Livro 10 – Capítulo IV História Eclesiástica

Panegírico ante o esplendor de nossos assuntos

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1. E saiu ao meio um homem, um dos moderadamente dotados, que tinha composto um discurso642.

Numa igreja abarrotada, e estando presentes muitos pastores que escutavam em silêncio e ordem,

pronunciou o seguinte discurso, dirigindo-se pessoalmente a um só bispo643, amigo de Deus e o

melhor de todos, por cuja solicitude e zelo havia-se erigido em Tiro o mais notável

templo da Fenícia e arredores.

PANEGÍRICO SOBRE A EDIFICAÇÃO DAS IGREJAS, DIRIGIDO A PAULINO, BISPO DE TIRO.

2. "Amigos de Deus e sacerdotes revestidos com a santa túnica talar, com a celestial coroa da

glória, com o crisma divino e com a vestimenta sacerdotal do Espírito Santo. E tu, jovem orgulho

do santo templo de Deus, que, ainda que honrado por Deus com uma sabedoria de ancião, tens

demonstrado, mesmo assim, magníficas obras e ações próprias de uma virtude jovem e em pleno

vigor; tu, a quem o próprio Deus, que abarca todo o mundo, outorgou como privilégio especial

edificar sua casa sobre a terra e restaurá-la para Cristo, seu Verbo unigênito e primogênito, e para

sua santa e divina esposa.

3. Um queria chamar-te o novo Beseleel644, arquiteto de um tabernáculo divino645; ou então

Salomão, rei de uma Jerusalém nova e muito melhor, ou então, até mesmo novo Zorobabel que

circunda o templo de Deus com uma glória muito melhor do que a primeira.

638 Rm 12:5; 1 Co 12:12.

639 Ez 37:7-10.

640 At 4:32.

641 Sl 148:12.

642 Todos os comentaristas concordam que se trata do próprio Eusébio, então já bispo de Cesaréia.

643 Ainda que o nome não seja citado, trata-se de Paulino.

644 Também chamado Bezalel.

645 Ex 31:2; 35:30-34.

4. Mas também vós, rebentos do sagrado rebanho de Cristo, lugar de boas doutrinas, escola de

temperança e auditório de piedade, venerável e amado de Deus.

5. Antes, quando conhecíamos os extraordinários milagres e os admiráveis benefícios do Senhor

em favor dos homens apenas de ouvir, escutando as leituras sagradas, assim educados, era-nos

possível dirigir hinos e cânticos ao Senhor e dizer: Oh Deus, com nossos ouvidos ouvimos! Nossos

pais nos anunciaram a obra que tu realizaste em seus dias, nos dias antigos646.

6. Mas agora que já não conhecemos de ouvido nem por rumor de palavras o longo braço647 e a

destra celestial de nosso Deus, todo bondade e universal, mas, por assim dizer, nas obras e com

nossos próprios olhos comprovamos que são fiéis e verdadeiras as maravilhas antigamente

confiadas à memória, podemos entoar um segundo hino de vitória e alçar claramente nossas vozes

dizendo: Como tínhamos ouvido dizer, assim o vimos na cidade do Senhor dos exércitos, na

cidade de nosso Deus648.

7. Mas, em que cidade senão nesta, recém-fundada e edificada por Deus? Esta, que é Igreja do Deus

vivo, coluna e sólido baluarte da verdade649, acerca da qual outro oráculo divino já anunciava esta

boa nova: Gloriosas coisas se têm dito de ti, cidade de Deus650. Posto que é nela onde o Deus

santíssimo nos congregou pela graça de seu Unigênito, cada um dos convidados entoe hinos, e

ainda a gritos diga: Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor651. E também:

Senhor, eu amo a habitação de tua casa e o lugar em que tua glória acampa652.

8. E não somente um a um, mas também todos de uma só vez: com um só espírito e uma só alma,

honremo-lo bendizendo-o assim, Grande é o Senhor e digníssimo de louvor na cidade de nosso

Deus, em seu santo monte!653 Porque grande é, na verdade, grande é sua casa, alta e espaçosa, e

fresca e formosa mais do que os filhos dos homens654. Grande é o Senhor, o único

que faz maravilhas655; grande o que faz grandes obras e insondáveis, gloriosas, descomunais,

inumeráveis656; grande o que muda as estações e os tempos, o que depõe os reis e os

estabelece657, Ele que levanta da terra o pobre e alça do esterco o indigente658; derrubou

poderosos de seus tronos e levantou da terra os humildes; encheu de bens os famintos659, e

quebrou os braços dos soberbos660,

9. confirmada assim, como digna de fé, a memória dos antigos relatos, e não somente para os fiéis,

mas também para os infiéis, ele, o taumaturgo, executor de grandes obras, dono do universo,

construtor de todo o mundo, todo-poderoso, bondade suprema, o um e único Deus! Cantemos a

ele um cântico novo661, respondendo interiormente ao que é único a fazer maravilhas, porque

sua misericórdia é eterna; ao que feriu grandes reis e matou reis poderosos, porque sua

misericórdia é eterna, porque em nossa humilhação lembrou-se de nós e nos livrou de nossos

inimigos.

10. Tomara nunca cessemos de aclamar com estes termos o Pai do universo! E quanto ao que é

causa segunda de nossos bens, o introdutor do conhecimento de Deus, o mestre da verdadeira

piedade, o destruidor dos ímpios e restaurador da vida, Jesus, salvador dos que estávamos

desesperados, tomemos seu nome em nossas bocas e honremo-lo!

646 Sl 43:2 (44:1).

647 Sl 135 (136):12.

648 Sl 47:9 (48:8).

649 1 Tm 3:15.

650 Sl 86 (87):3.

651 Sl 121 (122):1.

652 Sl 25 (26):8.

653 Sl 47:2 (48:1-2)

654 Sl 44:3 (45:2).

655 Sl 71 (72): 18.

656 Jó 9:10.

657 Dn 2:21.

658 Sl 112 (113):7.

659 Lc 1:52-53.

660 Jó 38:15.

661 Sl 97 (98): 1.

11. Porque somente Ele, como Filho que é absolutamente único e santíssimo de um Pai santíssimo,

por vontade do amor paterno aos homens, vestiu prazerosamente nossa natureza de homens, que

jazíamos em profunda corrupção, e como médico excelentíssimo, por causa da salvação dos

enfermos, "vê coisas terríveis e toca chagas repugnantes, e nas calamidades alheias colhe

sofrimentos próprios", pois não somente nos salvou estando enfermos ou agoniados com

terríveis chagas e feridas já putrefatas, mas inclusive aos que jazíamos entre os mortos Ele

mesmo nos arrancou para si dos próprios abismos da morte, porque nenhum outro dos que estão

no céu possui tanta força como para colocar-se ao serviço da salvação de tantos sem desprezo

próprio.

12. Assim pois, somente Ele tocou nossa própria e gravíssima corrupção, somente Ele suportou

nossos trabalhos, somente Ele tomou para si as penas de nossas iniqüidades662. E não nos

levantou quando estávamos meio mortos, mas já completamente corrompidos e hediondos em

tumbas e sepulcros. Assim antes como agora, com sua amorosa solicitude pelos homens, contra

a esperança de todo o mundo e, portanto, da nossa, segue salvando-nos e fazendo-nos partícipes

da abundância de bens do Pai, Ele, o vivificador, o que trouxe a luz, nosso grande médico, rei e

Senhor, o Cristo de Deus.

13. Mas então, vendo todo o gênero humano afundado em noite escura e em profundas trevas, por

serem pervertidos por funestos demônios e pela ação dos espíritos inimigos de Deus, apareceu

uma vez por todas e desatou as muitas e firmes amarras de nossas iniqüidades como se derrete a

cera com os raios de sua luz663.

14. Mas agora, ante tamanha graça e tão grande benefício, explodiu, por assim dizer, a inveja do

demônio, odiento do bem e amigo do mal, que mobilizou contra nós todas suas hostes mortíferas.

Primeiro, como cão raivoso que quebra seus dentes contra as pedras que lhe lançam e descarrega

sua fúria, dirigida aos que o rechaçam, contra uns projéteis sem alma, dirigiu sua loucura

selvagem contra as pedras dos oratórios e contra os materiais inanimados das casas, para fazer

das igrejas - assim pelo menos acreditava para si - um deserto; depois, deixou escapar seus

terríveis assobios e gritos de serpente, com ameaças de ímpios tiranos, ou com editos blasfemos

de iníquos governantes, e finalmente, vomitou a morte, que é sua, e envenenou com peçonhas

deletérias e mortais as almas por ele aprisionadas, e esteve a ponto de fazê-las morrer com

sacrifícios mortíferos a ídolos mortos e atiçou contra nós toda a fera de forma humana e as bestas

selvagens de toda espécie.

15. Mas novamente o anjo do grande conselho, o grande general do exército de Deus664, depois do

suficiente treinamento que demonstraram os maiores soldados de seu reino com sua paciência e

sua constância em todos os tormentos, de novo surgiu assim, de repente, e varreu adversários e

inimigos e reduziu-os a nada, até que parecesse que jamais tiveram nome, e, por outro lado, fez

seus amigos e familiares avançarem além da glória diante de tudo, não somente dos homens, mas

também dos exércitos celestes, do sol, da lua e das estrelas, do céu inteiro e do mundo.

16. De tal maneira que - coisa que nunca havia acontecido - os mais altos imperadores665, conscientes

da honra que d'Ele obtiveram, cuspiram no rosto dos ídolos mortos, pisotearam as criminosas

cerimônias dos demônios e zombavam do antigo engano transmitido pelos seus antecessores; e

ainda, reconheciam que há um só Deus, único e ele mesmo, benfeitor comum de

todos e deles próprios, e confessavam a Cristo como Filho de Deus, rei supremo de tudo; em

esteias proclamavam-no salvador e, para memória imorredoura, fizeram também gravar com

caracteres imperiais no meio da cidade que impera sobre as outras666 da terra suas felizes

empresas e suas vitórias contra os ímpios, de maneira que Jesus Cristo, nossos salvador, é o único

dos que existiram desde os séculos a quem os próprios hierarcas da terra reconheceram, não mais

como um rei comum saído dentre os homens, mas como verdadeiro Filho do Deus do universo,

662 Is 53:4-5.

663 Sl 57 (58):9.

664 Js 5:14.

665 Os augustos Constantino e Licínio.

666 Só pode se referir a Roma e ao arco de Constantino.

como a Deus o adoram.

17. E com razão! Pois, que rei alguma vez alcançou tal grau de virtude que com seu nome

preenchesse o ouvido e a língua de todos os homens da terra? Que rei estabeleceu leis tão

piedosas e tão prudentes e teve também força bastante para fazê-las chegar aos ouvidos de todos os

homens, desde o confim do mundo até o limite da terra habitada?

18. Quem aboliu os bárbaros e selvagens costumes de povos selvagens com suas leis suaves e de

amorosa humanidade? E quem, tendo sido combatido por todos durante séculos inteiros,

demonstrou um vigor sobre-humano, tanto que a cada dia florescia e rejuvenescia durante toda

sua vida?

19. E quem fundou um povo do qual nunca em todos os séculos se ouvira falar, e não o ocultou em

qualquer rincão da terra, mas estabeleceu-o por todo lugar sob o sol? Quem protegeu seus

soldados com armas de piedade, de tal maneira que suas almas nos combates contra os adversários

pareciam mais fortes do que o diamante?

20. E que rei é tão poderoso e dirige uma campanha depois de morto? Levanta troféus vitoriosos

contra os inimigos, e preenche todo lugar, região e cidade, grega ou bárbara, com dedicações de

suas régias moradas e de templos divinos, como esses belíssimos ornamentos e oferendas que

vemos neste templo? Porque também estes próprios objetos são realmente veneráveis e grandes,

dignos de admiração e estupor, como provas claras que são da realeza de nosso Salvador. Porque

também agora Ele falou, e as coisas se fizeram; Ele o mandou, e foram criadas667 (e, quem

resistiria à autoridade do rei e chefe universal, do próprio Verbo de Deus?). Isto, para uma conside-

ração e uma interpretação exatas, necessitaria espaço e discurso próprios.

21. Em realidade, a quantidade e a qualidade do zelo dos que trabalharam não é julgada tão

importante por aquele que chamamos Deus e que está contemplando o templo vivo que sois vós e

vela pela casa de pedras vivas668 e bem montadas, e assentada com toda segurança sobre o

fundamento dos apóstolos e profetas, cuja pedra angular é Jesus Cristo669, a quem rechaçaram, não

somente os construtores daquela antiga edificação que já não existe, mas também os da edificação

de muitos homens subsistente até hoje, por serem maus arquitetos de más obras. Mas o Pai a

provou, e tanto então como agora a estabeleceu como cabeça de ângulo desta nossa Igreja comum.

22. Em conseqüência, se alguém pensa a respeito, quem poderia atrever-se a descrever este templo

vivo do Deus vivo?670, cujo material de construção sois vós mesmos? Refiro-me ao maior

santuário e o mais digno de Deus por toda a verdade da palavra, cujo interior mais profundo é

inacessível e invisível para o vulgo, porque realmente é santo, e santo dos santos. E quem será

capaz mesmo de abaixar-se para olhar dentro do recinto sagrado, se não unicamente o grande

pontífice de todos?, o único a quem é permitido esquadrinhar os mistérios de toda alma

racional?

23. Mas talvez também seja possível a outro ser o segundo, depois d'Ele, um apenas, único entre os

iguais: o que foi estabelecido chefe do exército aqui presente, a quem o primeiro e grande

pontífice em pessoa, depois de honrá-lo com o segundo lugar dos ministérios sagrados daqui,

instituiu como pastor de vosso divino rebanho, e a quem coube pela sorte vosso povo por escolha

e por juízo do Pai, que assim o constituía seu servidor e intérprete, novo Aarão e novo

Melquisedeque feito semelhante ao filho de Deus, que permanece e que Deus conserva

continuamente pelas orações conjuntas de todos nós671.

24. A este pois, e a ele somente, depois do primeiro e sumo pontífice, é permitido, se não no primeiro

posto, mas ao menos no segundo, ver e inspecionar os mais recônditos aspectos de vossas almas.

Por sua experiência de longos anos, conhece-vos a cada um com exatidão; e por sua diligência e

cuidado vos tem a todos bem-dispostos na ordem e na doutrina da piedade, e mais do que todos os

outros é capaz de explicar com razões que rivalizam com as obras tudo o que ele mesmo levou a

667 Sl 32 (33):9; 148:5.

668 1 Pe 2:5.

669 Ef 2:20-21.

670 1 Co 3:16-17.

671 Está se referindo ao bispo de Tiro, Paulino.

cabo com ajuda do poder divino.

25. Pois bem, nosso primeiro e sumo pontífice diz: tudo o que vê o Pai fazer, o Filho também o faz672.

E assim também este673, como se com os puros olhos de sua mente contemplasse o primeiro

mestre, quantas coisas o vê fazer também realiza, e valendo-se delas como exemplos e

arquétipos, tenta modelar suas imagens com a maior semelhança que lhe é possível, nada

devendo àquele Beseleel a quem Deus mesmo havia preenchido com o espírito de sabedoria, de

inteligência e de outros conhecimentos técnicos e científicos, chamando-o para ser artífice da

construção do templo dos tipos celestes por meio de símbolos674.

26. De igual maneira este homem, levando impresso em sua alma o Cristo inteiro, o Verbo, a Sabedoria

e a Luz, nos é possível dizer com que grandeza de sentimentos, com que mão liberal e insaciável de

previsão e com que emulação de todos vós - pois vos traria grande orgulho a magnanimidade de

vossas contribuições, não ficando de modo algum atrás dele em seu próprio propósito - construiu

este magnífico templo do Altíssimo, semelhante por sua natureza ao modelo melhor, quanto pode

o visível sê-lo do invisível675. E este lugar - que também merece ser mencionado como o primeiro

de todos -, ainda que por obra dos inimigos se achasse sepultado sob montes de todo tipo de

imundícies, ele não o desdenhou nem cedeu à maldade dos culpados, apesar de ser-lhe possível ir a

outro lugar - havia milhares deles pela cidade - onde acharia facilidade para o trabalho e estaria

longe de problemas.

27. Ele mesmo foi o primeiro que se animou à tarefa. Logo, infundindo força com seu entusiasmo a

todo o povo e formando com todos como uma grande e única mão, travou este primeiro combate.

Ele pensava que exatamente esta igreja que havia sido destruída pelos inimigos, que havia

penado a primeira e havia sofrido as mesmas perseguições que nós e inclusive antes de nós, que

como uma mãe havia sido privada de seus filhos, esta igreja sobretudo tinha que participar

também no gozo do magnífico presente do Deus santíssimo.

28. Efetivamente, o grande pastor, depois de espantar as feras, os lobos e todo tipo de bestas cruéis e

selvagens, e depois de quebrar os dentes dos leões, como dizem as divinas Escrituras676,

novamente julgou conveniente juntar no mesmo lugar seus filhos, e com perfeitíssimo direito

levantou o aprisco de seu rebanho para envergonhar o inimigo e o rebelde677, e para oferecer uma

refutação da audácia dos ímpios em sua luta contra Deus.

29. E agora aqueles homens odientos de Deus já não existem, porque tampouco existiam678. Depois

de haver causado e de haver sofrido por sua vez perturbações por breve tempo, e depois de

suportar um castigo irrepreensível em justiça, eles mesmos se arruinaram por completo e

arruinaram seus amigos e suas famílias, tanto que as predições gravadas outrora em esteias são

reconhecidas agora como verdadeiras ante os fatos. Por meio destes, a palavra divina afirma

como verdadeiras as outras coisas, mas também o que declara acerca daqueles:

30. "Os pecadores desembainharam uma espada; esticaram seu arco para abater o pobre e o

indefeso, para degolar o reto de coração. Oxalá sua espada penetre em seus próprios corações

e seus arcos se quebrem!679; e novamente: Sua memória se perdeu com o eco, e seus nomes

estão apagados para sempre e pelos séculos dos séculos, porque realmente, achando-se entre

males gritaram, mas não havia quem os salvasse; gritaram ao Senhor, e não os escutou680.

Mesmo assim, travaram-se-lhes os pés e caíram. Mas nós nos levantamos e nos

endireitamos681. E ante os olhos de todos mostra-se verdadeiro o que se predizia com estas

672 Jo 5:19.

673 Paulino.

674 Ex 31:2-4; Hb 8:5.

675 O edifício material é imagem visível da Igreja.

676 Sl 57:7 (58:6).

677 Sl 8:2-3.

678 Ap 17:8,11.

679 Sl 36 (37):14-15.

680 Sl 17:42(18:41).

681 Sl 19:9 (20:8).

palavras: Senhor, em tua cidade reduzirás a nada sua imagem682.

31. Eles, que levantaram uma luta contra Deus parecida com a dos gigantes, tiveram um final

igualmente catastrófico. Por outro lado, o fim daquela683, deserta e rechaçada pelos homens, foi

como se viu, o da paciência de Deus, segundo proclama a profecia de Isaías, que diz assim:

32. "Exulta, deserto sedento! Que se alegre o deserto e floresça como lírio! E a terra árida

florescerá e exultará. Fortalecei-vos, mãos lânguidas e joelhos desfalecidos! Consolai-vos,

pusilânimes de coração, fortalecei-vos, não temais! Vede que nosso Deus responde com um

juízo e julgará. Ele mesmo virá e vos julgará, porque - diz - brotou água no deserto, e uma

torrente na terra sedenta, e a que estava sem água se converterá em lago, e na terra sedenta

haverá um manancial de água684.

33. E estas coisas, previstas antigamente em palavras, estão referidas nos livros sagrados. Mas sua

realidade já não nos foi transmitida de ouvido, mas de fatos. Esta, a deserta, a sem água, a viúva,

a indefesa, aquela cujas portas haviam derrubado a machadadas como bosques de lenha, a que

em consenso destruíram com machados e achas e na qual, depois de haver destruído seus livros,

tocaram fogo ao santuário de Deus, profanaram em terra o tabernáculo de seu nome; esta, da

qual todos arrancavam quando passavam pelo caminho depois que derrubaram sua cerca, a que

o javali devastara desde o bosque e a fera solitária destroçara, agora, pelo poder milagroso de

Cristo e quando Ele mesmo o quis, veio a ser como um lírio, pois também então era castigada

por vontade d'Ele, como o faria um pai cuidadoso, porque o Senhor repreende a quem ama e

açoita a quem recebe como filho.

34. Assim pois, uma vez corrigida na devida medida, outra vez foi-lhe ordenado de cima que se

alegrasse, e florescerá como lírio e exalará para todos os homens um bom odor divino, porque,

diz, brotou água no deserto, a corrente da divina regeneração do banho salvador. E agora, a que

há pouco era deserto converteu-se em. lago, e na terra sedenta borbotou um manancial de água

viva, e as mãos, antes lânguidas, fortaleceram-se realmente. E prova grande e manifesta da

força dessas mãos são estas obras. Mas inclusive os joelhos, noutro tempo estropeados e

desfalecidos, recobrando sua habitual força para andar, marcham bem retos pelo caminho do

conhecimento de Deus e apressam seu passo até o familiar rebanho do Pastor santíssimo.

35. E ainda que alguns tivessem suas almas embotadas pelas ameaças dos tiranos, tampouco os deixa

sem cura o Verbo salvador. Muito pelo contrário, também estes ele cura e os exorta ao consolo de

Deus, dizendo:

36. "Consolai-vos, pusilânimes de coração; fortalecei-vos, não temais! A palavra que predizia que

aquela que se havia convertido em deserto por causa de Deus haveria de gozar de todos estes

bens, foi ouvida por este nosso novo e bom Zorobabel com o agudíssimo ouvido de sua mente,

depois daquele amargo cativeiro e da abominação da desolação685. Não desdenhou as ruínas mortas.

Em primeiríssimo lugar, com súplicas e orações, e com o unânime sentimento de todos vós,

aplacou o Pai, e tomando como aliado e colaborador o único que pode reanimar os mortos, levantou

a que estava caída - depois de purificá-la e curá-la previamente de seus males - e envolveu-a com

uma veste, não com a antiga dos tempos remotos, mas com aquela sobre a qual lhe instruíam os

divinos oráculos quando claramente dizem: E a glória desta nova casa será maior do que a da

primeira686.

37. E assim, todo o terreno que demarcou era muito maior687. Por fora fortificou o recinto com um muro

em toda a volta, de maneira que fosse uma defesa segura para toda a obra.

38. Abriu um vestíbulo amplo e de grande altura, que se voltava aos próprios raios do sol nascente, e

com isto proporcionou aos que estão longe, fora dos muros sagrados, o poder contemplar sem

682 Sl 72 (73):20.

683 A Igreja.

684 Is 35:1-7. Para Eusébio o deserto de Isaías é imagem da Igreja.

685 Dn 9:27.

686 Ag 2:9.

687 Eusébio começa a descrever os planos e a construção da igreja. É o mais antigo relato deste tipo, e ele fez o

mesmo sobre outras igrejas. Devemos lembrar que Eusébio não era arquiteto, mas um orador comprometido com os

recursos da retórica.

restrição o que há dentro, quase fazendo voltar-se a vista dos estranhos à fé para suas primeiras

entradas, de modo que ninguém pudesse passar ao largo sem que antes a dor lhe penetrasse na

alma pela recordação da desolação passada e pela admiração da extraordinária obra de agora.

Talvez esperasse que alguém, afetado por isso, se deixasse arrastar, e por seu próprio olhar se

dirigisse à entrada.

39. Mas a quem entrou pelas portas não se permitiu de imediato pisar com pés impuros e sujos os

lugares santos do interior, mas, separando o mais possível o intervalo entre o templo e as primeiras

entradas, adornou todo o derredor com quatro pórticos oblíquos, cercando assim o lugar em

forma mais ou menos quadrangular, com colunas que se alçam de todas as partes e cujos

intervalos se fecham em toda a volta com barreiras de treliça de madeira, a uma altura

conveniente. O centro do átrio foi deixado livre para que se visse o céu, oferecendo assim um ar

puro e aberto aos raios do sol.

40. E ali colocou os símbolos das purificações sagradas: frente à fachada do templo fez construir

fontes que, com o abundante fluir de sua corrente, facilitam a purificação para os que avançam

dentro dos recintos sagrados. E este é o primeiro lugar dos que entram, lugar que proporciona a

todos ornamento e beleza, e aos que ainda necessitam as primeiras iniciações, uma estância

adequada.

41. Mas, superando inclusive o espetáculo de tudo isto, fez as entradas do templo ainda muito mais

abertas, com numerosos vestíbulos interiores. Numa só face - novamente o que cai sob os raios

do sol - colocou três portas, e delas quis que a do meio fosse, por muito, superior às outras duas

em altura e largura, e adornou-as, antes de tudo, com placas de bronze, presas com ferros, e com

variados desenhos em relevo, e sujeitou a esta, como a uma rainha, as outras duas na qualidade

de escolta.

42. De igual maneira dispôs também para os pórticos de um e de outro lado do templo o número dos

vestíbulos; idealizou também, para ter mais luz de cima, diferentes aberturas sobre o edifício e as

adornou rodeando-as com finos e multicoloridos trabalhos em madeira.

Quanto ao edifício basilical688, consolidava-o com materiais mais ricos e abundantes, sem

regatear gastos.

43. Aqui me parece supérfluo andar descrevendo com palavras o comprimento e a largura do edifício,

esta esplêndida formosura e sua grandeza, superiores a toda palavra, o aspecto brilhante das

obras, assim como sua altura, que chega ao céu, e os preciosos cedros do Líbano colocados

acima de tudo, dos quais nem o oráculo divino silencia a menção, pois diz: Revigoram-se as

árvores do Senhor e os cedros do Líbano que ele plantou689.

44. Para que necessito eu agora andar compondo uma descrição exata da sapientíssima e arquitetônica

disposição, assim como da soberba beleza de cada uma das partes, quando o testemunho da vista

torna desnecessário o ensinamento que chega aos ouvidos? Mas assim é que, depois de haver

assim terminado o templo, adornou-o com tronos mui elevados para honrar os que presidem, e

ainda com bancos dispostos em ordem para os comuns, segundo corresponde. E depois de tudo

isto, pôs no meio o altar, como santo dos santos, e para que não fosse acessível à massa, cercou-o

também com treliçados de madeira cuidadosamente adornados com finos trabalhos de arte até

em cima, oferecendo assim um admirável espetáculo a quantos o vêem.

45. Mas deve-se saber que tampouco descuidou do pavimento. Também este fez brilhar com todo

tipo de adornos em pedra de mármore. E por último passou ao exterior do templo e construiu

êxedras e edifícios muito grandes de um e de outro lado, habilmente ligados pela face ao edifício

basilical, formando um todo e unidos com passadiços que vão ao edifício central. E todas estas

construções levou-as a cabo nosso mui pacífico Salomão690, o que edificou o templo do Senhor,

para os que ainda estão necessitando a purificação e a ablução que se dão pela água e o Espírito

Santo, de tal modo que já não é palavra, mas que foi feita realidade a profecia lida mais acima.

46. Porque também agora ocorre em verdade que a glória desta nova casa será maior do que a da

688 A igreja propriamente dita.

689 Sl 103 (104):16.

690 Jogo de palavras com o nome Salomão, que significa "pacífico".

primeira.

Efetivamente, depois que seu Pastor e Senhor sofreu a morte por ela, uma vez por todas, e depois

que na paixão transformou o corpo de imundície que por ela havia vestido em corpo brilhante e

glorioso, e depois de livrar da corrupção a carne e levá-la à incorrupção, era necessário e

conveniente que também esta Igreja colhesse de igual modo os frutos dos desígnios do Salvador.

Posto que realmente recebeu d'Ele uma promessa de bens muito melhores que estes, deseja

receber de maneira suficiente e pelos séculos vindouros a glória muito maior da regeneração na

ressurreição de um corpo incorruptível em companhia do coro dos anjos de luz nos palácios de

Deus, além dos céus e com o próprio Cristo Jesus, benfeitor e salvador universal.

47. Mesmo assim, enquanto isto, no tempo presente, a que antes se achava viúva e deserta, depois

que pela graça de Deus está rodeada de flores, converteu-se realmente em um lírio, segundo diz a

profecia, e tendo tomado novamente a veste nupcial e cingindo-se a coroa da divindade, por meio

de Isaías aprende a dançar, enquanto com cantos de louvor apresenta os sacrifícios de ação de

graças a seu rei e Deus.

48. Ouçamo-la dizer: Alegre-se minha alma no Senhor, porque vestiu-me com uma veste de salvação

e uma túnica de alegria. Cingiu-me uma diadema como a um esposo, e como a uma esposa

enfeitou com jóias. E como terra que faz crescer suas flores, e como jardim que fará germinar

suas-sementes, assim o Senhor fez germinar a justiça e o regozijo diante de todas as nações691.

Ao som destas palavras, pois, ela dança.

49. Mas, em que termos lhe responde o Verbo celestial, o próprio Jesus Cristo? Ouve o Senhor

dizer: Não temas porque te desonraram nem te inquietes porque te ultrajaram. Porque

esquecerás tua vergonha perpétua e não te lembrarás mais do ultraje da viuvez. O Senhor não

te chamou como mulher abandonada e diminuída nem como mulher odiada desde a juventude.

Disse teu Deus: por breve tempo te abandonei, e em minha grande misericórdia terei

misericórdia de ti. Num momento de indignação afastei meu rosto de ti, e numa misericórdia

perpétua terei misericórdia de ti, disse o Senhor que te livrou692.

50. Desperta, desperta, tu que bebes da mão do Senhor o vaso de sua ira. Porque o vaso da queda,

o vaso de minha ira bebeste e o esgotaste, e não havia quem te consolasse de todos teus filhos

que engendraste, e não havia quem te tomasse pela mão. Vede que tomei de tua mão o vaso da

queda, o vaso de minha ira, e dele não mais beberás, e o porei nas mãos dos que te

maltrataram, dos que te humilharam.

51. Desperta, desperta! Veste-te a força, veste-te tua glória. Sacode o pó e levanta-te. Senta-te.

Desata as cadeias de teu pescoço693. Levanta teus olhos em torno, vê a todos teus filhos

reunidos. Vede, juntaram-se e vieram a ti. Por minha vida, diz o Senhor, que te revestirás de

todos eles como adorno e deles te cingirás como noiva. Porque teus desertos, e tuas ruínas e

tuas terras assoladas agora serão apertadas para os que te habitam, e os que te devoravam

serão lançados longe de ti.

52. Porque te dirão ao ouvido teus filhos, os que tinhas perdidos: meu lugar é estreito, faça-me

lugar para que possa habitar; e dirás em teu coração: quem me engendrou estes? Eu estava

sem filhos e viúva, mas estes, quem os criou? Eu fiquei só e abandonada, de onde me vêm

estes?694

53. Isto profetizou Isaías. Isto se achava consignado desde longo tempo nos livros sagrados, acerca

de nós, mas era necessário, de certa forma, que percebêssemos alguma vez nas obras a

infalibilidade destas predições.

54. Mas como o esposo, o Verbo, pronunciou estas palavras para sua própria esposa, a sagrada e

santa Igreja, era razoável que o padrinho, aqui presente, ajudado com as orações unânimes de

todos vós e depois de oferecer vossas próprias mãos, despertasse esta, a deserta, a que jazia

caída, a que não tinha esperança entre os homens. E pela vontade de Deus, rei universal, e pela

691 Is 61:10-11.

692 Is 54:4-8.

693 Is 51:17-18; 22-23; 52:1-2.

694 Is 49:18-21.

manifestação do poder de Jesus Cristo, conseguiu levantá-la, e uma vez ressuscitada, preparou-a

como lhe ensinava a descrição dos sagrados oráculos.

55. Grandíssima maravilha esta e que excede toda admiração! Sobretudo para aqueles que fixam sua

atenção somente na aparência do exterior. Mas ainda mais admiráveis que estas maravilhas são os

arquétipos e seus protótipos inteligíveis, assim como seus divinos modelos; quero dizer a

renovação do edifício divino e racional nas almas.

56. Este edifício realizou-o a sua própria imagem o próprio Filho de Deus, e em tudo e por tudo o

dotou de divina semelhança, de natureza imortal e de substância incorpórea, racional, livre de toda

matéria terrena e por si mesma espiritual: depois de começar a constituí-la, uma vez por todas, no

ser a partir do não ser, fez dela para si mesmo e para o Pai uma esposa santa e um templo

sacratíssimo, o que bem claramente confessa e manifesta Ele mesmo quando diz: Habitarei neles e

em meio deles passarei e serei seu Deus, e eles serão meu povo695; e a alma perfeita e purificada,

assim criada desde o princípio, era tal que levava em si a imagem do Verbo celestial.

57. Mas quando, por inveja e ciúmes do demônio, amigo do mal, converteu-se em sensual e amiga do

mal por livre escolha dela mesma696, ao retirar-se dela pouco a pouco a divindade e ficar como

privada de um protetor, tornou-se presa fácil e vulnerável ao ataque dos que há longo tempo a

queriam mal. Abatida pelas torres de assédio e os mecanismos dos adversários invisíveis e dos

inimigos espirituais, derrubou-se em queda extraordinária, até não ficar de pé pedra sobre pedra

de sua virtude, antes, toda ela jazia por terra, inteiramente morta e privada por completo de seus

naturais pensamentos acerca de Deus.

58. Em realidade, tendo caído esta, a mesma que havia sido feita à imagem de Deus, não a devastou

esse javali que procede do bosque, visível para nós, mas certo demônio corruptor e selvagens

feras espirituais que, depois de inflamá-la com paixões como com dardos acesos de sua própria

maldade, puseram fogo ao santuário realmente divino, de Deus, e profanaram em terra o

tabernáculo de seu nome, para logo, depois de enterrar a desgraçada sob montões de terra, privá-la

de toda esperança de salvação.

59. Mas, quando já havia sofrido o merecido castigo de seus pecados, o que cuida dela, o Verbo

salvador e emissor de luz divina, obedecendo ao amor do Pai, todo santidade para com os

homens, novamente voltou a recebê-la.

60. Então, tendo eleito em primeiro lugar as almas dos supremos imperadores697, valendo-se deles,

amantíssimos de Deus, limpou inteiramente a terra habitada de todos os indivíduos ímpios e

funestos e até dos terríveis tiranos, odientos de Deus. Logo trouxe à luz do dia os homens bem

conhecidos por Ele, que em outro tempo haviam-se consagrado com sua vida a Ele e andavam

ocultando-se ao abrigo de sua proteção, como numa tempestade de males, e honrou-os mui

dignamente com a magnificência do Pai. E logo, também por meio destes698, purificou e limpou

as almas pouco antes manchadas e cobertas de material de toda espécie e montes de terra, que

eram as ordens ímpias, usando como enxadas e ancinhos os impressionantes ensinamentos de

suas doutrinas699.

61. E quando terminou a tarefa de deixar brilhante e radiante o solar de vossas mentes, as de todos,

então o entregou adiante a este guia, sapientíssimo e mui amado de Deus. E ele, homem de

grande discernimento e sensatez em tudo o mais, reconhecendo e discernindo bem a mente das

almas que lhe couberam pela sorte, tendo-se posto a edificar, por assim dizer, desde o primeiro

dia, esta é a hora que ainda não terminou, pois segue montando em todos vós o ouro brilhante, a

prata acrisolada e pura, e até as pedras preciosas e de grande preço, tanto que com suas obras está

cumprindo em vós a sagrada e mística profecia em que se diz:

62. Vede que estou te preparando a pedra de carbúnculo, os fundamentos de safira, as ameias de

695 2 Co 6:16.

696 O orador vai comparar a igreja material com o templo espiritual, às vezes com simbolismos difíceis de explicar

satisfatoriamente.

697 Os augustos, Constantino e Licínio.

698 Os bispos que haviam permanecido fiéis.

699 Alusão aos apóstatas arrependidos e admitidos à penitência.

jaspe e tuas portas de pedras de cristal e tua cerca de pedras escolhidas; e teus filhos serão

ensinados de Deus, e tua prole terá grande paz. E serás edificado na justiça700.

63. Ao edificar, efetivamente, na justiça, ele dividia as forças de todo o povo conforme o mérito: uns

ele rodeava somente de uma cerca exterior amuralhando-os com uma fé sem erro (numeroso e

grande é o povo incapaz de suportar uma construção mais forte!); outros, confiando-lhes as

entradas da casa, mandava ficar às portas e guiar os que entravam, pois não sem razão

são considerados como os vestíbulos do templo; e outros apoiava nas primeiras colunas do exterior

que rodeiam o átrio em quadrilátero, fazendo-os avançar nos primeiros contatos com a letra dos

quatro evangelhos. E outros ainda, vai juntando apertadamente a um e outro lado ao redor do

edifício basilical, posto que ainda são catecúmenos, em estado de crescimento e de progresso,

ainda que não muito separados nem muito longe da visão do mais interior, próprio dos fiéis.

64. Tomando dentre estes últimos as almas puras, que como o ouro foram purificadas no banho divino,

também a algumas delas apoiava em colunas muito mais fortes que as do exterior, nas doutrinas

íntimas e místicas da Escritura, enquanto vai iluminando as outras com aberturas que dão para a

luz.

65. E adorna o templo inteiro com o único e grandíssimo vestíbulo da glorificação do primo e único

Deus, rei universal, e a cada lado do poder soberano do Pai apresenta os segundos raios de luz,

Cristo e o Espírito Santo. Quanto ao resto, através do edifício inteiro, vai demonstrando com

abundância e muita variedade a claridade e luminosidade da verdade em cada zona.

E depois de selecionar em todo lugar e de todas as partes as pedras vivas, sólidas e bem firmes

das almas, com todas elas vai construindo a grande e régia casa, radiante e plena de luz, por fora

e por dentro, pois não somente suas almas e suas mentes, mas também seus corpos, iluminam-se

com o múltiplo e florido adorno da castidade e da sobriedade.

66. Há ainda neste santuário tronos e inúmeros bancos e assentos: outras tantas almas sobre as quais

pousam os dons do Espírito divino, como os que em outro tempo viram os sagrados apóstolos e

seus acompanhantes, aos quais se manifestaram distribuídas línguas como de fogo que

pousaram sobre cada um deles701.

67. Mas no principal de todos702 assenta-se igualmente o próprio Cristo inteiro, enquanto que nos que

vêm depois dele, em segundo lugar, somente participações do poder de Cristo e do Espírito

Santo, em proporção com o lugar que a cada um compete. As almas de alguns inclusive podem ser

bancos de anjos, dos que foram entregues a cada um como pedagogos e custódios.

68. E o venerável, grande e único altar, qual poderia ser se não a absoluta pureza e santo dos santos da

alma do sacerdote comum de todos? De pé, a sua direita, o grande pontífice do universo, Jesus

mesmo, o unigênito de Deus, com olhar radiante e com as mãos voltadas, vai tomando de todos o

aromático incenso e os sacrifícios incruentos e imateriais apresentados por meio de orações, e os

envia ao Pai celestial e Deus do universo. Ele mesmo é o primeiro a adorar e o único a render ao

Pai a adoração que lhe corresponde, e logo lhe suplica também que permaneça perpetuamente

favorável e propício para com todos nós.

69. Assim é o grande templo que o Verbo, o grande construtor do universo construiu por toda a terra

habitada sob o sol, depois de ser Ele mesmo quem fabricou sobre a terra esta imagem espiritual do

que há mais além das abóbadas celestes, para que seu Pai pudesse ser honrado e adorado através

de toda a criação e de todos os seres viventes e racionais que há sobre a terra.

70. Mas a legião sobre os céus, os modelos que ali há das coisas daqui, a assim chamada Jerusalém

de cima, o monte Sion supraceleste e a supraterrena cidade do Deus vivo, na qual inúmeros

anjos em assembléia e uma Igreja de primogênitos registrados nos céus estão celebrando com

suas teologias inefáveis e para nós inconcebíveis seu criador e supremo Senhor do universo,

nenhum mortal será capaz de cantá-lo como é devido, porque realmente nem olhos viram, nem

ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que realmente Deus preparou

700 Is 54:11-14.

701 At 2:3. Sem dúvida alusão ao bispo e seu presbitério.

702 No bispo.

para os que o amam703.

71. Posto que fomos considerados dignos de ter parte nestes bens, assim homens como crianças e

mulheres, pequenos e grandes, todos juntos e com um só coração e uma só alma, confessemos e

aclamemos sem cessar jamais o autor de tão grandes bens para nós, o que perdoa propiciamente

todas as nossas iniqüidades, o que sana todas nossas enfermidades, o que resgata nossas vidas

da corrupção, o que nos coroa com misericórdia e compaixão, o que sacia de bens nosso

desejo, porque não agiu conosco segundo nossos pecados nem nos pagou conforme nossas

iniqüidades, já que tão longe quanto está o oriente do ocidente, assim afastou de nós nossas

iniqüidades. Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadeceu dos que

o temem704.

72. Reavivemos a memória de todos estes bens não somente agora, mas também em todo momento

sucessivo. Agora pois, tendo sempre ante os olhos, de noite e de dia, a todas as horas, e por

assim dizer, a cada inspiração, o autor e diretor chefe da presente assembléia festiva e deste

esplêndido e brilhante dia, amemo-lo e veneremo-lo com toda a força de nossas almas. E agora,

ponhamo-nos de pé e supliquemo-lhe com voz forte e grande disposição, para que, abrigados até

o fim sob seu redil, nos salve e nos outorgue como prêmio a inquebrantável, inamovível e eterna

paz em Cristo Jesus, nosso Salvador, pelo que seja glorificado por todos os séculos dos séculos.

Amém."

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