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Livro Quarto Flávio Josefo

Capítulo 6 Flávio Josefo

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O PROFETA BALÃO TENTA AMALDIÇOAR OS ISRAELITAS A ROGO DOS MIDIANITAS E DE
BALAQUE, REI DOS MOABITAS, MAS DEUS O OBRIGA A ABENÇOÁ-LOS. VÁRIOS
ISRAELITAS, E ESPECIALMENTE ZINRI, LEVADOS PELO AMOR ÀS FILHAS DOS
MIDIANITAS, ABANDONAM A DEUS E SACRIFICAM AOS FALSOS DEUSES. CASTIGO
ESPANTOSO QUE DEUS LHES MANDA, PARTICULARMENTE A ZINRI.",
"165. Números 22, 23 e 24. Balaque, rei dos moabitas e unido aos
midianitas pela amizade e por uma antiga aliança, começou a temer por si
mesmo ao ver o progresso dos hebreus. Ele não sabia que Deus lhes havia
proibido empreender a conquista de outros países que não o de Canaã. Assim,
por um mau conselho, resolveu opor-se a eles. Todavia, como não ousava
atacar uma nação cujas vitórias haviam tornado orgulhosa e altiva, pensou
apenas em impedi-la de crescer e de continuar progredindo. Mandou por isso
embaixadores aos midianitas, a fim de deliberar a respeito do que deveriam
fazer.
Os midianitas enviaram esses mesmos embaixadores, juntamente com os
homens mais importantes dentre o povo, a Balaão — célebre profeta e amigo de
Balaque —, que morava próximo do Eufrates, para rogar-lhe que viesse fazer
imprecações contra os israelitas. Ele recebeu muito bem os embaixadores e
consultou a Deus para saber o que lhes responder. Deus proibiu-o de fazer o
que desejavam, e por isso Balaão respondeu-lhes que bem queria poder
testemunhar a afeição que lhes tinha, mas Deus, ao qual devia o dom da
profecia, o proibira de aceitar a proposta, porque Ele amava o povo ao qual eles
queriam obrigá-lo a amaldiçoar. Por esse motivo, ele os aconselhava a fazer a
paz com os israelitas.
Voltaram os embaixadores com essa resposta, mas os midianitas,
instados pelo rei Balaque, enviaram uma segunda embaixada ao profeta. Como
este desejava agradá-los, consultou de novo a Deus, o qual, julgando-se
ofendido, ordenou-lhe que fizesse o que os embaixadores queriam. Balaão, não
percebendo que Deus lhe falara encolerizado pelo fato de ele não ter seguido a
sua ordem, partiu com os embaixadores. No caminho, encontrou uma estrada
entre dois barrancos, tão estreita que mal dava para passar, e aí um anjo veio
ao seu encontro.
Quando o asno sobre o qual Balaão estava montado percebeu o anjo, quis
voltar atrás e apertou o seu senhor tão fortemente contra um dos muros que o
feriu, sem que os golpes dados pelo profeta, pela dor que sentia, pudessem
fazer o animal caminhar. Como o anjo permanecesse parado e Balaão
continuasse a bater no asno, Deus permitiu que o animal falasse ao profeta,
com palavras tão distintas quanto uma criatura humana teria podido proferir,
que era estranho que, não tendo ele, o animal, dado o menor passo em falso,
Balaão lhe batesse e não visse que Deus não aprovava que o profeta fosse
ateVider ao desejo daqueles a quem ia encontrar.
Esse fato prodigioso espantou o profeta, ao mesmo tempo que o anjo lhe
aparecia e o repreendia severamente por bater tanto no asno, sem motivo,
quando era ele mesmo quem merecia ser castigado, por resistir à vontade de
Deus. Essas palavras aumentaram o espanto de Balaão, e ele quis voltar atrás,
mas Deus lhe ordenou que continuasse o caminho e só falasse o que Ele lhe
inspirasse. Assim, ele foi ter com o rei Balaque, que o recebeu com alegria, e
pediu ao príncipe que o fizesse levar a alguma montanha de onde pudesse ver o
acampamento dos israelitas. Balaque, acompanhado por vários de sua corte,
levou-o ele mesmo a uma montanha que distava do acampamento uns sessenta
estádios. Balaão, depois de refletir, disse ao rei que fizesse erguer sete altares,
para neles oferecer a Deus sete touros e sete carneiros. Isso se fez, e o profeta
ofereceu as vítimas em holocausto, para saber de que lado surgiria a vitória.
Dirigindo depois a palavra ao exército dos israelitas, assim falou: Povo
bem-aventurado, do qual o próprio Deus deseja ser guia e quer cumular de
benefícios, velando incessantemente pelas vossas necessidades. Nenhuma
outra nação vos igualará em amor pela virtude, e os que nascerem de vós ainda
vos hão de sobrepujar, porque Deus, que vos ama como sendo o seu povo, vos
quer fazer o povo mais feliz de todos os homens que o Sol ilumina com os seus
raios. Vós possuireis esse rico país que Ele vos prometeu. Vossos filhos possuí-
lo-ão depois de vós, e as terras e o mar ressoarão com a fama do vosso nome e
admirarão o brilho de vossa glória. Vossa posteridade multiplicar-se-á de tal
modo que não haverá lugar no mundo onde não se difunda. Exército bem-
aventurado, que por maior que sejais sois composto por descendentes de um
único homem. A província de Canaã ser-vos-á suficiente agora, mas um dia o
mundo inteiro não será grande o bastante para vos conter: o vosso número será
igual ao das estrelas. Não povoareis somente a terra firme, mas também as
ilhas. Deus vos dará em abundância toda sorte de bens durante a paz e vos
fará vitoriosos na guerra. Assim, devemos nós desejar que os nossos inimigos e
os seus descendentes ousem combater contra vós, pois não poderão fazê-lo sem
a sua completa ruína, de tanto que Deus, que se compraz em elevar os
humildes e humilhar os soberbos, vos ama e favorece.
Balaão não pronunciou essas palavras proféticas de si mesmo, mas por
inspiração do Espírito de Deus. O rei Balaque, ferido de dor, disse-lhe que
aquilo não era o que ele lhes havia prometido e censurou-o porque, depois de
haver recebido grandes presentes para amaldiçoar os israelitas, ele lhes dava,
ao contrário, mil bênçãos.
O profeta respondeu-lhe: Credes, então, que quando se trata de profetizar
depende de nós dizer ou não o que desejamos? É Deus quem nos faz falar como
lhe apraz, sem que tenhamos parte alguma nisso. Não me esqueci do pedido
que os midianitas me fizeram. Vim com a intenção de contentá-los: não
pensava em publicar elogios aos hebreus nem falar dos favores de que Deus
resolveu cumulá-los. Mas Ele foi mais poderoso que eu, que resolvera, contra a
sua vontade, agradar aos homens. Pois quando Ele entra em nosso coração
torna-se dono dele. Assim, por desejar conceder felicidade a essa nação e tornar
imortal a sua glória, Ele pôs-me na boca as palavras que pronunciei. No
entanto, como os vossos pedidos e os dos midianitas são-me assaz importantes
e para não deixar de fazer tudo o que dependa de mim, sou de opinião que se
ergam outros altares e se façam outros sacrifícios, a fim de eu ver se poderemos
aplacar a Deus com as nossas orações!
Balaque aprovou essa proposta. Os sacrifícios foram renovados, mas
Balaão não pôde conseguir de Deus a permissão para amaldiçoar os israelitas.
Ao contrário, tendo-se prostrado em terra, predizia as desgraças que
sucederiam aos reis e às cidades que os combatessem, entre as quais algumas
que ainda não foram construídas. Mas o que aconteceu até aqui às que
conhecemos, tanto em terra firme quanto nas ilhas, nos faz crer que o resto
desse oráculo um dia há se de realizar.
166. Números 25. Balaque,. muito irritado por ver-se desiludido em suas
esperanças, despediu Balaão sem lheprestar homenagem alguma. Tendo o
profeta chegado próximo do Eufrates, pediu para falar ao rei e aos príncipes dos
midianitas, aos quais disse: Já que desejais,, ó rei, e vós, midianitas, que eu
atenda em alguma coisa aos vossos rogos, contra a vontade de Deus, eis tudo o
que vos posso dizer: não espereis que a raça dos israelitas pereça pelas armas,
pela peste, pela carestia ou por qualquer outro acidente, pois Deus, que a
tomou sob a sua proteção, a preservará de todas as desgraças. Ainda que eles
sofram algum desastre, levantar-se-ão com mais glória ainda, pois se tornarão
mais sensatos pelo castigo. Mas se quereis triunfar sobre eles por algum tempo,
dar-vos-ei o meio para tanto. Mandai ao seu acampamento as mais belas de
vossas filhas, bem adornadas, e ordenai-lhes que de nada se esqueçam para
suscitar amor aos mais jovens e aos mais corajosos dentre eles. Dizei-Ihes que
quando os virem ardendo de paixão por elas finjam querer retirar-se e quando
rogarem que fiquem respondam que não é possível, a menos que eles prometam
solenemente renunciar às leis de seu país e o culto ao seu Deus para adorar os
deuses dos midianitas e dos moabitas. É o único meio que tendes para fazer
com que Deus se encha de cólera contra eles.
Dizendo essas palavras, partiu. Os midianitas não titubearam em
executar logo o conselho, isto é, enviar as suas filhas e instruí-las conforme ele
lhes havia dito. Os jovens hebreus, arrebatados pela beleza das moças,
conceberam uma ardente paixão por elas, declarando-a, e a maneira pela qual
elas lhes responderam acendeu-a ainda mais. Quando as moças os viram
perdidamente enamorados, fingiram querer voltar ao seu país, mas eles, com
lágrimas, pediram-lhes que ficassem e prometeram desposá-las, tomando a
Deus como testemunha do juramento que faziam: não as amariam somente
como esposas, mas as tornariam senhoras absolutas deles próprios e de todos
os seus bens.
Responderam elas: Não precisamos de bens ou de algo que nos possa
fazer felizes, sendo nós muito queridas por nossos pais, tanto quanto podemos
desejar, e não viemos aqui para fazer comércio com a nossa beleza, mas,
considerando-vos estrangeiros pelos quais nutrimos grande estima, quisemos
fazer-vos esta cortesia. Agora que demonstrais tanto afeto por nós e tanto
desprazer em ver-nos partir, não poderíamos deixar de ser vencidas pelos
vossos rogos. Assim, se quereis, como dizeis, dar-nos a vossa palavra de nos
tomardes por esposas, que é a única condição capaz de nos reter, ficaremos e
passaremos convosco toda a nossa vida. Mas tememos que, depois de vos
terdes cansado de nós, nos devolvais vergonhosamente, e vós nos deveis
perdoar um temor tão razoável.
Os moços, enamorados, ofereceram-se para dar as garantias que elas
desejassem de sua fidelidade, ao que as moças responderam: Pois se tendes
essa intenção, e como constatamos que tendes costumes diferentes dos de
todos os outros povos, como o de só comer certas carnes e usar determinadas
bebidas, é necessário, se nos quiserdes desposar, que adoreis os nossos deuses.
Do contrário, não poderemos crer que o amor que dizeis sentir por nós seja
verdadeiro. Afinal, não se poderia julgar estranho adorardes os deuses do país
para onde ireis, aos quais todas as outras nações adoram, ou censurar-vos por
isso, enquanto o vosso Deus só é adorado por vós e as leis que observais vos
são todas particulares. Assim, toca-vos escolher: ou viver como os outros
homens ou ir procurar outro mundo, onde possais viver como vos apraz.
Esses infelizes, levados por sua brutal e cega paixão, aceitaram as
condições: abandonaram a fé de seus pais, adoraram vários deuses,
ofereceram-lhes sacrifícios semelhantes aos dos midianitas e comeram
indiferentemente de todas as iguarias. Para agradar àquelas moças, que se
tornaram suas esposas, não temeram violar os mandamentos do verdadeiro
Deus. E todo o exército viu-se num momento contaminado pelo veneno
espalhado pelos moços, e a antiga religião ficou exposta a grave risco. Uma
nova rebelião, mais perigosa que as primeiras, já começava a se esboçar.
Os moços, tendo experimentado as doçuras da liberdade que lhes davam
as leis estrangeiras de viver segundo desejassem, deixavam-se levar sem
nenhum obstáculo e corrompiam com o seu exemplo não apenas o povo, mas
até mesmo pessoas de maior distinção. Zinri, chefe da tribo de Simeão,
desposou Cosbi, filha de Zur, um dos príncipes de Midiã. E, para agradá-lo,
ofereceu sacrifícios segundo o uso desse país e contra as ordens contidas na lei
de Deus.
Moisés, vendo tão estranha desordem e temendo-lhes as conseqüências,
reuniu o povo e sem censurar a ninguém em particular, receando fazer
desesperar os que julgando poder esconder a propria falta eram capazes de
voltar ao dever, disse-lhes que era coisa indigna de sua virtude e da de seus
antepassados preferir a voluptuosidade à religião; que eles deviam cair em si
mesmos enquanto ainda era tempo e mostrar a força de seu espírito, não
desprezando as leis santas e divinas, mas reprimindo a paixão; que seria
estranho, após terem sido tão sensatos no deserto, se deixarem levar num país
tão belo a tais desordens, perdendo na abundância o mérito que haviam
conquistado durante a carestia.
Enquanto Moisés procurava com essas palavras levar os insensatos a
reconhecer o próprio erro, Zinri retrucou-lhe: Vivei, Moisés, se bem vos parece,
segundo as leis que fizestes e que um longo uso até hoje autorizou, sem o qual
há muito tempo lhes teríeis deixado o jugo e aprendido à vossa própria custa
que não devíeis assim nos enganar. Por mim, quero que saibais que não mais
obedecerei aos vossos tirânicos mandamentos, porque bem vejo que sob os
vossos pretextos de piedade e de nos dar leis da parte de Deus usurpastes o
governo por meios de artifícios e nos reduzistes à escravidão, proibindo-nos
prazeres e tirando-nos a liberdade que todos os homens nascidos livres devem
ter. Havia, acaso, em nosso cativeiro no Egito algo tão rude quanto o poder que
vos atribuis, de nos castigar como vos apraz segundo leis que vós mesmos
estabelecestes? Vós é que mereceis ser castigado, porque, desprezando as leis
de todas as outras nações, quereis que somente as vossas sejam observadas e
preferis assim o vosso juízo particular ao de todo o resto dos homens. Assim,
como creio muito bem feito o que fiz e que era livre para fazer, não temo
declarar diante de toda esta assembléia que desposei uma mulher estrangeira.
Ao contrário, quero que o saibais de minha própria boca e que todos o saibam.
É verdade também que sacrifico aos deuses aos quais proibis sacrificar, porque
julgo não me dever submeter à tirania de receber somente de vós o que se refere
à religião e não quero que me obrigueis a desejar somente o que quereis nem
que tenhais mais autoridade sobre mim do que eu mesmo.
Zinri falava assim tanto em seu nome quanto no dos que eram de sua opi-
nião. O povo aguardava em silêncio e temeroso o término dessa grande
polêmica, porém Moisés não lhe quis responder, temendo incitar ainda mais a
insolência de Zinri e que outros, imitando-o, aumentassem o tumulto. Assim, a
assembléia se dissolveu, e as conseqüências desse mal teriam sido ainda mais
perigosas não fora a morte de Zinri, que se deu como conto a seguir.
Finéias, que sem contestação era tido como o primeiro de seu tempo,
tanto por causa de suas excelentes virtudes quanto pelo privilégio de ser filho
de Eleazar, sumo sacerdote e sobrinho de Moisés, não pôde tolerar a ousadia de
Zinri. Com receio de que o desprezo pelas leis aumentasse ainda se ele ficasse
impune, resolveu vingar aquele tão grande ultraje contra Deus. Como não
houvesse coisa que não fosse capaz de fazer, porque não tinha menos coragem
do que zelo, foi à tenda de Zinri e matou-o com um golpe de espada, morrendo
também a mulher deste.
Vários outros moços, levados pelo mesmo espírito de Finéias e animados
pela sua coragem e exemplo, lançaram-se sobre os que eram culpados do
mesmo pecado de Zinri e mataram grande parte deles. E uma peste enviada por
Deus fez morrer não somente todos os outros, mas também os parentes deles,
que, em vez de repreendê-los e impedir que cometessem tão grave pecado, a ele
os haviam levado. O número dos que pereceram desse modo foi de quatorze mil.
167. Números 31. Nesse entremeio, Moisés, irritado com os midianitas,
mandou o exército marchar para exterminá-los completamente, como relatarei
depois de narrar, em seu louvor, uma coisa que não deve passar em silêncio. É
que, embora Balaão tivesse vindo a rogo dessa nação para amaldiçoar os
hebreus e depois Deus o tivesse impedido, ele dera aquele detestável conselho
de que acabamos de falar, com o qual julgava poder arruinar inteiramente a
religião de nossos pais. Moisés, no entanto, concedeu-lhe a honra de inserir
aquela profecia em seus escritos, ainda que teria sido fácil ao legislador atribuí-
la a si mesmo sem que ninguém o pudesse censurar. Mas ele quis deixar à
posteridade um testemunho tão vantajoso em sua memória. Deixo, porém, a
cada qual que julgue como quiser e volto ao meu assunto.
Moisés enviou somente doze mil homens contra os midianitas, tendo cada
tribo fornecido mil combatentes. Deu-lhes por chefe a Finéias, que acabava de
restaurar a glória das leis e de vingar o crime que Zinri, violando-as, havia
cometido.",