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Livro Primeiro Flávio Josefo

Capítulo 2 Flávio Josefo

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,
"CAIM MATA SEU IRMÃO ABEL. DEUS O EXPULSA. SUA POSTERIDADE É TÃO MÁ QUANTO
ELE. VIRTUDES DE SETE, OUTRO FILHO DE ADÃO.",
"6. Gênesis 4. Adão e Eva tiveram dois filhos e três filhas. O primeiro
chamava-se Caim, que significa aquisição, e o segundo, Abei, que quer dizer
aflição. Os dois eram de temperamentos completamente opostos. Abel, que era
pastor de rebanhos, era mais justo. Considerava que Deus se fazia presente em
todas as suas ações e só pensava em agradar-lhe. Caim, ao contrário, que por
primeiro trabalhou a terra, era muito mau. Buscava apenas proveito próprio. A
sua horrível impiedade levou-o ao excesso de furor, a ponto de matar o próprio
irmão. Eis a causa disso:
Ambos resolveram oferecer um sacrifício a Deus, Caim, dos frutos de seu
trabalho, e Abel, do leite e das primícias de seu rebanho. Deus demostrou
aceitar melhor o sacrifício de Abel, que era produção livre da natureza, do que a
oferta que a avareza de Caim dela havia tirado, quase à força. O orgulho de
Caim não pôde tolerar que Deus tivesse preferido o irmão a ele: matou-o e
escondeu o corpo, esperando que assim ninguém tivesse ciência de seu crime.
Deus, porém, a cujos olhos nada há de oculto, perguntou-lhe onde estava o
irmão, que não via há vários dias, pois antes eles estavam sempre juntos. Caim,
não sabendo o que responder, disse primeiro que se admirava de também não o
ter visto mais. Todavia, como Deus insistisse, respondeu-lhe insolen-temente
que não era nem senhor nem guarda do irmão e que não se havia encarregado
de cuidar daquilo que não lhe dizia respeito. Deus então perguntou-lhe como se
atrevia a afirmar nada saber do que acontecera ao irmão, se ele mesmo o havia
matado. E, se Caim não tivesse oferecido imediatamente um sacrifício para
acalmar-lhe a cólera, teria recebido naquele mesmo instante o castigo que o seu
crime bem merecia. Deus, no entanto, amaldiçoou-o, ameaçou castigar os seus
descendentes até a sétima geração e expulsou-o. Porém, como Caim temesse
que, andando errante, animais ferozes o devorassem, Deus o tranqüilizou
contra esse temor. Deu-lhe um sinal, com o qual podia ser reconhecido, e
ordenou-lhe que se fosse.
7. Depois de haver atravessado diversos países, Caim estabeleceu
residência em um lugar chamado Node, onde teve vários filhos. No entanto o
castigo, em vez de torná-lo melhor, fê-lo, ao contrário, muito pior. Abandonou-
se a toda sorte de prazeres e até usou de violência, apoderando-se de bens
alheios para enriquecer-se. Reuniu homens maus e celerados, dos quais se
tornou o chefe, e ensinou-os a cometer toda espécie de crimes e de ações
ímpias. Mudou a inocente maneira de viver que adotara no princípio, inventou
os pesos e as medidas e substituiu a franqueza e a sinceridade, tão mais
louváveis e simples, pela astúcia e pelo engano. Ele foi o primeiro a estabelecer
limites para a divisão de propriedades e construiu uma cidade. Chamou-a
Enoque, nome de seu filho mais velho, rodeou-a de muralhas e a povoou.
Enoque teve por filho Irade, Irade gerou Meujael, Meujael a Metusalém e
Metusalém a Lameque. Lameque teve setenta filhos de suas duas esposas, Zilá
e Ada, um dos quais, de nome jabal, filho de Ada, foi o primeiro a morar
embaixo de tendas e de pavilhões, levando uma vida de simples pastor. Jubal,
seu irmão, inventou a música, o saltério e a harpa. Tubalcaim, filho de Zilá,
sobrepujava a todos os outros em coragem e força, e foi grande comandante.
Nesse entretempo, enriqueceu e serviu-se de suas riquezas para viver ainda
mais suntuosamente do que até então. Ele inventou a arte de forjar e teve
apenas uma filha, de nome Naamá. Como Lameque era muito instruído nas
coisas divinas, julgou facilmente que sofreria a pena do assas-sínio de Caim, na
pessoa de Abel, e disse-o às suas duas mulheres.
Eis como a posteridade de Caim chafurdou-se em toda espécie de crimes.
Não se contentaram em imitar os de seus pais, mas inventaram outros. Entre
eles, havia assassínios e latrocínios, e os que não mergulhavam as mãos em
sangue estavam cheios de orgulho e de avareza.
8. Adão ainda vivia e tinha cento e trinta anos. A morte de Abel e a fuga
de Caim fizeram-no desejar ardentemente outros filhos. E teve mesmo vários:
depois de viver ainda oitocentos anos, morreu na idade de novecentos e trinta
anos.
9. Seria demasiado longo discorrer sobre todos os filhos de Adão.
Contentar-me-ei em dizer algo de um deles, de nome Sete. Educado junto de
seu pai, deu-se com afeto à virtude. Deixou filhos semelhantes a ele, que
permaneceram em sua terra, onde viveram felizes e em perfeita união. Deve-se
ao seu espírito e ao seu trabalho a ciência dos astros. Como os seus filhos
haviam sido informados por Adão que o mundo pereceria pela água e pelo fogo,
o medo de que essa ciência se perdesse antes que os homens a aprendessem
levou-os a construir duas colunas, uma de tijolos e outra de pedras, e sobre
elas gravaram os conhecimentos que possuíam. Se um dilúvio destruísse a
coluna de tijolos, ficaria a de pedras, para conservar à posteridade a memória
daquilo que haviam escrito. A previdência deles deu bom resultado, e afirma-se
que a coluna de pedras pode ser vista ainda hoje, na Síria.",