Livro Quinto Flávio Josefo
Capítulo 2 Flávio Josefo
,
"AS TRIBOS DE JUDÁ E DE SIMEÃO DERROTAM O REI ADONI-BEZEQUE E
TOMAM VÁRIAS CIDADES. OUTRAS TRIBOS CONTENTAM-SE EM TORNAR
TRIBUTÁRIOS OS CANANEUS.",
"195. Juizes 1. Os cananeus eram então muito poderosos, e a morte de
Josué os fez acreditar que podiam vencer os israelitas. Reuniram, para esse
fim, um grande exército perto da cidade de Bezeque, sob o comando do rei
Adoni-Bezeque, isto é, senhor dos bezequinianos, pois adonis em hebreu
significa senhor. As tribos de Judá e de Simeão combateram-nos tão
valentemente que mataram mais de dez mil deles e puseram todos os outros em
fuga. Prenderam Adoni-Bezeque e cortaram-lhe os pés e as mãos — nisso se viu
um efeito da justa vingança de Deus, que assim permitiu fosse esse cruel
príncipe tratado da mesma maneira como já tratara setenta e dois reis.
Levaram-no nesse estado até próximo de Jerusalém, onde ele morreu e foi
enterrado.
Tomaram em seguida várias cidades. Sitiaram Jerusalém e tornaram-se
senhores da Cidade Baixa, onde mataram os seus habitantes. Mas a Cidade
Alta conservou-se tão forte, pela sua posição e por suas fortificações, que eles
foram obrigados a levantar um cerco. Atacaram a cidade de Hebrom, tomaram-
na de assalto e mataram-lhe também todos os habitantes, dentre os quais
estavam alguns da raça dos gigantes. Eram homens de estatura enorme, olhar
terrível e voz espantosa, em cujo aspecto mal se poderia acreditar. Ainda hoje
podem ser vistos os seus ossos.
Como essa cidade ocupa um lugar muito honroso nesse país, deram-na
aos levitas, com a extensão de dois mil côvados em redor, segundo a ordem de
Moisés. O resto do território foi dado a Calebe, que era um dos que haviam sido
mandados para fazer o reconhecimento do país. Teve-se também o cuidado de
recompensar os descendentes de jetro, o midianita sogro de Moisés, porque eles
deixaram o seu país para seguir o povo de Deus e participaram das tribulações
que os israelitas haviam suportado no deserto.
As tribos de Judá e de Simeão, depois de atacar as cidades situadas nos
montes, desceram para a planície e se espalharam em direção ao mar, tomando
dos cananeus as cidades de Asquelom e Azor. Mas não puderam tornar-se
senhores de Gaza nem de Acarom,* porque estavam em lugar plano, e os
sitiados lhes impediam a aproximação com um grande número de carros,
obrigando-os a se retirar com perdas. Assim essas duas tribos voltaram para
desfrutar em paz a presa que haviam feito.
A tribo de Benjamim, em cuja partilha estava Jerusalém, deu paz aos
habitantes dessa grande cidade, satisfazendo-se em lhes impor um tributo.
Assim, deixando uns de fazer a guerra e outros de vagar a esmo, puseram-se a
cultivar e a valorizar as suas terras, e as outras tribos, imitando-as, deixaram
também em paz os cananeus, contentando-se em fazê-los tributários.
A tribo de Efraim, depois de sitiar durante muito tempo a cidade de Betei
sem conseguir tomá-la, não deixou de insistir nessa empresa. Um dos
habitantes que para lá transportava víveres, caiu por acaso em suas mãos.
Então prometeram-lhe com juramento salvá-lo, e à sua família, se ele os
introduzisse na cidade. O homem deixou-se convencer e, por meio dele,
apoderaram-se de Betei. Mantiveram a palavra dada a ele, porém mataram
todos os outros.
* Ou Ecrom.
196. juizes 2. Os israelitas deixaram então de fazer guerra, desejando
apenas desfrutar em paz e com prazer os muitos bens de que se viam
cumulados. Sua abundante riqueza lançou-os no luxo e na volúpia. Não se
incomodavam mais em observar a antiga disciplina e tornaram-se surdos à voz
de Deus e à suas santas leis. Assim, atraíram-lhe a cólera, e Ele lhes fez saber
que era contra a sua ordem que eles poupavam os cananeus e que tempo viria
em que, no lugar da bondade dispensada aos cananeus, experimentariam a
crueldade deles.
Esse oráculo deixou-os assustados, no entanto não os fez mudar de idéia
e recomeçar a guerra, por causa dos tributos que recebiam daqueles povos e
porque as delícias os haviam tornado tão efeminados que o trabalho agora lhes
era insuportável. Não havia mais entre eles nenhuma forma de República. Os
magistrados não tinham autoridade e não se observava mais o antigo costume
de eleger Senadores. Ninguém se incomodava com o povo e cada qual só
pensava no interesse e no lucro próprios. No meio de tanta desordem,
aconteceu um caso particular, que deu origem a uma sangrenta guerra civil.
Eis a causa.
197. juizes 19. Um levita, morador do país que tocara como partilha à
tribo de Efraim, desposou uma mulher da cidade de Belém, da tribo de Judá.
Como ele a amava apaixonadamente pela sua beleza e ela, ao contrário, não o
amava, o levita fazia-lhe constantes censuras. Ela cansou-se de as suportar e,
ao fim de quatro meses, abandonou-o, retornando para a casa dos pais. Esse
homem, impelido pela violência de seu amor, foi buscá-la. Eles o receberam
com muita bondade e reconciliaram-no com a mulher. Depois de ele ter ficado
ali quatro dias, resolveu reconduzi-la para casa. Mas como essa boa gente
sentia separar-se da filha, ele só pôde partir à tarde.
A mulher ia montada numa jumentinha, e um criado os acompanhava.
Haviam percorrido uns trinta estádios e já se encontravam perto de Jerusalém,
quando o criado os aconselhou a não passarem além, com medo de que lhes
faltasse a luz do dia, pois muito se tem a temer durante a noite, mesmo estando
entre amigos, e eles corriam muito mais perigo por estar perto de seus inimigos.
O levita não aceitou o conselho porque os cananeus eram senhores de
Jerusalém, e ele não poderia hospedar-se em casa de estrangeiros. Preferia
andar ainda vinte estádios até a casa de alguém pertencente à sua nação.
Assim, chegaram bem tarde à cidade de Gibeá, que era da tribo de Benjamim.
Permaneceram algum tempo na grande praça, sem que ninguém se
apresentasse para recebê-los em casa. Por fim, um velho da tribo de Efraim
estabelecido nessa cidade, voltando do campo, encontrou-os nesse lugar.
Perguntou ao levita quem ele era e como esperara até aquela hora tardia para
se recolher. Respondeu-lhe que era da tribo de Levi e reconduzia a mulher da
casa de seus pais para a terra de Efraim, onde ele residia. O velho soube então
que o homem pertencia à sua tribo e levou-o para casa. Alguns moços da
cidade, que os tinham visto na praça e admirado a beleza da mulher, vendo que
ele se recolhera à casa desse velho, o qual não tinha forças para defendê-la,
foram bater-lhe à porta exigindo que lhes entregasse a mulher. Rogou-lhes ele
que se retirassem e não lhe causassem tamanho desprazer. Como eles
insistiam, disse-lhes que era sua parenta da tribo de Levi e que eles não
poderiam, sem cometer um enorme crime, calcar aos pés o temor das leis para
satisfazer à própria luxúria.
Eles zombaram de suas palavras e ameaçaram matá-lo se continuasse
recusando entregá-la. Então esse homem caridoso, querendo a todo custo
salvar os hóspedes de tão grande ultraje, ofereceu àqueles loucos a própria
filha, para não violar o direito da hospitalidade. Nada, porém, os pôde
contentar. Desejavam insistentemente aquela mulher e a levaram à força,
ficando com ela durante toda a noite. Depois de satisfazer a sua brutal paixão,
restituíram-na, ao amanhecer. Ela regressou semimorta de dor e de vergonha
pelo que lhe acontecera. Sem ousar levantar os olhos para contemplar o marido
ultrajado em sua pessoa, caiu morta aos pés dele.
Ele julgou que ela estava apenas desmaiada e esforçou-se para fazê-la
voltar a si e consolá-la, dizendo que, embora não fosse possível diminuir a
grandeza da injúria que ela recebera, não devia deixar-se levar pelo desespero,
pois não tendo dado absolutamente consentimento, sofrerá a mais horrível de
todas as violências. Depois de lhe ter assim falado, percebeu que ela estava
morta. A dor excessiva quase o fez perder o juízo, e ele tomou o corpo, colocou-o
sobre a jumentinha e o levou para casa. Então partiu-o em doze pedaços,
mandando um a cada tribo com a informação do que se havia passado. Coisa
inaudita e tão horrível como essa encheu o povo de tal furor que todos se
reuniram em Silo, diante do Tabernáculo, e resolveram imediatamente atacar
Cibeá.
O Senado, porém, fez-lhes ver que não se devia tão levianamente declarar
guerra aos daquela cidade, sem antes se terem mais particularmente informado
do crime, pois a Lei proibia tal procedimento, mesmo para com os estrangeiros,
e exigia que se mandassem embaixadores para pedir satisfação. Assim, era
justo obrigar os gibeenses a castigar severamente os culpados. Se eles o
fizessem, os hebreus dever-se-iam contentar com o castigo, mas caso
recusassem executá-lo, a afronta seria vingada pelas armas. Tais palavras os
convenceram, e mandaram embaixadores a Cibeá para dar queixa do crime
daqueles moços, que ao violentar uma mulher haviam também violado a lei de
Deus, e pedir que lhes aplicassem a pena de morte, pois a mereciam.
Aquele povo, porém, julgando não perder em força ou em coragem para
nenhum outro, pensou que lhe seria vergonhoso dar tal satisfação, por medo da
guerra. Assim preparou-se para lutar, e com ele todo o resto da tribo de
Benjamim. As outras tribos ficaram de tal rrwjdo irritadas com a recusa em
fazer justiça que se obrigaram por juramento a não dar nenhuma de suas filhas
em casamento aos daquela tribo e a fazer-lhes uma guerra ainda mais
sangrenta que a empreendida por seus predecessores aos cananeus. Puseram-
se a seguir em campo com quatrocentos mil homens, para atacá-los. Os da
tribo de Benjamim contavam apenas vinte e cinco mil e seiscentos, dentre os
quais quinhentos tão valentes que se serviam das duas mãos, usando uma
para atirar com a funda e a outra para combater.
A batalha travou-se perto de Gibeá. Os benjaminitas foram vitoriosos:
mataram vinte e dois mil de seus inimigos e teriam matado muitos outros se a
noite os não tivesse separado. Voltaram assim triunfantes para a sua cidade, e
os israelitas, ao seu acampamento, muito admirados e abatidos com a derrota.
A luta recomeçou no dia seguinte, e os benjaminitas saíram-se novamente
vitoriosos: mataram dezoito mil israelitas, que, de tão espantados com esse fato,
levantaram acampamento e partiram para Betei, que não estava longe dali.
Jejuaram todo o dia seguinte e pediram a Deus, por meio de Finéias, sumo
sacerdote, que acalmasse a sua cólera, contentando-se com as duas derrotas
que haviam sofrido, e lhes fosse favorável.
Deus ouviu-lhes a oração e prometeu-lhes auxílio. Eles então se
tranqüilizaram. Dividiram o exército em duas partes e de noite mandaram uma
delas postar-se em emboscada perto da cidade enquanto avançavam com a
outra. Os benjaminitas partiram contra eles com coragem, confiantes de obter
uma terceira vitória. Os israelitas então fingiram afastar-se, a fim de levá-los
mais para longe. Aquela fuga aparente excitou de tal modo o orgulho dos
benjaminitas que mesmo os isentos de ir à guerra pela idade, que se
contentavam em observar o combate do alto da muralha da cidade, saíram para
tomar parte na pilhagem, a qual já davam como certa.
Quando os israelitas viram que já os haviam trazido para bem longe,
voltaram-se de frente para eles e deram sinal aos que estavam de emboscada.
Todos juntos, então, lançaram-se com grandes gritos contra eles, atacando-os
de todas as direções. Os benjaminitas viram que estavam perdidos e lançaram-
se a um vale, onde foram rodeados por todos os lados e mortos a golpes de
dardos e de flechas, exceto uns seiscentos, que se reuniram e abriram caminho
através dos inimigos com a espada na mão, salvando-se em um monte, de
modo que mais ou menos vinte e cinco mil homens jaziam mortos no campo de
luta.
Os israelitas incendiaram Gibeá, onde, sem relevar sexo ou idade,
mataram as mulheres e as crianças. Trataram do mesmo modo todas as outras
cidades de Benjamim. Levaram a sua vingança a tal ponto que mandaram doze
mil homens escolhidos à cidade de )abes de Gileade, por ela lhes ter recusado
auxílio na guerra, os quais a tomaram e mataram os homens, as mulheres e as
crianças, preservando somente a vida de quatrocentas moças. O crime cometido
na pessoa da mulher do levita juntamente com os dois combates que haviam
perdido incitou-os a tal vingança. Quando, porém, o furor deles começou a se
acalmar, sentiram compaixão pela ruína de seus irmãos.
Assim, embora o castigo que haviam imposto fosse justo, eles escolheram
alguns moços e os enviaram aos seiscentos homens que se haviam salvado,
con-vidando-os a regressar. Encontraram-nos no deserto, junto de uma rocha
de nome Ros. Os mensageiros disseram-lhes que as outras tribos tomavam
parte na sua infelicidade, mas visto que não havia remédio, deviam suportá-la
com paciência e reunir-se aos de sua nação, a fim de impedir a ruína completa
de sua tribo. Para isso, restituir-lhe-iam todas as terras e lhes entregariam o
gado.
Eles receberam o oferecimento com gratidão, reconhecendo que Deus os
havia castigado com justiça, e voltaram ao seu país. Os israelitas deram-lhes
como esposas as quatrocentas moças que haviam aprisionado em Jabes e,
como antes de começar a guerra haviam jurado não dar aos benjaminitas
esposas dentre as filhas de Israel, deliberaram para saber como fariam com as
duzentas que faltavam para igualar o número de homens. Alguns disseram que
não deviam levar em conta um juramento feito com precipitação e por cólera e
que Deus não teria como desagradável favorecer uma tribo que corria o risco de
ser extinta. E, se era um grande pecado violar um juramento por um mau fim,
tal não seria se a necessidade a isso obrigava. Mas o Senado respondeu que, ao
contrário, a simples menção da palavra perjuro já lhes causava horror
Nessa diversidade de opiniões, um dos presentes afirmou conhecer um
meio de dar esposas aos benjaminitas sem faltar ao juramento. Disseram-lhe
que se explicasse, e ele disse: Somos obrigados a ir três vezes por ano à cidade
de Silo a fim de celebrarmos as nossas grande festas e levamos conosco as
nossas mulheres e filhos. Assim, podemos permitir aos benjaminitas que levem
impunemente de nossas filhas as que puderem apanhar, sem que tenhamos
qualquer parte nisso. Se os pais se queixarem e pedirem que lhes façamos
justiça, responderemos que eles deveriam censurar a si mesmos por terem
cuidado mal delas e que não deveriam se encolerizar contra aqueles aos quais
muita ira já foi manifestada.
A proposta foi aprovada, e resolveram que seria permitido aos
benjaminitas proverem-se de mulheres por esse meio. Chegando o dia da festa,
os duzentos que não tinham esposa esconderam-se fora da cidade, nas vinhas e
nas moitas, enquanto as moças passavam, distraídas, saltando e dançando,
sem de nada desconfiar. E eles levaram tantas quantas lhes faltavam,
desposaram-nas e puseram-nas com grande cuidado a cultivar a terra, a fim de
poderem um dia voltar à antiga abundância. Assim, essa tribo, que estava a
ponto de ser totalmente destruída, foi conservada pela sabedoria dos israelitas e
logo cresceu, tanto em número quanto em riquezas.
198. juizes 8. Nessa época, a tribo de Dã não foi tão feliz quanto a de
Benjamim. Os cananeus, vendo que os hebreus estavam perdendo o hábito da
guerra e só pensavam em enriquecer, começaram a desprezá-los e resolveram
reunir todas as suas forças, não por temor que tivessem deles, mas para
reduzi-los a tal estado que não pudessem no futuro causar-lhes medo ou atacar
as suas cidades.
Assim, puseram-se em campo com uma grande tropa de infantaria e de
carros. Conseguiram para o seu partido as cidades de Asquelom e de Acarom,
que eram da tribo de judá, e várias outras, construídas nas planícies, e obriga-
ram os da tribo de Dã a se refugiar nos montes. Como ali não encontraram
terras bastante cultiváveis para se nutrir e não eram suficientemente fortes
para reconquistar pelas armas as que haviam perdido, mandaram cinco dentre
eles aos países mais afastados do mar, para ver se lá poderiam estabelecer
colônias.
Depois de terem marchado um dia e passado a grande planície de Sidom,
encontraram perto do monte Líbano e das nascentes do Pequeno Jordão uma
terra muito fértil. Comunicaram o fato, e o pequeno exército partiu imediata-
mente para lá. Construíram uma cidade e a chamaram Dã, nome de um dos
filhos de Jacó, que era também o nome da tribo. No entanto os negócios dos
israelitas cada vez pioravam mais, porque em vez de se entregar ao trabalho e
de servir e honrar a Deus, abandonavam-se aos vícios dos cananeus. Cada qual
vivia segundo os próprios desejos, num relaxamento completo de toda espécie
de disciplina.",