Livro Primeiro Flávio Josefo
Capítulo 3 Flávio Josefo
,
"DA POSTERIDADE DE ADÃO ATÉ O DILÚVIO, DO QUAL DEUS PRESERVOU NOÉ POR MEIO
DA ARCA, PROMETENDO-LHE NÃO MAIS CASTIGAR OS HOMENS COM DILÚVIO.",
"10. Gênesis 5. Sete gerações continuaram a viver no exercício da virtude e
no culto do verdadeiro Deus, ao qual reconheciam por único Senhor do
universo.
Mas as que vieram em seguida não imitaram os costumes dos pais. Não
prestavam mais a Deus a honra que lhe era devida nem exerciam mais a justiça
para com os homens, mas se entregavam com mais ardor ainda a toda sorte de
crimes, enquanto os seus antepassados se haviam dedicado à prática de toda
espécie de virtudes. Assim, atraíram sobre si a cólera de Deus, e os grandes* da
terra, que se haviam casado com as filhas dos descendentes de Caim,
produziram uma raça indolente que, pela confiança que depositavam na própria
força, se vangloriava de calcar aos pés a justiça e imitava os gigantes de que
falam os gregos.
* Nessa época, havia duas raças distintas: a descendência de Sete e a de
Caim. Os expositores modernos, em sua maioria, concordam que os filhos de
Deus, citados em Gênesis 6.2, constituíam a descendência de Sete, e os filhos
dos homens, a descendência de Caim. (N do E)
11. Noé, entristecido pela dor de vê-los imersos nos crimes, exortava-os a
mudar de vida. Mas quando viu que em vez de seguir os seus conselhos eles se
tornavam cada vez piores, o temor de que o fizessem morrer com toda a sua
família levou-o a deixar a sua pátria. Deus, que o amava por causa de sua
probidade, ficou tão irritado pela malícia e corrupção do resto dos homens que
resolveu não somente castigá-los, mas exterminá-los completamente e repovoar
a terra com homens que vivessem na pureza e na inocência. Assim, abreviou-
lhes o tempo da vida, reduzindo-o a cento e vinte anos, inundou a terra de
modo a parecer que ela havia sido tomada pelo mar e fê-los todos perecer nas
águas, com exceção de Noé. A este, para salvá-lo, ordenou que construísse uma
arca de quatro andares, com trezentos côvados de comprimento, cinqüenta de
largura e trinta de altura; que lá se encerrasse com a esposa, os três filhos e as
três esposas deles; e que levasse todo o necessário para o seu alimento e
também para os animais de todas as espécies, os quais ele deveria levar
consigo, para conservar-lhes a raça. Isto é, um casal de cada espécie, macho e
fêmea, e sete casais de algumas. O teto e os lados da arca eram tão fortes que
ela resistiu à violência das águas e dos ventos e salvou Noé e sua família da
inundação geral que fez morrer todos os outros homens. Ele era o décimo
descendente de Adão, de masculino em masculino, pois era filho de Lameque,
que era filho de Metusalém. Metusalém era filho de Jarede. Jarede era filho de
Maalalel, que tinha vários irmãos. Maalalel era filho de Cainã. Cainã era filho de
Enos. Enos era filho de Sete, e Sete era filho de Adão.
12. Noé tinha seiscentos anos quando veio o dilúvio. Foi no segundo mês,
que os macedônios chamam dius, e os hebreus, maresvã, pois os egípcios
assim dividiram o ano. Quanto a Moisés, ele deu, nos seus fastos, o primeiro
lugar ao mês chamado nisã, que é o xântico macedônio, porque foi nesse mês
que ele retirou os hebreus da terra do Egito e por essa razão começou por esse
mesmo mês a registrar o que se refere ao culto a Deus. No que se refere às
coisas civis, no entanto, como as feiras e mercados determinados pelo comércio
e empreendimentos semelhantes, não houve mudança alguma. Moisés registra
que a chuva causadora do dilúvio geral começou a cair no dia 27 do segundo
mês do ano 2256 depois da criação de Adão. A Sagrada Escritura faz o cálculo
disso e anota com cuidado muito particular o nascimento e a morte dos
grandes personagens daquele tempo.* Adão viveu novecentos e trinta anos e
tinha duzentos e trinta** quando nasceu o seu filho Sete. Sete viveu novecentos
e doze anos e tinha duzentos e cinco quando nasceu o seu filho Enos. Enos
viveu novecentos e cinco anos e tinha cento e noventa quando nasceu o seu
filho Cainã. Cainã viveu novecentos e dez anos e tinha cento e setenta quando
nasceu o seu filho Maalalel. Maalalel viveu oitocentos e noventa e cinco anos e
tinha cento e sessenta e cinco quando nasceu o seu filho Jarede. Jarede viveu
novecentos e sessenta e dois anos e tinha cento e sessenta e dois quando
nasceu o seu filho Enoque. Enoque viveu trezentos e sessenta e cinco anos e
tinha cento e sessenta e cinco quando nasceu o seu filho Metusalem. Na idade
de trezentos e sessenta e cinco anos, foi tirado do mundo, e ninguém escreveu
sobre a sua morte.
Metusalem viveu novecentos e sessenta e nove anos e tinha cento e
oitenta e sete quando nasceu o seu filho Lameque. Lameque viveu setecentos e
setenta e sete anos e tinha cento e oitenta e dois quando nasceu o seu filho
Noé. Noé viveu novecentos e cinqüenta anos, os quais, acrescentados aos
seiscentos que já contava na ocasião do dilúvio, perfazem o número
anteriormente assinalado de dois mil duzentos e cinqüenta e seis anos. Foi
mais conveniente para esse cálculo citar, como fiz, a época do nascimento
desses primeiros homens, e não a de sua morte, porque a vida deles era tão
longa que se estendia até a posteridade mais remota.
* Este trecho está inteiramente corrompido no texto grego e foi corrigido
pelo que dizem os manuscritos.
** Algumas idades neste trecho diferem do relato bíblico porque seguem a
cronologia da Septuaginta — o texto da Bíblia é baseado na cronologia
hebraica. (N do E)
13. Gênesis 7e8. Deus, então, deu o sinal e livre curso às águas, a fim de
inundarem a terra, e elas elevaram-se, por uma chuva contínua de quarenta
dias, até quinze côvados acima das mais altas montanhas e não deixaram
nenhum lugar para onde o povo pudesse fugir e salvar-se. Depois que a chuva
cessou, passaram-se cento e cinqüenta dias antes que as águas se retirassem, e
somente no vigésimo sétimo dia do sétimo mês a arca se deteve sobre o vértice
de uma montanha da Armênia. Noé então, abriu uma janela e, vendo um pouco
de terra ao redor da arca, começou a se consolar e a conceber melhores
esperanças. Alguns dias depois, ele fez sair um corvo para saber se havia ainda
outros lugares de onde as águas se tivessem retirado completamente e se ele
podia sair sem perigo. O corvo, porém, achando a terra ainda toda inundada,
voltou à arca. Sete dias depois, Noé fez sair uma pomba, e ela voltou com os pés
enlameados, trazendo no bico um ramo de oliveira. Assim, ele soube que o
dilúvio havia cessado. Após haver esperado outros sete dias, fez sair todos os
animais que estavam na arca. E ele também saiu, com a mulher e os filhos,
ofereceu um sacrifício a Deus em ação de graças e deu um banquete à família.
Os armênios chamaram a esse lugar Descida ou Saída, e os seus
habitantes apontam ainda hoje alguns restos da arca. Todos os historiadores,
mesmo os bárbaros, falam do dilúvio e da arca, dentre outros Berose, caldeu.
Eis as suas palavras: Diz-se que ainda hoje se vêem restos da arca sobre a
montanha dos Cordiens, na Armênia, e alguns levam desse lugar pedaços de
betume, com o qual ela estava recoberta, e dele se servem como
impermeabilizante. jerônimo, egípcio que escreveu sobre as antigüidades dos
fenícios, Mnazeas e vários outros disso falam também. Nicolau de Damasco, no
nonagésimo sexto livro de sua história, menciona-o nestes termos: Há na
Armênia, na província de Miniade, uma alta montanha chamada Baris, sobre a
qual, diz-se, muitos se salvaram durante o dilúvio, e que uma arca cujos restos
se conservaram por vários anos, e na qual um homem se havia encerrado,
deteve-se no cume dessa montanha. Há probabilidade de que esse homem é
aquele de que fala Moisés, o legislador dos judeus.
14. Gênesis 8 e 9. Com medo de que Deus inundasse a terra todos os
anos, a fim de exterminar a raça dos homens, Noé ofereceu-lhe vítimas,
rogando que nada mudasse na ordem estabelecida anteriormente e que Ele não
usasse de tal rigor, fazendo perecer todas as criaturas vivas, mas se
contentasse por ter castigado os maus, como os seus crimes mereciam, e por
ter poupado os inocentes, aos quais Ele quisera salvar a vida. Pois, de outro
modo, eles seriam ainda mais infelizes do que os que haviam sido sepultados
nas águas, tendo visto com tremor tão estranha desolação e tendo dela sido
preservados apenas para perecer mais tarde, de maneira semelhante. Assim,
rogava que Deus aceitasse o seu sacrifício e não mais olhasse para a terra com
cólera, de jnodo que ele e seus descendentes pudessem cultivá-la sem medo,
construir cidades, desfrutar de todos os bens que possuíam antes do dilúvio e
passar uma vida tão longa quanto feliz, como a de seus antepassados.
Como Noé era homem justo, Deus atendeu à sua oração e concedeu-lhe o
que pedia, dizendo-lhe que não fora o patriarca a causa dos que se haviam
perdido no dilúvio; que eles só podiam acusar a si mesmos pelo castigo rece-
bido; que, se tivesse querido perdê-los, não os teria feito nascer, sendo mais
fácil não dar a vida do que a tirar após tê-la concedido; que eles deviam,
portanto, atribuir os castigos aos seus próprios crimes; que, em consideração à
sua oração, não lhes seria mais tão severo no futuro; e que, quando viessem
tempestades e furacões extraordinários, nem ele nem seus descendentes de-
veriam pensar num outro dilúvio, pois Ele não mais permitiria que as águas
inundassem a terra. Contudo proibia a ele e aos seus manchar as mãos no
sangue, e ordenava-lhes que castigassem severamente os homicidas, e os fazia
senhores absolutos dos animais, para dispor deles como quisessem, exceto de
seu sangue, do qual não podiam usar como do resto, porque no sangue está a
vida. E meu arco, acrescentou, que vereis no céu, será o sinal e a garantia da
promessa que vos faço. Isso disse Deus a Noé. E ao arco que apareceu no céu,
chamaram arco de Deus.
15. Noé viveu trezentos e cinqüenta anos depois do dilúvio, na máxima
prosperidade, e morreu com novecentos e cinqüenta anos de idade. Por maior
que seja a diferença entre a pouca duração da vida dos homens de hoje e a
longa duração da dos de que acabo de falar, o que narro não deve passar por
inverossímil. É que, além de os nossos antepassados serem muito queridos de
Deus, e como obra que Ele havia feito com as próprias mãos, os alimentos de
que se nutriam eram mais apropriados para conservar a vida. E Deus a
prolongava, tanto por causa de sua virtude como para lhes dar meios de
aperfeiçoar as ciências da geometria e da astronomia, que eles haviam
inventado — o que eles não teriam podido fazer se tivessem vivido menos de
seiscentos anos, pois é somente após a revolução de seis séculos que se
completa o grande ano. Todos os que escreveram a história, tanto da Grécia
como de outras nações, dão testemunho do que digo. Mâneto, que escreveu a
história dos egípcios, Berose, que nos deixou a dos caldeus. Moco, Hestieu e
Jerônimo, que escreveram a dosfenícios, dizem também a mesma coisa.
Hesíodo, Hecateu, Ascausila, Helânico, Éforo e Nicolau, referem que esses
primeiros homens viviam até mil anos. Deixo aos que lerem isto que façam o
juízo que quiserem.",