Livro Setimo Flávio Josefo
Capítulo 6 Flávio Josefo
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"DAVI DERROTA HADADEZER, REI DE DAMASCO E DA SÍRIA, EM GRADE BATALHA. O REI DOS BAMATENIANOS PROCURA A SUA ALIANÇA. DAVI
SUBJUGA OS IDUMEUS. CUIDA DE MEFIBOSETE, FILHO DE JÔNATAS. DECLARA
GUERRA A HANUM, REI DOS AMONITAS, QUE TRATARA INDIGNAMENTE OS
SEUS EMBAIXADORES.",
"272. Hadadezer, rei de Damasco e da Síria, que era muito amigo de
Adrazar, tendo sabido que Davi lhe fazia guerra, marchou em seu auxílio com
um grande exército. A batalha travou-se próximo do Eufrates. Hadadezer foi
vencido, perdeu vinte mil homens, e o resto salvou-se na fuga. O historiador
Nicolau fala nestes termos desse feito no quarto livro de sua história: Muito
tempo depois, o mais poderoso de todos os príncipes daquele país, de nome
Hadadezer, reinava em Damasco e em toda a Síria, exceto a Fenícia. Fez guerra
a Davi, rei dos judeus, e depois de diversos combates foi vencido por ele em
grande batalha, que se travou junto do Eufrates, onde praticou feitos dignos de
grande general e grande rei.
Esse mesmo autor fala também dos descendentes desse príncipe, que
reinaram sucessivamente depois dele e herdaram dele não menos a coragem
que o reino. Estas são as suas palavras: Depois da morte desse príncipe, seus
descendentes, que tiveram todos o mesmo nome, como os Ptolomeus no Egito,
reinaram até a décima geração e não sucederam menos à sua glória que à
coroa. O terceiro deles, que foi o mais ilustre de todos, querendo vingar a
derrota que seu avô havia sofrido, atacou os judeus sob o reinado de Acabe e
devastou todo o país nos arredores de Samaria.
Assim fala esse historiador, e segundo a verdade, pois é certo que
Hadadezer devastou os arredores de Samaria, como diremos a seu tempo. Davi,
depois de submeter à sua obediência, por meio de suas armas vitoriosas, o
reino de Damasco e todo o resto da Síria, colocou fortes guarnições nos lugares
mais importantes e tornou tributários todos esses povos, voltando depois
triunfante a Jerusalém. Consagrou a Deus as aljavas de ouro e as outras armas
dos guardas do rei Hadadezer, mas quando Sisaque, rei do Egito, venceu
Roboão, filho de Salomão, e tomou Jerusalém, ele as levou junto com tantos
outros ricos despojos, como diremos a seu tempo, mais particularmente na
continuação desta história.
Esse poderoso e sábio rei dos israelitas, para aproveitar o auxílio que
recebia de Deus, atacou as duas principais cidades do rei Adrazar, chamadas
Beta e Malcom. Tomou-as, saqueou-as e lá encontrou, além de grande
quantidade de ouro e prata, uma espécie de cobre que é considerado melhor
que o ouro e do qual Salomão, quando construiu o Templo, mandou fazer
aquelas belas bacias e o grande vaso a que deram o nome de mar.
273. A ruína do rei Adrazar fez Toí, rei dos hamatenianos, pensar que
não teria melhor sorte, e então ele resolveu mandar o príncipe Jorão, seu filho,
ao rei Davi, para regozijar-se com ele pela vitória obtida sobre um inimigo
comum, bem como para pedir a sua aliança e oferecer-lhe ricos vasos de ouro,
de prata e de cobre, de uma obra muito antiga. Davi prestou a esse príncipe
todas as honras que eram devidas, tanto a ele quanto ao seu pai. Fez a
desejada aliança, recebeu os presentes e consagrou-os a Deus com o resto do
ouro encontrado nas cidades que conquistara.
Agia assim porque a sua piedade o fazia reconhecer que não se podia
agradecer demasiado a bondade divina, pois ela o tomava vitorioso não somente
quando marchava em pessoa à frente dos exércitos, mas até mesmo quando
fazia guerra por meio de seus lugar-tenentes, como na que empreendeu contra
os idumeus, sob o comando de Abisai, irmão de Joabe, que não somente os
submeteu e tornou tributários, depois de matar dezoito mil homens numa
batalha, como também impôs a todos eles um tributo por cabeça.
274. O amor que esse rei admirável nutria naturalmente pela justiça era
tão grande que ele não pronunciava sentença alguma que não fosse muito
eqüitativa. Joabe era o general de seu exército. O chefe dos registros públicos
era josafá, filho de Ailude, secretário do conselho. Sifã era o capitão da guarda,
à qual pertenciam os mais velhos de seus filhos e Benaia, filho de Joiada. Ele
juntou Zadoque a Abiatar no sumo sacerdócio, pois tinha afeto particular por
aquele e porque era da família de Finéias.
275. 2 Samuel 9. Depois de ajustar todas as coisas, Davi lembrou-se da
aliança que fizera com Jônatas e das muitas provas que recebera de sua
amizade, pois dentre outras excelentes qualidades tinha extrema gratidão.
Indagou então se não restava algum filho de Jônatas, para com o qual pudesse
mostrar a gratidão de que era devedor. Levaram-lhe um dos libertos de Saul, de
nome Ziba, que sabia existir ainda um dos filhos desse príncipe, de nome
Mefibosete, que era coxo porque a sua ama, ao saber da derrota na batalha e da
morte de Saul e de Jônatas, ficara tão assustada que o deixara cair.
Davi mandou procurá-lo com todo empenho. Pouco tempo depois,
informaram-no que Maquir o educava na cidade de Labate,* e mandou buscá-lo
imediatamente. Quando Mefibosete chegou, prostrou-se diante do rei. Davi
disse-lhe que nada temesse e esperasse dele um tratamento muito favorável:
dar-lhe-ia de novo a posse de todos os bens que pertenciam ao seu pai e ao rei
Saul, seu avô, e queria que viesse sempre tomar as suas refeições com ele.
Mefibosete, fora de si diante de tantas gentilezas, prostrou-se outra vez
diante do rei, para humildemente agradecer-lhe. Davi ordenou a Ziba que
fizesse chegar às mãos de Mefibosete os bens que lhe restituíra, que lhe
trouxesse todos os anos a renda a Jerusalém e que o servisse com os quinze
filhos e os vinte servidores que possuía. Assim, Davi tratou o filho de Jônatas
como se fosse seu próprio filho, deu o nome de Mica a um dos filhos desse
príncipe e tomou cuidado particular de todos os outros parentes de Saul e de
jônatas.
* Ou Lo-Debar.
276. 2 Samuel 10. Naás, rei dos amonitas e aliado de Davi, morreu
naquele tempo, e Hanum, seu filho, sucedeu-o. Davi enviou-lhe embaixadores
para manifestar que tomava parte na sua dor e para garantir a continuação da
amizade que tivera com o rei seu pai. Porém os principais da corte de Hanum,
por injuriosa desconfiança, imaginaram que a embaixada era pretexto para
observar o estado de suas forças e disseram ao novo rei que ele não podia, sem
se colocar em grande perigo, prestar fé às palavras do rei dos israelitas.
O príncipe, deixando-se levar pelo mau conselho, mandou raspar a
metade da barba dos embaixadores e cortar-lhes a metade das vestes. Essa
ação tão ultrajosa foi a resposta que lhes deram. Davi, sentido com tal injúria,
que violava mesmo o direito das gentes, declarou em alta voz que se vingaria
pelas armas. O temor fez os amonitas prepararem-se para a guerra. O rei deles
enviou embaixadores a Siro, rei da Mesopotâmia, com mil talentos, para obrigá-
lo a ajudar os amonitas. O rei Zobá uniu-se a ele, e esses dois príncipes juntos
levaram a Hanum vinte mil soldados de infantaria. Dois outros reis, um de
Maaca e o outro de nome Tobe, levaram-lhe vinte e dois mil homens.",