Livro Decimo Segundo Flávio Josefo
Capítulo 8 Flávio Josefo
,
"MATATIAS (OU MATIAS) E SEUS FILHOS MATAM OS QUE O REI ANTÍOCO ENVIOU
PARA OBRIGÁ-LOS AFAZER SACRIFÍCIOS ABOMINÁVEIS E RETIRAM-SE PARA O
DESERTO. MUITOS OS SEGUEM, E UM GRANDE NÚMERO DELES É SUFOCADO NAS
CAVERNAS, POR NÃO QUERER SE DEFENDER EM DIA DE SÁBADO. MATATIAS
ABOLE ESSA SUPERSTIÇÃO E EXORTA OS SEUS FILHOS A LIBERTAR O PAÍS.",
"467. 1 Macabeus 2. Naquele mesmo tempo, numa aldeia da Judéia
chamada Modim, havia um sacerdote da descendência de Joaribe, nascido em
Jerusalém, que se chamava Matatias, filho de João, filho de Simão, filho de
Asmoneu. Matatias tinha cinco filhos: João, cognominado Gadis; Simão,
cognominado Martés; Judas, cognominado Macabeu; Eleazar, cognominado
Auram; jônatas, cognominado Afo. Esse virtuoso e nobre judeu queixava-se
freqüentemente a seus filhos do estado deplorável em que a nação se
encontrava: da ruína de Jerusalém, da desolação do Templo e de tantos outros
males que a afligiam. E acrescentava que lhes seria muito melhor morrer pela
defesa das leis e da religião de seus pais que viver sem honra em meio a tantos
sofrimentos.
468. Quando os enviados do rei chegaram àquela aldeia para obrigar os
judeus a executar as suas ordens, dirigiram-se primeiramente a Matatias, por
ser o principal, a fim de forçá-lo a oferecer os abomináveis sacrifícios, pois não
duvidavam que os outros lhe seguiriam o exemplo. Disseram-lhe que o rei
demonstraria a todos, por meio de recompensas, a gratidão de que lhes seria
devedor. Ele respondeu que, mesmo que todas as outras nações obedecessem,
pelo medo, a tão injuriosa determinação, nem ele nem seus filhos
abandonariam jamais a religião de seus antepassados.
Como um judeu se encaminhasse para sacrificar segundo a intenção do
rei, Matatias e os filhos, inflamados de justo zelo, lançaram-se sobre ele de
espada em punho e não somente o mataram como também a esse oficial, de
nome Apeles, e aos soldados que ele tinha levado para obrigar o povo a cometer
tão grande impiedade. Matatias derrubou depois o altar e exclamou: Se há
ainda alguém aqui que ame a nossa religião e o serviço de Deus, que me siga.
Em seguida, deixando todos os seus bens, partiu com os filhos para o deserto.
Todos os outros habitantes seguiram-no com as suas mulheres e filhos e
refugiaram-se nas cavernas.
Imediatamente os que comandavam as tropas do rei souberam o que se
havia passado. Reuniram então uma parte da guarnição da fortaleza de
Jerusalém e os perseguiram. Quando os alcançaram, procuraram convencê-los
a se arrepender do que haviam feito e seguir um conselho melhor, a fim de não
terem de induzi-los pela força. Não podendo convencê-los, os soldados os
atacaram num sábado e os sufocaram nas cavernas, porque a reverência que os
judeus dedicavam a esse dia era tão grande que o temor de violá-lo, mesmo em
tal extremo, fez com que eles, para manter o descanso que a Lei ordenava, não
somente deixassem de se defender como também nada fizessem para obstruir a
entrada das cavernas. Assim, cerca de mil judeus foram sufocados, contando-se
as suas mulheres e filhos. Os que se salvaram foram ter com Matatias e o
escolheram para seu chefe.
Ele disse-lhes que não deviam ter receio de combater num sábado,
porque, do contrário, violariam a Lei, tornando-se homicidas de si mesmos, pois
os seus inimigos não deixariam de escolher tais dias para atacá-los e, se
ninguém se defendesse, todos facilmente morreriam. Assim resgatou-os daquele
erro, e depois não tiveram mais dificuldades em tomar as armas nesse santo
dia, quando a isso a necessidade os obrigava. O generoso chefe em pouco tempo
reuniu uma tropa considerável, e aqueles aos quais o temor obrigara a se
refugiar nas nações vizinhas vieram unir-se a ele. Então, derrubou os altares
consagrados aos falsos deuses, não poupando, dos que lhe caíram nas mãos,
ninguém que se tivesse deixado conduzir à idolatria.
Mandou circuncidar todos os meninos que ainda não haviam passado por
esse rito e rechaçou os que Antíoco enviara para impedi-lo.
469. Depois que esse grande homem governou o povo durante um ano,
caiu doente e, vendo-se prestes a morrer, mandou chamar os filhos e disse-
lhes: Meus filhos, eis-me chegado à última hora, que é inevitável a todos os
homens. Bem sabeis qual o desígnio a que me propus. Rogo-vos que não o
abandoneis, mas mostreis a todos como vos é querida a memória de vosso pai,
pelo zelo que ireis demonstrar na observância de nossas santas leis e em
reerguer a honra de nossa pátria. Nunca tenhais relações com os que a
atraiçoam, voluntariamente ou à força, para entregá-la aos nossos inimigos.
Fazei ver que sois verdadeiramente meus filhos, calcando aos pés tudo o que
puder impedir a defesa de nossa religião, e sede sempre solícitos em dar a vida
para mantê-la. Estejais certos de que, agindo assim, Deus vos contemplará com
olhos favoráveis, aceitará a vossa virtude, vos restabelecerá naquela ditosa
liberdade e vos dará os meios de observar com alegria a maneira de viver de
nossos antepassados. Nossos corpos estão sujeitos à morte, porém a memória
de nossas boas obras nos torna de algum modo imortais. Concebei, então,
meus filhos, um tão grande amor pela verdadeira e sólida glória e não tenhais
receio em expor a vossa vida para conquistá-la. Segui este conselho que vos
dou: vivei em grande união, de modo que todos se alegrem ao ver o esforço com
que empregais em uma causa comum e tão justa os talentos que Deus vos
concedeu. Assim, como Simão é muito sensato, sou de opinião que sigais
sempre o seu conselho, como se fosse o vosso pai. O extremo valor de Macabeu
vos obriga a dar-lhe o comando das tropas, pois, sob suas ordens, vingareis
sem dúvida os ultrajes feitos à nossa nação pelos seus inimigos, e não haverá
homem algum de virtude e de piedade que não se una a vós numa tão santa
empresa.",