Livro Quinto Flávio Josefo
Capítulo 8 Flávio Josefo
,
GIDEÃO LIBERTA O POVO DE ISRAEL DA ESCRAVIDÃO DOS MIDIANITAS.",
"204. juizes 6, 7 e 8. Um dia, quando Gideão, filho de joás, que era um dos
principais da tribo de Manasses, batia feixes de trigo no lagar, porque não se
atrevia a batê-los publicamente na eira do seu celeiro, por temor aos inimigos,
um anjo apareceu-lhe sob a forma de um rapaz, dizendo que Gideão era feliz
porque era querido de Deus. É este, retrucou Gideão, um belo sinal: ver-me
obrigado a me servir de um lagar em vez de um celeiro. O anjo exortou-o então
a não perder a coragem, mas a aumentá-la, para empreender a libertação do
povo.
Gideão disse-lhe que iria então propor uma coisa quase impossível, tanto
porque a sua tribo era a menor de todas em número de homens quanto porque
ele ainda era jovem e incapaz de executar tal empresa. Deus suprirá tudo,
replicou o anjo, e dará a vitória aos israelitas, quando vos tiverem por general.
Gideão narrou a visão a algumas pessoas de sua idade, que não duvidaram de
que ele lhe devia prestar fé. Reuniram logo dez mil homens resolvidos a tudo
empreender para libertar-se da escravidão.
Deus apareceu em sonhos a Gideão e disse-lhe que, por serem os homens
tão fátuos, querendo atribuir a si mesmos e às próprias forças as suas vitórias,
em vez de considerá-las resultado do auxílio que Ele lhes prestava, queria fazê-
los reconhecer que deviam tudo a Ele. E assim, ordenou-lhe que levasse o
exército à margem do Jordão no momento do calor mais forte do dia e só
considerasse valorosos os que se abaixassem para beber comodamente e que
considerasse covardes os que bebessem a água apressadamente, pois seria um
sinal do medo que sentiam do inimigo. Gideão obedeceu e encontrou apenas
trezentos que tomaram a água levando-a à boca com a mão, sem pressa
alguma.
Deus ordenou-lhe, em seguida, que atacasse os inimigos à noite com esse
pequeno número. E, notando agitação no seu espírito, acrescentou, para
tranqüilizá-lo, que tomasse um dos seus e com ele se aproximasse mansamente
do acampamento dos midianitas, para observar o que se passava. Ele executou
a ordem e quando estava próximo das tendas ouviu um soldado narrar ao
companheiro um sonho que tivera. Dizia ele: Vi um pedaço de massa de
farinha de cevada que não merecia ser recolhida, e a pasta, rolando por todo o
acampamento, derrubou a tenda do rei e depois todas as outras. Esse sonho,
respondeu-lhe o companheiro, pressagia a ruína completa do nosso exército,
por esta razão: a cevada é o menor de todos os grãos, e, como não há agora em
toda a Ásia nação mais desprezível que a dos israelitas, ela pode ser comparada
à cevada. Vós sabeis que eles reuniram as suas tropas e têm algum
empreendimento em vista, comandados por Gideão. Por isso temo muito que
esse pedaço de massa que vistes derrubar todas as tendas seja um sinal de que
Deus quer que Gideão triunfe sobre nós.
Essas palavras encheram Gideão de esperanças. Ele transmitiu-as aos
seus e ordenou-lhes que se armassem todos. Fizeram-no com alegria, pois tão
feliz pres-ságio os levava a tudo empreender. Mais ou menos na quarta vigília
da noite, Gideão separou os homens em três grupos de cem cada um. E, para
surpreender os inimigos, ordenou-lhes que cada qual levasse na mão esquerda
um vaso com uma tocha acesa dentro, e na direita, em vez da trompa, uma
buzina de chifre.
O acampamento dos inimigos era muito extenso, por causa dos camelos,
e, embora as tropas fossem separadas por nação, achavam-se encerradas num
mesmo recinto. Quando os israelitas se aproximaram, segundo a ordem de
Gideão, fizeram soar todos ao mesmo tempo as buzinas de chifre de carneiro,
quebraram os vasos e entraram no acampamento com grandes gritos, de
archote na mão, firmemente convictos de que Deus lhes daria a vitória. Estando
ainda os inimigos meio adormecidos, a escuridão da noite e principalmente o
auxílio de Deus causaram-lhes tal terror e confusão no espírito que mais foram
mortos por eles mesmos do que pelos israelitas, pois, sendo o exército tão
numeroso e composto por povos diversos a falar línguas diferentes e estando
todos tão aterrorizados, tomaram-se eles mesmos por inimigos, atacando-se
mutuamente.
Logo que outros israelitas souberam dessa vitória tão marcante, tomaram
armas para perseguir os inimigos e alcançaram-nos em lugares onde as águas
que lhes cercavam a passagem os obrigaram a parar. Houve então uma
carnificina inaudita. Os reis Orebe e Zeebe estavam entre os mortos. Os reis
Zeba e Zalmuna salvaram-se com dezoito mil homens somente e foram acampar
o mais longe possível dos israelitas. Gideão, que não se cansava de cuidar da
glória de Deus e da de seu país, marchou imediatamente contra eles, dizimou-
lhes todas as tropas e fez muitos prisioneiros. Os midianitas e os árabes, que
auxiliavam os midianitas, perderam perto de cento e vinte mil homens nesses
dois combates.
Os israelitas fizeram grande presa, tanto em ouro quanto em prata, e
também em objetos preciosos, camelos e cavalos. Gideão, depois de regressar a
Efraim, lugar de seu nascimento e moradia, mandou matar os dois reis
midianitas, os quais havia aprisionado. Então a sua própria tribo, invejosa da
glória que ele havia conquistado e não podendo tolerá-la, resolveu fazer-lhe
guerra, sob o pretexto de que ele empreendera a outra sem comunicá-los. Como
não era menos sensato que valoroso, ele respondeu-lhes, com grande modéstia,
que não teria procedido daquele modo se Deus assim não houvesse ordenado e
que isso não os impedia de ter tanta participação quanto ele na vitória. Assim
acalmou-os, prestando, por sua prudência, um serviço à República não menor
que o já prestado pelas suas vitórias, pois evitou uma guerra civil. Essa tribo
não deixou de ser castigada pelo seu orgulho, como diremos a seu tempo.
A modéstia desse grande personagem era tão extraordinária que ele
desejou até despojar-se da suprema autoridade. Mas o povo obrigou-o a
conservá-la, e ele a desempenhou durante quarenta anos. Gideão administrava
a justiça e apaziguava as divergências com tanto desinteresse, capacidade e
sabedoria que o povo jamais deixou de confirmar-lhe os julgamentos, pois não
podiam ser mais eqüitativos. Ele morreu muito idoso, e foi sepultado em seu
país.",