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Livro Quarto Flávio Josefo

Capítulo 3 Flávio Josefo

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,
"CASTIGO ESPANTOSO DE CORA, DATÃ E ABIRÃO E DOS DE SEU PARTIDO.",
"155. Números 16. No dia seguinte, todo o povo reuniu-se para ver, pelos
sacrifícios que se fariam, a quem Deus escolheria para o sumo sacerdócio. A
expectativa de tal acontecimento não foi isenta de tumulto, pois, além da
multidão naturalmente ávida de novidades e inclinada a falar mal de seus
superiores, os espíritos estavam divididos: uns desejando que Moisés fosse
publicamente reconhecido como culpado e os mais sensatos desejando ver
terminada a sedição, que não podia continuar sem causar a ruína completa da
República. Moisés mandou dizer a Data e a Abirão que viessem assistir aos
sacrifícios, como se havia deliberado.
Eles recusaram-se, dizendo que não podiam mais tolerar que Moisés se
atribuísse autoridade soberana sobre eles. Depois dessa resposta, ele fez-se
acompanhar por alguns dos mais importantes e, embora colocado por Deus
para governar a todos de modo geral, não deixou de ir procurar os revoltosos.
Data e seus partidários, tendo sabido que ele vinha acompanhado, saíram de
suas tendas com as suas esposas e filhos para esperá-lo e levaram também
gente consigo, para resistir-lhe, caso tentasse alguma coisa.
Quando Moisés se aproximou, levantou as mãos ao céu e, tão alto que
todos puderam ouvi-lo, orou: Soberano Senhor do Universo, que, levado pela
compaixão livrastes o vosso povo de tantos perigos, vós que sois testemunha fiel
de todas as minhas ações sabeis, Senhor, que tudo o que fiz foi por vossa
ordem. Ouvi, pois, a minha oração! E, como penetrais até os pensamentos mais
secretos dos homens e os recessos mais íntimos de seus corações, não deixeis,
meu Deus, de fazer conhecer a verdade e de confundir a ingratidão daqueles
que me acusam tão injustamente. Vós sabeis, Senhor, tudo o que se passou
nos primeiros anos de minha vida e o sabeis não por terdes ouvido dizer, mas
por terdes estado presente. Vós sabeis tudo o que me aconteceu depois, e esse
povo também não o ignora. Mas, por interpretar maliciosamente o meu
proceder, dai, por favor, meu Deus, testemunho de minha inocência. Não fostes
vós, Senhor, que pelo vosso auxílio, por meu trabalho e pelo afeto que meu
sogro tinha por mim, quando eu passava com ele uma vida tranqüila e feliz, me
obrigastes a deixá-la para me entregar a tantos trabalhos e dificuldades, para a
salvação deste povo e particularmente para tirá-lo do cativeiro? No entanto,
depois de haver sido livre de tantos males por meu intermédio, me tornei objeto
de seu ódio. Então vós, Senhor, que bem me quisestes aparecer no meio das
chamas, no monte Sinai; que lá me fizestes ouvir a vossa voz e tornar-me
espectador de tantos prodígios; que me mandastes levar as vossas ordens ao rei
do Egito; que fizestes sentir o peso do vosso braço a todo o seu reino, para dar-
nos o meio de escapar de lá e da servidão; que humilhastes diante de nós o seu
orgulho e o seu poder; que, quando não sabíamos o que fazer, nos abristes um
caminho milagroso pelo mar e sepultastes em suas águas os egípcios que nos
perseguiam; que nos destes armas quando estávamos desarmados; que
tornastes doce, em nosso favor, as águas antes tão amargas; que fizestes sair
água de um rochedo para matar a nossa sede; que nos destes víveres de além-
mar quando não mais o podíamos obter da terra; que nos mandastes do céu
um alimento antes desconhecido aos homens; e que, por fim, regulastes todo o
nosso governo pelas admiráveis e santas leis que nos destes, vinde, ó Deus
Todo-poderoso, julgar a nossa causa — vós que sois ao mesmo tempo juiz e
testemunha incorruptível. Fazei todo o povo conhecer que jamais recebi
presentes para cometer injustiças, nem preferi os ricos aos pobres, nem nada
fiz de prejudicial à República, mas, ao contrário, sempre me esforcei por servi-la
com todas as minhas forças. E agora, que me acusam de ter constituído a Arão
sumo sacerdote não para obedecer-vos, mas por favor e por afeto particular,
fazei ver que nada fiz sem ordem vossa e também qual o cuidado que vos apraz
ter de nós, castigando Datã e Abirão como eles merecem, pois se atrevem a vos
acusar de ser insensível e de vos deixardes enganar por meus artifícios. E, para
que o castigo que dareis a esses profanadores de vossa honra e de vossa glória
seja conhecido por todos, não os façais, por favor, morrer de uma morte comum
e ordinária, mas que a terra, sobre a qual são indignos de andar, se abra para
engoli-los, bem como a todas as suas famílias e todos os seus bens, e que esse
fato incomum, causado por vosso soberano poder, seja um exemplo que ensine
a todos o respeito que se deve ter por vossa suprema Majestade e uma prova de
que não fiz no ministério com que me honrastes outra coisa senão executar as
vossas ordens. Mas se, ao contrário, os crimes de que me acusam são
verdadeiros, conservai os meus acusadores e fazei cair sobre mim somente o
efeito único de minhas imprecações. Porém, Senhor, depois de terdes castigado
dessa maneira os amotinadores de vosso povo, conservai, eu vos suplico, o
resto na união, na paz e na observância de vossas santas leis, pois seria
ofender à vossa justiça crer que ela quis fazer cair sobre os inocentes o castigo
que somente os culpados mereceram.
Moisés uniu as próprias lágrimas a essa oração, e logo que a terminou
viu-se a terra tremer e agitar-se com violência semelhante à das ondas do mar,
quando batidas pelos ventos numa grande tempestade. Todo o povo ficou
petrificado de medo, e então a terra abriu-se com um ruído espantoso, tragando
aqueles rebeldes juntamente com as suas famílias, as suas tendas e todos os
seus bens e fechan-do-se em seguida sem deixar vestígio algum de tão
prodigioso acontecimento.
Esse foi o fim desses miseráveis e como foram conhecidos o poder e a
justiça de Deus. O castigo foi ainda mais deplorável porque os amigos dos
revoltosos passaram, de uma vez, dos sentimentos que estes lhes haviam
inspirado a uma disposição contrária, regozijando-se com a infelicidade deles
em vez de lamentá-los. Eles louvaram com grandes aclamações o justo juízo de
Deus e exclamaram que mereciam ser detestados como peste pública.
156. Moisés mandou vir em seguida os que disputavam a Arão o cargo de
sumo sacerdote, a fim de conferi-lo àquele de quem Deus se tivesse dignado
aceitar o sacrifício. O número destes era de duzentos e cinqüenta, todos muito
estimados pelo povo, quer pela virtude de seus antepassados, quer por valores
próprios. Arão e Cora apresentaram-se por primeiro, e todos estavam diante do
Tabernáculo, com o turíbulo na mão. Então queimaram perfumes em honra a
Deus.
Imediatamente apareceu um fogo imenso e terrível, como jamais se vira
igual, mesmo quando montanhas cheias de enxofre vomitam de suas entranhas
acesas turbilhões inflamados ou quando as florestas em chamas, onde o furor
do vento aumenta ainda mais o incêndio, se reduzem a cinzas. Via-se que
somente Deus seria capaz de acender um fogo tão brilhante e ao mesmo tempo
tão ardente, e a sua violência consumiu de tal sorte os duzentos e cinqüenta
pretendentes, e Cora com eles, que não restou o menor vestígio de seus corpos.
Somente Arão ficou sem receber queimadura alguma daquelas chamas
sobrenaturais, para que não se pudesse duvidar de que eram efeito da
onipotência de Deus. Moisés, para deixar à posteridade um monumento de tão
memorável castigo e fazer tremer os ímpios que imaginassem que Deus podia
ser enganado pela malícia dos homens, ordenou a Eleazar, filho de Arão, que
anexasse ao altar de bronze os turíbulos dos infelizes que haviam perecido de
maneira tão espantosa.",