Livro Nono Flávio Josefo
Capítulo 2 Flávio Josefo
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"JEORÃO, FILHO DEJOSAFÁ, SUCEDE-O. ÓLEO MULTIPLICADO MILAGROSAMENTE
POR ELISEU EM FAVOR DA VIÚVA DE OBADIAS. HADADE, REI DA SÍRIA,
MANDA TROPAS PARA PRENDÊ-LO, MAS DEUS OS FERE COM CEGUEIRA, E
ELISEU OS CONDUZ A SAMARIA. HADADE SITIA FORÃO, REI DE ISRAEL.
ASSÉDIO LEVANTADO MILAGROSAMENTE, SEGUNDO APREDIÇÃO DE ELISEU.
HADADE É ESTRANGULADO POR HAZAEL, QUE USURPA O REINO DA SÍRIA E
DE DAMASCO. HORRÍVEL IMPIEDADE E IDOLATRIA DE JEORÃO, REI DE JUDÁ.
ESTRANHO CASTIGO COM QUE DEUS O AMEAÇA.",
"377. 2 Crônicas 21. josafá, rei de Judá, deixou vários filhos, jeorão, que
era o mais velho, sucedeu-o no trono, como ele havia ordenado. A mulher de
Jeorão, como vimos, era irmã de Jorão, rei de Israel, filho de Acabe, que, ao
regressar da guerra contra os moabitas, levara Eliseu com ele para Samaria. Os
feitos desse profeta são tão memoráveis que julguei dever relatá-los aqui,
segundo o que está escrito nos Livros Santos.
378. 2 Reis 4. A viúva de Obadias, mordomo do rei Acabe, veio dizer ao
profeta que, não tendo meios de restituir o dinheiro que seu marido havia
emprestado para alimentar os cem profetas que, como Eliseu devia saber, ele
salvara da perseguição de jezabel, os credores queriam tomá-la como escrava e
também aos seus filhos. E, por causa dessa dificuldade em que se encontrava,
recorria a ele, para rogar que tivesse piedade dela.
Eliseu perguntou-lhe se ela possuía alguma coisa. A mulher respondeu
que só lhe restava um pouco de óleo. O profeta então mandou-lhe que tomasse
emprestado dos vizinhos algumas vasilhas vazias, fechasse a porta do quarto e
enchesse os vasos com óleo, com a firme confiança de que Deus os encheria a
todos. Ela fez o que ele ordenou, e a promessa do profeta realizou-se. Ela foi
logo contar-lhe o resultado. Ele disse-lhe então que vendesse o óleo: uma parte
do dinheiro serviria para pagar as dívidas, e o resto deveria ser guardado para
sustentar os filhos. Assim, ele satisfez a pobre mulher e livrou-a da perseguição
dos credores.
379. 2 Reis 6. Eis um outro grande feito do profeta: Hadade, rei da Síria,
pôs homens de emboscada para matar Jorão, rei de Israel, quando este fosse à
caça, mas Eliseu foi avisá-lo e impediu assim que ele fosse morto. Hadade ficou
encolerizado por ver frustrada a sua esperança, tanto que ameaçou matar todos
os que havia encarregado daquela missão, pois, tendo falado somente a eles,
alguém devia tê-lo traído e avisado o inimigo. Um deles então protestou,
dizendo que eram todos inocentes daquele crime e que o rei deveria entender-se
com Eliseu, a quem nenhum de seus intentos era segredo, os quais o profeta
referia a Jorão. Hadade aceitou essas razões e ordenou que procurassem saber
em que cidade estava o profeta.
Hadade soube que ele estava em Dota e para lá enviou um grande número
de soldados, a fim de prendê-lo. Penetraram na cidade à noite, para que ele não
pudesse escapar, porém o criado de Eliseu o soube e bem cedo, todo trêmulo,
correu a contar ao profeta. Este, que confiava no socorro do alto, disse-lhe que
nada temesse e rogou a Deus que o tranqüilizasse, fazendo-lhe conhecer a
grandeza de seu poder infinito. Deus o ouviu e permitiu que o servo
contemplasse uma grande multidão de cavaleiros e carros armados, prontos
para defender o profeta. Eliseu rogou a Deus também que cegasse de tal modo
os sírios que eles nada pudessem ver. Deus consentiu, e o profeta meteu-se no
meio deles, perguntando a quem procuravam. Responderam que procuravam
Eliseu, o profeta. Ele disse-lhes: Se quiserdes seguir-me, levar-vos-ei até a
cidade onde ele está. E, como Deus não somente lhes tirara a vista, mas
obscurecera-lhes também o Espírito, eles o seguiram.
Eliseu levou-os a Samaria. O rei Jorão, por seu conselho, rodeou-os com
todas as suas tropas e fechou as portas da cidade. Então o profeta rogou a
Deus que lhes tirasse a cegueira, e assim se fez. Não se pode descrever a
surpresa e o terror daqueles homens ao se acharem no meio dos inimigos.
Jorão perguntou ao homem de Deus se queria que os matasse, a flechadas, e
ele respondeu que o proibia terminantemente, porque não era justo matar
prisioneiros que não haviam sido vencidos na guerra e que nenhum mal tinham
feito ao país, mas que Deus os entregara nas mãos do rei por um milagre. Ele
devia, ao contrário, tratá-los bem e enviá-los de volta ao seu rei. Jorão seguiu o
conselho, e Hadade concebeu tal admiração pelo homem de Deus e pelas graças
com que Ele favorecia o seu profeta que enquanto Eliseu viveu não usou mais
de ardil algum contra o rei de Israel, determinando combatê-lo somente em luta
aberta.
Dessa forma, entrou em Israel com um grande exército. Jorão, não se
julgando capaz de lhe resistir, encerrou-se em Samaria, confiando em suas
fortificações. Hadade, julgando que não podia tomar a cidade à força, resolveu
cortar-lhe os víveres e assim começou o cerco. A falta de todas as coisas
necessárias à vida foi logo tão grande que a cabeça de um asno era vendida por
oitenta peças de prata, e um sextário de estrume de pomba, de que se serviam
em lugar de sal, custava cinco. Tal miséria fez Jorão temer que alguém, levado
pelo desespero, fizesse os inimigos entrar na cidade e por isso inspecionava
pessoalmente todos os guardas.
Numa dessas rondas, uma mulher veio lançar-se aos seus pés, rogando-
lhe que tivesse piedade dela. Ele julgou que ela desejava alguma coisa para
comer e rudemente respondeu que ele não tinha nem eira nem lagar de onde
lhe pudesse tirar alimento. A mulher retrucou que não era isso o que estava
pedindo, mas apenas que fosse juiz de uma questão entre ela e uma de suas
vizinhas. O rei, então, pediu-lhe que expusesse a sua dúvida. A mulher contou
que ela e a vizinha estavam morrendo de fome e, tendo cada uma um filho,
entraram em acordo para comê-los, pois não viam outro modo de salvar a
própria vida. Ela matara o seu, e ambas o haviam comido, mas agora a outra
mulher, contrariando o ajuste, não queria matar o dela e até o havia escondido.
Essas palavras comoveram tanto o soberano que ele rasgou as próprias
vestes e começou a gritar. Cheio de cólera contra Eliseu, determinou matá-lo,
porque, podendo o profeta obter de Deus, com as suas orações, o livramento de
tantos males, se negava a pedi-lo. Assim, ordenou que fossem imediatamente
cortar-lhe a cabeça, e os soldados partiram para executar a ordem. O profeta,
que estava descansando em sua casa, ciente da ordem por uma revelação de
Deus, disse aos seus discípulos: O rei, sendo filho de um homicida, mandou os
seus homens para me cortar a cabeça. Ficai perto da porta, porém, para mantê-
la fechada a esses assassinos, quando virdes que se aproximam, pois o rei se
arrependerá de ter dado essa ordem e virá aqui ele mesmo, em seguida.
Fizeram o que ele havia determinado, e Jorão, arrependido de ter dado a ordem
e com receio de que a executassem, veio apressadamente para impedi-los e
lamentou o pouco interesse do profeta pelos seus sofrimentos e pela infelicidade
do povo, pois não se dignava pedir a Deus que os livrasse de tantos males.
2 Reis 7. Então Eliseu prometeu que, no dia seguinte, à mesma hora, ele
teria tal abundância de víveres em Samaria que a medida de farinha de trigo
seria vendida a um sido no mercado, e duas medidas de cevada não custariam
mais. Como o príncipe não podia duvidar das predições do profeta, após haver
constatado tantas vezes a sua veracidade, a esperança de um feliz futuro deu-
lhe tal alegria que o fez esquecer a infelicidade presente. Os que o
acompanhavam não ficaram menos alegres, exceto um dos oficiais, que
comandava o terço das tropas e em quem o rei tinha plena confiança. Ele disse
a Eliseu: O profeta, o que prometeis ao rei não é possível, ainda que Deus faça
chover do céu farinha e cevada. Respondeu Eliseu: Não duvideis, porque o
vereis com os vossos próprios olhos. Mas somente o vereis, não participareis
dessa felicidade. E aconteceu como ele predisse.
Havia entre os samaritanos um costume segundo o qual os leprosos não
podiam ficar nas cidades. Por esse motivo, quatro homens de Samaria, vítimas
dessa doença, residiam fora dos muros. Como não tinham absolutamente nada
para comer e nada podiam esperar da cidade, por causa da extrema carestia a
que estava reduzida, e como sabiam que não deixariam de morrer de fome, quer
fossem pedir esmola, quer ficassem em casa, julgaram melhor entregar-se aos
inimigos. Porque se estes tivessem compaixão deles, lhes salvariam a vida, e se
os matassem, seria uma morte muito mais suave que a outra, que lhes era
inevitável. Depois de tomar essa resolução, partiram para o acampamento dos
sírios.
No entanto Deus tinha feito aquele povo ouvir durante a noite um rumor
semelhante ao de cavalos e de carros, como se um grande exército os viesse
atacar. Isso causou-lhes tal espanto que eles abandonaram as suas tendas e
disseram a Hadade, seu rei, que o rei do Egito e os reis das ilhas tinham vindo
em auxílio de Jorão, e já se ouvia o retinir de suas armas. Como Hadade havia
também escutado o ruído, facilmente prestou fé às palavras deles, sem que ele
ou os seus soubessem o que fazer. Então fugiram, com tanta precipitação e em
tal desordem que nada levaram de seus bens e das riquezas de que o
acampamento estava cheio.
Os leprosos entraram no campo inimigo e lá encontraram em abundância
toda espécie de bens, sem ouvir o menor ruído. Avançaram ainda mais e entra-
ram numa tenda, onde, não encontrando ninguém, beberam e comeram o
quanto quiseram. Apoderaram-se de vestes, de dinheiro e de grande quantidade
de ouro e prata, que enterraram num campo fora do acampamento. Passaram a
outra tenda e ainda a duas outras, onde fizeram o mesmo, sem encontrar
ninguém. Então não tiveram mais dúvidas de que os inimigos haviam fugido e
lastimaram não terem levado ainda aquela notícia ao rei e aos seus
concidadãos. Por isso se apressaram e foram gritar às sentinelas que os
inimigos se haviam retirado.
As sentinelas avisaram o corpo da guarda mais próximo da pessoa do rei,
que ao tomar ciência do fato reuniu em conselho os seus chefes e servidores
particulares e disse-lhes que aquela retirada dos sírios era suspeita. Tinha
motivo para temer que Hadade, ansioso por tomar a cidade pela fome, tivesse
fingido retirar-se, a fim de que os sitiados fossem saquear o acampamento.
Assim, ele voltaria de repente, cercá-los-ia de todas as partes, matando-os
facilmente, e tomaria a cidade sem resistência alguma. Seu parecer era de que
não se incomodassem com o que acontecera e continuassem como antes.
Um dos presentes a esse conselho, que estava entre os mais sensatos,
acrescentou, depois de elogiar tal parecer, que julgava muito apropriado enviar
dois cavaleiros para observar o que se passava no campo até o Jordão. Se
fossem apanhados pelos inimigos, os outros saberiam conservar-se
prudentemente em guarda, para não cair no mesmo perigo. E, se eles fossem
mortos, estariam apenas antecipando um pouco a própria morte, pois não
tinham como conter a carestia.
O rei aprovou a proposta e ordenou imediatamente aos cavaleiros que fos-
sem observar o campo inimigo. Eles voltaram dizendo que não haviam encon-
trado uma pessoa sequer no acampamento e tinham visto o caminho inteira-
mente coberto de armas e de grãos, que eles haviam lançado fora para fugir
mais depressa. Então Jorão permitiu aos seus que fossem saquear o campo dos
sírios. Recolheram uma enorme riqueza de despojos, pois, além de grande
quantidade de ouro, prata, cavalos e gado, encontraram tanto trigo e cevada
que parecia um sonho. Assim esqueceram logo os males passados, e houve
abundância, tal como Eliseu havia predito: duas medidas de cevada se vendiam
por um sido, e a medida de farinha, pelo mesmo preço. Essa medida continha
um módio e meio, da Itália.
O único que não teve parte em tão feliz mudança foi o oficial que acompa-
nhava do rei quando este fora falar com Eliseu. O príncipe ordenara-lhe que
ficasse à porta da cidade, para impedir que as pessoas, na pressa de sair,
matassem umas às outras. E ele foi sufocado, vindo a morrer, como o profeta
havia predito.
380. 2 Reis 8. Hadade retirou-se para Damasco e lá soube do terror que
invadira o seu exército sem que aparecesse qualquer inimigo, mas sabia
também que aquele pavor fora enviado por Deus. Sentiu muito desgosto ao
constatar que Ele lhe era tão contrário, e ficou gravemente enfermo. Avisaram-
no então de que Eliseu vinha a Damasco, e ele ordenou ao mais fiel de seus
servos, de nome Hazael, que fosse encontrá-lo com presentes e perguntasse se
ele sararia. Hazael mandou carregar quarenta camelos com os mais saborosos
frutos do país e com objetos preciosos e, depois de saudar o profeta,
apresentou-lhe as dádivas do rei, perguntando em seu nome se devia esperar a
cura. O profeta respondeu que Hadade morreria, mas proibiu Hazael de dar-lhe
a notícia.
Essas palavras deixaram Hazael muito aflito, e Eliseu, por seu lado,
derramou lágrimas à vista dos males que se seguiriam ao seu povo após a
morte de Hadade. Hazael rogou a Eliseu que lhe dissesse o motivo daquele
penar, e o profeta respondeu: Choro por causa dos males que fareis sofrer os
israelitas. Pois fareis morrer os seus melhores homens, reduzireis a cinzas as
suas pra-ças-fortes, esmagareis os seus filhos com pedras e não poupareis nem
mesmo as grávidas. Hazael, assustado com essas palavras, perguntou-lhe
como aquilo poderia acontecer e que probabilidade havia de ele conquistar tão
grande poder. Então o profeta declarou que Deus havia revelado que ele
reinaria sobre a Síria.
Hazael contou a Hadade que este devia esperar a saúde e, no dia seguinte,
asfixiou-o com um pedaço de linho molhado e apoderou-se do reino. Ele tinha,
ademais, muitos méritos e conquistou de tal modo o afeto dos sírios e dos
habitantes de Damasco que eles o têm ainda hoje, tal como a Hadade, no
número de suas divindades e prestam-lhe contínua honra, por causa dos be-
nefícios que receberam de ambos, dos soberbos templos que eles construíram e
de tantos embelezamentos de que a cidade de Damasco lhes é devedo-ra.
Enaltecem também a antigüidade de sua descendência, pois ainda vivem, mil e
cem anos depois. Jorão, rei de Israel, informado da morte de Hadade, julgou
que nada mais tinha a temer e que passaria tranqüilo o resto de seu reinado.
381. 2 Reis 11; 2 Crônicas 21. Voltemos a Jeorão, rei de Judá. Não havia
ele subido ao trono, e seu mau governo logo se revelou, pelo assassinato dos
próprios irmãos e dos homens mais ilustres do reino, aos quais Josafá, seu pai,
dedicara grandíssima estima. Ele não se contentou em imitar aqueles reis de
Israel que primeiro violaram as leis de nossos antepassados e mostraram a sua
impiedade para com Deus, mas os sobrepujou a todos em muitas espécies de
crimes e aprendeu de Atalia, sua mulher, filha de Acabe, a prestar aos deuses
estrangeiros sacrílegas adorações. Assim, dia a dia, ele cada vez mais irritava a
Deus, por causa de sua impiedade e pela profanação das coisas mais santas de
nossa religião. Deus, no entanto, não o quis exterminar, por causa da promessa
que fizera a Davi.
Os idumeus, todavia, que antes lhe eram submissos, sacudiram o jugo,
começando Dor matar o seu próprio rei, que sempre fora fiel a josafá, e
colocando outro em seu lugar. Jeorão, para vingar-se, entrou à noite naquele
país com muitos carros e soldados de cavalaria e destruiu algumas cidades e
aldeias da fronteira, sem ousar contudo ir além. Mas essa expedição, em vez de
torná-lo temível àqueles povos, levou ainda outros a se revoltar contra ele, e os
que habitam o país de Libna não o quiseram mais reconhecer como soberano.
A loucura e o furor desse rei chegou a tal excesso que ele obrigou os
súditos a adorar falsos deuses nos lugares mais elevados dos montes. Certo
dia, estando ele muito agitado, trouxeram-lhe uma carta de Eliseu, na qual o
profeta o ameaçava com uma terrível vingança da parte de Deus, pois, em vez
de observar as suas leis, como os seus predecessores, ele preferira imitar os
erros abomináveis dos reis de Israel, obrigando a tribo de Judá e os habitantes
de Jerusalém, tal como Acabe fizera aos israelitas, a abandonar o culto ao
verdadeiro Deus para adorar ídolos. E, a tudo isso acrescentara ainda o
assassinato dos próprios irmãos e de tantos homens de bem. Por isso receberia
o merecido castigo: o seu povo cairia sob a espada dos inimigos, e os cruéis
vencedores não poupariam nem as esposas nem os filhos dele. Ele veria com os
próprios olhos saírem-lhe as entranhas de seus corpos e então iria se
arrepender, porém seria tarde demais, e o seu arrependimento não o impediria
de morrer em meio a muitas dores.",