🏠 Home ← Anterior Próximo →

Livro Setimo Flávio Josefo

Capítulo 11 Flávio Josefo

12346789101112
,
"DAVI MANDA SALOMÃO CONSTRUIR O TEMPLO. ADONIAS QUER FAZER-SE REI, MAS DAVI
SE DECLARA A FAVOR DE SALOMÃO. TODOS ABANDONAM
ADONIAS, E ELE MESMO SUBMETE-SE A SALOMÃO. DIVERSAS DETERMINAÇÕES DE DAVI.
O MODO COMO FALA AOS PRÍNCIPES DE SEU
REINO E A SALOMÃO, A QUEM SAGRA REI PELA SEGUNDA VEZ.",
"304. Davi, depois do que acabo de relatar, mandou chamar Salomão e
disse-lhe: A primeira coisa que vos ordeno, meu filho, para depois que me
tiverdes sucedido, é a construção de um templo em honra a Deus, honra que eu
mesmo muito desejei realizar, mas Ele, por meio de seu profeta, me proibiu
fazê-lo, porque as minhas mãos foram manchadas com o sangue das inúmeras
guerras que fui obrigado a empreender e de que tomei parte. Ele disse-me que
escolhera para realizar esse desejo o mais jovem de meus filhos, que se
chamaria Salomão, que teria por esse filho um amor de pai e que a nossa nação
seria tão feliz sob o seu reinado que gozaria toda espécie de bens, numa paz
que jamais seria perturbada por guerra alguma, estrangeira ou civil. Assim,
mesmo antes de terdes nascido, Deus vos destinou para ser rei. Por isso
esforçai-vos para ser digno de tão grande honra, por vossa piedade, coragem e
amor pela justiça. Observai religiosamente os mandamentos que Ele nos deu
por meio de Moisés e não permitais que outros os violem. Considerai como
grande favor a graça que Ele vos faz, permitindo-vos construir-lhe um templo, e
trabalhai nele com ardor, sem que a grandeza do empreendimento vos espante.
Antes de morrer, prepararei o que for necessário para a sua realização. Já
ajuntei dez mil talentos de ouro e uma enorme quantidade de ferro, cobre,
madeira e pedras. Tenho ferreiros, pedreiros e carpinteiros. Se ainda faltar
alguma coisa, vós mesmo providenciareis e assim vos tomareis agradável a
Deus. Ele será o vosso protetor e o seu auxílio Todo-poderoso nada vos fará
temer.
305. Depois de falar a Salomão, Davi exortou os chefes das tribos a
ajudar o filho na construção do Templo e a servir fielmente a Deus e a esperar
como recompensa de sua piedade que nada perturbasse a paz e a felicidade que
Ele os faria desfrutar. Ordenou que, depois de concluído o Templo, a arca da
aliança para lá fosse levada, com todos os vasos sagrados, que lá deveriam
estar há muito tempo, se os pecados de seus pais e o desprezo pelos
mandamentos de Deus não tivessem impedido a sua construção. Pois deveriam
tê-lo erigido logo que tomaram posse da terra que Deus lhes prometera.
306. 1 Reis 1. Esse sábio e admirável rei tinha apenas setenta anos, mas
as grandes dificuldades que suportara no decurso da vida o haviam
enfraquecido tanto que não lhe restava mais calor natural algum, e tudo o que
usavam para cobri-lo não o podia aquecer. Os médicos opinaram que a única
solução seria fazê-lo dormir com uma jovem, para que ela o aquecesse como se
aquece uma criança. Escolheram a mais bela de todo o país, chamada
Abisague, de que falaremos em seguida.
307. Adonias, quarto filho de Davi, que ele tivera de Hagite, uma de suas
mulheres, era um príncipe alto e belo e não era menos ambicioso que Absalão.
Assim, ele determinou fazer-se rei e comunicou o seu desígnio a todos os seus
amigos. Fez em seguida provisão de cavalos e de carros, tomando cinqüenta
homens para a sua guarda. Como tudo se fazia à vista de todos, nada ficou
oculto ao rei seu pai. Todavia este não lhe disse nada. Joabe, general do exérci-
to, e Abiatar, sumo sacerdote, puseram-se a serviço de Adonias. Porém
Zadoque, também sumo sacerdote, o profeta Nata, Benaia, comandante da
guarda de Davi, ao qual muito ele amava, e aquela tropa de bravos de que
falamos há pouco continuaram fiéis aos interesses de Salomão.
Adonias preparou um grande banquete num arrabalde de Jerusalém,
próximo à fonte do jardim do rei, e convidou todos os seus irmãos, exceto
Salomão. Convidou também Joabe, Abiatar e os chefes da tribo de Judá, mas
não convidou Zadoque, Nata e Benaia. Nata avisou a Bate-Seba, mãe de
Salomão, do que se passava, acrescentando que o único meio de garantir a sua
segurança e a do filho era relatar o fato ao rei em particular, pois, embora ele
tivesse prometido com juramento que Salomão iria sucedê-lo, Adonias já estava
de posse do reino. Deu-lhe ainda a certeza de que estaria presente à entrevista,
para confirmar o que ela dissesse.
Bate-Seba seguiu o conselho e foi procurar o rei. Prostrou-se diante dele e
depois de suplicar permissão para falar de um assunto muito importante disse-
lhe que Adonias dera um grande banquete, para o qual convidara todos os
irmãos, menos Salomão; que convidara também Abiatar, Joabe e os principais
amigos; que o povo, vendo aquela grande reunião, aguardava por quem e para
quem se declarar; que ela então suplicava que o rei se lembrasse da promessa
que tão solenemente fizera de escolher Salomão para seu sucessor; e que con-
siderasse que, quando não estivesse mais no mundo e Adonias viesse a reinar,
ela e o filho teriam morte certa.
Enquanto ela assim falava, avisaram o rei que Nata chegava para
conversar com ele, e Davi mandou que o fizessem entrar. O profeta perguntou-
lhe se era sua intenção que Adonias reinasse depois dele e se o havia declarado
rei, porque ele estava dando um grande banquete para o qual todos — os
irmãos, Joabe e vários amigos — haviam sido convidados, menos Salomão, e,
em meio à alegria e regozijo, os convidados lhe estavam desejando um longo e
feliz reinado. Acrescentou que Adonias não o convidara, nem a Zadoque e nem
a Benaia. E assim, como era necessário que todos soubessem naquela
circunstância qual era a vontade do rei, ele vinha suplicar-lhe que a revelasse.
Assim falou o profeta, e Davi então mandou chamar Bate-Seba, que havia
saído do quarto à entrada de Nata. Quando ela chegou, disse-lhe: )uro-vos pelo
Deus eterno e Todo-poderoso que Salomão, vosso filho, estará sentado sobre o
meu trono e que ele reinará desde hoje. Bate-Seba prostrou-se até o solo ante
essas palavras e desejou-lhe longa vida.
Davi mandou chamar também Zadoque e Benaia e, para dar a conhecer a
todo o povo que ele escolhia Salomão como sucessor, ordenou que eles e o povo,
acompanhados por toda a sua guarda, o fizessem subir a uma cavalgadu-ra, na
qual nenhum outro havia montado, senão o rei. Depois deveriam levá-lo à fonte
de Giom, onde Zadoque e Nata o consagrariam rei, derramando-lhe óleo santo
sobre a cabeça, e em seguida atravessar toda a cidade, com um arauto a
proclamar adiante dele estas palavras: Viva o rei Salomão! Que ele ocupe por
toda a sua vida o trono real de judá! Em seguida, mandou chamar Salomão e
deu-lhe preceitos para bem reinar e para governar santamente e com justiça
não somente a tribo de |udá, mas também todas as outras.
Benaia, acompanhado por todos aqueles de quem acabamos de falar, após
ter rogado a Deus que fosse favorável a Salomão colocou-o sobre a cavalgadura
e levou-o pela cidade até a fonte de Giom, onde foi sagrado rei. Depois
reconduziu-o pelo mesmo caminho. Esse ato público eliminava toda e qualquer
dúvida quanto a ser Salomão o escolhido por Davi dentre todos os seus filhos
para sucedê-lo. Todos gritaram então: Viva o rei Salomão! Deus queira que ele
governe feliz por muitos anos! Quando chegaram ao palácio fizeram-no sentar
no trono do rei seu pai. A alegria do povo foi grande, como jamais se vira em
toda a cidade. Eram banquetes e festins de regozijo. O som das harpas, das
flautas e de muitos outros instrumentos musicais era tão forte que todo o ar
ressoava, e a terra estava possuída de grande júbilo.
Adonias e todos os seus convidados ficaram apreensivos, e Joabe
comentou que aquele ruído de tantos instrumentos não o agradava
absolutamente. Todos ficaram alarmados e interromperam o banquete. Então
Jônatas, filho de Abiatar, chegou apressadamente. De início, Adonias alegrou-
se, pensando que ele trazia boas notícias. Mas quando Jônatas contou o que se
havia passado e que o rei se declarara em favor de Salomão, todos se
levantaram da mesa e foram embora.
Temendo a indignação de Davi, Adonias buscou asilo aos pés do altar e
mandou rogar ao novo rei que esquecesse o que ele havia feito e lhe garantisse
a vida. Salomão o atendeu, tanto por prudência quanto por bondade, porém
com a condição de que jamais caísse em falta semelhante e que somente a si
mesmo se responsabilizasse pelo mal que aconteceria, caso viesse a reincidir.
Mandou retirá-lo do asilo e depois que ele se prostrou na sua presença
ordenou-lhe que fosse para casa sem nada temer, mas que não se esquecesse
de viver como um homem de bem.
308. Davi, para garantir ainda a coroa a Salomão, quis que ele fosse
reconhecido rei por todo o povo. Para esse fim, convocou a Jerusalém os
principais das tribos, dos sacerdotes e dos levitas, cujo número, de trinta anos
para cima, era de trinta e oito mil. Escolheu seis mil deles para julgar o povo e
para servir como notários, vinte e três mil para cuidar da construção do
Templo, quatro mil para porteiros e o resto para cantar hinos e cânticos em
louvor a Deus, com os diversos instrumentos de música que mandara fabricar e
de que falamos há pouco. Empregou-os nesses diversos misteres segundo a sua
raça.
Após separar as famílias dos sacerdotes, constatou que eram vinte e
quatro: dezesseis descendentes de Eleazar e oito de Itamar. Determinou que
essas famílias servissem cada uma oito dias, de um sábado a outro,
sucessivamente. A sorte foi lançada na presença dele, dos sumos sacerdotes
Zadoque e Abiatar e de todos os chefes das tribos. Elas foram sendo escaladas
uma após a outra, segundo a sorte ia decidindo. Essa ordem permanece até
hoje.
Depois que esse sábio príncipe dividiu as famílias dos sacerdotes, separou
da mesma maneira as dos levitas, para servirem de oito em oito dias, como os
outros. Prestou também uma homenagem particular aos descendentes de
Moisés, entregando-lhes a guarda do tesouro de Deus e dos presentes que os
reis lhe oferecessem. Determinou ainda que toda a tribo de Levi, tanto os
sacerdotes quanto os demais, se entregasse dia e noite ao serviço de Deus,
como Moisés já havia ordenado.
309. Dividiu em seguida todos os soldados em doze corpos de vinte e
quatro mil homens cada um, comandados por um chefe que tinha sob a sua
dependência mestres de campo e oficiais. Ordenou que cada um desses corpos,
por sua vez, fizesse guarda durante um mês diante do palácio de Salomão e não
distribuiu cargo algum senão a pessoas de mérito e de probidade. Escolheu
também o guarda de seus tesouros e de tudo o que dependia de seu domínio,
de que seria inútil falarmos mais detalhadamente.
310. Depois que esse excelente rei dispôs as coisas com tanta prudência
e sabedoria, mandou reunir todos os príncipes das tribos e todos os principais
oficiais e, tendo subido ao trono, declarou: Meus amigos, julguei-me obrigado a
vos fazer saber que, tendo resolvido construir um templo em honra a Deus e
reunido para esse fim grande quantidade de ouro e cem mil talentos em
dinheiro, Ele me proibiu, por meio do profeta Nata, de executar o meu intento,
porque as minhas mãos estavam manchadas com o sangue dos inimigos que
venci em tantas guerras, as quais o bem público e o interesse da nação me
obrigaram a empreender. Ele me fez declarar, ao mesmo tempo, que aquele de
meus filhos que me sucedesse no trono começaria e terminaria a obra. Como
sabeis, embora Jacó, nosso pai, tivesse doze filhos, Judá foi escolhido com o
consentimento geral para príncipe sobre todos os outros, e, tendo eu seis
irmãos, Deus me preferiu a eles para elevar à dignidade real, sem que eles
manifestassem o mínimo ressentimento. Do mesmo modo, desejo que todos os
meus filhos tolerem sem murmurar que Salomão os governe, porque Deus
escolheu elevá-lo ao trono. Pois, ainda que Ele quisesse nos submeter a
estrangeiros, deveríamos tolerá-lo com paciência, quanto mais temos motivo
para nos regozijarmos por Ele ter conferido semelhante honra a um de nossos
irmãos: acaso o parentesco do sangue não nos faz participantes? Rogo a Deus
de todo o meu coração que Ele logo cumpra a promessa que lhe aprouve fazer-
me de tornar este reino muito feliz sob o governo do novo rei, e que essa
felicidade seja duradoura. Voltando-se para Salomão, ele disse: Isso aconte-
cerá sem dúvida, meu filho, se amardes a piedade e a justiça e observardes
inviolavelmente as leis que Deus outorgou a nossos antepassados. Se a elas
faltardes, porém, não haverá infelicidade que não possais esperar.
Depois de assim falar, colocou nas mãos de Salomão o plano e a descrição
de como queria que se construísse o Templo, onde tudo estava determinado
com minudências, e também uma lista de todos os vasos de ouro e de prata
necessários para o serviço divino, com o peso que deviam ter. Recomendou em
seguida ao filho que usasse de extrema diligência ao executar a obra e exortou
os príncipes das tribos, particularmente os levitas, que o ajudassem em tão
santa empresa, tanto por causa de sua pouca idade quanto porque Deus o
escolhera para ser o rei deles e para realizar aquele grande empreendimento.
Disse-lhes ainda que não seria difícil fazê-lo, pois deixava-lhes ouro,
prata, madeira, esmeraldas, outras pedras preciosas e todos os operários
necessários para esse fim. Acrescentava ainda de seu próprio dinheiro e de
suas economias três mil talentos do mais puro ouro, para que fossem
empregados nos ornamentos da parte mais santa e mais interna do Templo e
nos querubins que deveriam estar sobre a arca, que era como o carro de Deus a
cobri-la com as suas asas.
As palavras do grande rei foram recebidas com tanta alegria petos
príncipes das tribos, pelos sacerdotes e pelos levitas que todos prometeram
contribuir com toda boa vontade para aquela santa obra com cinco mil talentos
de ouro, dez mil estáteres, cem mil talentos de prata e grande quantidade de
ferro. Os que possuíam pedras preciosas trouxeram-nas para serem colocadas
no tesouro, do qual jeiel, que era da estirpe de Moisés, tinha a custódia.
Todo o povo ficou comovido — e Davi, mais que todos — com o zelo que
demonstravam as pessoas mais importantes do reino. O religioso príncipe, em
alta voz, deu graças a Deus, chamando-o de Pai e Criador do Universo, Rei dos
anjos e dos homens, Protetor dos hebreus e Autor da felicidade desse grande
povo do qual Ele lhe havia confiado o governo. E terminou com um fervoroso
pedido: que Ele continuasse a cumulá-los de favores e enchesse o Espírito e o
coração de Salomão com toda espécie de virtudes. Ordenou-lhes em seguida
que louvassem a Deus, e imediatamente todos se prostraram por terra, para
adorar a eterna Majestade.
O ato chegou ao seu termo com as demonstrações de gratidão que todos
deram a Davi pela felicidade que haviam desfrutado durante o seu governo. No
dia seguinte, fizeram-se grandes sacrifícios, nos quais se ofereceram a Deus em
holocausto mil carneiros, mil cordeiros, mil novilhos e um grande número de
vítimas para as oblações pacíficas. Davi passou o resto do dia com o povo, em
festa e em regozijo. E Salomão foi sagrado rei segunda vez por Zadoque, sumo
sacerdote, e levado ao palácio, onde se assentou no trono do rei seu pai, sem
que dali em diante alguém o tenha desobedecido.",