Livro 10 – Capítulo VIII História Eclesiástica

Da posterior perversidade de Licínio e de sua morte

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1. Tais dons, pois712, nos concedia a divina e celestial graça da manifestação de nosso Salvador, e

tão abundantes eram os bens que por meio de nossa paz se outorgava a todos os homens. E desta

maneira o nosso era celebrado entre regozijo e grandes reuniões festivas.

2. Mas nem a inveja inimiga do bem, nem o demônio, amante do mal, podiam suportar a

contemplação do que viam; como tampouco para Licínio o sucedido aos tiranos anteriormente

mencionados713 foi suficiente para uma atitude prudente. Ele que havia sido considerado digno de

um governo bem próspero, digno da honra do segundo posto depois do grande imperador

Constantino e digno de afinidade e parentesco do mais alto grau714, ia se afastando da imitação

dos bons e, em troca, copiava a perversidade e malícia dos ímpios tiranos. E ainda que tivesse

visto com seus próprios olhos o final catastrófico destes, preferiu segui-los em seu sentimento a

permanecer na amizade e boa disposição de seu superior.

3. Presa da inveja para com o benfeitor universal, provoca contra ele uma guerra execrável e

terrível, sem respeito pelas leis da natureza e sem trazer à mente a memória dos juramentos, do

sangue e dos pactos.

4. De fato, que sinais de verdadeira benevolência não lhe havia outorgado o boníssimo imperador!

Não lhe regateou seu parentesco nem lhe negou esplêndidas núpcias com sua irmã, antes até,

considerou-o digno de compartilhar sua nobreza, que vinha de seus pais, e seu sangue imperial

ancestral, e também havia-lhe proporcionado poder desfrutar do governo supremo como cunhado

e co-imperador, posto que havia-lhe dado a graça de uma parte não menor de povos sujeitos a

Roma, para que os governasse e administrasse715.

5. Mas ele, por sua vez, agia contrariamente a isto e cada dia imaginava intrigas contra seu superior e

imaginava todo gênero de conspirações, como se respondesse com males a seu benfeitor. Assim é

que, em primeiro lugar, tratava de ocultar seus preparativos fingindo ser amigo, e aplicando-se à

astúcia e ao engano, esperava alcançar com toda facilidade o resultado apetecido.

6. Mas deve-se saber que aquele tinha Deus como amigo, protetor e guardião, que, trazendo à luz as

conspirações urdidas contra ele secretamente e nas sombras, ia desbaratando-as. Tão grande

força e virtude tem a arma da piedade para rechaçar os inimigos e preservar a própria salvação!

Guarnecido com ela, nosso imperador, amado de Deus, ia esquivando as conspirações do infame

astuto.

7. Este, por sua parte, quando viu que seus preparativos ocultos de modo algum andavam conforme

seus desígnios, já que Deus ia manifestando a seu amado imperador todo engano e toda maldade, e

não podendo já dissimular por mais tempo, declarou abertamente a guerra.

8. Decidido, efetivamente, a fazer a guerra contra Constantino, apressava-se já a formar suas tropas

também contra o Deus do universo, a quem sabia que aquele honrava, e logo pôs-se a atacar -

moderada e silenciosamente a princípio - seus próprios súditos adoradores de Deus, que jamais

haviam causado o mínimo incômodo a seu governo. E agia assim porque sua maldade inata o

forçava a uma terrível cegueira.

9. Ocorre que ele não tinha ante os olhos a memória dos que haviam perseguido os cristãos antes dele,

nem sequer a daqueles de quem ele mesmo havia sido instrumento de ruína e de castigo pelas

impiedades em que haviam tomado parte. Pelo contrário, voltando as costas a um pensamento

prudente, e mais, em termos exatos, transtornado pela loucura, tinha decidido fazer a guerra ao

712 Aqui se retoma o assunto do capítulo 4, interrompido pela inserção dos documentos dos capítulos 5-7.

713 Maxêncio e Maximino.

714 Licínio casou-se com a irmã de Constantino em fevereiro de 313.

715 Contrariamente ao que diz Eusébio, Licínio não devia o império a Constantino, mas a Galério, que junto com

Diocleciano e Maximiano, tornou-o augusto, enquanto a Constantino concediam apenas o título de césar. Eusébio

deve referir-se mais à condescendência de Constantino para com Licínio ao fazer as pazes após a intentona deste

contra ele em 314.

próprio Deus, como protetor de Constantino, em vez de ao protegido.

10. Em primeiro lugar expulsou de sua própria casa todos os que eram cristãos, com o que o

desgraçado privou a si mesmo da oração destes por ele, oração que costumavam fazer por todos,

segundo ensinamento ancestral716; mas logo foi dando ordens para que em cada cidade se

separasse e degradasse os soldados que não escolhessem sacrificar aos demônios717. E isto ainda

era coisa pouca se o compararmos com as medidas maiores.

11. Que necessidade há de recordar uma por uma e sucessivamente as coisas que este inimigo de

Deus perpetrou e como sendo o maior violador das leis inventou leis ilegais?718 Pelo menos é certo

que impôs a lei de que ninguém tivesse a humanidade de repartir alimentos aos que penavam nos

cárceres, que ninguém se compadecesse dos que padecessem de fome nas prisões e, em uma palavra,

que ninguém fosse bom nem fizesse o menor bem, nem sequer aqueles que por sua própria

natureza se deixam arrastar à compaixão por seus próximos. Esta lei era, evidentemente, a mais

desavergonhada e a mais cruel de todas, já que passava por cima de toda natureza civilizada e

continha ainda como castigo que os compassivos sofressem as mesmas penas que seus

compadecidos e que seriam acorrentados e encarcerados os que prestassem serviços humanitários

aos condenados, sofrendo o mesmo castigo que eles.

12. Tais eram as ordens de Licínio. Que necessidade temos de enumerar detalhadamente suas inovações

acerca das núpcias ou suas disposições revolucionárias a respeito dos que deixam esta vida?

Atreveu-se a abolir as antigas leis romanas, reta e sabiamente estabelecidas, e introduziu no lugar

delas algumas leis bárbaras e incivilizadas, verdadeiramente ilegais e contra as leis. Inventava

também inumeráveis acusações contra as nações submetidas, toda classe de extorsões de ouro e

prata, novos cadastros e lucrativas multas a homens que já não estavam nos campos, mas que

tinham morrido há tempo.

13. E que classe de desterros inventou ainda o inimigo dos homens contra pessoas que nenhum dano

tinham lhe causado? E as detenções de homens nobres e notáveis dos quais separava suas

legítimas esposas e as entregava a alguns criados lascivos para que as ultrajassem com suas

torpezas? E ele mesmo, um velhote, quantas mulheres casadas e quantas donzelas não vexou para

satisfazer a paixão desenfreada de sua alma? Que necessidade temos de alongar a conta, se o

excesso de suas últimas maldades deixou as primeiras pequenas e reduzidas a quase nada?

14. Certo é que, no cúmulo de sua loucura, procedeu contra os bispos. Por crer que estes, como

servidores do Deus supremo, eram contrários ao que ele fazia, urdia seus preparativos, ainda

não a plena luz, por medo ao mais forte719, mas sim ocultamente e com falsidade, e deles ia

eliminando os mais conspícuos valendo-se da confabulação dos governadores720. E o gênero de

morte usado contra eles era muito estranho e inaudito até então.

15. O certo é que o que foi realizado em torno de Amasia e as demais cidades do Ponto superou a

todo excesso de crueldade. Ali, das igrejas de Deus, algumas foram novamente arrasadas por

completo, e outras foram fechadas para que ninguém fosse a elas segundo o costume nem

oferecessem a Deus os cultos devidos.

16. Efetivamente, por pensar nisto com sua má consciência, não acreditava que se fizessem orações

por ele, antes, estava persuadido de que nós fazíamos tudo e aplacávamos a Deus em favor do

imperador amigo de Deus. Desde então, começou a fazer cair seu furor sobre nós.

17. Assim foi. Os governadores aduladores, persuadidos de que faziam o que queria o infame,

oprimiam alguns bispos com os castigos habitualmente reservados aos malfeitores, e desta

forma detinha-se e se castigava sem pretexto algum, como aos homicidas, os que nada de mal

716 1 Tm 2:1-2.

717 A motivação desta perseguição foi mais política. Determinado a levantar-se contra Constantino, tinha que

eliminar o obstáculo que para ele eram os cristãos, os do palácio, que poderiam descobrir e delatar seus planos, e os

militares, especialmente os graduados.

718 Estas leis não foram feitas diretamente contra os cristãos, mas foram estes os mais afetados.

719 Isto é, por medo a Constantino.

720 Forjavam-se pretextos legais para justificar as mortes, o que indica que não houve edito contra os hierarcas

eclesiásticos.

tinham feito. Outros sofreram um novo gênero de morte: esquartejados seus corpos em muitos

pedaços com uma espada, depois deste cruel e horripilante espetáculo, eram lançados ao fundo do

mar para pasto dos peixes.

18. Ante estes fatos reiniciaram-se as fugas dos homens piedosos, e novamente os campos, os vales

solitários e os montes começaram a acolher os servos de Cristo. E como desta maneira o ímpio

tinha êxito nestas medidas, chegou mesmo a conceber a idéia de ressuscitar a perseguição contra

todos.

19. Seu pensamento se reafirmava e nada o impedia de pô-lo em ação, se o Deus que luta em favor

das almas que lhe pertencem, prevendo o que sucederia, não tivesse rapidamente feito brilhar,

como em trevas profundas e noite escuríssima, uma grande luminária e ao mesmo tempo um

salvador para todos: seu servo Constantino, a quem levou pela mão para esta obra com braço

poderoso.

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