Livro Quinto Flávio Josefo
Capítulo 9 Flávio Josefo
,
"CRUELDADE E MORTE DE ABIMELEQUE, BASTARDO DE GIDEÃO.
OS AMONITAS E OSFILISTEUS SUBJUGAM OS ISRAELITAS. JEJTÉ LIBERTA-OS E
CASTIGA A TRIBO DE EFRAIM. IBSÃ, ELOM EABDOM GOVERNAM
SUCESSIVAMENTE O POVO DE ISRAEL DEPOIS DA MORTE DE JEFTÉ.",
"205. juizes 9. Gideão teve de diversas mulheres setenta filhos legítimos, e
de Druma, um bastardo chamado Abimeleque. Este, depois da morte do pai, foi
para Siquém, de onde era a sua mãe. Os parentes deram-lhe dinheiro, e ele o
empregou para reunir os piores homens que pôde encontrar. Depois voltou com
essa tropa à casa de seu pai, matou todos os irmãos, exceto Jotão, que
escapou, e usurpou o poder. Calcando aos pés todas as leis, governou com tal
tirania que se tornou odioso e insuportável aos homens de bem. Um dia,
quando se celebrava em Siquém uma festa solene, onde estava reunida uma
grande multidão, Jotão falou tão alto, do monte Cerizim, o qual está perto da
cidade, que todo o povo o ouviu e calou-se para escutá-lo.
Ele pediu-lhes que prestassem atenção e falou: Um dia reuniram-se as
árvores e, falando como os homens, pediram à figueira que fosse o seu rei, mas
esta recusou-se, dizendo que se contentava com a honra que lhe faziam em
consideração à bondade de seus frutos e nada mais desejava. Fizeram a mesma
proposta à vinha: ela também se recusou. Então fizeram a oferta à oliveira, que
não manifestou menos modéstia que as outras. Por fim, falaram com a sarça,
cuja madeira é boa somente para se queimar, e ela respondeu: 'Se é para vosso
bem que me quereis para vosso rei, descansai sobre os meus ombros. Mas se é
por zombaria e para me enganar, que fogo saia de mim e vos destrua a todas'.
Não vos narro isto como uma história, para vos divertir, e sim porque, sendo
devedores de tantos benefícios a Gideão, tolerais que Abimeleque, cujo caráter é
semelhante ao fogo, se tenha tornado vosso tirano depois de ter assassinado
cruelmente os próprios irmãos.
Dizendo isso, partiu e ficou escondido durante três anos nos montes, para
evitar o furor de Abimeleque. Algum tempo depois, os habitantes de Siquém se
arrependeram de permitir que se derramasse o sangue dos filhos de Gideão e
expulsaram Abimeleque de sua cidade e da própria tribo. Chegando, porém, o
tempo da vindima, o medo do ressentimento e da vingança de Abimeleque fazia
com que não ousassem sair da cidade. Por essa época, um homem distinto,
chamado Gaal, chegou acompanhado de um grande número de soldados e de
seus parentes, e rogaram-lhe que lhes desse uma escolta para poderem
recolher os frutos. Tendo ele concedido o que pediam, os israelitas, nada mais
temendo, falavam em voz alta e publicamente contra Abimeleque e matavam
todos os de seu partido que lhes caíam nas mãos.
Zebul, que era um dos maiorais da cidade e fora hóspede de Abimeleque,
foi dizer-lhe que Gaal incitava o povo contra ele, Abimeleque. Aconselhou-o a
armar-lhe uma emboscada perto da cidade, aonde prometia levar Gaal para
assim ele poder vingar-se de seu inimigo. Depois ele o faria ficar novamente de
bem com o povo. Abimeleque não deixou de seguir o conselho e nem Zebul de
executar o que lhe havia prometido. Assim, Zebul e Gaal dirigiram-se para fora
da cidade.
Gaal, que de nada desconfiava, ficou muito admirado ao ver soldados
armados encaminhando-se para ele e disse a Zebul: Eis ali os inimigos, que
marcham contra nós! São sombras dos rochedos, disse Zebul. De modo
nenhum! replicou Gaal, que os via agora mais de perto. São certamente
soldados armados. Disse Zebul: Vós, que censuráveis Abimeleque por sua
covardia, o que vos impede agora de mostrar a vossa coragem e combater
contra ele? Gaal, muito perturbado, sustentou o primeiro ataque e, depois de
perder alguns dos seus, retirou-se com o resto para a cidade.
Zebul então acusou-o de demonstrar pouca coragem naquele encontro, e
por esse motivo o despediram. Os habitantes, porém, continuaram a sair para
terminar a vindima. Abimeleque armou uma cilada perto da cidade, com a terça
parte de seus homens, ordenando que se apoderassem das portas para impedir
que eles pudessem regressar. Então ele, com o resto de seus soldados, atacou
os que se achavam esparsos pelos campos e tornou-se senhor da cidade.
Arrasou-a em seguida até os alicerces e nela semeou sal.
Os que se salvaram reuniram-se e ocuparam uma rocha, cuja posição a
tornava muito forte, e preparavam-se para rodeá-la de muralhas. Mas
Abimeleque não lhes deu oportunidade e foi contra eles com todos os seus
soldados. Apanhando feixes secos, ordenou a todos os seus homens que
fizessem o mesmo. Depois de ter num instante amontoado em torno da rocha
uma grande pilha de lenha, lançou por cima desta ainda outras matérias
inflamáveis e ateou-lhe fogo, de sorte que nenhum dos que lá se refugiavam
conseguiu escapar: mil e quinhentos homens morreram queimados com as
suas mulheres e filhos. Eis como Siquém foi destruída. Os seus habitantes até
seriam dignos de compaixão, mas mereceram tal castigo pela ingratidão
demonstrada para com o homem de quem haviam recebido tantos benefícios.
O tratamento dispensado a essa desafortunada cidade lançou grande
temor no espírito dos israelitas. Eles estavam certos de que Abimeleque levaria
adiante a sua boa sorte e diziam que a sua ambição não ficaria satisfeita
enquanto não os dominasse a todos. Ele marchou sem perder tempo para a
cidade de Tebas, tomou-a de assalto e cercou uma grande torre na qual o povo
se recolhera. Mas quando avançava para a porta, uma mulher atirou um
pedaço de mó de moinho, que o atingiu na cabeça e o fez cair. Ele percebeu que
estava ferido de morte e ordenou ao seu escudeiro que o matasse, para não ter
a vergonha de morrer pelas mãos de uma mulher. Foi obedecido, e assim,
segundo o vaticínio de Jotão, ele recebeu o castigo pela sua impiedade para
com os irmãos e pela crueldade para com os habitantes de Siquém. O seu
exército dissolveu-se depois de sua morte.
206. Juizes 10. Jair, gileadita da tribo de Manasses, governou em seguida
todo o povo de Israel. Era feliz em tudo, particularmente quanto aos filhos: teve
trinta, todos corajosos e homens de bem que ocupavam as primeiras colocações
na província de Gileade. Depois de ficar vinte e dois anos nesse importante
cargo, morreu e foi sepultado com muita honra em Camom, uma das cidades
desse país.
207. O desprezo então demonstrado pelos israelitas para com a lei de
Deus lançou-os num estado ainda mais infeliz que o de onde haviam saído. Os
amonitas e os filisteus entraram em seu país com um poderoso exército,
devastaram-no completamente e tornaram-se senhores dos países situados
para lá do Jordão. Depois intentaram passar o rio e conquistar também todos
os outros. Os israelitas, mais prudentes pelo castigo recebido, recorreram a
Deus e imploraram o seu auxílio. Ofereceram-lhe sacrifícios e rogaram que, se
Ele não queria acalmar totalmente a sua cólera, pelo menos a diminuísse. Deus
deixou-se comover pelas orações e prometeu-lhes auxílio.
Assim, marcharam contra os amonitas, que haviam entrado na província
de Gileade. E, como lhes faltava um chefe e Jefté gozava de grande fama, tanto
por causa do valor de seu pai quanto por manter ele mesmo um importante
corpo de soldados, mandaram pedir-lhe que os comandasse, prometendo-lhe
não ter jamais outro general senão ele, enquanto vivesse. Em princípio, ele
recusou o oferecimento, porque não o haviam ajudado contra os seus irmãos,
quando estes o trataram indignamente, expulsando-o de casa depois da morte
do pai, com o pretexto de que a mãe dele era estrangeira, e ele a desposara por
amor. Foi para se vingar dessa injúria que depois de se retirar para Gileade ele
tinha por sua conta os soldados que queriam servi-lo. Porém, não podendo
resistir às insistentes petições dos israelitas, reuniu os seus homens aos deles,
e fizeram juramento de obedecer-lhe como seu general.
Depois de calcular com muita prudência tudo o que era necessário e após
levar o seu exército para a cidade de Mispa, mandou embaixadores ao rei dos
amonitas para queixar-se de que ele havia entrado em um país que não lhe
pertencia. O soberano respondeu, por meio de outros embaixadores, que era ele
quem tinha motivo para se queixar dos israelitas, porque depois de terem saído
do Egito eles haviam usurpado o país de seus antepassados, legítimos senhores
daquela terra. Jefté respondeu-lhes que o senhor deles não podia achar
estranho nem que os israelitas possuíssem as terras dos amorreus; que, ao
contrário, devia agradecer por elas lhe terem sido deixadas, estando em poder
de Moisés conquistá-las; que não estavam dispostos a lhe deixar um país que
haviam ocupado depois de uma ordem recebida de Deus e que possuíam há
trezentos anos; e que assim só lhes restava resolver o litígio pelas armas.
Jefté, após despedir os embaixadores dessa maneira, fez voto a Deus: se
Ele lhe desse a vitória, sacrificar-lhe-ia a primeira criatura viva que encontrasse
no seu regresso. Travou-se a luta, e ele venceu os inimigos, perseguindo-os até
a cidade de Maniate. Entrou no paí$ dos amonitas, tomou e arrasou várias
cidades, cujos despojos distribuiu aos soldados, e assim gloriosamente libertou
a sua nação da servidão a que estivera sujeita durante dezoito anos.
Porém, tanto quanto fora feliz nessa guerra e merecera as honras que
recebeu da gratidão pública, foi ele infeliz em sua vida particular. Pois a
primeira pessoa que encontrou ao voltar para casa foi a sua única filha, ainda
virgem, que vinha ao seu encontro. Ele sentiu o coração partir-se de dor. Soltou
um profundo suspiro, lastimou a tão funesta prova de afeto que ela lhe dava e
disse-lhe que, por que infeliz coincidência, ela seria a vítima que ele se obrigara
a oferecer a Deus.
Aquela generosa moça, em vez de se espantar com essas palavras, respon-
deu-lhe com maravilhosa firmeza que uma morte que tinha por motivo a vitória
de seu pai e a liberdade de seu país só lhe poderia ser muito agradável e que a
única graça que pedia era o tempo de dois meses, para se lamentar com as
suas companheiras por ter de se separar delas ainda muito jovem. O infeliz pai
não teve dificuldade em lhe conceder esse pequeno favor e, depois desse tempo,
sacrificou a vítima inocente, que Deus não desejava dele e que nenhuma lei
obrigava a oferecer-lhe. Mas ele quis cumprir o seu voto, sem considerar o juízo
que os homens poderiam fazer de sua ação.
208. juizes 12. A tribo de Efraim declarou-lhe guerra pouco depois, sob o
pretexto de que, para obter sozinho a glória de ter derrotado e se aproveitado
dos desejos dos inimigos, ele empreendera a peleja sem eles. Primeiro ele lhes
respondeu, com muita doçura, que era ele quem se devia queixar, pois eles,
tendo visto os compatriotas empenhados em tão grande guerra, lhes recusaram
o auxílio que tinham por obrigação oferecer. Censurou-os em seguida porque,
não tendo se atrevido a lutar contra um inimigo comum, agora achavam de se
apresentar corajosos contra os próprios irmãos. Por fim, ameaçou castigá-los,
com o auxílio de Deus, se persistissem naquela loucura.
Quando ele viu que não se acalmavam com essas razões, mas avançavam
com um grande exército que haviam recrutado de Gileade, marchou contra eles,
atacou-os e os venceu. Colocou-os em fuga, mandou tropas para controlar as
passagens do Jordão, pelas quais eles poderiam escapar, e matou uns quarenta
e dois mil deles. Esse generoso chefe dos israelitas morreu depois de
desempenhar por seis anos tão elevado cargo. Foi enterrado na cidade de Sebei,
na província de Gileade, onde ele nascera.
209. Ibsã, da cidade de Belém, na tribo de judá, sucedeu Jefté no governo
supremo e desempenhou durante sete anos esse cargo, sem nada ter feito de
memorável.
210. Elom, da tribo de Zebulom, sucedeu-o e, no que é digno de
memória, durante os seis anos em que esteve no governo não fez mais que Ibsã.
211. Abdom, filho de Hilel, da tribo de Efraim, sucedeu Elom, e os
israelitas desfrutaram durante o seu governo de tão profunda paz que ele não
teve oportunidade para fazer algo memorável. Assim, a única coisa
extraordinária que se pode notar em sua vida é que, ao morrer, ele deixou
quarenta filhos e trinta filhos de seus filhos, todos vivos, perfeitos e habilmente
capazes. Morreu muito velho e foi enterrado com grande magnificência no lugar
onde havia nascido.",