Livro Terceiro Flávio Josefo
Capítulo 13 Flávio Josefo
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"MOISÉS MANDA EXPLORAR A TERRA DE CANAÃ. MURMURAÇÃO E SEDIÇÃO DO POVO POR
CAUSA DO RELATÓRIO QUE LHES FOI FEITO. JOSUÉ E CALEBE
FALAM GENEROSAMENTE DE CANAÃ. MOISÉS, DA PARTE DE DEUS,
ANUNCIA-LHES QUE, COMO CASTIGO PELO PECADO, ELES NÃO ENTRARIAM NA TERRA QUE ELE LHES HAVIA PROMETIDO, MAS QUE SOMENTE OS SEUS
FILHOS A POSSUIRIAM. LOUVOR DE MOISÉS, A EXTREMA VENERAÇÃO EM
QUE SEMPRE VIVEU E COMO AINDA É VENERADO.",
"149. Números 13 e 14. Moisés levou em seguida o exército para as
fronteiras dos cananeus, a um lugar chamado Para, onde é difícil morar, e ali
falou a todo o povo, desta maneira: Deus, pela sua extrema bondade para
convosco, prometeu-vos a liberdade, terra abundante e toda espécie de bens.
Agora desfrutareis uma e logo outra, pois acabamos de chegar à fronteira dos
cananeus, dos quais nem os reis, nem as cidades, nem todas as forças unidas
juntamente nos poderão impedir o usufruto do efeito de suas promessas.
Preparai-vos, portanto, para combater generosamente, pois não será sem luta
que vos abandonarão esse rico país. Mas nós o possuiremos contra a vontade
deles, depois de os termos vencido. Precisamos começar por mandar alguém
verificar a fertilidade da terra e a força dos que nela habitam. E necessitamos,
principalmente, nos unirmos todos, mais do que nunca, e prestarmos a Deus a
honra que lhe devemos, a fim de que Ele seja o nosso protetor e o nosso
auxílio.
O povo enalteceu bastante essas propostas e escolheu doze dos mais
importantes entre eles, um de cada tribo, para ir explorar o país dos cananeus,
a Começar do lado que limita com o Egito, continuando até a cidade de Hamate
e o monte Líbano. Empregaram quarenta dias nessa viagem e, depois de
considerarem bastante a natureza do país e de estarem muito particularmente
informados da maneira de viver dos seus habitantes, fizeram uma relação do
que tinham visto e trouxeram frutos daquela terra, cujo tamanho e beleza
animaram o povo a conquistá-la. Mas, ao mesmo tempo, todos esses enviados,
exceto dois, desanimaram o povo pela dificuldade da empresa, dizendo que era
necessário atravessar grandes rios, muito profundos, escalar montanhas quase
inacessíveis, atacar cidades muito fortes e poderosas, combater os gigantes com
se haviam deparado em Hebrom e que nada haviam encontrado de tão temível
depois de haverem saído do Egito.
O medo desses homens passou assim do seu espírito para o do povo, que
perdeu a esperança de obter um feliz resultado em tão difícil empreendimento.
E então voltaram às suas tendas, com as suas mulheres e filhos, para lastimar
a sua desgraça. O sofrimento e o desânimo levou-os mesmo a dizer que Deus
lhes fazia muitas promessas, mas que não viam os resultados. Insurgiram-se
ainda contra Moisés e passaram toda a noite a clamar contra ele e contra Arão.
E, logo que raiou o dia, reuniram-se tumultuosamente, com o intento de
apedrejá-los e de voltar para o Egito.
Josué, filho de Num, da tribo de Efraim, e Calebe, da tribo de Judá, que
eram dois dos doze que haviam ido fazer o reconhecimento, vendo aquela
desordem e temendo as conseqüências, disseram-lhes que não deviam perder a
esperança, nem acusar a Deus de ser infiel às suas promessas e nem prestar fé
aos vãos temores de que ouviram falar, representando as coisas muito
diferentes do que eram na realidade, mas deviam acreditar na palavra deles e
segui-los para a conquista daquela terra tão fértil; que se ofereciam para servir-
lhes de guia naquela gloriosa empresa; que não viam nisso tantas dificuldades
como lhes haviam dito: as montanhas não eram tão altas nem aqueles rios tão
profundos que pudessem arrefecer nos homens a coragem; e que nada tinham
a temer, pois Deus se manifestava em favor deles e queria combater por eles.
Marchai, pois, sem temor, acrescentaram, na certeza de seu auxílio, e segui-
nos para onde estamos prontos a vos levar!
Enquanto esses dois verdadeiros e generosos israelitas assim falavam,
para procurar acalmar a multidão tão revoltada, Moisés e Arão, prostrados por
terra, rogavam a Deus não que os livrasse do furor do povo, mas que tivesse
piedade da loucura daquela gente e lhes acalmasse os espíritos perturbados
pelas necessidades presentes e por vãs apreensões para o futuro. A oração foi
ouvida, e viu-se uma nuvem cobrir todo o Tabernáculo, sinal de que Deus o
enchia com a sua presença.
Moisés, então, cheio de confiança, apresentou-se ao povo e disse-lhes que
Deus estava resolvido a castigá-los, não tanto quanto eles o mereciam, mas do
modo como o bom pai castiga os seus filhos. Pois, acrescentou, tendo entrado
no Tabernáculo para pedir-lhe com lágrimas que não vos exterminasse, Ele me
fez ver os benefícios com que já vos presenteou, bem como a vossa extrema
ingratidão e a ofensa que lhe fazeis em prestar mais fé a falsas referências que
às suas promessas. No entanto garantiu-me que, por vos ter escolhido dentre
todas as nações para serdes o seu povo, não vos destruirá inteiramente, mas,
para castigo de vosso pecado, não possuireis a terra de Canaã, nem
desfrutareis a doçura e a abundância de seus frutos, e andareis errantes
durante quarenta anos pelo deserto, sem ter casa nem cidades, o que não
impedirá que Ele dê a vossos filhos a posse do país e dos bens que vos
prometeu e dos quais vos tornastes indignos por vossa murmuração e
desobediência.
Essas palavras encheram o povo de espanto e de profunda tristeza.
Rogaram a Moisés que fosse o seu intercessor junto a Deus, para que Ele se
dignasse esquecer-lhes a falta e cumprisse as suas promessas. Ele respondeu-
lhes que não deviam esperar que a sua soberana Majestade se deixasse
comover pelos seus rogos, porque não fora por transporte de cólera ou por
leviandade, como os homens, mas por ato de justiça e de vontade deliberada
que Deus havia pronunciado contra eles aquela sentença.
150. Ainda que pareça incrível que um só homem tenha podido acalmar
num momento uma quase incontável multidão de homens, no mais forte de sua
agitação e revolta, não há motivo para admiração, porque Deus, que sempre
assistia Moisés, lhes havia preparado o coração para deixar-se persuadir por
aquelas palavras, e porque já haviam experimentado muitas vezes, no meio de
tanta infelicidade que os afligiu, castigos pela incredulidade e desobediência.
Mas que maior sinal se pode desejar da eminente virtude desse admirável
legislador e da maravilhosa autoridade que conquistou do que ver que não
somente aqueles que viviam no seu tempo, mas toda a sua posteridade o tem
em veneração? Tanto é que, ainda hoje, não se vê entre os hebreus quem não se
julgue obrigado a observar com exatidão as suas ordens ou que não o considere
presente e prestes a castiaar quem as infringir.
Dentre várias outras provas dessa autoridade mais que humana por ele
adquirida, eis aqui uma, que me parece muito importante. Pessoas que tinham
vindo das províncias de além do Eufrates para visitar o nosso Templo e nele
oferecer os seus sacrifícios, tendo caminhado com grande perigo durante quatro
meses, com muitas despesas e dificuldades, não puderam conseguir nem
mesmo uma parte pequenina dos animais que ofereceram em holocausto, pois
a nossa lei não o permite, por certas razões. Outras não puderam obter a
licença para sacrificar. Outras ainda foram obrigadas a deixar os seus
sacrifícios incompletos. E outras, por fim, não puderam sequer entrar no
Templo. No entanto não se julgaram ofendidas e nem fizeram a menor queixa,
preferindo obedecer às leis estabelecidas por esse grande personagem a
satisfazer os próprios desejos. Essas pessoas foram levadas a tal submissão
unicamente pela admiração à virtude de Moisés, porque, persuadidos de que ele
recebera essas leis do próprio Deus, consideravam-no mais que um homem.
E, não há muito tempo, pouco antes da guerra dos judeus, sob o reinado
do imperador Cláudio, quando Ismael era sumo sacerdote, a Judéia foi
flagelada por uma grande carestia — uma medida de farinha era vendida por
quatro dracmas. Levou-se, para a festa dos Asmos, setenta medidas, que
perfazem trinta e um medins sicilianos e quarenta e um medins áticos, sem que
nenhum dos sacerdotes, embora atormentados pela fome, ousasse tocar
naquilo para comer, de tanto que temiam faltar à Lei e atrair sobre si a cólera
de Deus, que castiga tão severamente os pecados, mesmo os ocultos.
Quem se admirará, então, de que Moisés tenha feito coisas tão extraordi-
nárias, se depois de tantos séculos e ainda hoje vemos, no que deixou escrito,
tal autoridade que mesmo os nossos inimigos são obrigados a reconhecer que
foi o próprio Deus quem, por meio dele, outorgou aos homens uma regra de
vida tão perfeita e se serviu de seu admirável proceder para fazer com que a
recebessem? Todavia deixo a cada qual que julgue como lhe aprouver.",
"