Livro Setimo Flávio Josefo
Capítulo 4 Flávio Josefo
,
"DAVI OBTÉM GRANDES VITÓRIAS SOBRE OS FILISTEUS E SEUS ALIADOS. FAZ
LEVAR COM GRANDE POMPA A ARCA DO SENHOR PARA JERUSALÉM. UZÁ
MORRE POR TER QUERIDO TOCÁ-LA. MICAL ZOMBA DE DAVI POR TER ELE
CANTADO E DANÇADO DIANTE DA ARCA. DAVI QUER CONSTRUIR O TEMPLO,
MAS DEUS LHE ORDENA QUE RESERVE ESSA EMPRESA A SALOMÃO.",
"268. Quando os filisteus souberam que Davi fora constituído rei de todo o
Israel, reuniram um grande exército e vieram acampar próximo de Jerusalém,
num vale chamado de Refaim. Davi, que jamais empreendia coisa alguma sem
consultar a Deus, rogou ao sumo sacerdote que se revestisse do éfode para
saber qual seria o resultado daquela guerra. Deus respondeu que o seu povo
seria vencedor. Davi marchou imediatamente contra os inimigos, surpreendeu-
os, matou um grande número deles e pôs o restante em fuga.
Não se deve no entanto imaginar que, por ter ele conquistado tão
facilmente essa vitória, o exército dos filisteus fosse fraco ou pouco aguerrido.
Eles haviam chamado em seu auxílio toda a Síria e toda a Fenícia, que são
nações muito valentes, como bem o deram a conhecer, porque, em vez de
perder a coragem após uma derrota, voltaram a atacar os israelitas com três
poderosos exércitos, acampando no mesmo lugar onde haviam sido derrotados.
Davi rogou mais uma vez ao sumo sacerdote que consultasse ao Senhor.
Ele o fez, e Deus ordenou-lhe que ficasse com o exército na floresta chamada
Os Lamentos e só saísse para o combate quando visse que os ramos das
árvores se moviam por si mesmos, embora o tempo estivesse tão calmo que não
havia no ar o menor vento para causar aquele efeito. Davi obedeceu
rigorosamente e, quando Deus deu a conhecer por aquele milagre que o
favorecia com a sua presença, marchou com inteira certeza de obter a vitória.
Os inimigos não sustentaram nem o primeiro choque. Voltaram
imediatamente as costas aos israelitas, e assim estes os matavam sem
dificuldades. Perseguiram-nos até Gezer, que está na fronteira dos dois reinos,
e voltaram depois de saquear o acampamento, onde encontraram grandes
riquezas e os ídolos de seus deuses, aos quais fizeram em pedaços.
269. Depois desses dois combates tão favoráveis, Davi, juntamente com o
conselho dos maiorais do povo e dos chefes do exército, mandou as principais
forças da tribo de Judá acompanhar os sacerdotes e os levitas, que deviam ir
buscar a arca do Senhor em Quiriate-Jearim e trazê-la para Jerusalém, cidade
destinada a realizar no futuro os sacrifícios que se ofereciam a Deus, a prestar
as honras que lhe são agradáveis e a cumprir tudo o que se relaciona ao culto
divino. (Se Saul o tivesse observado religiosamente, não teria sido vítima de tan-
tas desgraças, que o fizeram perder a coroa e a vida.)
Depois de tudo preparado, Davi quis assistir à grande cerimônia. Os
sacerdotes tomaram a arca da casa de Abinadabe e a puseram sobre um carro
novo, puxado por bois. Tal encargo foi confiado aos irmãos e filhos de
Abinadabe. O rei caminhava à frente, e todo o povo seguia cantando salmos,
hinos e cânticos ao som de trombetas, címbalos e de vários outros
instrumentos. Quando chegaram a um lugar conhecido como a eira de Quidom,
os bois desgarraram-se um pouco e fizeram pender a arca. Então Uzá estendeu
a mão para segurá-la e caiu morto no mesmo instante, fulminado pela cólera de
Deus, porque, não sendo sacerdote, tivera a ousadia de querer tocá-la. Esse
lugar, depois, foi chamado Perez-Uzá.
Davi, espantado com o milagre, teve receio de que a mesma coisa lhe
acontecesse se levasse a arca à cidade, pois Uzá fora severamente castigado
apenas por querer tocá-la, e a mandou colocar na casa de campo de um homem
de bem muito conhecido: Obede-Edom, que era da raça dos levitas. Lá ficou
três meses, e a felicidade que ela trouxe cumulou-o, e a toda a família, de
inúmeros bens. Davi, vendo que aquele homem pobre se tornara rico e que
muitos começavam a invejá-lo, não receou mais que algum mal fosse lhe
suceder se levasse a arca para Jerusalém. E assim fez.
Os sacerdotes, acompanhados por sete ordens de músicos, levaram-na
sobre os ombros. E ele mesmo, andando diante dela, dançava e tocava harpa.
Esse proceder pareceu a Mical, sua esposa, tão abaixo de sua condição de rei,
que ela zombou dele. Quando a arca chegou à cidade, foi colocada num
tabernáculo que Davi mandara construir especialmente para ela. Fizeram-se
tantos sacrifícios nessa ocasião que parte dos animais imolados foi suficiente
para alimentar todo o povo. Não houve homem, mulher ou criança que não
recebesse um pedaço de carne, um bolo e uma empada.
Depois que todos voltaram para as suas casas e Davi ao seu palácio,
Mical veio ter com ele e, depois de lhe ter desejado toda sorte de felicidade,
disse que achava estranho um príncipe tão ilustre quanto ele agir de modo tão
inconveniente, como dançar diante de todos sem que houvesse em seus vestess
o menor indício de realeza. Ele respondeu-lhe que não estava arrependido do
que fizera, porque sabia que aquele seu gesto fora agradável a Deus, que o
havia preferido ao rei, pai dela, e a todos os de sua nação, e que nada o
impediria de se comportar sempre do mesmo modo. Essa princesa não teve
filhos dele, mas teve cinco de Paltiel, como diremos a seu tempo.
270. 2 Samuel 7. Davi, notando que tudo lhe saía às mil maravilhas, pelo
auxílio que recebia de Deus, julgou não poder, sem ofendê-lo, morar em um
magnífico palácio, todo construído em madeira de cedro e enriquecido com toda
espécie de ornamentos, e permitir ao mesmo tempo que a arca da aliança
repousasse num simples tabernáculo. Assim, ele resolveu construir em honra
de Deus um templo soberbo, tal como Moisés dissera que deveria no futuro
existir. Falou disso ao profeta Nata, o qual respondeu que julgava que Deus o
aprovaria e o ajudaria naquela empresa.
Na noite seguinte, porém, Deus apareceu em sonhos a Nata e ordenou-lhe
que dissesse a Davi que, apesar de louvar a sua intenção, não queria que ele a
executasse, porque as suas mãos haviam sido muitas vezes manchadas com o
sangue dos inimigos; que quando a sua vida terminasse, todavia, numa feliz
velhice, Salomão, seu filho e sucessor, começaria e levaria a cabo o
empreendimento; que Ele teria por esse príncipe o cuidado que um pai tem por
seu filho; que, depois dele, faria reinar os seus filhos; e que, se eles o
ofendessem, afligiria o reino com doenças e carestias, como castigos.
Davi, ao saber pelo profeta, com grande alegria, que o reino passaria aos
seus descendentes e que a sua posteridade seria ilustre, foi imediatamente
prostrar-se diante da arca para adorar a Deus e agradecer-lhe, uma vez que
Ele, não se contentando em tê-lo elevado de simples pastor a tão grande poder,
queria ainda passá-lo aos seus sucessores e porque a sua providência não
deixava de velar pela salvação do seu povo, a fim de fazê-los desfrutar a
liberdade que lhes havia conquistado, salvando-os da escravidão.",
"CAPITULO 5",
"GRANDES VITÓRIAS OBTIDAS POR DAVI SOBRE OS FILISTEUS, OS MOABITAS E
O REI DOS SOFONIANOS.",
"271. 2 Samuel 8. Pouco tempo depois, Davi, que não queria passar a vida
na ociosidade, mas desejava aumentar o reino por meio de guerras justas e
santas e torná-lo poderoso a ponto de os seus filhos o possuírem em paz, como
Deus lhe havia predito, resolveu atacar os filisteus. Para executar essa
deliberação, reuniu todas as tropas nas proximidades de Jerusalém e marchou
contra eles. Venceu-os em grande batalha e conquistou parte de seu país, que
anexou ao reino. Fez também guerra aos moabitas, dos quais matou um
número muito grande. O resto entregou-se, e ele lhes impôs tributo. Atacou
depois os sofonianos, derrotando em batalha, perto do Eufrates, ao seu rei,
Adrazar, filho de Araque, matando dois mil soldados de infantaria e cinco mil
cavaleiros e tomando mil carros, dos quais conservou somente cem e queimou o
resto.",