Livro Decimo Segundo Flávio Josefo
Capítulo 3 Flávio Josefo
,
"FAVORES RECEBIDOS PELOS JUDEUS DOS REIS DA ÁSIA. ANTÍOCO, O
GRANDE, CONTRAI ALIANÇA COM PTOLOMEU, REI DO EGITO, QUE LHE DÁ
CLEÓPATRA, SUA FILHA, EM CASAMENTO E DIVERSAS PROVÍNCIAS COMO
DOTE, ENTRE AS QUAIS AJUDÉIA. ONIAS, SUMO SACERDOTE, IRRITA O REI
DO EGITO PELA RECUSA EM LHE PAGAR TRIBUTO.",
"455. Os reis da Ásia trataram também os judeus com grande honra, por
causa das provas que estes, nas guerras, lhes davam de sua fidelidade e
coragem. Seleuco, cognominado Nicanor, deu-lhes o direito de burguesia, tal
como aos macedônios e aos gregos, em todas as cidades que construiu na Ásia,
na Baixa Síria e mesmo em Antioquia, que é a capital. Eles desfrutam ainda
hoje esse direito, pois, não querendo usar o óleo dos estrangeiros, os que têm o
encargo do comércio são obrigados a dar-lhes uma certa soma de dinheiro no
valor do óleo.
Os habitantes de Antioquia esforçaram-se, durante as últimas guerras,
por abolir esse costume. Mas Múcio, governador da Síria, impediu-o. E esses
mesmos habitantes e os de Alexandria não puderam obter dos imperadores
Vespasiano e Tito que os privassem de seu direito de burguesia. Nisso os
romanos, e particularmente esses dois grandes príncipes, mostraram a sua
justiça e generosidade. As tribulações que sofreram nas guerras contra nós e o
ressentimento pela nossa revolta não os persuadiram a tocar em nossos
privilégios. Em vez de se deixarem levar pela cólera e pelas instâncias de dois
povos tão importantes como o de Alexandria e o de Antioquia, eles tiveram mais
consideração aos antigos méritos de nossa nação que às ofensas que dela
receberam e ao desejo manifestado por nossos inimigos de nos maltratarem. E
deram-lhes esta razão, digna deles: aqueles dentre nós que tomaram armas
contra os romanos já haviam sido castigados por isso na mesma guerra, e não
seria justo privar de um direito adquirido com justo título os que não os haviam
ofendido.
Sabe-se também que Marco Agripa fez semelhante justiça aos judeus,
quando os jônios instaram com ele para privá-los do direito de burguesia
concedido por Antíoco, neto de Seleuco, ao qual os gregos dão o nome de Deus.
Pois, se quisessem ser tratados como eles, então que adorassem os mesmos
deuses. Esse assunto foi posto em deliberação, e os judeus, defendidos por
Nicolau de Damasco, ganharam a causa, sendo-lhes permitido continuar a viver
segundo as suas leis e costumes. O soberano declarou, até mesmo em favor
dele próprio, que não era permitido fazer inovação alguma. Se alguém desejar
saber mais particularmente como o assunto decorreu, terá apenas de ler os
livros cento e vinte e três e cento e vinte e quatro desse historiador.
E verdade que não há motivo de admiração pelo juízo pronunciado por
Agripa, pois não havíamos ainda tomado armas contra os romanos. Mas sem
isso não saberíamos admirar o bastante a grandeza da coragem de Vespasiano
e de Tito, os quais, depois de se haverem exposto a tantos perigos e dificuldades
na guerra que sustentamos contra eles, em vez de se deixarem levar pelo
ressentimento, procederam com tanta moderação e justiça. Devemos, porém,
retomar agora o fio de nossa narração.
456. Durante o tempo em que Antíoco, o Grande, reinava na Ásia e fazia
guerra a Ptolomeu Filopater, rei do Egito, e a seu filho, não ainda vencedor nem
vencido, a Judéia e a Baixa Síria sofriam do mesmo modo e eram como um
barco batido pelas ondas, pela boa ou má sorte desse príncipe. Mas, por fim,
Antíoco, vitorioso, submeteu a judéia. Após a morte de Ptolomeu Filopater,
Ptolomeu, seu filho, cognominado Epifânio, enviou contra a Síria um grande
exército, sob o comando de Escopas, que se apoderou de várias cidades e pôs a
nossa nação sob o domínio desse príncipe. Pouco tempo depois, Antíoco venceu
Escopas numa grande batalha perto da nascente do Jordão e reconquistou a
Síria e Samaria. Os judeus, então, entregaram-se inteiramente a ele, receberam
o seu exército na cidade, alimentaram os seus elefantes e ajudaram as tropas
que atacaram as guarnições deixadas por Escopas na fortaleza de Jerusalém.
Antíoco, para recompensá-los pela afeição que lhe haviam demonstrado,
escreveu aos generais de seu exército e aos seus mais féis servidores, que disso
sabiam, que resolvera gratificá-los. Transcreverei a cópia da carta, depois de
dizer de que modo Políbio Megalopolitano fala dela no décimo sexto livro de sua
história. Diz ele: Escopas, general do exército de Ptolomeu, entrou no inverno
pela parte superior do país e submeteu os judeus. Ele acrescenta pouco
depois: Quando Antíoco venceu Escopas, tornou-se senhor das cidades de
Samaria, Gadara, Batanea e Aíla, e imediatamente os judeus que moram em
Jerusalém, onde está o célebre Templo, abraçaram o seu partido. Estas são
palavras do próprio historiador.
A carta de Antíoco, após a qual retomarei o fio da história, assim estava
exarada: O rei Antíoco, a Ptolomeu, saudação. Os judeus nos testemunharam
grande afeto logo que penetramos no seu território. Eles vieram à nossa
presença com os seus chefes, receberam-nos em sua cidade com toda espécie
de honras, deram alimento às nossas tropas e aos nossos elefantes e uniram-se
aos nossos contra a guarnição egípcia da fortaleza de Jerusalém. Cremos que é
dever de nossa bondade manifestar-lhes a nossa gratidão. Assim, para lhes
darmos os meios de repovoar a sua cidade, que tantos revezes tornaram
deserta, e para lá reunir os anciãos esparsos por diversas nações, ordenamos o
que segue. Primeiramente que, em favor da religião e por um sentimento de
piedade lhes seja dada a importância de vinte mil peças de prata, para a
compra de animais para os sacrifícios, e medidas de trigo recolhidas na pro-
víncia, para delas se tirar a flor da farinha, e trezentos e sessenta e cinco
medidas de sal. Queremos também que lhes sejam fornecidos todos os artigos
de que necessitarem para a reparação das portas e das outras dependências do
Templo e que a madeira, que para esse fim será obtida da Judéia, das
províncias vizinhas e do monte Líbano, não pague tributo, bem como todos os
outros materiais de que tiverem necessidade para a reedificação do Templo.
Permitimos também aos judeus viver segundo as suas leis e costumes e
isentamos os seus governadores, sacerdotes, escribas e cantores do tributo
ordenado por cabeça, do presente que costumavam oferecer ao rei — uma coroa
de ouro — e de tudo o mais em geral. E, para que a cidade de Jerusalém possa
ser mais rapidamente repovoada, isentamos também de todo tributo, durante
três anos, todos os que nela residem agora e os que vierem habitá-la no mês de
hiperbereteom. Diminuímo-lhes, para futuro, o terço de todos os tributos, em
consideração às perdas que sofreram. Queremos ainda que todos os cidadãos
que foram aprisionados e feitos escravos sejam postos em liberdade com seus
filhos e restaurados em todos os seus bens.
O príncipe não se contentou em escrever essa carta, mas, para mostrar o
seu respeito pelo Templo, fez um edito contendo o que segue: que jamais seria
permitido a um estrangeiro lá penetrar sem o consentimento dos judeus, assim
como ao judeu que não se tivesse purificado segundo o que a Lei determina;
que não se levaria à cidade carne de cavalo, de mula ou de asno, quer
domesticado, quer selvagem, de pantera, de raposa, de lebre ou de qualquer
outro animal imundo que fosse proibido comer entre os judeus; que nem
mesmo se levariam as suas peles e não se criaria nenhum deles, mas somente
animais de que os seus antepassados estavam acostumados a se servir para os
sacrifícios, sob pena de os contraventores pagarem uma multa de três mil
dracmas de prata em favor dos sacerdotes.
O mesmo príncipe deu-nos ainda outra prova de seu afeto e da confiança
que depositava em nós, pois, quando soube que havia rebelião na Frígia e na
Lídia, escreveu a Zêuxis, que comandava o seu exército nas províncias
superiores e era o mais querido de seus generais, que mandasse para a Frígia
alguns dos judeus que moravam em Jerusalém.
Assim estava escrita a sua carta: O rei Antíoco a Zêuxis, seu pai,
saudação. Tendo sabido que alguns provocam rebelião na Frígia e na Lídia,
julgamos que esse assunto merece a nossa atenção e cuidado. Depois de termos
tratado disso em nosso conselho, julgamos conveniente mandar para lá, aos
lugares onde seja mais necessário, uma guarnição de dois mil judeus dentre os
que moram na Mesopotâmia e na Babilônia, porque a sua piedade para com
Deus e as provas que os reis nossos prede-cessores receberam de seu afeto e de
sua fidelidade nos dão motivo para crer que eles nos serão muito úteis. Assim, é
nosso desejo que, não obstante todas as dificuldades, os encaminheis para lá.
Que vivam segundo as suas leis e se lhes dêem espaço para construir e terras
para cultivar e plantar vinhas, sem que sejam obrigados, durante dez anos, a
contribuir com qualquer coisa dos frutos que colherem. Queremos também que
lhes forneçais o trigo de que precisarem para viver até que tenham colhido o
fruto de seu trabalho, a fim de que, depois de receberem tantas provas de nossa
benevolência, nos sirvam ainda de melhor vontade. Recomendamos que tomeis
grande cuidado deles, de modo que ninguém se atreva a lhes causar desprazer.
457. Isso basta para mostrar o afeto de Antíoco, o Grande, pelos judeus.
Esse príncipe fez aliança com Ptolomeu, rei do Egito, e deu-lhe Cleópatra, sua
filha, em casamento. E, como dote, entregou-lhe a Baixa Síria, a Fenícia, a
judéia e metade dos tributos de suas províncias, pagos pelos principais
habitantes a esses dois reis, que entregavam a soma aos seus tesouros.
458. Ao mesmo tempo, os samaritanos, que então eram poderosos,
causaram muitos males aos judeus, quer por devastações no campo, quer por
fazerem prisioneiros. Onias, filho de Simão, o justo, e sobrinho de Eleazar,
havia sucedido no cargo de sumo sacerdote a Manasses, que o havia ocupado
depois da morte de Eleazar. Onias era um homem de pouco Espírito e tão avaro
que não queria pagar o tributo de vinte talentos de prata que seus
predecessores estavam acostumados a pagar ao rei do Egito. Ptolomeu,
cognominado Evérgete, pai de Filopater, ficou tão irritado com isso que mandou
Ateniom, que desfrutava grande prestígio perante ele, a Jerusalém para
ameaçá-lo de entregar o país ao saque de suas tropas se ele não cumprisse a
obrigação. E ele foi o único dentre os judeus que não se atemorizou, pois seu
amor pelo dinheiro o tornava insensível a tudo o mais.",