Livro Setimo Flávio Josefo
Capítulo 7 Flávio Josefo
,
"JOABE, GENERAL DO EXÉRCITO DE DAVI, DERROTA OS QUATRO REIS QUE
VIERAM EM SOCORRO DE HANUM, REI DOS AMONITAS. DAVI VENCE EM
PESSOA GRANDE BATALHA SOBRE O REI DOS SÍRIOS. ENAMORA-SE DE BATE-
SEBA, TOMA-A E É CAUSA DA MORTE DE URIAS, SEU MARIDO. DESPOSA
BATE-SEBA. DEUS, POR MEIO DO PROFETA NATA, REPREENDE-O PELO SEU
PECADO. DAVI ARREPENDE-SE. AMOM, FILHO MAIS VELHO DE DAVI,
VIOLENTA TAMAR, SUA IRMÃ, E ABSALÃO, IRMÃO DE TAMAR, MATA-O.",
"277. Os grandes preparativos dos amonitas e a união de tantos reis não
atemorizaram Davi, porque a guerra que empreenderia para ressarcir tão
grande ultraje não podia ser mais justa. Mandou contra eles as melhores
tropas, sob o comando de Joabe, que sem perder tempo lhes foi sitiar a capital,
de nome Rabá. Os inimigos saíram da cidade para combatê-lo e dividiram as
suas forças em duas partes.
Os exércitos auxiliares puseram o seu campo de batalha em uma planície,
e as tropas dos amonitas colocaram-se perto das muralhas, em frente aos
aliados. Joabe marchou com tropas escolhidas contra os reis que vieram em
socorro de Hanum. Deu o comando do restante a Abisai, para atacar os
amonitas, com ordem para este vir socorrê-lo se fosse acossado. Do mesmo
modo Joabe o socorreria, caso não pudesse resistir aos amonitas. Exortou os
soldados a combater valorosamente, de forma que não pudessem ser acusados
de recuar. Os reis estrangeiros sustentaram com bastante energia os primeiros
ímpetos de Joabe, mas por fim, após a perda de um grande número de homens,
fugiram. Os amonitas, vendo-os derrotados, não ousaram combater contra
Abisai e voltaram para as suas cidades. Joabe então regressou vencedor para
junto do rei em Jerusalém.
Embora a derrota tivesse feito conhecer aos amonitas a sua fraqueza, eles
não se mostraram sensatos, recusando-se a estabelecer a paz. Mandaram
embaixadores a Calama, rei dos sírios que moram além do Eufrates, para tomar
tropas sob pagamento, e ele lhes enviou oitenta mil homens de infantaria e dez
mil cavaleiros, comandados por Sobaque, seu lugar-tenente e general. Davi,
percebendo que os inimigos eram perigosos, não quis mais fazer guerra por
meio de seus chefes, mas determinou ir em pessoa. Passou o Jordão, marchou
contra eles, deu-lhes combate e venceu-os, matando no campo de batalha
quarenta mil homens de infantaria e sete mil cavaleiros. Sobaque foi ferido e
morreu.
Tão gloriosa vitória abateu o orgulho dos mesopotâmios, e eles enviaram
embaixadores com presentes a Davi para pedir-lhe a paz. Como se aproximava
o inverno, Davi retornou a Jerusalém, mas logo que veio a primavera mandou
Joabe continuar a guerra contra os amonitas. Devastou-lhes todo o país e
sitiou pela segunda vez a Rabá, sua capital.
278. 2 Samuel 11. Esse rei tão justo, tão temente a Deus, tão zeloso pela
observância das leis de seus antepassados, caiu em grave pecado. Numa tarde,
segundo o seu costume, ele passeava por uma galeria alta do palácio, quando
viu numa casa vizinha uma mulher que se banhava. Chamava-se Bate-Seba e
era tão formosa que ele não pôde resistir à paixão que concebeu por ela.
Mandou buscá-la e a reteve em sua companhia. Mas ela ficou grávida e pediu
ao rei que a livrasse da morte, à qual a lei de Deus condenava as mulheres
adúlteras.
Davi, com esse fim, mandou Joabe chamar Urias, seu escudeiro e marido
de Bate-Seba, e pediu-lhe notícias sobre o cerco. Ele respondeu que tudo ia
muito bem. Então enviou-lhe como jantar alguns pratos de sua mesa,
mandando-o dormir em casa. Mas Urias, em vez de obedecer, passou a noite
com os guardas. Davi soube-o e perguntou-lhe por que não tinha ido ver a
esposa e passado aquele tempo com ela, depois de tão longa ausência, pois
ninguém agia assim ao regressar de uma viagem. Ele respondeu que o seu
general e os seus companheiros estavam dormindo no campo, sobre a terra, e
por isso ele não quis passar o seu período de descanso em casa com a esposa.
Davi mandou-o ficar ainda aquele dia e só o despediu no dia seguinte.
Pela tarde, fê-lo vir novamente para jantar, convidou-o a beber, a fim de que,
estando mais alegre que de costume, desejasse ir dormir em sua casa. Mas ele
passou também aquela noite à porta do quarto do rei, com os guardas. Davi,
encoleriza-do por nada conseguir, escreveu a Joabe, para que este o expusesse
ao perigo mais iminente, como castigo por uma ofensa que teria cometido, e que
os soldados o abandonassem a fim de que, sozinho, não pudesse escapar. Ele
entregou a carta fechada e lacrada com o seu sinete nas mãos de Urias.
Joabe recebeu-a e, para obedecer ao rei, imediatamente ordenou que
Urias e alguns dos mais valentes de suas tropas atacassem um lugar que ele
sabia ser dos mais perigosos, assegurando-lhe que o seguiria com todo o
exército se conseguisse abrir uma passagem na muralha, para atacar também
por aquela brecha. Exortou-o a corresponder pela coragem à estima que o rei
lhe dedicava e à fama que já havia conquistado. Urias aceitou o encargo com
alegria, embora fosse uma empresa muito arriscada. Joabe, em segredo,
ordenou aos companheiros de Urias que o abandonassem e se retirassem
quando vissem o inimigo cair sobre ele.
Os amonitas, vendo-se assim atacados e temendo o êxito dos israelitas,
assaltaram-nos com os mais valentes dentre os seus. Os que acompanhavam
Urias então fugiram, menos alguns que não sabiam da ordem. Urias deu-lhes o
exemplo de preferir a morte à fuga, ficou firme e susteve o ímpeto dos inimigos,
matando vários deles. E, depois de fazer tudo o que se poderia esperar de um
militar tão valoroso, morreu gloriosamente, rodeado por todos os lados e crivado
de golpes, assim como os poucos que lhe imitaram a coragem e virtude. Joabe
mandou imediatamente dizer ao rei que, estando enfadado pela demasiada
duração do cerco, julgara que devia fazer um último esforço, mas não lograra
êxito, pois os inimigos lhe resistiram com tanta energia que ele fora repelido,
sob muitas pedras. Instruiu aquele que enviara a dizer ao rei, caso este se
mostrasse irado com o mau desfecho, que Urias fora um dos mortos no ataque.
O que fora previsto aconteceu, pois Davi disse com ardor que Joabe havia
cometido uma grande falta em ordenar aquele ataque sem antes empregar as
máquinas para abrir as brechas; que o general deveria lembrar-se de
Abimeleque, filho de Gideão, que embora muito valente terminara a vida de
maneira vergonhosa, morto por uma mulher, por querer temerariamente tomar
à força a torre de Tebas; e que isso não era saber tirar vantagem do exemplo de
outros generais, caindo nas mesmas faltas que eles, em vez de imitá-los nos
feitos de valor em que haviam demonstrado sensatez e inteligência.
Depois que o enviado de )oabe ouviu Davi falar desse modo, disse-lhe,
entre outras coisas, que Urias fora morto no combate. Logo a cólera do rei se
acalmou, e ele mudou de linguagem. Ordenou ao mensageiro que dissesse a
joabe para não se admirar do mau resultado da empresa, pois é coisa comum
nas guerras, mas que o atribuísse à sorte das armas, nem sempre favorável, e
aproveitasse aquela desgraça para continuar o cerco com mais firmeza,
construindo outros fortes e levando as máquinas para poder tornar-se senhor
do lugar. E, depois de tê-lo tomado, queria que o destruísse e exterminasse
todos os seus habitantes.
279. Bate-Seba chorou a morte do marido durante alguns dias, e,
quando terminou o tempo do luto, Davi desposou-a. Ela teve em seguida um
filho.
280. 2 Samuel 12. Deus olhou com cólera para esse ato de Davi e ordenou
a Nata, num sonho, que o repreendesse severamente de sua parte. Como o
profeta era muito sensato e sabia que os reis, na violência de suas paixões,
consideram pouco a justiça, julgou que, para melhor conhecer as disposições
do soberano, devia começar por falar-lhe docemente antes de chegar às
ameaças que Deus havia ordenado.
Assim, falou deste modo ao rei: Havia numa cidade dois homens, um dos
quais era muito rico e possuía muitas cabeças de gado. O outro, ao contrário,
era tão pobre que todos os seus bens consistiam somente numa ovelha, que ele
amava temamente e nutria com todo o carinho, como se fosse uma filha, com o
pouco de pão que possuía. Então um amigo do homem rico chegou para visitá-
lo, mas este não quis tocar no seu gado para lhe dar de comer e mandou tirar à
força a ovelha do homem pobre. Matou-a e assim hospedou o amigo à custa do
outro. Davi, diante de tamanha injustiça, disse que aquele homem era mau e
devia ser nhrinario a restituir o auádruplo ao pobre e depois ser condenado à
morte.
O profeta respondeu-lhe: Vós mesmo vos condenastes e pronunciastes o
decreto do castigo que merece tão grande crime como o que cometestes. Fez-
lhe ver como havia atraído sobre si a cólera de Deus, em troca do favor extraor-
dinário que Ele lhe fizera, constituindo-o rei sobre todo o seu povo. Deus fizera-
o também vitorioso sobre muitas nações, estendera até bem longe o seu domí-
nio e o preservara de todos os esforços de Saul em eliminá-lo. E era horrível que
ele, tendo várias esposas legítimas, houvesse desprezado os mandamentos de
Deus e chegado a uma violência tão cruel e ímpia, como tomar a mulher de
outro e fazer morrer-lhe o marido, entregando-os aos inimigos.
Deus, porém, exerceria deste modo a sua vingança sobre ele: permitiria
que um dos próprios filhos de Davi abusasse de suas mulheres à vista de todos
e tomasse armas contra ele, para puni-lo publicamente pelo crime que
cometera em segredo. A isso acrescentou que ele teria o desprazer de ver morrer
o filho que havia sido o fruto infeliz de seu adultério. Davi, espantado com essas
ameaças, desfez-se em pranto, com o coração atravessado pela dor. Ele
reconheceu e confessou a enormidade de seu pecado, pois era um homem justo
e, exceto esse pecado, jamais havia cometido outro.
Deus, comovido com o seu grande arrependimento, prometeu conservar-
lhe a vida e o reino e esquecer o seu pecado. E, segundo dissera o profeta,
enviou uma grave enfermidade ao filho que tivera de Bate-Seba. O extremo
amor que Davi nutria pela mãe da criança o fez sofrer tão vivamente essa
aflição que ele passou sete dias inteiros sem comer. De luto, vestiu-se de saco e
ficou deitado por terra, pedindo ardentemente a Deus que lhe conservasse o
filho. Mas Deus não ouviu a oração, e o menino morreu no sétimo dia.
Nenhum dos seus ousava dar-lhe a notícia, temendo que, estando já tão
aflito, se obstinasse ainda mais em não tomar alimento e continuasse a
descuidar do corpo. Imaginavam que, se a enfermidade da criança lhe causava
tanta dor, a morte dela o afligiria ainda mais. Davi, porém, percebeu na
angústia manifestada em todos os rostos o que eles se esforçavam por esconder
e não teve dificuldade em imaginar que o menino havia morrido. Indagou deles,
e lhe contaram. Então ele logo levantou-se e pediu que lhe trouxessem de
comer.
Os parentes e servidores do rei, admirados de tão repentina mudança,
perguntaram-lhe a razão, e ele respondeu: Não compreendeis que enquanto o
menino vivia a esperança de obter de Deus a sua conservação fazia-me
empregar todos os meus esforços para procurar comovê-lo? Mas agora que
morreu, a minha aflição e o meu pranto seriam inúteis. Essa resposta tão
sábia os fez louvar a sua prudência, e Bate-Seba deu-lhe um segundo filho, que
teve o nome de Salomão.
281. joabe continuava apertando o cerco a Rabá. Rompeu os aquedutos
que levavam água à cidade e impediu que recebesse víveres. Assim os seus
habitantes viram-se oprimidos ao mesmo tempo pela falta de água e pela fome,
porque tinham apenas um poço, e não era suficiente. Joabe pediu então ao rei
que viesse ao seu exército, a fim de ter ele mesmo a honra de tomar e examinar
a cidade. Davi louvou-lhe a fidelidade e o afeto e foi até onde estava o cerco,
levando ainda outras tropas. Tomou-a então à força e entregou-a ao saque dos
soldados.
Os despojos foram grandes, e Davi contentou-se em tomar para si a coroa
de ouro do rei dos amonitas, que pesava um talento e era enriquecida com
grande quantidade de pedras preciosas, no meio das quais brilhava uma
sardônica de grande valor. Ele usou muitas vezes essa coroa. Fez morrer todos
os habitantes, de diversas maneiras, sem poupar um sequer e não tratou mais
humanamente as outras cidades do mesmo país que depois conquistou pela
força.
282. 2 Samuel 13. Depois de tão gloriosa conquista, voltando a
Jerusalém, sentiu estranha aflição, e a causa foi esta:
A princesa sua filha, de nome Tamar, sobrepujava em beleza todas as
moças e mulheres de seu tempo. Amnom, seu filho mais velho, apaixonou-se
tão perdi-damente por ela que, não podendo satisfazer a sua paixão, porque ela
era cuidadosamente vigiada, ficou em tal estado que se tornou irreconhecível.
Jonadabe, seu primo e amigo particular, julgou que aquela enfermidade só
podia vir de uma causa semelhante e rogou-lhe que dissesse qual era. Amnom
revelou o amor que sentia pela irmã, e Jonadabe, que era um homem
inteligente, deu-lhe um conselho, o qual ele pôs em prática.
Fingiu estar muito doente e se pôs de cama. Quando o rei seu pai foi
visitá-lo, pediu-lhe que enviasse a irmã. Ela veio, e ele pediu que ela lhe fizesse
alguns bolos, dizendo que se fossem feitos pela mão dela os comeria com mais
prazer. Ela os fez imediatamente e os levou até ele. Amnom rogou-lhe então que
os levasse ao quarto dela, porque queria dormir, e ordenou que saíssem todos.
Em seguida, ele levantou-se e foi até o quarto onde estava Tamar — sozinha.
Manifestou-lhe a sua paixão e quis dominá-la à força. Ela gritou e disse tudo o
que podia para dissuadi-lo de cometer uma ação criminosa e ao mesmo tempo
tão vergonhosa para a família real.
Vendo que as suas razões não o demoviam, rogou-lhe que, se não podia
vencer a sua paixão, a pedisse em casamento ao rei, seu pai. Mas Amnom
estava fora de si, levado pelo furor da paixão, e não a quis ouvir. E violou-a, por
mais resistência que ela fizesse. E, por mais estranho que pareça, no mesmo
instante, por uma mudança de que jamais se ouviu falar, passou logo após esse
ardente afeto que nutria por ela ao ódio mais violento, proferindo injúrias e
expulsando-a de sua presença.
Ela queria esperar a noite, a fim de evitar a vergonha de aparecer aos
olhos de todos em pleno dia depois de haver recebido o maior de todos os
ultrajes. Mas Amnom recusou permiti-lo e ainda a fez castigar. Cheia de dor e
de amargura, a princesa rasgou o seu véu, que lhe descia até o chão e que só as
filhas dos reis podiam usar, colocou cinzas na cabeça e assim atravessou toda a
cidade, publicando com gritos misturados a soluços e lágrimas a horrível
violência que lhe haviam feito.
Absalão, de quem ela era irmã por parte de mãe e de pai, encontrando-a
naquele estado, soube do motivo de seu desespero. Fez o que pôde para
consolá-la, e ela ficou muito tempo com ele, sem se casar. Davi ficou muito
triste diante dessa ação tão detestável, mas como tinha afeto especial por
Amnom, porque era o mais velho de seus filhos, não quis castigá-lo como ele
merecia. Absalão dissimulou o ressentimento e conservou-o no coração até que
pôde satisfazê-lo, por meio de uma vingança proporcional à magnitude da
ofensa.
Passaram-se dois anos desse modo. Mas, devendo Absalão ir a Baal-
Hazor, na tribo de Efraim, para fazer a tosquia de suas ovelhas, convidou o rei
seu pai e todos os seus irmãos para um banquete que desejava oferecer. Davi
desculpou-se, porque não queria que ele fizesse tão grandes despesas, e
Absalão rogou-lhe que pelo menos enviasse todos os irmãos. Ele concordou, e
todos se apresentaram. Quando Amnom começou a ficar alegre por causa de
excesso de vinho, Absalão o matou.",