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Livro Primeiro Flávio Josefo

Capítulo 13 Flávio Josefo

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"ABRAÃO, PARA OBEDECER À ORDEM DE DEUS, OFERECE-LHE O FILHO ISAQUE EM
SACRIFÍCIO. DEUS, PARA RECOMPENSAR-LHE A FIDELIDADE, CONFIRMA-LHE TODAS AS
PROMESSAS.",
"39. Gênesis 22. Nada se poderia acrescentar à ternura que Abraão tinha
para com Isaque, tanto porque era o único filho quanto porque lhe fora
concedido por Deus em sua velhice. E Isaque, por sua vez, praticava com tanto
entusiasmo toda espécie de virtudes, servia a Deus com tanta fidelidade e
prestava a seu pai tantos serviços que dava a Abraão todos os dias novos
motivos para amá-lo. Assim, Abraão só pensava em morrer, e seu único desejo
era deixar aquele filho como seu sucessor. Deus concedeu o que Abraão
desejava, mas antes quis experimentar a sua fidelidade. Apareceu-lhe e, depois
de haver-lhe lembrado as graças particulares com que sempre o favorecera, as
vitórias que o haviam feito conquistar os inimigos e a prosperidade com que o
brindara, ordenou-lhe que lhe sacrificasse o filho Isaque sobre o monte Moriá e
assim testemunhasse, por aquele ato de obediência, que ele preferia a vontade
divina ao que ele tinha de mais caro no mundo.
Estando Abraão persuadido de que nenhuma consideração poderia
dispensá-lo de obedecer a Deus, a quem todas as criaturas são devedoras da
própria existência, nada disse à sua esposa nem a qualquer outro de seus
familiares sobre a ordem que havia recebido de Deus ou acerca da resolução de
executá-la, com medo que eles se esforçassem para dissuadi-lo de seu
propósito. Disse somente a Isaque que o seguisse, acompanhado por dois
criados, e mandou colocar sobre um jumento todas as coisas de que
necessitava para o sacrifício. Após haver caminhado durante dois dias,
avistaram o monte que Deus lhe havia indicado. Deixou então os dois criados
no sopé do monte e subiu-o somente com Isaque (no cimo desse monte o rei
Davi, mais tarde, fez construir um Templo). Levou para lá tudo o que
precisavam, exceto a vítima, para o sacrifício. Isaque tinha então vinte e cinco
anos. Ele preparou o altar, mas, não vendo vítima alguma, perguntou ao pai
quem ele queria sacrificar. Abraão respondeu-lhe que Deus, que pode dar aos
homens todas as coisas que lhes faltam e tirar-lhes as que já possuem, dar-
lhes-ia uma vítima, se se dignasse aceitar o sacrifício deles.
Depois de haver colocado a lenha sobre o altar, Abraão falou a Isaque:
Meu filho, eu vos pedi a Deus com muita insistência e muitas orações. Não
houve cuidado que eu não tivesse tido de vós, desde que viestes ao mundo, e eu
consideraria como realizados todos os meus votos se vos visse chegar a uma
idade muito avançada e deixar-vos, ao morrer, como herdeiro de tudo o que
possuo. Mas, como Deus, depois de vos ter dado a mim, quer agora que eu vos
perca, consenti generosamente em oferecer-vos a Ele em sacrifício. Prestemos-
Ihe, meu filho, esse ato de obediência e essa honra como testemunho de nossa
gratidão pelos favores que Ele nos fez na paz e pela assistência que nos deu na
guerra. Como nascestes para morrer, que fim vos pode ser mais glorioso do que
ser oferecido em sacrifício por vosso próprio pai ao soberano Senhor do
universo, que, em vez de terminar a vossa vida por uma doença, numa cama,
ou por uma ferida na guerra, ou por algum outro acidente, aos quais os ho-
mens estão sujeitos, vos julga digno de entregar-lhe a alma no meio de orações
e sacrifícios, de modo a ficar para sempre unida a Ele? Consolareis assim a
minha velhice, dando-me a assistência de Deus em lugar da que eu devia rece-
ber de vós, depois de vos ter educado com tanta diligência.
Isaque, filho digno de tão admirável pai, escutou essas palavras não
somente sem se admirar, mas até com alegria, e respondeu-lhe que ele teria
sido indigno de nascer se se recusasse a obedecer à vontade de seu pai,
principalmente quando ela estava de acordo com a de Deus. Assim dizendo,
colocou-se ele mesmo sobre o altar, para ser imolado. Esse grande sacrifício ter-
se-ia realizado se Deus mesmo não o tivesse impedido. Ele chamou Abraão pelo
nome e proibiu-o de matar o filho, dizendo-lhe que havia ordenado o sacrifício
não para tirá-lo depois de o haver concedido ou porque sentia prazer em ver
derramar sangue humano, mas somente para lhe experimentar a obediência.
Agora, vendo com quanto zelo e fidelidade fora obedecido, aceitava o sacrifício e
garantia-lhe, como recompensa, que jamais deixaria de assistir a ele e a toda a
sua descendência. Quanto ao filho que lhe fora oferecido e que iria restituir,
viveria feliz e por muito tempo, e a sua posteridade seria ilustre por uma longa
série de homens valentes e virtuosos, que submeteriam pelas armas todo o país
de Canaã. A fama deles tomar-se-ia imortal. As suas riquezas seriam tão
grandes e a sua felicidade tão extraordinária que eles seriam invejados por
todas as outras nações.
Concluído esse oráculo, Deus fez aparecer um carneiro, para ser oferecido
em sacrifício. Aquele pai fiel e seu filho sensato e feliz abraçaram-se, no auge da
alegria, pela grandeza das promessas, terminaram o sacrifício e voltaram para
encontrar Sara. Deus, fazendo prosperar todos os seus desígnios, cumulou de
felicidade todo o restante da vida de Abraão.",