Livro Decimo Segundo Flávio Josefo
Capítulo 17 Flávio Josefo
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"O REI DEMÉTRIO, A PEDIDO DE ALCIM, MANDA NICANOR COM UM
GRANDE EXÉRCITO CONTRA JUDAS MACABEU, A QUEM PROCURA
SURPREENDER. TRAVAM UMA BATALHA, E NICANOR É MORTO. MORTE DE
ALCIM POR UM TERRÍVEL CASTIGO DE DEUS. JUDAS É CONSTITUÍDO SUMO
SACERDOTE EM SEU LUGAR E FAZ ALIANÇA COM OS ROMANOS.",
"489. 1 Macabeus 7. Ante essas queixas de Alcim, o rei Demétrio julgou
conveniente, para a segurança do reino, não permitir que Judas Macabeu se
fortificasse ainda mais, e enviou contra ele um grande exército, sob o comando
de Nicanor, que com ele havia escapado de Roma e desfrutava grande prestígio
perante o rei. Esse general partiu com ordem de não poupar um só dos judeus.
Quando chegou a Jerusalém, no entanto, não julgou conveniente revelar a
Judas o propósito de sua vinda. Resolveu agir pela astúcia e mandou-lhe dizer
que não compreendia por que razão ele queria entregar-se aos perigos de uma
guerra e que estava disposto a afirmar-lhe com juramento que nada devia
temer, pois viera com os seus amigos apenas para lhe manifestar as intenções
do rei, muito favoráveis à sua nação. Judas e seus irmãos deixaram-se
persuadir por estas palavras. O juramento foi feito de parte a parte, e eles o
receberam com o seu exército. Nicanor saudou Judas e, enquanto ainda
falavam, fez sinal aos seus para que o aprisionassem. Judas, porém, percebeu-
o e escapou. Assim foi descoberta a traição de Nicanor, e Judas só pensava
agora em se preparar para a guerra. O combate travou-se perto da aldeia de
Cafarsalama, onde judas levou a pior e foi obrigado a se retirar para Jerusalém.
490. Um dia, quando Nicanor descia da fortaleza e vinha para o Templo,
alguns sacerdotes e anciãos foram à sua presença, com algumas vítimas que
diziam desejar oferecer pela prosperidade do rei Demétrio. Mas ele, em vez de
recebê-las favoravelmente, proferiu blasfêmias contra Deus e ameaçou destruir
o Templo se não lhe entregassem Jerusalém. Assim, no temor de que se viram
possuídos, tudo o que puderam fazer foi rogar a Deus, com lágrimas, que os
protegesse. Nicanor foi acampar em Bete-Horom, onde recebeu, da Síria, um
novo esforço. Judas acampou a trinta estádios dele, num lugar de nome Adasa,
com mil homens somente. Exortou-os a não se assustarem com o número dos
inimigos nem com outras aparentes vantagens que eles desfrutavam nos
requisitos para a luta, mas que se lembrassem de que eram judeus e da causa
pela qual combatiam, pois isso seria suficiente para livrá-los de todo o temor.
O combate logo iniciou, com grande entusiasmo de parte a parte. Vários
inimigos foram mortos, e Nicanor também morreu, depois de fazer tudo o que é
próprio de um grande general. Com a sua morte, as tropas perderam a cora-
gem, abandonaram as armas e fugiram. Judas perseguiu-os com tenacidade,
matou a todos os que apanhou e comunicou a todas as terras da vizinhança,
pelo som de trombetas, que Deus lhe concedera a vitória. Os judeus, avisados
por esse sinal, saíram imediatamente com armas, cortaram o caminho dos fugi-
tivos e os atacaram. Não escapou um sequer dos nove mil homens que forma-
vam aquele exército. Essa vitória deu-se no dia treze do mês de adar, que os
macedônios chamam distro. E nós celebramos essa festa todos os anos, a partir
dessa data. Nossa nação desfrutou, em seguida, paz e descanso durante algum
tempo e pôde saborear os frutos da paz até enfrentar novamente outros perigos
e novos combates.
491. Alcim, sumo sacerdote, queria mandar demolir os antigos muros do
santuário, construídos pelos santos profetas, mas Deus o castigou
imediatamente com uma doença tão cruel que ele caiu por terra e morreu,
depois de sofrer durante vários dias dores contínuas e insuportáveis. Ele
exerceu esse cargo durante quatro anos, e o povo, por um consentimento
unânime, escolheu Judas Macabeu para sucedê-lo.
492. O novo sumo sacerdote, constatando que o poder dos romanos era
tão grande que eles haviam submetido os gaiatas, os espanhóis e os
cartagineses, subjugado a Grécia e vencido os reis Perseu, Filipe e Antíoco, o
Grande, resolveu fazer amizade com eles e enviou a Roma, para esse fim, dois
de seus amigos: Eupotemo, filho de João, e Jasão, filho de Eleazar, com o fim
de rogar aos romanos que os recebessem em aliança e em amizade, e
escrevessem ao rei Demétrio que os deixasse em paz.
O senado os recebeu muito favoravelmente, concedeu-lhes o que pediam e
mandou exarar o pedido como decreto, em tábuas de cobre, que foram coloca-
das no Capitólio. Deram-lhes uma cópia, cujas palavras eram estas: Nenhum
dos que estão sujeitos aos romanos fará guerra aos judeus, tampouco auxiliará
os seus inimigos com trigo, navios ou dinheiro. Os romanos ajudarão os judeus
com todas as suas posses contra os que os atacarem, e os judeus auxiliarão os
romanos do mesmo modo, se estes forem atacados. Se os judeus quiserem
acrescentar ou diminuir alguma coisa a esta aliança que contraem com os
romanos, não o poderão fazer sem o consentimento de todo o povo romano, que
deverá ratificá-lo. Essa cópia foi escrita por Eupotemo e por Jasão, sendo
então Judas o sumo sacerdote, e Simão, seu irmão, o general de todo o exército.
Esse tratado foi o primeiro que os judeus fizeram com os romanos.",