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Livro Decimo Segundo Flávio Josefo

Capítulo 7 Flávio Josefo

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,
"O REI ANTÍOCO, RECEBIDO NA CIDADE DE JERUSALÉM, DESTRÔI-A
COMPLETAMENTE, SAQUEIA O TEMPLO E CONSTRÓI UMA FORTALEZA. ABOLE
O CULTO A DEUS. VÁRIOS JUDEUS ABANDONAM A RELIGIÃO. OS
SAMARITANOS RENUNCIAM A SUA NACIONALIDADE E CONSAGRAM O
TEMPLO DE GERIZIM AO JÚPITER GREGO.",
"465. O temor de se meter numa guerra contra os romanos obrigou o rei
Antíoco a abandonar a conquista do Egito. Ele veio então com o seu exército a
Jerusalém, cento e quarenta e três anos depois que Seleuco e seus sucessores
começaram a reinar na Síria. Sem dificuldade, tornou-se senhor dessa praça,
porque os de seu partido abriram-lhe as portas, e mandou matar vários do
partido contrário, apoderou-se de grande quantidade de dinheiro e voltou a
Antioquia.
Dois anos depois, no vigésimo quinto dia do mês que os hebreus chamam
quisleu, e os macedônios, apeleu, na centésima qüinquagésima terceira Olimpí-
ada, ele voltou a Jerusalém e não poupou nem mesmo os que o acolheram na
esperança de que ele não faria nenhum ato de hostilidade. Sua insaciável
avareza fez com que ele não temesse violar-lhes também a fé, despojando o
Templo das muitas riquezas de que, sabia ele, estava cheio. Tomou os vasos
consagrados a Deus, os candelabros de ouro, a mesa sobre a qual se punham
os pães da proposição e os turíbulos. Levou até mesmo as tapeçarias de
escarlate e de linho fino e pilhou tesouros que estavam escondidos havia muito
tempo. Afinal, nada deixou lá. E, para cúmulo da maldade, proibiu aos judeus
oferecer a Deus os sacrifícios ordinários, como a sua lei os obrigava.
Depois de saquear toda a cidade, mandou matar uma parte dos
habitantes e levou dez mil escravos com suas mulheres e filhos. Mandou
queimar os mais belos edifícios, destruiu as muralhas e construiu, na Cidade
Baixa, uma fortaleza com grandes torres, as quais dominavam o Templo, e lá
colocou uma guarnição de macedônios, entre os quais estavam vários judeus,
tão maus e ímpios que não havia males que não infligissem aos habitantes.
Mandou também construir um altar no Templo e ordenou que lá se
sacrificassem porcos, o que é uma das coisa mais contrárias à nossa religião.
Obrigou então os judeus a renunciar o culto ao verdadeiro Deus e a adorar os
seus ídolos, e ordenou que se construíssem templos para eles em todas as
cidades, determinando que não se passasse um dia sem que lá se imolassem
porcos. Proibiu também aos judeus, sob graves penas, circuncidar os filhos, e
nomeou fiscais para saber se eles estavam observando as suas determinações e
as leis que ele impunha e obrigá-los a isso, caso recusassem obedecer.
A maior parte do povo obedeceu, voluntariamente ou por medo, mas essas
ameaças não puderam impedir aos que possuíam virtude e generosidade de
observar as leis de seus pais. O cruel príncipe os fazia morrer por meio de
vários tormentos. Depois de os mandar retalhar a golpes de chicote, a sua
horrível desumanidade não se contentava em fazê-los crucificar, mas, enquanto
ainda respiravam, fazia enforcar e estrangular perto deles as suas mulheres e
os filhos que haviam sido circuncidados. Mandava queimar todos os livros das
Sagradas Escrituras e não poupava ninguém na casa em que os encontrava.
466. Os samaritanos, vendo os judeus afligidos por tantos males,
evitavam dizer que tinham a mesma origem, que eram da mesma raça e que o
seu templo em Gerizim era consagrado ao Deus Todo-poderoso. Diziam, ao
contrário, que eram descendentes dos persas e dos medos e que tinham sido
enviados a Samaria para lá morar; o que era verdade.
Eles enviaram deputados ao rei Antíoco e apresentaram-lhe a seguinte
petição: Petição que os sidônios, habitantes de Siquém, apresentam ao rei
Antíoco, deus visível. Nossos antepassados, tendo sido amargurados por
grandes e freqüentes pestes, haviam deliberado celebrar, por uma antiga
superstição, uma festa à qual os judeus dão o nome de Sabat e construíram
sobre o monte Gerizim um templo em honra a um Deus anônimo, onde
imolavam vítimas. Agora que vossa majestade se julga obrigado a castigar os
judeus como eles merecem, os que executam as vossas ordens querem nos
tratar como a eles, porque pensam que temos a mesma origem. Mas é fácil
verificar, pelos nossos arquivos, que somos sidônios. Assim, como não podemos
duvidar, majestade, de vossa bondade e proteção, suplicamos que ordeneis a
Apolônio, nosso governador, e a Nicanor, procurador-geral de vossa majestade,
que não nos considerem mais culpados dos mesmos crimes que os judeus,
cujos costumes e origem diferem inteiramente dos nossos. E, se julgarem bem e
for do agrado de vossa majestade, seja o nosso templo, que até agora não teve o
nome de Deus algum, chamado futuramente templo do Júpiter grego, a fim de
que fiquemos em paz e, trabalhando sem temor, possamos pagar maiores
tributos a vossa majestade.
Antíoco, depois de ler a petição, escreveu a Nicanor, nestes termos: O rei
Antíoco a Nicanor. Os sidônios que moram em Siquém nos apresentaram a
petição anexa a esta carta. Aqueles que a trouxeram provaram suficientemente,
a nós e ao nosso conselho, que eles não têm parte nos crimes e faltas dos
judeus, antes desejam viver segundo os costumes gregos. Por isso nós os
declaramos inocentes dessa acusação, concedemo-lhes o pedido que nos
fizeram — dar ao seu templo o nome de Júpiter grego — e ordenamos o mesmo
a Apolônio, seu governador. Dado no ano quarenta e seis e no décimo primeiro
dia do mês de hecatombeom.",