Livro Setimo Flávio Josefo
Capítulo 8 Flávio Josefo
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"ABSALÃO FOGE PARA GESUR.TRÊS ANOS DEPOIS, JOABE OBTÉM DE DAVI
PERMISSÃO PARA ELE VOLTAR. ABSALÃO CONQUISTA O AFETO DO POVO. VAI
A HEBROM. É DECLARADO REI, E AITOFELPASSA PARA O SEU PARTIDO.
DAVI ABANDONA FERUSALÉM, RETIRANDO-SE PARA ALÉM DO FORDÃO.
FIDELIDADE DE ITAI E DOS SUMOS SACERDOTES. MALDADE DE MEFIBOSETE.
INSOLÊNCIA HORRÍVEL DE SIMEI. ABSALÃO COMETE UM CRIME INFAME",
"283. O assassinato de Amnom assustou todos os outros filhos de Davi,
que montaram a cavalo e fugiram a toda brida para o rei seu pai. Eles não lhe
trouxeram a primeira notícia, mas um outro, caminhando mais depressa, lhe
disse que Absalão matara todos os seus irmãos. A idéia da perda de tantos
irmãos devido a um crime cometido por um deles partiu o coração de Davi e fez
mergulhar o seu Espírito em grande aflição. E, sem esperar a confirmação da
notícia nem perguntar o motivo, entregou-se inteiramente à dor, rasgou as suas
vestes, lançou-se por terra, soltou gritos e derramou lágrimas. Lastimava não
somente os filhos mortos, mas também aquele que lhes tirara a vida.
Seu sobrinho Jonadabe, filho de Siméia, disse-lhe, para consolá-lo, que
tinha razão para crer que Absalão chegara àquele extremo pelo ressentimento
do ultraje feito à irmã, pois de outro modo pouco motivo havia para que
desejasse mergulhar as mãos no sangue dos próprios irmãos. Falava assim
quando se ouviu um grande ruído de cavaleiros. Eram os filhos de Davi. Vendo
o aflito pai, contra a sua esperança, que aqueles que julgava mortos viviam
ainda, correu para abraçá-los e misturou as suas lágrimas com as deles, bem
como a pena de ter perdido um filho, enquanto eles choravam a dor de ter
perdido um irmão. Absalão fugiu para Gesur, para a casa de seu avô, que
ocupava uma posição de relevo naquele país, e lá ficou três anos.
2 Samuel 14. Percebendo Joabe que nesse tempo a cólera do rei se havia
acalmado e que ele permitiria facilmente o regresso de Absalão, serviu-se de um
artifício para fazê-lo decidir-se. Uma velha, por sua ordem, foi ter com o rei,
demonstrando grande aflição. Disse-lhe ela que os seus dois filhos haviam
brigado no campo de tal modo que, não havendo quem os separasse, eles se
engalfinharam, e um deles foi morto. A justiça procurava agora o criminoso
para fazê-lo morrer também. E assim, ela estava prestes a perder o outro filho,
seu único amparo na velhice. Em tal contingência, recorria à bondade do
soberano, suplicando-lhe que concedesse aquela graça ao filho.
Davi prometeu-o, e então ela continuou a falar, deste modo: Sou-vos
muito grata, majestade, por terdes tanta compaixão desta pobre mulher, de
minha velhice e da condição a que me encontraria reduzida se viesse também a
perder o filho que me resta. Mas, se quereis que eu não duvide de vossa
bondade, é necessário, por favor, que comeceis por aplacar a vossa ira contra o
príncipe vosso filho e o recebais de novo em vossa amizade. Pois, como poderia
eu ter certeza de que vossa majestade perdoará ao meu filho se não quer do
mesmo modo Derdoar ao Dróorio filho uma falta semelhante? Seria coisa digna
de vossa prudência acrescentar voluntariamente a perda de um de vossos filhos
à do outro, igualmente dolorosa, todavia já irreparável?
Essas palavras convenceram o rei de que Joabe enviara aquela mulher.
Perguntou-lhe se era verdade, e ela confessou-o. Naquele mesmo instante,
mandou chamar Joabe para informar que este conseguira o que desejava.
Perdoava Absalão, e podia mandar dizer-lhe que voltasse. Joabe prostrou-se
diante dele, partiu logo em seguida e trouxe Absalão a Jerusalém. O rei, porém,
não quis que o filho se apresentasse diante dele, porque ainda não estava
disposto a vê-lo. Assim, para obedecer à ordem, Absalão viveu ainda afastado
dois anos, sem que o desgosto por não ser tratado segundo a grandeza de seu
nascimento diminuísse algo de sua compostura, que era tal como a sua beleza e
a elegância de seu porte.
Tinha ele a cabeça tão bela que quando se lhe cortavam os cabelos, no fim
de cada ano, estes pesavam duzentos sidos, que são cinco libras. Porém, não
podendo mais suportar viver banido da presença do rei, mandou rogar a Joabe
que intercedesse por ele, a fim de obter permissão para vê-lo. Não recebendo
resposta, mandou pôr fogo a um campo que pertencia a Joabe. Logo Joabe foi
perguntar-lhe por que o tratava daquele modo, e Absalão respondeu que era
para obrigá-lo a vir ter com ele, não o podendo conseguir de outro modo, e
pediu-lhe que o reconciliasse com o rei, pois o exílio lhe era na verdade mais
suportável que o desgosto de ver sempre o pai encolerizado contra si. Joabe
ficou comovido com o sofrimento dele, e essa maneira de falar comoveu também
Davi, de tal modo que ele mandou chamar Absalão. Este veio, lançou-se-lhe aos
pés e pediu-lhe perdão.
2 Samuel 15. Davi consentiu e levantou-o. Tendo feito as pazes com o rei,
Absalão partiu imediatamente com grande acompanhamento, seguido, além da
grande quantidade de cavaleiros e dos carros que possuía, por cinqüenta guar-
das. Como a sua ambição não tinha limites, imaginou logo destronar o rei seu
pai, apoderar-se da coroa e pô-la na própria cabeça. Com essa intenção, ia
todas as manhãs ao palácio do rei, onde consolava a todos os que haviam
perdido uma causa, dizendo-lhes que os culpados eram os maus conselheiros
do rei, o qual também enganava o povo em seus juízos.
Continuou a proceder desse modo durante quatro anos. Quando percebeu
que conquistara o afeto de todos e de todo o povo, rogou ao rei permissão para
ir a Hebrom cumprir uma promessa que fizera durante o exílio. Quando lá
chegou, fez correr a notícia por todo o país, e gente de todas as partes veio ter
com ele. Aitofel, que era de Gilo, um dos conselheiros de Davi, foi também.
Duzentos habitantes de Jerusalém também vieram, mas somente para assistir
à festa. Assim, o desejo de Absalão realizou-se, como ele esperava, pois todos o
escolheram para rei.
284. Davi, como era natural, irritado pela ousadia e impiedade do filho,
que após receber o perdão por um crime tão grande tentava tirar-lhe a vida e o
reino concedido a ele pelo próprio Deus, resolveu retirar-se às praças-fortes do
outro lado do Jordão e entregar nas mãos de Deus o julgamento de sua causa.
Deixou então a guarda do palácio a dez de suas concubinas e saiu de
Jerusalém seguido por uma grande multidão, que não quis abandoná-lo, e de
seus seiscentos homens, os quais estavam com ele desde que Saul o perseguia.
Zadoque e Abiatar, sumos sacerdotes, e todos os levitas queriam também
ir com ele e levar a arca, mas Davi obrigou-os a ficar, acreditando que Deus não
os deixaria sem socorro e teria cuidado deles. Rogou-lhes somente que lhe
dessem, por meio de pessoas de confiança, avisos secretos de tudo o que se
passava. Jônatas, filho de Abiatar, e Aimaás, filho de Zadoque, demonstraram
assim a sua fidelidade nessa ocasião. E Itai, geteense, tinha-lhe tanta afeição
que, por mais que o rei lhe pedisse para ficar, não quis fazê-lo.
Quando esse grande príncipe subia descalço o monte das Oliveiras e todos
se desfaziam em lágrimas em redor dele, vieram dizer-lhe que Aitofel, por uma
horrível traição, havia passado para o partido de Absalão. Essa dor foi-lhe mais
sensível que todas as outras, porque conhecia muito bem o valor de Aitofel, e
rogou a Deus que não permitisse a Absalão seguir os seus conselhos. Quando
chegou ao alto do monte, contemplou Jerusalém e derramou muitas lágrimas,
pois não fazia diferença entre a perda de seu reino e a saída daquela grande
cidade que lhe servia de capital.
Husai, um de seus mais fiéis servidores, veio ter com ele com as vestes
rasgadas e a cabeça coberta de cinzas. Davi procurou consolá-lo, dizendo-lhe
que o maior serviço que lhe poderia prestar era procurar Absalão com o
pretexto de lhe querer falar e passar para o partido dele, a fim de conhecer as
suas intenções e opor-se aos conselhos de Aitofel. Husai obedeceu e foi a
Jerusalém, para onde Absalão também se dirigia.
2 Samuel 16. Davi marchara um pouco adiante, e Ziba, que ele designara
para cuidar dos bens de Mefibosete, veio procurá-lo com dois burros carregados
de víveres, os quais lhe ofereceu. Perguntou-lhe Davi onde estava o seu amo, e
Ziba respondeu que ele havia ficado em Jerusalém, na expectativa de que
diante daquela mudança fosse escolhido para reinar, em memória do rei seu
avô. Essa falsa notícia irritou tanto a Davi que ele deu a Ziba todos os bens de
Mefibosete, dizendo ser aquele muito mais merecedor de possuí-los do que este.
Quando se aproximava do lugar denominado Baurim, Simei, filho de
Gera, parente de Saul, não se contentando em dizer-lhe injúrias, começou a
atirar-lhe pedras. Como os que acompanhavam o rei procuravam aparar os
golpes, o seu furor tornou-se ainda maior. Com todas as forças, gritou que Davi
era um sanguinário, sendo a causa de mil males, e que dava graças a Deus por
permitir que o próprio filho o castigasse pelos crimes cometidos contra Saul,
seu rei e senhor. Dizia ele: Saí deste país, mau e execrando que sois.
Abisai, não mais suportando tão horrível insolência, procurou matá-lo,
porém Davi o impediu, afirmando que já lhe bastavam os males presentes, não
havia por que buscar outros. E acrescentou: Não me incomodo com o que esse
homem está dizendo. Considero-o apenas um cão enraivecido e submeto-me à
vontade de Deus, que o mandou para me maldizer. Que motivo temos para nos
admirarmos de que ele me profira injúrias, se o meu próprio filho declara
abertamente que é meu mortal inimigo? Deus, porém, é por demais bom para
não me olhar com vistas de misericórdia e muito justo para deixar de confundir
os desígnios daqueles que juraram a minha ruína. O virtuoso rei, assim
falando, continuou a caminhar sem se deter às injúrias de Simei, e o infeliz
correu para o outro lado do monte a fim de continuar a insultá-lo. Por fim, Davi
chegou à margem do Jordão e deu um descanso aos seus homens, esgotados
pela longa caminhada.
285. Absalão, nesse meio tempo, acompanhado por Aitofel, em quem
depositava toda a sua confiança, dirigia-se a Jerusalém, e Husai, fiel amigo de
Davi, foi como os outros prostrar-se diante dele e desejar-lhe um feliz reinado.
Absalão perguntou-lhe como o até então melhor amigo de seu pai havia
abandonado o rei para passar ao seu partido.
Respondeu Husai: Vendo que por unânime consentimento todos se
submeteram a vós, temia eu resistir à vontade de Deus se não o fizesse
também, na certeza que tenho de Ele é que vos faz subir ao trono. E, se me
negais a graça de receber-me no número dos que vos honram com a sua
afeição, servir-vos-ei com a mesma fidelidade e o mesmo zelo com que servi ao
rei vosso pai, pois estou persuadido de que não há motivo para queixa pela
mudança que se efetuou, porque a coroa não passou a outra família real: é um
filho que sucede ao pai. Absalão prestou fé a essas palavras e não desconfiou
mais dele.
286. O novo rei, conversando com Aitofel a respeito de como agir para
consolidar o poder, recebeu desse homem maligno conselho para abusar das
concubinas do rei seu pai na presença do povo, a fim de que todos vissem que
não era mais possível uma reconciliação entre eles e que necessariamente have-
ria uma guerra muito sangrenta. Assim, os que estavam no seu partido ficariam
inseparavelmente presos a ele. O jovem príncipe seguiu tão infeliz e vergonhoso
conselho e o executou sob uma tenda que mandou construir no palácio, à vista
de todos. Assim realizou-se o que o profeta Nata predissera a Davi.",