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Livro Primeiro Flávio Josefo

Capítulo 18 Flávio Josefo

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"VISÃO QUEJACÓ TEVE NA TERRA DE CANAÃ, ONDE DEUS PROMETE TODA
SORTE DE FELICIDADE A ELE E À SUA DESCENDÊNCIA. NA MESOPOTÂMIA,
DESPOSA LEIA E RAQUEL, FILHAS DE LABÃO. RETIRA-SE SECRETAMENTE PARA
VOLTAR AO SEU PAÍS. LABÃO PERSEGUE-O, MAS DEUS O PROTEGE. LUTA COM
UM ANJO E RECONCILIA-SE COM O SEU IRMÃO ESAÚ. O FILHO DO REI DE
SIQUÉM VIOLENTA DINÁ, FILHA DEJACÓ. SIMEÃO E LEVI, SEUS IRMÃOS,
PASSAM AFIO DE ESPADA TODOS OS HABITANTES DA CIDADE DE SIQUÉM.
RAQUEL DÁ À LUZ BENJAMIM E MORRE DE PARTO. FILHOS DE JACÓ.",
"49. Gênesis 28. Tendo sido Jacó, com o consentimento do pai, enviado
por sua mãe à Mesopotâmia, para desposar uma filha de Labão, seu tio,
atravessou o país dos cananeus. Mas, por ser uma nação inimiga, não entrou
em nenhuma de suas casas. Dormia no campo, utilizando-se das pedras como
travesseiro. E, dormindo, teve uma visão. Parecia-lhe ver uma escada que ia da
Terra até o céu com pessoas — que pareciam ser mais que humanas —
descendo por ela. Deus, que estava no alto, apareceu-lhe claramente, chamou-o
pelo nome e disse-lhe: Jacó, tendo como tendes por pai um homem de bem e
tendo o vosso avô se tornado tão célebre pela virtude, por que vos deixais abater
pela dor? Concebei melhores esperanças. Grandes bens vos esperam, e eu
jamais vos abandonarei. Quando Abraão foi expulso da Mesopotâmia, eu o fiz
vir aqui. Tornei feliz o vosso pai, e vós não o sereis menos que ele. Coragem!
Continuai o vosso caminho, nada temais sob o meu governo. O vosso
casamento será como desejais: tereis muitos filhos, e vossos filhos terão ainda
mais. Sujeitar-lhes-ei este país, e à sua posteridade, que se multiplicará de tal
modo que todas as terras e os mares que o Sol ilumina serão povoadas por eles.
Nenhuma tribulação e nenhum perigo serão capazes de vos assustar. Desde já
tomo cuidado de vós, e tomarei ainda mais para o futuro.
50. Uma tão favorável visão encheu jacó de consolo e de alegria. Lavou as
pedras que lhe serviam de travesseiro, pois grande felicidade ali lhe se havia
predito, e fez voto: se retornasse feliz, ofereceria naquele mesmo lugar um sacri-
fício a Deus e a décima parte de todos os seus bens, o que cumpriu depois com
fidelidade. Quis também, para tornar célebre o lugar, dar-lhe o nome de Betei,
isto é, permanência de Deus.
Gênesis 29. Continuou depois a marcha para a Mesopotâmia e por fim
chegou a Harã. Nos arredores, encontrou alguns pastores, moços e moças, que
estavam sentados à borda de um poço. Rogou-lhes que lhe dessem de beber e,
tendo entabulado conversação com eles, perguntou-lhes se conheciam um ho-
mem de nome Labão e se ele ainda vivia. Responderam-lhe que o conheciam:
era um homem muito estimado para não ser conhecido; que ele tinha uma filha
que habitualmente ia ao campo com eles (admiravam-se de ela não estar ali
com o grupo); e que ele poderia saber dela tudo o que desejava.
Conversavam assim quando Raquel chegou, acompanhada de seus
pastores. Apontaram-lhe Jacó, dizendo que aquele estrangeiro perguntara pela
saúde de seu pai. Como ela era muito jovem e muito simples, mostrou-se
satisfeita em ver Jacó e perguntou-lhe quem era e que motivo o trazia ao seu
país, acrescentando o desejo de que seu pai e sua mãe lhe pudessem dar tudo o
que ele queria deles. Tão grande bondade comoveu-o. Estando ela perto de jacó,
este ficou bastante surpreendido com a sua beleza, que era extraordinária.
Pois que vós sois filha de Labão, disse-lhe ele, posso dizer que a nossa
aproximação precedeu o nosso nascimento. Terá teve a Abraão por filho, Naor e
Arã também. Mas nós somos ainda mais próximos: pois Rebeca, minha mãe, é
irmã de Labão, vosso pai. Assim, somos primos irmãos, e eu vos venho visitar
para dar-vos o que vos devo e renovar tão estreita aliança.
Raquel, que ouvira o pai falar tantas vezes de Rebeca e do desejo que
tinha de receber notícias dela, ficou tão contente que, levada pela alegria,
abraçou Jacó e, chorando, disse-lhe que seu pai e toda a sua família
guardavam contínua recordação de Rebeca e dela falavam a todo instante. E,
como ele não lhes poderia dar maior prazer que as informações sobre uma
pessoa que lhes era tão cara, rogou-lhe que a seguisse, para não retardar nem
mais um momento tão grande satisfação. Levou-o depois a Labão, cuja alegria,
ao ver o sobrinho quando menos o esperava, não foi menor, e Jacó sentiu-se em
segurança junto dele.
Alguns dias depois, Labão perguntou-lhe como tinha podido deixar seu
pai e sua mãe numa idade em que eles necessitavam tanto de sua assistência e
ao mesmo tempo ofereceu-lhe tudo o que dele podia depender. Jacó, para
satisfazer o desejo do tio, contou-lhe o que se havia passado em família. Disse-
lhe que tinha um irmão gêmeo e que Rebeca, sua mãe, querendo-o mais que a
seu irmão Esaú, havia conseguido, por um ato de astúcia, que seu pai lhe
desse, com todas as vantagens que a acompanhavam, a bênção que era do
irmão. Contou-lhe que Esaú, para vingar-se, procurava por todos os meios
matá-lo e que sua mãe lhe havia ordenado então que viesse buscar asilo junto
de Labão, pois não tinha nenhum outro parente mais próximo ao seu lado. E
assim, no estado a que se encontrava reduzido, tinha confiança apenas em
Deus e no tio.
Labão, comovido com essas palavras, prometeu a jacó toda a assistência,
fosse em consideração ao parentesco, fosse para testemunhar a amizade que
conservava por sua irmã, embora ausente há tanto tempo e tão longe dele.
Prometeu também dar-lhe inteira autoridade sobre todos os que cuidavam de
seus rebanhos, e, quando Jacó voltasse ao seu país, saberia, pelos presentes
que lhe daria, qual era a sua gratidão e amizade. E Jacó, como nutrisse já
grande afeto por Raquel, respondeu-lhe que a nenhum trabalho consideraria
pesado, em se tratando de servi-lo, e que tinha tanta estima pela virtude de
Raquel e tanta gratidão pela bondade com a qual ela o havia levado até ali que
não pedia outra recompensa pelos seus serviços senão recebê-la em casamento.
Labão recebeu a proposta com satisfação, respondendo que não poderia
ter genro mais agradável. Disse-lhe então ser necessário que Jacó ficasse algum
tempo com eles, porque não podia resolver-se ainda a mandar a filha para
Canaã, pois já havia sentido muito ter deixado a irmã partir para um país tão
distante. Jacó aceitou a condição, prometeu servi-lo por sete anos e
acrescentou que teria prazer em encontrar ocasião de lhe mostrar, por sua
solicitude e seus serviços, que não era indigno de sua aliança.
51. Quando se passaram os sete anos, Labão viu-se na contingência de
cumprir a promessa e, no dia das núpcias, deu um grande banquete. Mas, em
vez de colocar Raquel no leito, mandou secretamente que lá pusessem Leia,
irmã mais velha, que nada tinha em si mesma que pudesse despertar o amor.
As trevas e o vinho levaram Jacó a perceber o engano somente no dia seguinte.*
Ele queixou-se a Labão, que se desculpou de assim ter agido, dizendo ter sido
obrigado pelo costume do país, que proibia casar a filha mais nova antes da
mais velha, mas que isso não o impediria de esposar Raquel: estava disposto a
entregá-la a Jacó, com a condição de que este o servisse por mais sete anos.
Jacó percebeu que o engano era um mal sem remédio, mas o seu amor por
Raquel o fez aceitar a proposta, embora injusta. Assim, ele a desposou e serviu
Labão durante outros sete anos.
* As Escrituras afirmam que Jacó desposou Raquel ao fim de sete dias,
com a condição de que ele serviria Labão por mais sete anos.
52. As duas irmãs mantinham junto delas duas moças, Zilpa e Bila, que
Labão lhes dera não como criadas, mas apenas para fazer companhia às filhas,
embora a estas devessem prestar obediência. Leia vivia triste, porque Jacó só
tinha amor por Raquel, mas julgou que ele também poderia amá-la, se Deus lhe
desse filhos. Por isso rogava a Ele constantemente que lhe fizesse aquela graça
e por fim a obteve. Deu à luz uma criança, à qual chamou Rúben, para mostrar
que o obtivera unicamente dEle. Teve em seguida outros três: um de nome
Simeão, significando que Deus lhe havia sido favorável; outro a que chamou
Levi, isto é, sustentáculo da sociedade; e outro ainda, Judá, isto é, ação de
graças.
Gênesis 30. A fecundidade de Leia, com efeito, levou jacó a amá-la mais. E
Raquel, temendo que o afeto do marido pela irmã diminuísse a parte que lhe
tocava, resolveu dar Bila a Jacó, que dela teve dois filhos: o mais velho, de
nome Dã, isto é, julgamento de Deus, e o mais novo, Naftali, isto é,
engenhoso, porque Raquel havia combatido por meio da astúcia a fecundidade
da irmã. Leia usou também do mesmo artifício e pôs Zilpa em seu lugar, com a
qual Jacó teve dois filhos: um de nome Gade, isto é, vindo por acaso, e outro,
Aser, isto é, felicidade, porque Leia daí tirava vantagem.
Dessa maneira, viviam juntas as duas irmãs. Rúben, filho mais velho de
Leia, trouxe um dia para sua mãe algumas mandrágoras. Raquel teve também
desejo de comê-las e rogou à irmã que as repartisse com ela. Leia recusou
atender o pedido, dizendo que Raquel devia contentar-se com a vantagem do
afeto de Jacó. Raquel, para acalmá-la, ofereceu-lhe Jacó por aquela noite. Ela
aceitou a proposta e ficou grávida de Issacar, isto é, nascido como
recompensa. Em seguida, teve Zebulom, isto é, recompensa da amizade, e
uma filha: Diná. Por fim, Raquel teve também a alegria de ser mãe — de José,
que quer dizer aumento.
53. Gênesis 31. Vinte anos passaram-se dessa maneira, e ]acó, durante
todo esse tempo, teve sempre a guarda geral dos rebanhos de Labão. Após
tantos anos de serviço, pediu para voltar ao seu país, com as duas esposas.
Labão recusou-se a dar o consentimento, e ]acó então resolveu retirar-se
secretamente. Leia e Raquel estavam de acordo com ele. E assim, partiu com
elas, levando também Zilpa e Bila, todos os seus filhos, os seus bens e metade
dos rebanhos de Labão. Raquel tomou os ídolos de seu pai, não para adorá-los,
porque Jacó não estava dominado por esse erro, mas para aplacar a cólera de
Labão, restituindo-os, caso ele os perseguisse.
Labão soube da retirada de |acó apenas no dia seguinte e pôs-se a segui-
lo com muita gente, alcançando-o no sétimo dia, pela tarde, numa colina onde
os fugitivos descansavam. Quis deixar passar a noite sem os atacar. Mas,
quando dormia, Deus apareceu-lhe em sonhos e proibiu-lhe de pela cólera
empreender algo contra Jacó e suas filhas, ordenando-lhe que se reconciliasse
com o genro e que não confiasse na desigualdade das forças, pois se ousasse
atacá-los, combateria por Jacó, para protegê-lo.
O dia não havia raiado quando Labão, em obediência à ordem divina,
mandou contar a Jacó o sonho que tivera, pedindo que viesse ter com ele. E
Jacó foi, sem nada temer. Labão começou por fazer-lhe graves censuras: Não
podíeis, disse ele, ter esquecido em que estado estáveis quando viestes à
minha casa, como eu vos recebi, com que liberalidade vos tornei participante de
meus bens e com quanta bondade vos dei as minhas filhas em casamento?
Quem não teria pensado que tantos favores vos teriam unido para sempre a
mim, com um afeto inviolável? Mas nem a estreita parentela, que nos une, nem
a consideração de que a vossa mãe é minha irmã, que as vossas esposas me
devem a vida e que os vossos filhos são meus impediram que me tratásseis
como se eu fosse vosso inimigo. Levais os meus bens, obrigastes as minhas
filhas a me deixar para fugir convosco e sois a causa de elas me roubarem o
que os meus antepassados e eu sempre tivemos em grande veneração, porque
são coisas sagradas. Qual! Será então necessário que eu receba do filho de
minha irmã, de meu genro, de meu hóspede e de um homem que me é devedor
de tantos benefícios todos os ultrajes que um inimigo irreconciliável me teria
podido fazer?
54. Jacó, para justificar-se, respondeu que não era o único a quem Deus
havia imprimido no coração o amor pelo país natal e o desejo de voltar após
longa ausência. Quanto à acusação de tê-lo roubado, qualquer homem justo
Julgaria que tal censura se ajustava ao próprio Labão, porque, em vez de lhe
agradecer por ter não somente conservado, mas aumentado tanto os seus bens,
vinha queixar-se de que lhe havia sido levada uma pequena parte. E, quanto ao
que se referia às filhas, era estranho achar maldade no fato de as esposas
seguirem o marido, bem como esperar que as mães abandonassem os filhos.
Após ter-se defendido dessa maneira, Jacó, para usar das mesmas razões
que Labão apresentara contra ele, acrescentou que, sendo seu tio e sogro, não
deveria tê-lo tratado tão rudemente, como o fizera por vinte anos, sem falar no
que sofrerá para obter Raquel, suportado apenas por causa de sua afeição por
ela, e ainda depois, quando continuou a agir contra ele de maneira que nem da
parte de um inimigo teria esperado pior. Jacó tinha sem dúvida grandes
motivos para queixar-se das injustiças de Labão, pois quando este viu que Deus
favorecia jacó em todas as coisas, ora prometia-lhe dar, na partilha do aumento
do rebanho, os animais que nascessem brancos, ora os que fossem pretos. E,
percebendo que a parte de Jacó era a maior, faltava-lhe sempre à palavra e
adiava a partida para o ano seguinte, na esperança de que seria depois a
mesma coisa. Como nisso era sempre enganado, continuava também a enganar
Jacó.
Quando Raquel soube que, ante a queixa do furto dos ídolos, Jacó dera a
Labão permissão de os procurar, escondeu-os debaixo do camelo em que mon-
tava, sentou-se sobre ele e disse que não podia se levantar, pois estava sofrendo
do incômodo próprio das mulheres. Assim, Labão não os procurou mais, porque
pensou que a filha não teria naquele estado se aproximado de coisas que no
seu espírito passavam por sagradas. Prometeu depois a Jacó, com juramento,
não somente esquecer o passado, mas conservar por suas filhas o mesmo afeto
que sempre lhes tivera. E, como sinal da renovação da aliança, ergueram sobre
a montanha uma coluna em forma de altar, à qual deram por esse motivo o
nome de Galeede e que a região vizinha, posteriormente, conservou. Fizeram
depois um grande banquete, e Labão deixou-os para regressar à sua casa.
55. Gênesis 32. jacó, por seu lado, continuou a viagem para Canaã e no
caminho teve visões, as quais o fizeram conceber tão grandes esperanças que
chamou Campos de Deus o lugar onde as tivera. Mas, temendo sempre o
ressentimento de Esaú, mandou alguns dos seus para levar-lhe notícias e
ordenou-lhes que se expressassem nestes termos: O respeito que Jacó, vosso
irmão, vos tem, fá-lo pensar que não deve se apresentar diante de vós enquanto
estiverdes irritado contra ele, assim como o fez abandonar este país e retirar-se
para uma terra longínqua. Mas agora ele espera que o tempo tenha apagado de
vosso espírito o descontentamento e volta com as suas esposas, os seus filhos e
o que conquistou com o trabalho, a fim de pôr em vossas mãos tudo o que
possui. Nada lhe daria mesmo mais alegria do que oferecer-vos os bens com
que aprouve a Deus enriquecê-lo.
Esaú ficou tão comovido com essas palavras que veio imediatamente
encontrar-se com o irmão, acompanhado de quatrocentos homens. Esse grande
número assustou jacó, mas ele colocou a sua confiança em Deus e dispôs todas
as coisas para se pôr em condições de resistir-lhe, caso Esaú tivesse a intenção
de usar de violência. Distribuiu para isso tudo o que trazia consigo em diversos
grupos, que se seguiam a curtos espaços um do outro, de modo que, se o que
vinha à frente fosse atacado, os demais pudessem retirar-se. Mandou depois
avançar alguns de seus homens e, para acalmar o espírito do irmão, se é que
este ainda estava irritado contra ele, ordenou-lhes que oferecessem, de sua
parte, diversos animais de várias espécies que lhe poderiam ser agradáveis pela
sua raridade. Disse-lhes também que caminhassem separadamente, a fim de
que, indo assim em fila, parecesse que eram em maior número, e recomendou-
lhes sobretudo que falassem a Esaú com o máximo respeito.
56. Depois de ter assim empregado todo o dia em dispor essas coisas, foi
caminhar à noite. E, após ter atravessado as torrentes de Jaboque, estando
muito afastado de seus homens, um vulto apareceu e atracou-se com ele. jacó
foi o mais forte nessa luta, e o vulto disse-lhe: Alegrai-vos )acó, e que nada seja
capaz de vos assustar. Pois não foi a um homem que vencestes, mas a um anjo
de Deus, jacó, tomado de admiração, pediu que o espírito celeste informasse o
que lhe devia acontecer, ao que este respondeu: Considerai o que acaba de se
passar como um presságio, não somente de grandes bens que vos esperam,
mas da duração perpétua de vossa descendência e da confiança que deveis ter
de que ela será invencível. O anjo ordenou-lhe em seguida que tomasse o nome
de Israel, que significa, em hebreu, o que resistiu a um anjo, e nesse mesmo
instante desapareceu. Jacó, transbordando de alegria, chamou ao lugar Peniel,
isto é, a face de Deus. E, como fora ferido naquela luta num lugar da coxa,
jamais comeu daquela parte de animal algum. Não nos é, do mesmo modo,
permitido comê-la.
57. Gênesis 33. Quando Jacó soube que o irmão se aproximava, mandou
dizer às suas mulheres que viessem separadas uma da outra, cada qual com as
suas criadas, para ver de longe o combate, caso fossem obrigados a travá-lo.
Quando já estava próximo do irmão, todavia, reconheceu que ele vinha com
espírito de paz e apresentou-se diante dele. Esaú abraçou-o e perguntou-lhe o
que era aquela multidão de mulheres e crianças. Depois de ter sido informado
de tudo, ofereceu-se para levá-las todas a Isaque, seu pai. Jacó agradeceu e
rogou-lhe que o desculpasse, porque toda a comitiva estava muito cansada, por
causa da longa viagem, e tinha necessidade de repouso. Assim, Esaú voltou a
Seir, onde residia habitualmente, tendo ele mesmo lhe dado esse nome, que
significa peludo.
58. Gênesis 34. jacó, por sua vez, dirigiu-se a um lugar denominado As
Tendas, que ainda hoje conserva esse nome, e de lá a Siquem, que é uma
cidade dos cananeus. Aconteceu então que ali se realizava uma festa, e Diná,
única filha de Jacó, aproximou-se para ver de que maneira as mulheres
daquele país se vestiam. Siquem, filho do rei Hamor, achou-a tão bela que a
carregou e abusou dela. Estando apaixonado por ela, pediu ao rei, seu pai, que
a fizesse desposar. Ele consentiu e foi procurar Jacó para pedi-la em
casamento. Jacó ficou muito embaraçado, porque, de um lado, não sabia como
recusar a filha ao filho de um rei e, de outro, julgava que em sã consciência não
podia dá-la a um estrangeiro. Assim, pediu algum tempo a Hamor, para decidir,
e o monarca regressou, na persuasão de que o casamento se realizaria.
Jacó contou aos filhos tudo o que se havia passado, pedindo-lhes que
deliberassem sobre o que deviam fazer. A maior parte não sabia que resolução
tomar. Mas Simeão e Levi, irmãos de pai e mãe de Diná, tomaram juntos uma
determinação e, sem nada dizer a Jacó, escolheram executá-la no dia de uma
grande festa que se realizava em Siquem e que se passava toda em banquetes e
divertimentos. Foram de noite às portas de Siquem, acharam os guardas ador-
mecidos e os mataram. Daí foram à cidade, passaram todos os homens a fio de
espada, até mesmo o rei e seu filho, poupando somente as mulheres, e trouxe-
ram de volta a sua irmã. Jacó ficou fora de si por aquela ação sangrenta e
muito irritado com os dois, mas Deus, numa visão, ordenou que se consolasse,
que purificasse as suas tendas e pavilhões e que oferecesse o sacrifício ao qual
se havia obrigado quando Ele lhe apareceu em sonho, na sua viagem à
Mesopotâmia.
59. Enquanto executava essas ordens, jacó encontrou os ídolos de Labão,
que Raquel havia furtado sem nada lhe dizer. Enterrou-os em Siquem, sob um
carvalho, e foi sacrificar em Betei,* no mesmo lugar onde tivera a visão de que
acabamos de falar. De lá passou a Efrata, onde Raquel teve um filho e morreu
de parto. Ela foi sepultada ali mesmo, sendo a única de sua descendência que
não foi levada a Hebrom, ao sepulcro de seus antepassados. A morte dela
causou grande aflição a Jacó, e ele chamou ao filho Benjamim, porque havia
sido causa de dor, ao custo da vida de sua mãe. Jacó teve apenas uma filha,
Diná, e doze filhos, dos quais oito eram legítimos, isto é, seis de Leia e dois de
Raquel. Quanto aos outros quatro, dois eram de Zilpa e dois de Bila. Chegou
finalmente a Hebrom, na terra de Canaã, onde morava Isaque, seu pai, mas o
perdeu logo depois.
* Belém.",