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Livro Terceiro Flávio Josefo

Capítulo 9 Flávio Josefo

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,
"DEUS ORDENA ARÃO SUMO SACERDOTE.",
"120. Êxodo 28, 29, 30 e 40. Tudo estava preparado, e não restava mais
que consagrar o Tabernaculo. Deus então apareceu a Moisés e ordenou-lhe que
fizesse a Arão, seu irmão, sumo sacerdote, porque era mais digno que qualquer
outro para esse cargo. Moisés reuniu o povo, falou-lhe das virtudes de Arão e do
interesse deste pelo bem público, que tantas vezes o fizera arriscar a vida. E
todos não somente concordaram com a escolha, mas o aprovaram com alegria.
Então Moisés assim lhes falou: Todas as obras que Deus havia ordenado
estão terminadas, segundo a sua vontade e segundo as nossas posses. Como
vós sabeis, Ele quer honrar este Tabernaculo com a sua presença, mas é
necessário, antes de tudo o mais, criar o sumo sacerdote, aquele que é o mais
competente para bem desempenhar esse cargo, a fim de que cuide de tudo o
que se refere ao culto divino e ofereça a Ele os vossos votos e as vossas orações.
Confesso que, se essa escolha tivesse dependido de mim, eu teria podido
desejar essa honra, seja porque todos os homens são naturalmente levados a
desejar incumbência tão honrosa, seja porque vós não ignorais quantas
dificuldades e trabalhos sofri pelo bem vosso e da República. Mas Deus mesmo,
que destinou Arão há muito tempo para esse sagrado ministério, conhecendo-o
como o mais justo dentre vós, o mais digno de ser honrado, deu-lhe o seu voto e
julgou em seu favor. Assim, Arão oferecer-lhe-á de ora em diante, por vós,
orações e votos, e Ele os escutará tanto mais favorávelmente quanto, além do
amor que vos tem, eles lhe serão apresentados por aquele que Ele escolheu
para ser o vosso intercessor junto dEle.
121. Essas palavras agradaram bastante ao povo, que aprovou por
sufrágios a escolha feita por Deus. Arão era, sem dúvida, o que devia ser
elevado a tão alta dignidade, quer por causa de sua descendência, quer pelo
dom de profecia que recebera, quer pela eminente virtude de Moisés, seu irmão.
Ele tinha, então, quatro filhos: Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar.
122. Moisés determinou que o resto do que se ofertara à construção do
Tabernáculo fosse usado para a confecção do que era necessário à sua
cobertura, bem como para se cobrir o candelabro de ouro, o altar de ouro, sobre
o qual se fariam as incensações, e, do mesmo modo, todos os outros vasos, a
fim de que quando se levassem essas coisas para o campo não fossem
deterioradas pela chuva, nem pela poeira, nem por algum outro inconveniente
do ar. Reuniu depois o povo e ordenou-lhe que cada um contribuísse ainda com
meio sido, que é uma moeda dos hebreus, cujo valor é de quatro dracmas
áticas. Eles executaram a ordem imediatamente, e então seiscentos e cinco mil
e quinhentos homens deram essa quantia, embora somente as pessoas livres e
da idade de vinte e cinco até cinqüenta anos tivessem contribuído. Esse
dinheiro foi imediatamente empregado em benefício do Tabernáculo.
123. Moisés, então, purificou o Tabernáculo e os sacerdotes, deste modo:
tomou quinhentos sidos de mirra escolhida, o mesmo peso de lírio roxo e a
metade de canela e de bálsamo. Mandou bater tudo isso num him de óleo de
oliveira, uma medida que contém dois coros áticos, e com isso fez um bálsamo,
ou óleo, que tinha ótimo perfume e com o qual ungiu o Tabernáculo e os sacer-
dotes, e assim os purificou. Ofereceu, em seguida, sobre o altar de ouro, uma
grande quantidade de excelentes perfumes, que, para não aborrecer o leitor,
não descreverei em particular. E nunca deixou de queimá-lo duas vezes por dia,
para fazer a incensação antes do nascer do sol e ao seu ocaso. Guardavam tam-
bém o óleo purificado para alimentarem as lâmpadas do candelabro de ouro,
das quais três ardiam durante o dia e as outras três à tarde. Bezalel e Aoliabe
empregaram sete meses para fazer as obras de que acabo de falar e, então, pas-
sou-se o primeiro ano depois da saída do Egito. Eram dois artífices admiráveis,
principalmente Bezalel, e eles, por si mesmos, inventaram várias coisas.
124. Êxodo 40. No começo do ano seguinte, no mês que os hebreus
denominam nisã e os macedônios xântico, na lua nova, foi consagrado o
Tabernáculo e todos os vasos que lá estavam. Deus então deu a conhecer que
não fora em vão que o seu povo trabalhara numa obra tão magnífica,
testemunhando o quanto ela lhe era agradável e como Ele queria ali morar e
dar-lhe a honra de sua presença. Eis de que modo isso aconteceu: o céu era
sereno, em toda a sua extensão, mas sobre o Tabernáculo apareceu uma
nuvem, não tão espessa como as do inverno, mas suficiente para impedir que
se pudesse ver através dela, e um pequeno orvalho caiu, o qual significava, para
os que tinham fé, que Deus lhes ouvira os votos e os honrava com a sua
presença.
125. Moisés, depois de recompensar todos os operários, cada qual
segundo o seu mérito, ofereceu sacrifícios à entrada do Tabernáculo, como
Deus lhe havia ordenado, isto é, um touro com um carneiro e um bode, pelos
pecados. Direi como se faziam essas cerimônias quando falar dos sacrifícios e
enumerarei as vítimas que eram oferecidas em holocausto e que deviam ser
inteiramente queimadas e quais as que deviam ser comidas, segundo a
permissão da Lei.
126. Levítico 8. Moisés borrifou com o sangue dos animais imolados as
vestes de Arão e de seus filhos e os purificou com água da fonte e com o
bálsamo de que há pouco falei, para que fossem feitos sacerdotes do Senhor. E
continuou durante sete dias a fazer a mesma coisa. Santificou também o
Tabernáculo e todos os vasos, com esse bálsamo e com o sangue dos touros e
dos carneiros, dos quais todos os dias se matava um de cada espécie.
Levítico 9. Ordenou em seguida que se festejasse o sétimo dia e que cada
qual sacrificaria segundo as suas posses. Eles obedeceram, com alegria, e
ofereceram vítimas à porfia, as quais, apenas eram colocadas sobre o altar, e
um fogo proveniente dele as consumia completamente, de uma vez, como se
fosse um raio, na presença de todo o povo.
127. Levítico 10. Arão sentiu então a maior dor que podia sentir um pai.
Como tinha a alma elevada, julgou que Deus a havia permitido e suportou-a
generosamente. Nadabe e Abiú, seus dois filhos mais velhos, tendo oferecido
outras vítimas que não as determinadas por Moisés, as chamas se lançaram
contra eles com tanta violência que lhes queimaram o estômago e o rosto. E
eles morreram, sem que fosse possível socorrê-los. Moisés determinou que o pai
e os irmãos levassem os corpos para fora do acampamento, a fim de serem
sepultados honrosamente. E, embora todo o povo chorasse essas mortes tão
inesperadas, proibiu-lhes que os lamentassem, de modo a ensinar-lhes que,
tendo sido alguém honrado com a dignidade do sacerdócio, a glória de Deus lhe
devia ser mais sensível que o afeto particular.
128. Esse santo e admirável legislador recusou em seguida todas as
honras que o povo lhe queria conceder, para entregar-se totalmente ao serviço
de Deus. Não subia mais ao monte Sinai para consultá-lo, mas entrava no
Tabernáculo a fim de ser instruído por Ele em tudo o que devia fazer.
Continuou sempre, por modéstia, quer no vestuário, quer em tudo o mais, a
viver como homem simples, sem ser diferente dos outros, exceto no cuidado que
tinha da República. Dava por escrito ao povo as leis e as regras que deviam
observar para viver em união e em paz e ser agradáveis a Deus. E eles nada
faziam em tudo isso que não fosse conforme as ordens que dele recebiam.
129. A seu tempo, falarei dessas leis. É preciso, porém, acrescentar aqui
uma coisa que eu havia omitido no que se refere às vestes do sumo sacerdote, e
é que Deus, para impedir que os que usavam essas vestes, tão santas e tão
magníficas, pudessem abusar dos homens sob o pretexto do dom da profecia,
jamais lhes honrava os sacrifícios sem dar sinais visíveis de sua presença, não
somente ao seu povo mas também aos estrangeiros que lá se encontrassem.
Quando lhe aprazia fazer esse favor, uma das duas sardônicas de que falei (e de
cuja natureza seria inútil dizer algo, porque todos as conhecem bastante) — a
que estava sobre o ombro direito do sumo sacerdote — lançava tal claridade
que podia ser percebida de muito longe, o que, não lhe sendo natural e não
acontecendo fora da ocasião, devia causar admiração àqueles que fingem
parecer sábios, pelo desprezo que votam à nossa religião.
Eis, porém, aqui, outra coisa ainda mais admirável. É que Deus se servia
ordinariamente dessas doze pedras preciosas, que o sumo sacerdote trazia
sobre o seu essém, ou racional, para pressagiar a vitória. Pois antes que se
levantasse o acampamento, delas saía tão viva luz que todo o povo ficava
sabendo que a soberana Majestade estava presente e prestes a ajudá-los. Isso
faz com que todos dentre os gregos que não têm aversão pelos nossos mistérios
e se persuadiram pelos seus próprios olhos desse milagre chamem o essém de
logiom, que significa oráculo, ou racional. Mas quando comecei a escrever
isto, havia duzentos anos que essa sardônica e esse racional não lançavam
mais tal resplendor e luz, porque Deus está irritado conosco, por causa de
nossos pecados, como direi em outro lugar. Vou agora retomar o fio da minha
narração.
130. O Tabernáculo foi consagrado, e terminaram-se todas as coisas
referentes ao serviço de Deus. O povo, fora de si pela alegria de ver que Deus se
dignava morar no acampamento e ficar no meio deles, só pensava em entoar
cânticos em seu louvor e em oferecer-lhe sacrifícios, como se não houvesse
mais perigos nem males a temer e se tudo fosse suceder-lhes dali por diante
segundo desejassem.
As tribos em geral e cada um em particular ofereciam presentes à sua
adorável Majestade. Os doze chefes e príncipes dessas tribos ofereceram seis
carros atrelados cada um com dois bois, para levar o Tabernaculo, e cada um
deles ofereceu ainda um vaso do peso de setenta sidos, uma bacia do peso de
cento e trinta sidos e um turíbulo que continha dez dáricos, que se enchiam de
diversos perfumes. O vaso e a bacia serviam para pôr-se a farinha misturada
com óleo, que se usava no altar dos sacrifícios. Para a expiação dos pecados,
ofereciam-se em holocausto um novilho, um carneiro e cordeiros de um ano,
juntamente com um bode. Cada um desses príncipes oferecia também outras
vítimas, a que chamavam salutares e que consistiam em dois bois, cinco
carneiros, cordeiros e cabritos de um ano. Isso faziam por doze dias em
seguida, cada um somente no seu dia.
Moisés, como eu disse, não subia mais ao monte Sinai, no entanto
entrava no Tabernaculo para consultar a Deus e saber dEle que lei queria
estabelecer. Essas leis foram tão excelentes que só podiam ser atribuídas a
Deus, e nossos antepassados as conservaram tão religiosamente durante
alguns séculos que nunca julgaram que os prazeres da paz ou as necessidades
da guerra os pudessem tornar desculpáveis, se as violassem. Mas me reservarei
para falar disso num trabalho à parte.",