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Livro Quarto Flávio Josefo

Capítulo 1 Flávio Josefo

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"MURMURAÇÃO DOS ISRAELITAS CONTRA MOISÉS. ELES ATACAM OS
CANANEUS SEM SUA ORDEM E SEM TER CONSULTADO A DEUS. SÃO POSTOS
EM FUGA, COM GRANDES PERDAS. RECOMEÇAM A MURMURAR.",
"151. Números 14. Por maiores que fossem as penas sofridas pelos
israelitas no deserto, nada os afligia mais que o fato de Deus não lhes permitir
guerrear contra os cananeus. Eles não queriam obedecer às ordens de Moisés,
que lhes havia mandado ficar em descanso, e, convencidos de não terem
necessidade do auxílio dele para vencer os inimigos, acusavam-no de querer
deixá-los sempre naquela miséria, a fim de que não pudessem passar sem ele.
Assim, resolveram empreender essa guerra, na certeza de que não era em
consideração a Moisés que Deus os favorecia, mas porque Ele se havia declara-
do protetor deles, como o fora de seus antepassados; que Ele, depois de os
haver libertado da servidão, por causa da virtude deles, lhes daria a vitória se
combatessem valentemente; que eram bastante fortes por si mesmos para ven-
cer os inimigos, embora Moisés estivesse tentando impedir que Deus lhes fosse
favorável; que lhes seria mais vantajoso governar-se por seu próprio conselho
que obedecer cegamente a Moisés, como a um tirano, depois de sacudido o jugo
dos egípcios; que já havia muito tempo se deixavam enganar por seus artifícios,
quando ele se vangloriava de ter colóquios com Deus e de ser por Ele instruído
em todas as coisas, como se ele, por uma graça particular, fosse o único a
conhecer o futuro ou se eles não pertencessem também à raça de Abraão; que a
prudência os obrigava a desprezar o orgulho de um homem e a confiar somente
em Deus para conquistar um país do qual Ele lhes havia prometido a posse; e
que, enfim, não deviam deixar-se mais iludir por Moisés sob o pretexto das
ordens que ele fingia dar-lhes da parte de Deus.
Todas essas considerações, unidas à extrema necessidade em que se en-
contravam naqueles lugares desertos e estéreis, fê-los tomar essa deliberação, e
marcharam contra os cananeus. E aquele povo, sem se admirar de vê-los
aproximar-se tão audaciosamente e em tão grande número, recebeu-os com
tanta violência que mataram muitos ali mesmo e puseram os outros em fuga,
perseguindo-os até o acampamento. Essa perda afligiu tanto os israelitas que,
após se terem vangloriado com a esperança de um feliz resultado, constataram
que Deus estava irritado, porque, sem esperar ordem dEle, se haviam
aventurado à guerra, e agora tinham motivo de temer ainda mais o futuro.
152. Moisés, vendo-os tão abatidos e temendo que os inimigos, orgulhosos
pela vitória, a quisessem levar mais além, conduziu o exército para o deserto,
depois que todos lhe prometeram obediência, que nada mais fariam sem o seu
conselho e só atacariam os cananeus depois de receber ordens de Deus. Porém,
como os grandes exércitos obedecem com dificuldade aos seus chefes,
principalmente quando sofrem muito, os israelitas, cujo número era de
seiscentos mil combatentes e que mesmo na prosperidade eram muito indóceis,
oprimidos por tantas dificuldades, recomeçaram a murmurar contra Moisés e
voltaram toda a sua cólera contra ele.
Essa sedição progrediu tanto que não conhecemos outra semelhante, seja
entre os gregos, seja mesmo entre os bárbaros, e teria causado a ruína inteira
do povo se Moisés, sem considerar a ingratidão que demonstravam, querendo
apedrejá-lo, não os tivesse livrado do perigo por um ato extraordinário de sua
bondade. Eles estavam não somente ultrajando o seu legislador, mas ao próprio
Deus, desprezando os mandamentos que Ele lhes havia preparado. Vou dizer-
lhes qual foi a causa dessa sedição e do proceder de Moisés, depois de a ter
debelado.",