Livro Quarto Flávio Josefo
Capítulo 5 Flávio Josefo
,
OS ISRAELITAS DERROTAM OS AMORREUS E EM SEGUIDA AO REI OGUE, QUE VINHA NO
AUXÍLIO DESTES. MOISÉS AVANÇA NA DIREÇÃO DO JORDÃO.",
"163. Moisés julgou não dever tolerar aquela recusa tão ultrajosa do rei
dos amorreus. Além disso, considerando que o povo por ele conduzido era tão
indócil e inclinado à murmuração e que a ociosidade, unida à necessidade na
qual se encontravam, podia facilmente levá-los a novas rebeliões, julgou
conveniente tirar-lhes o motivo. Consultou a Deus para saber se deveria abrir
passagem pela força, e Ele não somente o permitiu como prometeu-lhe ainda a
vitória. Assim, Moisés empreendeu a guerra com toda confiança e encheu os
seus soldados de esperança e de coragem, dizendo-lhes que era chegado o
tempo de satisfazer o desejo de ir à guerra, porque Deus mesmo os levava a
empreendê-la.
Tão logo receberam permissão, tomaram as armas com alegria, puseram-
se em batalha e marcharam contra os inimigos. Os amorreus, vendo-os vir a si
com tanto entusiasmo, ficaram de tal modo apavorados que se esqueceram da
própria audácia. Muito mal resistiram ao primeiro embate e depois fugiram. Os
hebreus perseguiram-nos com tanta violência que não lhes deram oportunidade
de se reunir de novo, lançando-os em grande desespero. Sem conservar ordem
alguma, os amorreus procuravam chegar às suas cidades, para se defenderem
com segurança. Mas como os hebreus não podiam admitir uma vitória
imperfeita, sendo extremamente ágeis e muito hábeis em se servir da funda e de
todas as armas próprias para se combater de longe e estando armados
ligeiramente, ou alcançavam os fugitivos ou detinham a golpes de funda,
dardos e flechas os que não podiam alcançar.
A carnificina foi muito grande, particularmente próximo do rio, pois os
que fugiam eram não menos torturados pela sede que pela dor dos ferimentos
recebidos, porque era verão e para lá se dirigiam em grande número, para
beber. Siom, o seu rei, estava entre os mortos, e, como os mais valentes haviam
morrido na batalha, os vitoriosos não encontraram mais resistência. Fizeram
muitos prisioneiros, despojaram os mortos e conquistaram a maior presa no
acampamento, que estava cheio de bens em virtude de a ceifa ainda não ter
sido realizada.
Assim, foram os amorreus castigados pela sua imprudência no proceder e
pela covardia no combate. Os hebreus tornaram-se senhores do país deles, que,
como uma ilha, está cercado por três rios: do lado do sul pelo Arnom, do lado
do norte pelo Jaboque, o qual perde o seu nome ao desaguar no Jordão, e do
lado do ocidente pelo mesmo Jordão.
164. Estavam as coisas nesse pé quando Ogue, rei de Galaade e
Caulanite, que vinha em socorro de Siom, seu amigo e aliado, soube que ele
havia perdido a batalha. Como era muito ousado, não deixou de querer
combater com os israelitas e de se gabar da certeza de derrotá-los. Mas estes o
desbarataram com todo o seu exército, e ele mesmo foi morto em combate. Era
um gigante de estatura enorme, e seu leito, que era de ferro e podia ser visto na
cidade capital de seu reino, chamada Rabatha,* tinha nove côvados de
comprimento e quatro de largura. E Ogue não tinha menos coragem do que
força.
Moisés, depois dessa vitória, atravessou o rio jaboque, entrou no reino de
Ogue e apoderou-se de todas as cidades, fazendo matar os habitantes mais
ricos. Tão grande êxito não trouxe aos hebreus apenas vantagem momentânea,
mas lhes abriu caminho para outras conquistas, pois tomaram sessenta
cidades fortes e bem municiadas. E nenhum deles houve, até o último soldado,
que não ficasse rico.
Moisés levou depois o exército para o Jordão, a uma grande planície cheia
de palmeiras e de bálsamo, em frente a Jerico, cidade rica e poderosa. Os
israelitas estavam tão orgulhosos pela vitória que só falavam de guerra. Moisés,
depois de oferecer a Deus, durante alguns dias, sacrifícios em ação de graças e
após alimentar todo o povo, mandou uma parte do exército para devastar o país
dos midianitas e atacar as suas cidades. Devemos, porém, relatar primeiro qual
foi a origem dessa guerra.
* Ou Rabá.",