Livro Quarto Flávio Josefo
Capítulo 4 Flávio Josefo
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NOVA MURMURAÇÃO DOS ISRAELITAS CONTRA MOISÉS. DEUS, POR MEIO DE
UM MILAGRE, CONFIRMA PELA TERCEIRA VEZ A ARÃO NO SUMO SACERDÓCIO.
CIDADES DETERMINADAS AOS LEVITAS. DIVERSAS LEIS ESTABELECIDAS POR
MOISÉS. O REI DA IDUMÉIA RECUSA DAR PASSAGEM AOS ISRAELITAS. MORTE
DE MIRIÃ, IRMÃ DE MOISÉS, E DE ARÃO, SEU IRMÃO, AO QUAL ELEAZAR, SEU
FILHO, SUCEDE NO CARGO DE SUMO SACERDOTE. O REI DOS AMORREUS RECUSA
DAR PASSAGEM AOS ISRAELITAS.",
"157. Números 17. Depois que todos, diante de uma prova tão evidente,
reconheceram que não fora Moisés, mas Deus mesmo quem havia constituído a
Arão e seus filhos no sumo sacerdócio, ninguém mais ousou contestá-la. Mas
nem por isso o povo deixou de começar outra sedição, ainda mais perigosa e
obstinada que a primeira, por causa do motivo que a fez nascer. Embora
estivessem convencidos de que o que havia acontecido fora exclusivamente por
ordem e permissão de Deus, eles passaram a imaginar que tudo sucedeu só
para favorecer Moisés e a julgar que ele havia conseguido tanta coisa
unicamente devido às suas solicitações e importunações, como se Deus tivesse
por objetivo apenas reverenciá-lo, e não castigar os que o haviam ofendido tão
gravemente.
Assim, eles não podiam tolerar o fato de terem visto morrer diante de seus
olhos um número tão grande de pessoas cujo único crime, diziam, era o zelo
demasiado pela glória de Deus e pelo seu serviço, e que Moisés se havia
aproveitado disso para confirmar o irmão num cargo que nenhum outro mortal
ousaria pretender, uma vez que os outros pretendentes haviam sido punidos
daquele modo. Por outro lado, os parentes dos mortos animavam o povo,
exortando-o a pôr um limite ao orgulhoso poder de Moisés, afirmando que a
própria segurança deles o exigia.
Logo que Moisés foi avisado disso, o temor de uma rebelião que poderia
ser muito perigosa fê-lo reunir o povo. Sem manifestar saber do que se passava
e das queixas que faziam, para não irritá-lo ainda mais, ordenou aos chefes das
tribos que trouxessem cada qual uma vara. Sobre cada uma estaria escrito o
nome de uma tribo, e declarou-lhes que o sumo sacerdócio seria dado à tribo
que Deus indicasse como preferida às demais.
Essa proposta contentou-os. Eles trouxeram as varas, e o nome da tribo
de Levi foi escrito sobre a de Arão. Moisés colocou-as todas no Tabernáculo e
retirou-as no dia seguinte. Cada um dos chefes das tribos reconheceu a sua. O
povo também as reconheceu, por meio de alguns sinais que haviam sido feitos.
Estavam todas no mesmo estado que no dia anterior, porém a de Arão havia
não somente produzido alguns brotos como também — o que era mais estranho
— amêndoas maduras, porque aquela vara era de amendoeira.
O milagre deixou o povo de tal modo admirado que o seu ódio por Arão e
Moisés mudou-se em veneração, pelo juízo que Deus manifestara em favor des-
tes. Assim, com medo de resistir-lhe mais, concederam que Arão doravante de-
sempenhasse pacificamente esse grande cargo. Eis como, depois que Deus o
confirmou uma terceira vez, ele ficou de posse do sumo sacerdócio, sem que
ninguém mais se atrevesse a contestá-lo, e de que modo, após tantas murmura-
ções e sedições, o povo finalmente ficou em paz.
158. Números 18 e 35. Levftico 14, 18 e 26. Temendo que a tribo de Levi,
vendo-se isenta da guerra, se ocupasse demais com as coisas necessárias à
vida e descuidasse o serviço de Deus, Moisés determinou que se dariam a essa
tribo, depois de conquistado o país de Canaã, quarenta e oito das melhores
cidades de todas as terras que se encontrassem, não se estendendo além de
duas milhas, e que o povo pagaria todos os anos a eles e aos sacerdotes a
décima parte dos frutos que recolhesse, o que foi depois inviolavelmente
cumprido.
Falemos agora dos sacerdotes. Moisés determinou que das quarenta e oito
cidades dadas aos levitas, treze fossem cedidas àqueles, bem como a décima
parte das décimas. Determinou também que o povo ofereceria a Deus as
primícias de todos os frutos da terra, e aos sacerdotes, os primogênitos dos
animais que podiam ser oferecidos em sacrifício, dos quais eles, com toda a sua
família, comeriam a carne. Quanto ao animal que a Lei proibia comer, em vez
do primogênito ofere-cer-se-ia um sido e meio, e cada homem ofereceria cinco
sidos pelo primeiro filho nascido. As primícias da lã, dos carneiros e das
ovelhas eram também devidas aos sacerdotes, e os que coziam pão deveriam
trazer-lhes bolos.
Números 6. Quando os chamados nazireus — porque faziam voto de
deixar crescer o cabelo e não beber vinho — cumpriam o tempo de seu voto e
vinham apresentar-se diante do Templo para cortar o cabelo, traziam as suas
ofertas ao Senhor. Quanto aos que se haviam consagrado ao serviço de Deus e
renunciavam voluntariamente ao ministério ao qual se haviam obrigado,
deviam dar aos sacerdotes cinqüenta sidos o homem e trinta a mulher. Os que
não podiam pagá-lo, entregavam-se à discrição dos sacerdotes.
Os que matavam os animais para comê-los em particular, e não para
oferecer a Deus, eram obrigados a dar aos sacerdotes o intestino grosso, o peito
e a espádua direita. Isso Moisés determinou para os sacerdotes, além do que o
povo oferecia pelos pecados, como dissemos no livro precedente. Ele queria que
as mulheres, as filhas e os criados tivessem parte em tudo, exceto no que era
oferecido pelos pecados, do qual apenas os homens que exerciam o ofício divino
podiam comer (e isso somente no Tabernáculo, no mesmo dia em que as
vítimas eram oferecidas em sacrifício).
159. Números 20. Depois que Moisés acalmou a sedição e ordenou todas
essas coisas, mandou avançar o exército até a fronteira dos idumeus e enviou
na frente alguns embaixadores ao rei, para pedir-lhe passagem, com a
promessa de não causar dano algum ao país e de pagar todas as coisas que
tivesse de tomar, até mesmo a água, se ele quisesse. O rei não aceitou a
proposta e veio com armas contra os israelitas, para resistir-lhes a passagem
ou caso decidissem empregar a força. Moisés consultou a Deus, que o proibiu
de tomar a iniciativa da guerra e determinou que voltassem para o deserto.
160. Nesse mesmo tempo, na lua nova do xântico, quarenta e um anos
depois da saída do Egito, Miriã, irmã de Moisés, morreu. Enterraram-na
publicamente, com toda a magnificência possível, sobre um monte de nome
Seim. O luto durou trinta dias e quando terminou Moisés purificou o Templo,
deste modo:
O sumo sacerdote matou próximo do campo, num lugar bem limpo, uma
novilha vermelha sem mancha e que ainda não havia suportado jugo,
mergulhou o dedo no sangue e borrifou sete vezes o Tabernáculo. Mandou pôr a
novilha inteira — com pele e intestinos — no fogo e lançou dentro um pedaço de
madeira de cedro com hissopo e lã tingida de escarlate. Um homem puro e
casto reuniu as cinzas e colocou-as num lugar muito limpo, e todos os que
tinham necessidade de ser purificados, quer por haverem tocado na morta,
quer por terem assistido aos funerais, lançaram um pouco de cinzas na água
da fonte, onde mergulharam um ramo de hissopo e com ele se aspergiram no
terceiro e no sétimo dia, passando assim a estar purificados. Moisés ordenou
que continuassem a observar essa cerimônia após a conquista do país cuja
posse Deus lhes havia prometido.
161. Números 20. Esse admirável guia conduziu em seguida o exército
pelo deserto da Arábia e quando lá chegou, ao território da capital do país que
antigamente se chamava Arcé e hoje se chama Petra, disse a Arão que subisse a
uma alta montanha, que serve de limite a esse país, porque era o lugar onde
teria fim a sua vida. Ele subiu, despojou-se dos ornamentos sacerdotais à vista
de todo o povo e com eles revestiu a Eieazar, seu filho mais velho e sucessor, e
morreu, com a idade de cento e vinte e três anos, na primeira lua do mês, que
os atenienses chamam hecatombeom, os macedônios, lous e os hebreus, sabba.
Assim, Moisés perdeu no mesmo ano a irmã e o irmão. E todo o povo lastimou a
morte de Arão durante trinta dias.
162. Números 21. Depois disso, Moisés avançou com o exército até o rio
Arnom, que nasce nas montanhas da Arábia e depois de atravessar todo o
deserto entra no lago Asfaltite e separa os moabitas dos amorreus. É um país
tão fértil que basta para sustentar os seus habitantes, embora sejam
numerosos. Moisés mandou embaixadores a Siom, rei dos amorreus, para
pedir-lhe passagem, nas mesmas condições que havia proposto ao rei da
Iduméia. Mas o soberano também recusou o pedido e reuniu um grande
exército para se opor aos israelitas, caso tentassem passar o rio.",