher para tal. Aumentou ainda o reino de Herodes em três províncias:
Traconites, Batanéia e Auranite, pelo fato que vou narrar.
671. Zenodoro, que se havia apoderado dos bens de Lisânias, não se
contentando com os rendimentos que deles podia tirar legitimamente, tentou
aumentá-los, favorecendo os roubos pelos de Traconites, que costumavam
assaltar os arredores de Damasco. Assim, em vez de se opor a eles, Zenodoro
tinha parte no produto do roubo. Foram então queixar-se a Varo, governador da
província, e ele escreveu a Augusto, que lhe ordenou destruir completamente os
redutos desses salteadores e que desse o país a Herodes, a fim de que ele
impedisse, com os seus cuidados, a continuação de tal desordem.
Seria muito difícil remediá-la, pois os que viviam desses roubos não iam
nem para as cidades nem para as aldeias, mas para as cavernas, onde viviam
como animais. Fazendo provisões de víveres e de água, lá se escondiam quando
eram atacados ou perseguidos. A entrada dessas cavernas é tão estreita que só
é possível entrar uma pessoa por vez, porém no interior são muito espaçosas,
mais do que se pode imaginar. A terra que as cobre é plana, mas tão pedregosa
e áspera que dificilmente sexonsegue andar ali. Não se pode percorrer sem um
guia as estradas que levam a essas cavernas, tão tortuosas e emaranhadas elas
são. Aqueles homens eram ainda tão maus que quando não podiam roubar
mais ninguém, roubavam uns aos outros.
Logo que Herodes se tornou senhor dessas terras, pela doação de
Augusto, ele conseguiu, valendo-se de bons guias, chegar até as cavernas e
reprimir todos os assaltos, restituindo a calma a todos os países das
redondezas. Zenodoro, abatido de dor pela perda de seus bens e pelo ódio
contra Herodes, que os havia tirado, foi a Roma para queixar-se, mas
inutilmente.
672. Por esse mesmo tempo, Augusto enviou Agripa, a quem ele tinha
uma estima muito particular, para governar a Ásia. Herodes foi procurá-lo em
Mitilene e voltou depois a Jerusalém. Os habitantes de Cadara, querendo fazer
queixas dele a Agripa, dirigiram-se para lá. Agripa, no entanto, não somente
não os escutou como ainda os despediu acorrentados.
673. Então os árabes, que não toleravam o domínio de Herodes,
procuravam havia muito oportunidade para se revoltar e julgaram ter
encontrado uma ocasião favorável. Zenodoro, de quem acabamos de falar,
vendo malparados os seus negócios, vendeu Auranite, que fazia parte do que ele
antes possuía, por cinqüenta talentos. E, como estava compreendida na doação
feita por Augusto a Herodes, os árabes julgaram que lhes estavam fazendo uma
enorme injustiça e não iriam tolerá-la. Assim, esforçam-se de todos os modos
para conservar a província, tanto afirmando o seu direito perante os juizes
quanto pela força, servindo-se de alguns soldados que se compraziam em tomar
parte em agitações. Herodes, para evitar que sucedesse alguma rebelião, julgou
conveniente remediar esse mal mais pela conciliação que pela violência.
No décimo sétimo ano de seu reinado, Augusto veio à Síria e ouviu ali
muitas queixas contra Herodes, da parte dos habitantes de Gadara, que o
acusavam de tirania. Zenodoro, principalmente, os levava a isso, prometendo-
lhes com juramento jamais descansar até libertá-los da dominação de Herodes
e trazê-los de volta à de Augusto. Mas o que os tornou ainda mais atrevidos em
se rebelar contra Herodes foi o fato de este não castigar os que Agripa lhe
mandara acorrentados, pois quanto ele era severo com os seus súditos tanto
era afável com os estrangeiros. E atreveram-se ainda a acusá-lo de haver feito
exações. Herodes, sem se comover, preparava-se para se justificar, mas
Augusto o recebeu muito bem e demonstrou que de nenhum modo se deixara
impressionar para aquelas queixas. Disse-lhe somente alguma coisa no
primeiro dia e depois não tocou mais no assunto.
Quando os habitantes viram que os sentimentos de Augusto e dos de sua
maior confiança eram favoráveis a Herodes, o temor de serem abandonados à
vontade dele levou alguns a cometer suicídio na noite seguinte, outros a se
precipitar nos abismos e outros ainda a se afogar. Assim, tendo eles mesmos se
condenado, Augusto não encontrou dificuldade em absolver Herodes. Aconteceu
também a esse rei dos judeus outro fato auspicioso: Zenodoro morreu em
Antioquia, por causa de uma disenteria, e Augusto deu-lhe então todos os
outros bens que ele possuía na Galiléia e Traconites, que era muito extensa,
porque compreendia Ulata, Paneada e as terras vizinhas. Augusto acrescentou-
lhe ainda outro favor: ordenou aos governadores da Síria que nada fizessem
sem ordem do rei da Judéia.
Augusto reinava sobre quase toda a terra, e podia-se dizer que Agripa
governava depois dele esse poderoso império. Nisso era grande a felicidade de
Herodes, pois Augusto, depois de Agripa, não estimava ninguém como a ele, e
Agripa não estimava ninguém mais que a Herodes, depois de Augusto. Dois
apoios tão poderosos davam-lhe motivo de esperar todo poder, então ele pediu e
obteve de Augusto para Feroras, seu irmão, a vice-govemança de todo o seu
reino e recolheu imediatamente cem talentos de sua renda a fim de que o irmão
tivesse com que viver depois de sua morte, sem depender dos filhos. Depois
acompanhou Augusto até o embarque e construiu em sua honra, nas terras de
Zenodoro, perto de Panio, um soberbo Templo de mármore branco. Panio é uma
enorme caverna sob um monte muito agradável, onde nascem as águas do
Jordão. Como esse lugar era já muito célebre, Herodes escolheu para lá
consagrar esse Templo a Augusto.
674. Nesse mesmo tempo, Herodes dispensou os seus súditos da terça
parte dos tributos, dizendo que o fazia para que se refizessem dos males
causados pela carestia. Mas a verdadeira razão era que ele queria acalmar-lhes
o espírito por aquelas grandes obras, tão contrárias à sua religião e pelas quais
eles não dissimulavam o seu descontentamento. Temendo as conseqüências
dessa indisposição, tudo ele fez para diminuí-la e mesmo impedi-la. Ordenou
que cada qual se ocupasse apenas de seus assuntos particulares e proibiu, sob
grandes castigos, as assembléias e os banquetes em Jerusalém. Prezava tanto a
observância desse edito que havia guardas nas cidades e nos grandes caminhos
para vigiar e prender os que desobedecessem, os quais eram secreta ou mesmo
abertamente levados à fortaleza de Hrrcânia e ali castigados com rigor. Diz-se
que ele próprio se disfarçava-eom freqüência e à noite misturava-se com o povo
para auscultar-lhe os sentimentos com relação ao governo. E castigava sem
misericórdia os que condenavam o seu proceder, obrigando os outros com
juramento a jamais lhe faltar à fidelidade.
Assim, a maior parte fazia por medo tudo o que ele ordenava, e não havia
meios de que ele não se servisse para condenar os que, não suportando aquele
tratamento, tinham a coragem de se queixar. Quis também obrigar Poliom
Fariseu, Sameas e a maior parte de seus discípulos ao mesmo juramento.
Porém, ainda que eles recusassem fazê-lo, não os castigou como aos demais,
pelo respeito que tinha a Poliom, e dispensou também do juramento os que nós
chamamos essênios, cujos sentimentos são semelhantes aos dos filósofos e aos
quais os gregos chamam pitagóricos, como já dissemos alhures. Sobre isso,
creio não me afastar do assunto de minha história se disser a razão que levou
Herodes a ter deles uma opinião tão favorável.
675. Um essênio, de nome Manaém, que levava uma vida muito virtuosa e
era louvado por todos, recebeu de Deus o dom de predizer o futuro. Tendo ele
visto Herodes ainda bastante jovem estudar com as crianças de sua idade,
disse-lhe que ele reinaria sobre os judeus. Herodes julgou que ele não o
conhecia ou que estava zombando dele e por isso respondeu-lhe que bem via
que ele desconhecia a sua origem e o seu nascimento, que não eram tão ilustres
que o fizessem esperar tal honra.
Manaém retrucou, sorrindo e dando-lhe uma palmadinha nas costas: Eu
vo-lo disse e vo-lo digo ainda que sereis rei e reinareis venturosamente, porque
Deus assim o quer. Lembrai-vos então desta pancadinha que vos acabo de dar,
para indicar as diversas mudanças de sorte, e nunca vos esqueçais de que um
rei deve ter continuamente diante dos olhos a piedade que Deus lhe pede, a
justiça que deve ministrar a todos e o amor que é obrigado a ter pelos seus
súditos. Mas sei que não o fareis quando fordes elevado a tão alto grau de
poder. Pois sereis feliz em tudo o mais e digno de glória imortal tanto quanto
sereis infeliz por vossa impiedade para com Deus e vossa injustiça para com os
homens. Mas não podereis escapar à vista desse Senhor soberano do universo.
Ele penetrará os vossos pensamentos mais ocultos, e experimentareis no fim de
vossa vida os efeitos de sua cólera.
Herodes não deu então grande importância a essas palavras, mas quando
se viu elevado ao trono e em tão grande prosperidade, mandou buscar Manaém
e perguntou-lhe sobre a duração de seu reinado, se chegaria a dez anos. Ele
respondeu: De vinte a trinta, sem nada determinar de positivo. Herodes,
muito satisfeito com essa resposta, despediu-o corwnuita gentileza e depois
disso tratou sempre os essênios muito favoravelmente. Não duvido de que isso,
para muitos, pareça inacreditável. No entanto, julguei dever relatá-lo, porque
há vários dessa seita aos quais Deus se digna revelar os seus segredos, por
causa da santidade de sua vida.",