Livro Decimo Oitavo Flávio Josefo
Capítulo 6 Flávio Josefo
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"VITÉLIO ENTREGA AOS JUDEUS A GUARDA DAS VESTES SACERDOTAIS DO SUMO
SACERDOTE. TRATA EM NOME DE TIBÉRIO COM ARTABANO, REI DOS PARTOS.
CAUSA DE SEU ÓDIO POR HERODES, O TETRARCA. FILIPE, TETRARCA DE
TRACONITES, DA GALAUTIDA E DA BATANÉIA, MORRE SEM FILHOS.
SEUS TERRITÓRIOS SÃO ANEXADOS À SÍRIA.",
"776. Vitélio foi a Jerusalém, pela festa da Páscoa, sendo recebido com
grandes honras. Ele restituiu aos habitantes o direito que tinham sobre os
frutos vendidos e permitiu aos sacerdotes que guardassem eles mesmos, como
outrora, o éfode e os outros ornamentos sacerdotais, que estavam então na
fortaleza Antônia, onde eles haviam sido postos pelo motivo que passo a dizer.
O sumo sacerdote Hircano, primeiro desse nome, tendo feito construir
uma torre perto do Templo, ali ficava quase sempre. E, como somente ele podia
revestir-se dessa veste sagrada, entregue à sua guarda, deixava-o ali quando
retomava as suas vestes ordinárias. Seus sucessores nesse cargo procederam
do mesmo modo. Mas Herodes, subindo ao trono e achando a situação dessa
torre muito vantajosa, mandou fortificá-la bastante. Chamou-a Antônia, por
causa de Antônio, que era seu grande amigo, e lá deixou a veste sacerdotal, tal
como a encontrara, na convicção de que serviria para tornar-lhe o povo ainda
mais submisso.
Arquelau, seu filho e sucessor, não fez nisso modificação alguma. Depois
que o reino foi reduzido à província e os romanos dele tomaram posse,
continuaram a guardar a veste sacerdotal e, para conservá-la, mandaram fazer
um armário, que era selado com o selo dos sacerdotes e dos guardas do tesouro
do Templo. O governador da torre fazia continuamente acender uma lâmpada
diante do armário e, sete dias antes de cada uma das três grandes festas do
ano, que era tempo de jejum, entregava a veste sagrada ao sumo sacerdote, o
qual, depois de limpá-lo bem, dele se revestia para iniciar o ofício divino. No dia
seguinte à festa, tornava a entregá-lo e colocá-lo no mesmo armário.
Vitélio, para reverenciar a nossa nação, entregou-o, como acabo de dizer,
aos sacerdotes e dispensou o governo de toda responsabilidade na sua
conservação. Tirou também depois o sumo sacerdócio de Caifás para dá-lo a
Jônatas, filho de Anano, o qual também havia sido sumo sacerdote, e partiu de
regresso a Antioquia.
777. Tibério, receoso de que Artabano, que se tornara senhor da Armênia,
lhe pesasse como um perigoso inimigo do Império Romano, enviou Vitélio para
fazer uma aliança, sob a condição de que Artabano lhe entregasse alguns reféns
e o seu próprio filho, se fosse possível. Vitélio, depois de receber essa ordem,
ofereceu grandes somas aos reis dos iberos e dos alanos, para induzi-los a
declarar guerra a Artabano. Os iberos não quiseram tomar as armas.
Contentaram-se em dar passagem aos alanos e lhes abrir as portas dos montes
Cáspios. Assim, eles entraram na Armênia, devastaram-na completamente,
apoderaram-se de tudo e, levando a guerra além, passaram ao território dos
partos e mataram a maior parte da nobreza, inclusive o filho de Artabano. Esse
príncipe, então, sabendo que Vitélio subornara com dinheiro alguns de seus
parentes e amigos para que o matassem e que assim não podia confiar naquela
gente, que passara para o lado do inimigo e sob pretexto de amizade procurava
por todos os meios fazê-lo morrer, fugiu e salvou-se nas províncias superiores.
Ali não somente encontrou segurança, mas reuniu um grande exército de
danianos e sacianos, com o qual começou uma guerra, venceu-a e reconquistou
o seu reino.
Depois desse infeliz resultado, Tibério mostrou-se desejoso de fazer
aliança com ele, e Artabano estava disposto a isso, tanto que, acompanhados
por seus guardas, ele e Vitélio dirigiram-se a uma ponte construída sobre o
Eufrates. Quando lá concluíram as condições do tratado, Herodes, o tetrarca,
deu-lhes um grande banquete sob um grande pavilhão que mandara erguer no
meio do rio, com grandes despesas. Pouco tempo depois, Artabano enviou
Dário, seu filho, como refém a Tibério, com grandes presentes, entre os quais
estava um judeu de nome Eleazar, que era um gigante de sete côvados de
altura. Vitélio regressou logo a Antioquia, e Artabano, à Babilônia.
778. Herodes, querendo por primeiro dar a Tibério a notícia dos reféns
que havia conseguido de Artabano, mandou-lhe um emissário com urgência e
informou-o tão particularmente de tudo que Vitélio nada mais pôde dizer que
ele não soubesse. Assim, Tibério não deu outra resposta a Vitélio senão a de
que nada dizia de novo, o que causou a este grande ódio contra Herodes. Mas
ele o dissimulou até o reinado de Caio.
779. Filipe, irmão de Herodes, morreu nesse tempo, no vigésimo ano do
reinado de Tibério, depois de usufruir durante trinta e sete anos as tetrarquias
de Traconites, Gaulanites e Batanea. Era um príncipe muito moderado. Amava
a paz e a tranqüilidade e sempre ficou em seu território. Nas suas idas
constantes ao campo, levava consigo apenas um pequeno número de amigos
mais íntimos e uma cadeira, que era uma espécie de trono, para sentar-se e
administrar a justiça, pois era seu costume deter-se quando alguém o pedia e,
depois de ouvir todas as queixas, condenava imediatamente o culpado ou o
absolvia, se o julgasse inocente. Morreu em Julíada. Os seus funerais foram
imponentes, e enterraram-no num soberbo túmulo que ele havia mandado
construir. Como ele não deixou filhos, Tibério anexou os seus territórios à Síria,
sob a condição de que o dinheiro dos rendimentos permanecesse no seu país.",