Livro 10 – Capítulo IX História Eclesiástica

Da vitória de Constantino e do que este permitiu aos súditos do poder romano

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1. A este, por conseguinte, foi que Deus outorgou desde cima, como fruto digno de sua piedade, o

troféu da vitória contra os ímpios. Em troca, precipitou o criminoso com todos seus conselheiros

e amigos aos pés de Constantino.

2. Efetivamente, tendo aquele feito avançar seus atos até extremos de loucura, o imperador amigo de

Deus concluiu que já era insuportável. Fazendo seu cálculo prudente e somando a sua

humanidade a firmeza do juiz, decide acudir em socorro dos que sofriam sob o tirano.

Desembaraçou-se de alguns breves contratempos e pôs-se em movimento para recobrar a maior

parte do gênero humano.

3. Até então, efetivamente, havia utilizado com ele somente a humanidade, e havia-se compadecido

de quem não era digno de compaixão, sem proveito nenhum, já que o outro não se afastava de sua

maldade, antes até, aumentava ainda mais sua raiva contra as nações submetidas e já não deixava

nenhuma esperança de salvação para os maltratados, tiranizados como estavam por uma fera

espantosa.

4. Por isto, juntando seu ódio ao mal com seu amor ao bem, o defensor dos bons avança junto com

seu filho Crispo, humaníssimo imperador, estendendo sua destra salvadora a todos os que pereciam.

Logo, como se tivessem guias e como aliados a Deus, rei universal, e a seu Filho, salvador de

todos, pai e filho, ambos de uma vez, separam em círculo sua formação contra os inimigos de Deus e

conseguem para si uma fácil vitória, já que Deus lhes dispôs tudo no confronto conforme seu

plano.

5. Efetivamente, de súbito e com mais rapidez do que se diz, os que ontem e anteontem respiravam

morte e ameaça721, já não existiam722; nem de seus nomes havia memória; suas imagens e

monumentos recebiam seu merecido desdouro, e o que em outro tempo Licínio contemplou com

seus próprios olhos nos ímpios tiranos, isto mesmo ele sofreu em pessoa, por não arrepender-se nem

corrigir-se ante os castigos de seus vizinhos. Depois de compartir com estes o mesmo caminho da

impiedade, caiu merecidamente no mesmo precipício que eles.

6. Mas, enquanto ele jazia prostrado desta maneira, Constantino, o vencedor máximo, que

sobressaía em toda virtude religiosa, e seu filho Crispo, imperador amado de Deus e semelhante em

tudo a seu pai, recobraram o familiar Oriente e apresentavam reunido em um, como antigamente,

o governo romano, conduzindo sob a paz de ambos a terra toda, desde o sol nascente, em círculo

por uma e outra parte do orbe habitado, e pelo norte e o meio dia, até o limite extremo do

Ocidente.

7. Em conseqüência, eliminava-se de entre os homens todo medo aos que antes os pisoteavam, e

em troca, celebravam-se brilhantes e concorridos dias de solenes festas. Tudo explodia de luz. Os

que antes andavam cabis-baixos olhavam-se mutuamente com rostos sorridentes e olhos

721 At 9:1.

722 Ap 17:8-11.

radiantes, e pelas cidades, assim como pelos campos, as danças e os cantos glorificavam em

primeiríssimo lugar o Deus rei e soberano de tudo - porque isto haviam aprendido -, e em seguida

o piedoso imperador, junto com seus filhos amados por Deus.

8. Havia perdão dos males antigos e esquecimento de toda impiedade; gozava-se dos bens

presentes e esperavam-se os vindouros. Por conseguinte, estendiam-se por todo lugar

disposições do vitorioso imperador cheias de humanidade e leis que levavam a marca da

munificência e verdadeira piedade.

9. Expurgada assim, realmente, toda tirania, o império que lhes correspondia reservava-se seguro e

indiscutível somente para Constantino e seus filhos, os quais, depois de eliminar do mundo antes

de tudo o ódio a Deus, conscientes dos bens que Deus lhes havia outorgado, tornaram manifesto

seu amor à virtude, seu amor a Deus, sua piedade para com Deus e sua gratidão, mediante obras

que realizavam publicamente à vista de todos os homens.

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