🏠 Home ← Anterior Próximo →

Livro Terceiro Flávio Josefo

Capítulo 8 Flávio Josefo

12345678910111213
,
"VESTES E ORNAMENTOS DOS SACERDOTES E DO SUMO SACERDOTE.",
"119. Devemos agora falar das vestes, tanto as dos sacerdotes, às quais os
hebreus chamam chanes, quanto as do sumo sacerdote, às quais chamam
anarabachem. Começaremos pelas comuns, dos sacerdotes. Aquele que ia
oficiar era obrigado, segundo a Lei, a ser puro e casto. Ele revestia-se de uma
veste chamada manachaz, isto é, que segura forte, uma espécie de calção de
linho retorcido que se prendia nos rins. Colocava por cima uma túnica de um
duplo tecido de lã e linho, à qual chamavam chetonem, porque o linho se chama
chetom. Ela descia até os calcanhares, era muito justa no corpo e tinha também
mangas muito estreitas para cobrir os braços.
A túnica era presa sobre o peito, um pouco abaixo das espáduas, com um
cinto da largura de quatro dedos, o qual era de tecido fraco, de maneira que se
parecia com uma pele de cobra. Diversas flores e figuras nele estavam represen-
tadas, com linho de cor escarlate, púrpura e jacinto. Essa cinta dava duas vezes
a volta em torno do corpo. Era atada na frente e depois caía até os pés, a fim de
tornar o sacerdote mais venerável ao povo quando não estava oferecendo algum
sacrifício. Pois, quando o oferecia, atirava a cinta sobre o ombro esquerdo, a fim
de ficar mais livre para desempenhar o seu ministério. Moisés chamou a esse
cinto abanete, e nós o chamamos hoje emiã, nome que tiramos dos babilônios.
A túnica não tinha pregas e possuía uma grande abertura em torno do pescoço,
que era presa na frente e atrás com colchetes, e a chamavam massabazem.
Ele usava uma espécie de mitra, que não lhe cobria mais que metade da
cabeça e que ainda hoje se chama masnaemphite. Tinha a forma de uma coroa
e era de tecido de linho, mas muito grossa por causa das muitas pregas.
Colocava-se por cima uma touca de pano muito fino, que cobria toda a cabeça e
descia até a fronte, ocultando as costuras e pregas dessa coroa. Era presa com
muito cuidado, para que não caísse durante o sacrifício.
Essas eram as vestes do sacerdote. Quanto às do sumo sacerdote, além
do que acabo de dizer, ele se revestia de uma túnica cor de jacinto, chamada
methir, que lhe ia até os calcanhares. Ele a cingia com um cinto semelhante ao
de que falei, exceto que era entrelaçado de ouro. A parte inferior de seu
vestuário era ornada de franjas com guizos e campainhas de ouro, entremeadas
de maneira igual. Essa túnica, que era toda uma só peça, sem costura, não era
aberta de lado, mas de alto a baixo, isto é, por trás desde o alto até abaixo das
espáduas e na frente apenas até a metade do estômago. Para adorno dessa
abertura, colocaram-se bordados, como também naquelas feitas para passar o
braço.
Por cima dessa túnica, punha-se uma terceira veste, chamada éfode,
parecida com a que os gregos chamam epomis, cuja descrição é esta: tinha um
côvado de comprimento, mangas, e era como uma espécie de túnica curta. Era
de um tecido tingido com várias cores e misturado com ouro e deixava sobre o
meio do peito uma abertura de quatro dedos em quadrado. A abertura era
coberta por uma peça de pano semelhante ao do éfode. Os hebreus chamam-no
essem, e os gregos, logiom, que significa em língua vulgar racional ou
oráculo. Tinha a largura de um palmo e estava preso à túnica por colchetes de
ouro, juntamente com uma tira cor de jacinto, que passava por anéis. Para que
não se visse a menor abertura entre esses anéis, uma fita, também cor de
jacinto, cobria a costura.
O sumo sacerdote trazia sobre cada um dos ombros uma pedra sardônica
encastoada em ouro, e essas duas pedras preciosas funcionavam como um col-
chete para fechar o éfode. Os nomes dos doze filhos de Jacó foram gravados nas
sardônicas, em língua hebraica, isto é: sobre a do ombro direito, os dos seis
mais velhos, e sobre a da esquerda, os dos mais novos. Sobre essa peça,
chamada racional, estavam presas doze pedras preciosas de extrema beleza,
que não tinham preço. Estavam colocadas em quatro linhas de três cada uma e
separadas por pequenas coroas de ouro, a fim de serem conservadas firmes e
não caírem. Na primeira fila, estavam a sardônica, o topázio e a esmeralda. Na
segunda, o rubi, o jaspe e a safira. Na terceira, o mercúrio, a ametista e a ágata.
E na quarta, a crisólita, o ônix e o berilo. Em cada uma dessas pedras preciosas
estava gravado o nome de um dos doze filhos de Jacó, que consideramos os
chefes de nossas tribos. Esses nomes estavam escritos segundo a ordem de seu
nascimento.
Ora, como os colchetes eram muito fracos para sustentar o peso das
pedras preciosas, havia outros dois, mais fortes, atados à borda do racional,
perto do pescoço, que sobressaíam do tecido e nos quais se passavam duas
correntes de ouro, que se uniam por um tubo nas extremidades dos ombros. As
pontas superiores dessas correntes, que caíam para trás das costas, atavam-se
a um anel que estava por trás, à beira do éfode, e de todo o sustentavam, para
impedir que caísse. Um cinto de diversas cores, tecido de ouro, estava preso ao
racional e o prendia todo, atando-se por cima das costuras e daí pendendo para
baixo. Todas as franjas estavam bem presas a ilhoses de fio de ouro.
A tiara do sumo sacerdote era em parte semelhante à mitra dos
sacerdotes. Tinha a mais, porém, uma outra espécie de touca por cima da de
cor de jacinto. Era rodeada por uma tríplice coroa de ouro, onde havia
pequenos cálices, como os que se vêem numa planta que os hebreus chamam
daccar, e os gregos, hioscianos, vulgarmente chamada jusquiame ou anebane.
E, se alguém não a conhece bem, para entender pelo que dizemos, vamos
descrevê-la.
Ela tem ordinariamente mais de três palmos de altura. A sua raiz se
parece com um nabo, e as folhas, com uma erva chamada rinchão. Possui uma
pequena pele, que cai quando o fruto está maduro. De seus ramos saem como
que pequenas taças, cálices do tamanho da junta de um dedinho, cuja
circunferência se parece mesmo com uma taça. Acrescentarei, ainda, para a
compreensão dos que não conhecem essa planta, que ela tem embaixo algo
como uma meia bola, que se estreita para cima. Depois alarga-se e forma como
que uma pequena bacia, semelhante ao centro de uma romã partida em duas,
onde se adapta uma coberta redonda, tão bem feita como se a tivessem polido
em redor e com recortes que terminam em ponta, tal como se vêem nas romãs.
Por cima dessa coberta, ao longo das pequenas taças, ela produz o seu fruto,
que se parece com a semente da erva chamada parietária, e a sua flor é como a
da papoula.
Essa tiara, ou mitra coroada, cobria a parte posterior da cabeça e as
têmporas, em volta das orelhas, pois esses pequenos cálices não rodeavam a
fronte. Esta era rodeada por uma espécie de correia de ouro, bastante larga,
sobre a qual, em caracteres sagrados, estava escrito o nome de Deus.
Eram essas as vestes do sumo sacerdote, e não deixaria eu de me admirar
muito a esse respeito pela injustiça daqueles que nos odeiam e nos tratam
como ímpios, porque desprezamos as divindades que eles adoram. Pois se eles
quiserem considerar com algum cuidado a construção do Tabernaculo, as
vestes dos sacerdotes, os vasos sacros de que se servem para oferecer os
sacrifícios a Deus, verão que o nosso legislador era um homem consagrado e
que falsamente somos acusados, pois é fácil de se ver, por tudo o que acabo de
narrar, que elas representam de algum modo todo o mundo. Pois das três
partes nas quais o comprimento do Tabernaculo está dividido, as duas em que
é permitido aos sacerdotes entrar, como se entraria num lugar profano,
significam a terra e o mar, que estão abertos a todos os homens. E a terceira
parte, que lhes é inacessível, é como um céu reservado a Deus somente, pois o
céu é a sua morada.
Os doze pães da proposição significam os doze meses do ano. Os véus,
tecidos de quatro cores, indicam os quatro elementos, pois o linho refere-se à
terra, que o produz, e é da mesma cor; a púrpura significa o mar, pois é tingida
com o sangue de um certo peixe; o escarlate representa o fogo (a túnica do
sumo sacerdote significa também a terra); o jacinto, que tende para a cor do
azul, representa o céu; as sementes de romã, os relâmpagos; o som das
campainhas, os trovões.
O éfode, tecido de quatro cores, representa também toda a natureza
(penso que o ouro foi acrescentado para representar a luz). O racional, que está
no meio, representa também a terra, que está no centro do mundo, e o cinto
que o rodeia tem relação com o mar, que circunda a terra. Quanto às
sardônicas que servem de colchetes, indicam o Sol e a Lua. As outras doze
pedras preciosas simbolizam os meses do ano.
A tiara, sendo da cor do jacinto, significa o céu, sem o que não seria digno
de que nela se escrevesse o nome de Deus, e a tríplice coroa de ouro representa,
por seu brilho, a sua glória e a sua soberana majestade. Eis de que modo
julguei dever explicar todas essas coisas, a fim de não perder a ocasião, nem
neste lugar, nem em outros, de fazer conhecer a grande sabedoria do nosso
admirável legislador.",