Livro Terceiro Flávio Josefo
Capítulo 1 Flávio Josefo
,
"OS ISRAELITAS, OPRIMIDOS PELA FOME E PELA SEDE, QUEREM APEDREJAR
MOISÉS. DEUS TORNA DOCES AS ÁGUAS QUE ERAM AMARGAS, ENVIA AO
CAMPO CODORNIZES E MANÁ E FAZ BROTAR DA ROCHA UMA FONTE DE ÁGUA VIVA.",
"103. A alegria que sentiram os israelitas por se verem livres, pelo
poderoso auxílio de Deus, quando menos o esperavam, foi perturbada pelas
grandes dificuldades que encontraram a caminho do monte Sinai, pois essa
região era deserta, e a terra, muito seca e estéril, porque não tinha água. Assim,
não somente os homens, mas os próprios animais não encontravam água para
beber. Dessa forma, quando terminaram as provisões que haviam levado, por
ordem de Moisés, foram obrigados a cavar poços — com grande dificuldade, por
causa da dureza da terra. No entanto encontraram tão pouca água que não lhes
era suficiente, e era de tão mau sabor que não a podiam beber.
104. Depois de andar tanto tempo, chegaram certa tarde a um lugar
chamado Amargo, por causa do amargor das águas. Tinham falta de víveres,
mas, como estavam muitíssimos fatigados, ali se detiveram de boa mente,
porque encontraram um poço, o qual, embora não fosse suficiente para tão
grande multidão, dava-lhes a esperança de poder aliviar um pouco as suas
necessidades e porque lhes haviam dito que não mais encontrariam água em
todo o resto do caminho. Mas a água era tão amarga que nem os homens, nem
os cavalos e nem os outros animais a puderam beber.
Esse fato tão lastimável causou desânimo ao povo e grande sofrimento a
Moisés, porque os inimigos que precisavam combater não eram dos que se
podem debelar com uma valorosa resistência: a fome e a sede sozinhos
reduziram aquela multidão de homens, mulheres e crianças ao último extremo
da vida. Moisés não sabia que deliberação tomar e sentia também os
sofrimentos dos outros como se fossem seus próprios, porque todos recorriam a
ele. As mães pediam que tivesse pena das crianças, os maridos, que tivesse
compaixão das esposas e cada qual rogava-lhe que procurasse uma solução
para tão grande mal.
Em tão premente necessidade, dirigiu-se a Deus para obter de sua
bondade que tornasse doces as águas que eram amargas. E Ele deu a conhecer
que lhe concedia aquela graça. Moisés tomou então um pedaço de madeira, que
partiu em dois, e, depois de os haver lançado ao poço, disse ao povo que Deus
escutara a prece deles e tirava daquela água tudo o que nela existia de ruim,
contanto que fizessem o que lhes determinava. Perguntaram o que precisavam
fazer, e ele ordenou aos mais robustos que tirassem uma grande porção de
água do poço, garantindo-lhes que a que lá ficasse seria boa para beber. Eles
obedeceram e tiveram em seguida a realização da promessa que lhes fora feita.
105. Êxodo 16. Partindo desse acampamento, chegaram a um lugar de
nome Elim, que de longe lhes parecera bastante vantajoso, porque avistavam
palmeiras. Delas, porém, lá encontraram apenas umas setenta, e ainda muito
pequenas e pouco carregadas de frutos, por causa da esterilidade da terra.
Encontraram também umas doze fontes, mas tão reduzidas que, em vez de
correr, apenas destilavam. Fizeram pequenos regos para recolher a água, mas
quando cavavam as fontes encontravam lama em lugar de areia e quase nada
de água. A grande sede que o povo sofria, bem como a falta de víveres, que
foram consumidos em trinta dias, causou-lhes tal desespero que esqueceram
todos os favores de que eram devedores a Deus e o auxílio que haviam recebido
de Moisés. Acusaram-no com grande clamor de ser a causa de todos os seus
males e tomaram pedras para apedrejá-lo.
Esse homem extraordinário, ao qual a consciência nada reprovava, não se
admirou por vê-los tão exaltados contra ele, mas, confiando em Deus,
apresentou-se a eles com um semblante em que a majestade de Deus imprimia
respeito e disse-lhes, com aquela maneira de falar que lhe era habitual e tão
própria para persuadir, que não deviam, pelo que estavam sofrendo, esquecer
as obrigações que deviam a Deus, mas, ao contrário, tivessem diante dos olhos
as tantas graças e favores com que Ele os havia cumulado, quando menos os
podiam esperar de sua bondade, e a continuação de seu auxílio; que havia
mesmo motivo para crer que Ele permitira que fossem reduzidos a tal extremo a
fim de experimentar-lhes a paciência e a gratidão e saber qual dos dois fazia
mais impressão em seu espírito: se a tristeza dos males psesentes, se o
ressentimento pelos bens passados; que, havendo saído do Egito por ordem de
Deus, deviam precaver-se para não se tornarem indignos de seu auxílio, pela
ingratidão e pelas murmurações; que não evitariam cair naquele pecado se
desprezassem as ordens dEle ou o ministro de sua vontade, e nisso seriam
tanto mais culpados, pois não tinham motivo algum para se queixar de que ele
os enganara, pois sempre cumprira pontualmente o que lhe havia sido
ordenado.
Falou-lhes em seguida sobre as pragas com que Deus ferira o Egito,
quando os egípcios procuravam retê-los, contra a vontade dEle: como as águas
do Nilo, mudadas em sangue para os inimigos e tão infectadas que estes não a
podiam beber, fora conservada para eles com a sua qualidade usual; como o
mar, tendo-se dividido em dois, para favorecer-lhes a retirada, permitiu-lhes
chegar em segurança ao outro lado, enquanto os seus inimigos, querendo
persegui-los pelo mesmo caminho, foram sepultados pelas ondas; como,
encontrando-se sem armas, Deus as concedeu em abundância; enfim, como,
por meio de diversos milagres, Ele os retirara tantas vezes dos braços da morte.
Assim, se Ele se mostrara sempre tão poderoso, eles não deviam
desesperar de seu auxílio, mas suportar pacientemente tudo o que permitia
lhes acontecesse e não considerar a sua ajuda como demorada, não ocorrendo
tão prontamente como desejavam. Não deviam também imaginar que Deus os
abandonara no estado em que se encontravam, e sim persuadir-se de que Ele
queria experimentar a confiança e o amor deles pela liberdade e saber se a
estimavam o suficiente para conquistá-la pela fome e pela sede ou se preferiam
o jugo de vergonhosa servidão, que os submeteria a senhores que os
alimentariam como animais para deles obter apenas o trabalho. Quanto a ele,
nada temia por si mesmo, pois a morte que sofreria injustamente não lhe
poderia ser desvantajosa. Mas temia por eles, porque não lhes poderiam tirar a
vida sem condenar o proceder de Deus e desprezar os seus mandamentos.
106. Essas palavras fizeram-nos refletir, e as pedras caíram-lhes das
mãos. Arrependeram-se do crime que queriam cometer, e Moisés, considerando
que não era sem razão que o povo se rebelara, mas que a necessidade os havia
levado a isso, julgou dever implorar por eles o auxílio de Deus. Subiu uma
colina para rogar-lhe que tivesse compaixão de seu povo, o qual não podia
esperar outro auxílio, senão somente o dEle, e lhes perdoasse a falta que a
fraqueza humana, em tal conjuntura, os levara a cometer. Deus prometeu
atendê-lo e dar-lhes auxílio imediato.
Depois de uma resposta tão favorável, Moisés foi procurar o povo, o qual,
julgando pelo brilho que transparecia em seu rosto que Deus havia escutado a
oração, passou imediatamente da tristeza para a alegria. Moisés declarou que
lhes anunciava da parte de Deus a salvação e o término de seus males. Logo
depois, uma grande multidão de codornizes, aves muito comuns no estreito da
Arábia, atravessou esse braço de mar. Cansadas de voar, caíram no
acampamento dos hebreus. Lançaram-se então sobre as aves, o alimento que
lhes era mandado por Deus em tão urgente necessidade, e Moisés agradeceu-
lhe por ter cumprido tão prontamente o que lhe fora grato prometer.
107. Essa graça, porém, não veio sozinha. A infinita bondade de Deus
acrescentou-lhe uma segunda. Moisés orava com os braços levantados para o
céu, quando começou a cair uma espécie de orvalho, que engrossava à medida
que descia. Moisés julgou que bem poderia ser outro alimento que Deus lhes
mandava também, provou-o e achou-o excelente. Dirigindo-se então ao povo,
que pensava ser neve o que acabava de cair, pois era a estação própria,
declarou que aquilo não era orvalho comum, mas um novo alimento
proveniente da liberalidade divina. Comeu-o em seguida diante deles, para
melhor persuadi-los do que dizia. Todos o experimentaram depois e perceberam
que tinha o gosto do mel, a forma da goma que se tira de árvore semelhante à
oliveira e o tamanho de um grão de coentro.
Todos ajuntaram-no, e Moisés ordenou-lhes que recolhessem apenas o
suficiente para cada dia, isto é, uma medida certa, de nome gômer. Asseverou,
ao mesmo tempo, que aquele alimento não lhes haveria de faltar, querendo,
com a proibição, pôr limites à avareza dos mais fortes, que teriam impedido os
mais fracos de ajuntar o necessário. Com efeito, se alguém, contra a ordem de
Deus, recolhia mais que o permitido, inútil tornava-se o trabalho, porque o
alimento, guardado para o dia seguinte, ficava amargo, estragado e cheio de
bichos. E assim, era verdade que havia nesse alimento algo de sobrenatural e
divino. Tinha ainda isto de extraordinário: aqueles que o comiam achavam-no
tão delicioso que não queriam outro. Cai ainda hoje naqueles lugares orvalho
semelhante a esse, que então prouve a Deus mandar, em favor de Moisés. Os
hebreus chamaram-no maná, que em nossa língua corresponde a uma espécie
de interrogação, como quem diz: Que é isto? Mas popularmente o chamaram
maná. Receberam-no, pois, com grande alegria, como vindo do céu, e com ele
alimentaram-se durante quarenta anos, enquanto viveram no deserto.
108. O acampamento avançou depois para Refidim. Ali tiveram muita
sede, pois constataram que a região era ainda mais carente de água que a de
onde vinham. Assim, recomeçaram as murmurações contra Moisés. Ele retirou-
se, para evitar aquele primeiro furor, e recorreu mais uma vez a Deus, para
rogar-lhe que, depois de ter dado ao povo o alimento com que matasse a fome,
lhe desse também a água com que o desalterasse, pois um sem a outra era
inútil. Deus não se demorou em ouvir a oração e prometeu dar-lhes uma fonte
muito abundante, fazendo-a brotar de um lugar de onde menos o teriam
esperado. Mandou que batesse num rochedo com a vara, na presença de todos,
prometendo dali fazer sair água, porque desejava obsequiá-la ao povo sem que
tivessem o menor trabalho em procurá-la.
Moisés, consciente da promessa, foi ter com o povo, que o viu descer do
lugar elevado onde fizera a sua oração e o esperava com grande impaciência.
Ele disse-lhes que Deus queria tirá-los, contra a esperança deles, do aperto em
que se encontravam. Para isso, faria brotar uma fonte de água da rocha. Essas
palavras os deixaram atônitos, porque julgavam que precisariam parti-la, e a
sede e o cansaço da viagem os havia enfraquecido tanto que mal podiam estar
de pé. Moisés, porém, feriu o rochedo com a vara. No mesmo instante, a rocha
dividiu-se em duas e dela brotou grande abundância de água cristalina. A
surpresa não foi menor que a alegria. Beberam todos com prazer e acharam que
tinha doçura muito agradável, sendo deveras água milagrosa, um presente das
mãos de Deus. Então ofereceram-lhe sacrifícios em ação de graças por tão
grande benefício e conceberam grande veneração por Moisés, que era tão
querido dEle. A Sagrada Escritura dá testemunho desta promessa feita por
Deus a Moisés: que de um rochedo brotaria água.",